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Mostrando postagens de 2010
LUZES DE NATAL


Olá, leitor. As festas de final de ano apontam luz por toda parte. Luzes dessa época. Então me vi a pensar para que serve a luz. Como a farinha, que agrega o que está separado e dá consistência ao que não tem, a luz tem suas qualidades. Iluminar o que está escuro. Dar a ver. Que significa propiciar a possibilidade de se poder enxergar. É certo que isso pode ocorrer a qualquer momento, mas a simbologia tem uma força indiscutível. Que nem a luz. Evidencia e pronto. Você não vê se não quer. Sempre aponta algo. Pode ser forte e ofuscante, clareando a ponto de cegar, e pode ser um pontinho bem fraco vindo do abajur. Cria clima. Favorece ângulos. Evidencia ou não os defeitos. Pois é, leitor. A luz evidencia defeitos. Evidencia a vida como ela é. Nessa época tem as luzes de natal. Casas e comércios se iluminam e cidades inteiras exibem suas árvores iluminadas. De garrafa pet, com LED ou de que jeito for, transformam o vivenciar a cidade. É certo que o tanto que falta nessas mes…
ANA


Demônios são coisas que se acendem e descascam por dentro. Que nem mexerica. Gomo por gomo. Sulco e bagaço. Cheiro impregnado no ar. Ana pensa nisso enquanto o olhar do médico a sabatina. Odeia esse olhar de quem nada sabe do outro e busca atribuir-lhe um diagnóstico. Repete maquinalmente o 33. Caso ele perguntasse, diria que nasceu às 17:53 de um outono distante. As folhas caindo no quintal da casa e tingindo a grama de pós-verão. Sabe o que é pós-verão, doutor? Repita 33. Horário de verão e calor sepulcral na cidade de concreto. Olhos nostálgicos castanho-esverdeados. Sente dores? Eu sou muitas dores. Inclusive as suas. Vai pensando que esse aparelhinho que ausculta nada pode saber dela. Nomear o que borbulha? Impossível. Você fica aí se escondendo atrás desse branco e nem sequer imagina o que palpita na esfera da epiderme. Ossos e músculos me carregam sobre alcunhas diversas e eu existo suturada, doutor. Aberta e precipitada. Esse aparelhinho nada dirá. Nada sabe de mim. Apenas …
A REVOLTA DE MARIA


Maria é moça de muita candura e delicadeza. Tão singela que Jair tem medo de tocar. Tem medo dela desmanchar. Ela diz para ele que isso tudo é fachada, que por dentro, é pura fortaleza. Ele estranha. Há, de fato, muita coisa que lhe escapa. Por exemplo: as respostas inadvertidas. Nunca consegue sabê-las. Nunca está preparado quando Maria as dá. Assim mesmo: sem a menor delicadeza e no meio daquela candura toda, ela solta a farpa doída que o atravessa. Jair pensa sobre isso. Conversa com os amigos. Pede a Maria que olhe com cuidado para isso, que entenda porque reage assim. Ela desacata. Diz a ele que o que causa estranhamento em si é a doçura que ele contempla. O sorriso que escapa da boca e ela não quer dar. O espaço que ela abre e não quer abrir. Houve um tempo em que sentia mesmo certo estranhamento quando isso acontecia. Vinha de dentro, de sabe lá onde, e irrompia. Mas agora sente que isso passou. Sabe que não quer conter a volúpia dessa vida escondida debaixo d…
LAVANDO A ROUPA SUJA


Sem nenhuma exaltação e como estivessem já ali, bem no meio da lavanderia, ela foi explícita. Disse a ele, bem devagarzinho, tudo que tinha para dizer. De forma calma e pausada para que ele pudesse entender. Pediu-lhe desculpas pela rudeza do assalto. Pelo seqüestro. Argumentou que não havia outra alternativa para ela. Agora, na posição em que ele estava, instalado bem no meio da lavanderia, talvez pudesse sentir o amor e o desejo lacerando seu corpo. Que se olhasse bem, talvez pudesse ver a melancolia atravessada, brilhando laranja na parede atrás de si. Talvez.
Ele desentendeu. Estar ali naquela lavanderia, escutar aquela mulher falar tão baixo e tão devagar como se fosse para ele escutar a dor dela não fazia o menor sentido. Como se ele pudesse entender a rudeza do ato. Do seqüestro. Escutou ela falar e falar sem nada sentir, a não ser o peso de seu corpo sobre as pernas e o calo no mindinho do pé direito. Esse maldito calo. Sem nada ver, a não ser uma mulher que…
SOBRE ANIVERSÁRIOS


No último dia 13, meu pai fez 70 anos. Ano passado foi minha mãe a completar 70. Duas “desculpas mais que perfeitas” para reunir toda a família e fazer festa. Família é um conforto que transpassa o tempo. As distâncias e as diferenças. De repente você está lá conversando com os primos que não vê há tanto tempo e isso não transparece. O que emerge é a estranheza de uma intimidade de outrora. Uma mesma história que perpassa. Um algo que enlaça a todos. É boa a sensação. Meu pai gosta de festa. Sempre foi festeiro. E é bom fazer festa pra quem gosta de festa. Minha irmã que mora perto deles orquestrou os detalhes todos do evento. Ela também gosta muito de festa. Meu irmão também. Eu também. Pois é, somos todos filhos do pai. Sei lá se o momento conspirou ou a condição propiciou, mas eu tive a ideia de montar uma apresentação de slides para ele. Eu tinha algumas fotos e comecei por elas. Logo surgiu um mote que foi amarrando as fotos soltas. Então minha irmã mandou mais …
ENTRE JANELAS E PORTAS


Nas minhas andanças por aí, sempre fico me perguntando como é que certas pessoas podem ser tão mal humoradas. Sempre que consigo, penso numa explicação. Ela não deve ter tido um bom dia. Ele deve estar com algum problema. Se a coisa ocorre logo pela manhã, penso que talvez não tenha dormido bem. Vou sendo assim, meio Pollyanna. Sei lá se porque li esse livro quando criança. Talvez. Mas de fato, não gosto de mau humor. Daquele que de tão enraizado vira estilo. Tem gente que gosta. Dizem alguns que ficar sorrindo demais passa atestado de solicitude demais, de paciência demais, de alienação demais. Não sei. Acho apenas que bom humor é vírus. E, como o mau humor, contamina. Nesse sentido penso: ainda bem que há bastante gente contaminada com bom humor também. Espalhando e espalhando sorrisos por aí. Feiticeiros urbanos. Tudo bem que por todos os lados correm notícias ruins e indícios de uma “civilidade” que desintegra cotidianamente. Isso vai refletindo uma espécie d…
VOZES DO ORIENTE



Clotilde Zingali, de Joinville.

Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que estranha, um transbordar que é excesso e é falta. Um não se reconhecer. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses de certa descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Que a falta de “consciência prática” do lugar que o coloca, digamos “meio perdido”, pode ser a mãe dessa boa descarga hormonal. E por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário ao modo ocidental de se olhar para as coisas. Ele cita que lá tudo escapa ao estrangeiro: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. Eu já fico a imaginar que tudo que lhe falta também o arrebata. O mistério, leitor. O tal mistério das coisas. Vejam que coisa interessante Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está at…
AMIZADE


Quando minha cachorrinha me leva para passear, eu vou. Às vezes sou eu quem pega a coleira e acena para ela a possibilidade. Mas normalmente é ela quem começa a sassaricar e fazer barulhinhos. Estaca diante da porta e fica esperando que eu me movimente. Se eu não vejo, ela me chama, corre para a porta, estaca lá de novo. Então eu vou. Pego dois sacos de lixo e coloco na bolsinha que uso para passear com ela. Um kit de passeio que ela já conhece, pois se pego a bolsinha ou sacola de lixo ela já fica toda serelepe! Aliás, dia desses alguém me parou na rua para dizer: Se todos fizessem como você e carregassem um saquinho quando saem com seus cachorros... Pois é, leitor. Pois é. Não esqueçam os saquinhos!!!! (E quiçá apareçam brevemente saquinhos biodegradáveis!). Depois desses passos básicos coloco a coleirinha nela, mas é ela quem me leva. Sempre opta por descer e subir pela escada. Sinto que não gosta de elevador. Eu também não. Descemos e já conheço seus movimentos. A porta por…
CANTANDO NA CHUVA


Ele deve ter entre 9 e 10 anos. Do alto de seu, talvez, um metro e quarenta, carrega uma pequena mochila no ombro esquerdo e na mão direita um guarda-chuva. Passeia e faz malabarismos com o objeto. Brinca com o chuvisco e o corpo. Roda o guarda-chuva entre os dedos. Sobe e desce o objeto, que como o meu, é transparente. Olha a água que cai fininha. Inclina pra lá e pra cá. E de novo sobe e desce, rodopia entre os dedos, e dá um passinho pra trás. O menino brinca com a chuva! Eu, que dentro do carro vou chegando perto e vendo melhor a cena, avisto é Gene Kelly cantando. Porque como no filme, a expressão de felicidade e a naturalidade com que ele parece flutuar pela rua são iguais à do ator em “Dançando na Chuva”. Sigo escutando a trilha em minha mente, lembrando os movimentos, os pés nas poças d’água e o guarda-chuva bailando sob as goteiras das casas. É tão boa a brincadeira do menino que minha boca cantarola: I’m singing in the rain... É apenas a manhã de um dia que …
DA UTILIDADE DAS COISAS


A utilidade de uma coisa é algo a ser desvendado com humor e imaginação. Aliás, desvendar o mistério das coisas é tarefa de muita utilidade e que muito me encanta. Quando coloco minhas perninhas para caminhar por aí, vou deitando os olhos em tudo que é coisa exposta e que arrebata minha atenção. De meiazinhas para guardar celular a cabo de panela. Falando nisso, dia desses deitei os olhos numa referência a um texto de Humberto de Almeida, que discorre sobre a utilidade do cabo em sua dupla função: de empunhadura e/ou apoio para o manejo dos mais diversos utensílios e ferramentas. Da panela à enxada. Pense nisso, leitor! E lá vai o estudioso para os subterrâneos da coisa: o cabo e sua influência sobre a história e o comportamento dos homens. O próprio autor, Marcelo Sguassábia, que faz referência ao texto do cabo, já sugere novas coisas para se pensar nessa linha e que podem, quiçá, se prestar a futuras dissertações e estudos de maior envergadura. Cita as alças:
-…
VIVA A INSTABILIDADE DO ENVELHECER




Somos organismos vivos, certo? Alto grau de flexibilidade e plasticidade para tantas transformações que passamos no decorrer da vida. Tudo bem: somos guiados por alguns padrões, de certo modo, cíclicos, que se auto-regulam, auto-organizam e tudo mais. Mas não somos máquinas! Ao menos enquanto pudermos inventar e ir rompendo com antigos padrões. Enquanto existir criatividade, haverá transpasse de limites em direção ao novo. Se assim é, temos a possibilidade de escrever dia a dia a nossa história com a única certeza de que é possível transformar. Estabilidade e garantias? Não, não, leitor amigo. Isso não há. Podemos saber que a cada movimento nosso, um outro é produzido. E assim temos um fluxo entre pólos: expansão e contração, contato e retração, côncavo e convexo e outros tantos. Cumpre dizer que a vida ocorre através das experiências que atingem o corpo. Atingem e atravessam. Mas que tudo começa quando se respira e sente. Quando se está conectado com…
PARA SENTIR OS SABORES


Olá leitor! Esses dias lembrei quando nossos sentidos eram cinco: Olfato, Paladar, Visão, Audição e Tato. Hoje já se fala em alguns outros... Pressão, Dor, Temperatura... Segundo a neurocientista Suzana Herculano, haveria mais dois. Ela diz que enquanto os cinco sentidos básicos se ocupam do que vem de fora, os outros dois cuidam do que vem de dentro. Um deles é o movimento e o outro o equilíbrio. Faz muito sentido, inclusive porque, sem esses dois últimos fica até um pouco difícil usar os outros. Enfim, é através desse conjunto que se pode falar um pouco da viagem pelo mundo do sabor, onde os sentidos atuam em conjunto: tem a visão, gatilho que dispara a idéia de sabor, o paladar, que através da generosidade anatômica da boca, capta as partículas de sabor enquanto mastigamos; e o olfato, que junto com a gustação, é talhado perfeitamente para captar as moléculas de cheiro que estão no ar. Depois tem a viagem das informações captadas pelos órgãos dos sentidos até …
INSTABILIDADE e ELUCUBRAÇÕES PASSAGEIRAS


O leitor que já jogou fliperama poderá me entender. Sabe quando você solta a bolinha e ela sai ricocheteando para tudo que é lado sem marcar nenhum ponto? Assim me sentia na última tarde de outono. Tentando arrancar um maldito pêlo do queixo, lembrei daquela música que Durval Vieira escreveu, Luiz Gonzaga interpretou e Gal Costa também. “Que diferença da mulher o homem tem? Espere aí que eu vou dizer meu bem: é que o homem tem cabelo no peito, tem o queixo cabeludo e a mulher não tem”. Qual o quê! Bendita seja Nossa Senhora da Pinça! Sem contar Nossa Senhora da cera quente, da cera fria e do laser, né? Seja como for, para além das possíveis diferenças e semelhanças entre homens e mulheres, a bolinha continua ricocheteando. Também! O que se pode dizer de alguém que tira pêlos do queixo? Queria ser mulher-girafa. Aquele pescoção para exibir além de poder limpar as orelhas com a própria língua! Mas não tem problema, não. Eu fico bombeando 50 litros…
O AMOR E AS ABELHAS


Bom Dia, Joinville. Bom dia, leitor. Tenho que contar um segredo: sou moça escutadeira e certas vezes, quando pareço estar “ausente”, estou mesmo é ligada em coisas que capto por aí e que, confesso, não posso evitar somar com minha imaginação para depois reproduzir a vida que acontece “escondida” nos cantos da vida. Nossa saborosa vida. Vejam essa conversinha e me digam se meu “pecado” procede.


“As pessoas quando ficam, são ficantes. Quando amam, amantes. Quando namoram, namorados. Quando casados namoram, são namoridos. Os enamorados se enamoram de si e do outro, que é relativo a um estado de enamoramento”.


- Pára de rir, menino.


- Pra quê? Eu gosto de ver você me olhando assim.


- E por isso você ri? Tem graça... Mas eu gosto do seu jeito, sabia? Deixa eu te falar, sabe que eu tenho uma pitangueira em casa? Está comigo há três anos.


- E dá flor?


- Flor dá. Não dá é pitanga. Já viu pitangueira que não dá pitanga?


- Já vi coisa muito pior. Mas posso passar na sua casa.


-…
A CRIANÇA, O ERRO E O POEMA

Bom dia, leitor! Há quem diga que feriados são péssimos para a economia do país. Que as empresas perdem muitos milhões. Pode ser. Eu prefiro achar que um tempo de folga entre um tostão e outro é muito bem recebido. Porque aparece a chance de olhar as coisas de um jeito diferente. E isso é tão bom! Esse último feriado eu tive a chance de ver Gabriela, na gracinha de seus seis anos, declamando o poema “Meus errinhos” de Pedro Bandeira. A platéia era composta de seus pais e os amigos, mais duas crianças. O cenário era uma prainha encravada no mangue, em São Chico. Sem vento. Final de tarde de sol esquentando nossas vidas. E Gabriela, entre pedidos dos pais e de todos, finalmente ergue-se e inicia sua fala silenciando a todos. O que me chamou atenção foi a força que ela imprimiu no declamar. O que ela captou do texto. A intenção. O desejo contido nas palavras do poeta que ela tomou para si, carregando de força genuína cada palavra. Um entendimento muito peculiar…
Inês e a Concha

Inês doura ao sol. Recostada no barco fecha os olhos para ver as coisas de outro jeito. Escuta as vozes que se misturam e procura ler através do som das vozes. Mais ao fundo tem o som do remo cortando a água e que ao fim de cada movimento resvala no barco. Resvala nela. Lembra da concha do mar que ficava sobre a lareira da casa dos pais quando era criança. Do barulho que havia dentro da concha e o pai mostrava para ela. Era mágico escutar o mar tão lá dentro daquela concha. Tão longe e tão lá dentro. Todinho em suas mãos. Com as mãos ela pegava e levava bem pertinho do ouvido. O mar então molhava e salgava Inês deleitada. Reverberava lá dentro da concha e também dentro dela. Agora, assim recostada ela lembra disso. Lembra do som que escutava na concha (onde estará?) e que agora reverbera nela. Inês é concha e sente o mundo ecoar dentro dela. O dia quente de sol, os sons das vozes que escuta, o roçar do remo no barco. Tudo roça nela. Roça e reverbera. Ela própria a estru…
FEROMÔNIOS?


Ela caminha pela calçada. Olha. Acelera o passo. Desacelera. Sente o sol e sorve cada verde que chama sua atenção. Ora se deixa levar por impulsos, ora pisa com cuidado e vai sentindo o caminho. Os vieses do caminho. Pressente sustos. Quase corre. Por vezes parece que esquece. Sabe lá o quê. Espreguiça e outra vez recebe o sol. O quente do sol. Vai respirando de novo os verdes. O tipo deles. E também as flores. O aroma delas. Deve enxergar por dentro do que chega até as pequenas narinas. Até o DNA. Cumprimenta amigas na passada. Também seus desafetos. Dá atenção. Desdá. Perde-se outra vez. Vai, volta, para e vai de novo. A mesma determinação para um lado e seu contrário. Saberá aonde vai? Importa isso? Importa é que vai. É então que vê o amor. Se ajeita, se apruma no passo. Olha o amor estampado nos olhos. No porte. Na imagem do “pirata”. Na brisa que traz o cheiro dele pra ela. Ela respira o cheiro. Desapruma. Parece toda na fresta. É tudo isso ou sei lá o quê que a faz at…
Leiam PERFUME. Um conto feito na Oficina do SESC Santa Catarina em 2009. Disponível em: http://poemasclotildezingali.blogspot.com/
ABSORTO EM ABSURDOS


Dia desses acordei por volta de 5 da manhã. Como estava num hotel e a televisão bem na minha frente, liguei. Estava passando uma daquelas aulas do Telecurso 2° grau. Aula de desenho técnico em mecânica. Projeção Ortogonal e rotação. Comecei a olhar aquilo. O pensamento cheio de nós. Rodando perdido numa imagem insistente. Eu estava tão absorta. Acho que nada ali fazia sentido, mas por estar tão absorta, deixei meu olhar ali. Lembrei de algumas aulas do curso de Arquitetura. Desenho Industrial. Comecei a enxergar alguns cortes possíveis e consequentemente, a visão da peça por aqueles pontos de vista. Olhando assim um detalhe parece estar distorcido. Você então deve fazer a rotação desse trecho para visualizá-lo melhor. Sinapses ocorrem e começo a transferir essas informações para a vida. Para as coisas da vida. Pois não é verdade que certas vezes as coisas da nossa vida ficam com, digamos, uma alteração na sua imagem? É verdade. Dependendo dos óculos com que vemos ce…

REMINISCÊNCIAS DE UMA PELADA

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REMINISCÊNCIAS DE UMA PELADA


Oi Luís. Ontem falaram de você lá no boliche. Foi uma conversa de que não participei. Falo isso porque quero dizer que apenas escutei um rabinho da conversa. Quando escutei seu nome senti saudade, sabia? Tanta, que acho que esse tempo todo estive disfarçando. Não que eu goste, mas é o que se pode fazer. A verdade é que tenho saudade de você e ponto. Ponto. Ponto para eu abrir um novo parágrafo ou simplesmente continuar exatamente de onde parei. Sabe onde parei? Nunca, um dia sequer, eu não senti saudade. Ficou um vazio enorme e eu coloquei uma porção de coisa no lugar. Tanta coisa. Fiz até um doutorado. Muitos sonhos acalentados. Distrações várias. Muita distração para tirar o foco de luz da saudade. Eu precisava “jogar” você pra escanteio. Recomeçar o jogo depois da bola ter violado a linha. Mesmo pelo ar. Isso é escanteio, certo? Escanteio é de onde surge a possibilidade de alguém fazer gol, não é? Pois então. Passei essa bola para alguém bater e saí da f…
CARTA PARA OSWALDO


Oi Oswaldo. Fui embora, amor. Não dava mais, não. A canoa já andava repleta de furos, a gente sabe. Mas a gente fazia de conta que não. A gente, não é, Oswaldo? Esse bendito curso de verão que estou fazendo me mostra que pra falar de si próprio tem que dizer EU. Porque senão fica esse negócio enrolado: a gente isso, a gente aquilo... que é isso, né Oswaldo? Acaso tem um batalhão atrás de cada um? Uma turma que “acompanha” e compartilha nossos pensamentos? Que dá a força que um só não teria? E aí vira essa “entidade” endossando a opinião que pode ser só de um. De qualquer modo eu fui embora. Eu vejo, Oswaldo, que tem coisa que não tem explicação “biopsicosocial-espiritual” além da compreensão possível que a gente possa ter. Ó! De novo. Que eu possa ter. Mas eu entendi, viu? Nem que amanhã eu tenha que desentender tudo. Não adianta tampar o sol com a peneira. Os raios estão por toda parte. Vê Oswaldo? Sei lá. Eu acho que não. Eu? Eu quero ser feliz, né Oswaldo? É você …
PASSEIO NA CHUVA
Dia desses resolvi dar uma passeada na chuva. Tudo - friozinho, chuva fina e constante, soninho de depois do almoço, uma pilha de coisas para ler, trabalhos para a faculdade, a crônica da semana – me pedia para ficar mesmo em casa. Apontava essa direção. Acontece, porém, que gosto muito de caminhar (e os últimos dias não tinham permitido isso), de modo que, qualquer coisa entre criar coragem e já estar um pouco predisposta, enfiei o pé no tênis (invenção danada de boa pra caminhar), passei a mão no meu guarda-chuva e tranquei a porta atrás de mim. Todas as obrigações ficaram e eu fui.
Comecei a caminhada escolhendo ir de escada. Desci lá os exatos 70 degraus. E saí na chuvinha. Já na rua comecei a pensar nas peculiaridades desse objeto: o guarda-chuva. O meu é fantástico porque é transparente. Eu que sou uma moça olhadeira preferi esse na hora da compra porque poderia olhar pro céu de quando em quando, ver nuvens, relâmpagos, raios. A própria chuva que pinga forte ou d…
INTERAÇÕES
Agora que o encaracolado do cabelo começa a tomar forma, que os cachos passeiam sobre minha pele e as roupas sobre meu corpo têm a graça de uma criança arrumada pela mãe (exceto pelos lacinhos e tiarinhas); me encontro como aquela amiga; também pensando seriamente em tomar suco de formol com aloe vera. Preciso de flexibilidade, amiga! Há algum jeito de se conseguir isso sem essa garrafada? E minha pele? Está gritando por um tratamento de choque! Eu penso em tudo que Tiago não faz, não diz, não sente. Ele é não. Não, não... Ele não é. E eu fico sempre boiando nesse assombramento. Ele entra, sai, vai embora, desaparece por quatro meses e sempre reclama do cachorro quando volta. Reclama do cachorro, mas é ele que não sai do banheiro sem deixar no chão resquícios de si. Será tão difícil assim mirar o vaso sanitário? Digo, acertar a mira? Por isso e por tudo que não falo eu pedi para ele ir embora de uma vez. Assim simples mesmo. Como quem pede uma pizza. E disse pra ele: Minha c…

POEMA NA CIDADE

POEMA NA CIDADE

Caminho pela cidade. Entre o monóxido de carbono e as jardineiras espalhadas estou eu e todas as pessoas que caminham. Ora apresso o passo e ora me perco. Olho a bolsa na vitrine. O cachorro que cheira cada milímetro da calçada. Eu caminho entre a multidão. Parte que vai. Parte que vem. Sou figura e sou fundo. Consciente e inconsciente. Destaco-me da multidão ou misturo-me a ela. Anônima. Entre o lixo e o luxo. O cheiro de urina pelas ruas e mamões, bananas, laranjas e feirantes que gritam. Apelam-me ou ignoram-me. Coleciono pedaços de papel até a próxima lixeira: cartomantes, dinheiro vivo, promoção de produtos para limpeza, como tornar meus dentes mais brancos em 5 dias e cursos que podem salvar minha vida e me dar um lugar no mundo. A mim que, ora leitosa e fluida e ora revestida de couraças, sigo pelas ruas. Se me destaco, sou figura; se me diluo, sou fundo. Para quem? Quem sou eu na rua em que passo, atravesso, detenho-me e suspendo ante o passante e o cachorro? A …

ZEITGEBERS OU fatores de arrasto

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ZEITGEBERS  ou fatores de arrasto

O livro “Você Quer o Que Deseja?” de Jorge Forbes, questiona se queremos mesmo aquilo que desejamos. Faz atentar para o desejo de nos sustentar no enorme vazio que o mundo globalizado abre em nós e como podemos entender e enfrentar problemas como violência, uso indiscriminado de drogas, depressão, e tanta coisa a que estamos submetidos e que nos arrasta. Ao repetir e escutar a pergunta que ele faz me vi pensando sobre a profundidade dela. Passei a pensar mais propriamente se eu queria “de fato”, coisas que eu dizia desejar. Deparei com coisas inerentes às perguntas que eu me fazia: dúvidas, tomada de decião e escolhas. O significado das escolhas e a relação mais imediata: Renúncias! Sim, porque é como falou um alagoano a quem perguntamos sobre o caminho para determinado lugar: “Vocês seguem reto até encontrarem uma bifurcação. Quando lá chegarem, deixem a direita e peguem a esquerda”. Seguimos rindo da expressão “deixar a direita”, mas o fato é que nun…

FLUXO DE IN-CONSCIÊNCIA

FLUXO DE IN-CONSCIÊNCIA

Eu escrevo sobre coisas que não sei para saber delas. Descobrir. Também a mim. Porque daí “A gente não escreve um livro. A gente se livra dele.” Então eu escrevo e vou me livrando daquilo tudo. Até de mim. Daquela que escreveu e já não é mais. É outra. Penso isso descascando uma tangerina. Espirra na minha pele o perfume com fixador made in natura. É bom. Mas preciso lavar as mãos muitas vezes depois. De todo modo, vou soltando um a um os gomos e pensando na herança. Na genética. Vou sendo enquanto escrevo e então vou deixando de ser, afinal, está escrito. Eu me livro disso e posso me escrever outra. Falsear. Nesse fingimento que nunca se acaba vou me vendo furo. Cheia de abismos. Uma fraude. Uma ficção que crio e onde me enredo. Sou DNA e sou livro. Sigo sendo a partir dos olhos que me olham, das mãos que me folheiam e me tiram da estante. Me colocam de volta ou me largam sobre a mesa. Quando tornam a mim já sou outra. Cada vez uma. Gosto ou não de ir até o fim…

BÁRBARA

BÁRBARA

Bárbara descobriu o pior de si. É dissimulada. Mentirosa. Gosta de ter as coisas sob seu controle. Isso dá a ela algo muito valioso: segurança. Gosta do poder que a segurança lhe dá. Gosta de ver a movimentação das pessoas em torno do seu halo. Ela é o sol. Irradia luz e capta para si íons, nêutrons e prótons que gravitam em torno. Gosta de fazer alquimias. Misturar essa química toda para ver no que dá. E como ela se sente grande! Não é má. Bárbara não é má. Apenas arma estratégias, estratagemas, esquemas, cenas, cenários e aprecia o desenrolar. Por isso sempre admirou manipuladores de marionetes. Ela manipula. Os outros se encantam. Deslindam pelas teias que tece. Bárbara é aranha e prefere o devaneio ao sonho. No devanear ela está no controle. No sonho, quem sonha Bárbara? Por isso sai todas as tardes. Observa outras personagens femininas. Passeia por cada mulher. Cada uma um mundo que ela descortina. E vai ganhando tamanho. Por isso se identificou com a gorda do escritor. El…

QUE TAL UM RAVIOLLI?

QUE TAL UM RAVIOLLI? Já tem alguns anos (muitos anos) preparamos raviolli. É sempre um acontecimento. Começa quando decidimos que vamos fazer. Cada vez é um de nós que lembra, os outros se estimulam e acontece. Tudo começou com meu sogro: quando íamos pra São Paulo vê-lo, pedíamos: vamos fazer um raviolli? Ele olhava pra gente com um sorriso maroto e pronto – estava decidido. Fazíamos juntos a massa, o molho e o recheio de ricota e espinafre enquanto ele contava suas histórias e canzoni italiane de fundo nos embalavam. Um dia resolvemos fazer para nós mesmos. Meu marido e eu. Lembro bem de uma vez em Curitiba. Ele veio de São Francisco do Sul, onde trabalhava, chegou em Curitiba por volta de nove da noite e disse: vamos fazer raviolli? Eu disse: vamos! Não tinha nada em casa. Fomos até o mercado ali perto, compramos farinha, carne moída, ricota, salsinha, cebolinha e tomates para o molho. Cebola tinha. Naquela minúscula cozinha começamos o trabalho. Fazer a massa. Preparar o recheio, o…

CRONIQUETA PARA VIRGÍNIA, VIVIANE E AS LINHAS

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CRONIQUETA PARA VIRGÍNIA, VIVIANE E AS LINHAS

De novo é junho. E já que me pediram para falar de amor eu digo: Além da constatação de que nada mais posso fazer além de escrever, só há uma vontade enorme de estancar tanto ruído. De olhar dentro dos olhos e me deixar ficar lá. De novo é junho. Nem importa tudo que eu poderia falar: as chuvas que se avizinham, o frio do sul e as perspectivas para a próxima meia hora. Tudo isso porque, já que me pediram, de novo é junho e eu não tenho outro assunto que não seja o meu cansaço e a vontade de falar de amor. Do tecido que cobre minha pele e que quero desmanchar. Trama por trama. As paredes que fazem a casa onde estou dentro e meu desejo de vê-las ruir para estar só. Tudo quer voltar. Até os passos que não dei aos 2 anos. Até as mãos nas cordas do violão tocando musiquinhas do Roberto Carlos. As linhas me trouxeram até aqui e eu estou dentro delas. Estou dentro das cordas do violão. E nas linhas do tecido. Elas levam ao infinito e eu estou dent…