sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

LUZES DE NATAL


Olá, leitor. As festas de final de ano apontam luz por toda parte. Luzes dessa época. Então me vi a pensar para que serve a luz. Como a farinha, que agrega o que está separado e dá consistência ao que não tem, a luz tem suas qualidades. Iluminar o que está escuro. Dar a ver. Que significa propiciar a possibilidade de se poder enxergar. É certo que isso pode ocorrer a qualquer momento, mas a simbologia tem uma força indiscutível. Que nem a luz. Evidencia e pronto. Você não vê se não quer. Sempre aponta algo. Pode ser forte e ofuscante, clareando a ponto de cegar, e pode ser um pontinho bem fraco vindo do abajur. Cria clima. Favorece ângulos. Evidencia ou não os defeitos. Pois é, leitor. A luz evidencia defeitos. Evidencia a vida como ela é. Nessa época tem as luzes de natal. Casas e comércios se iluminam e cidades inteiras exibem suas árvores iluminadas. De garrafa pet, com LED ou de que jeito for, transformam o vivenciar a cidade. É certo que o tanto que falta nessas mesmas cidades não se apaga diante de tanta iluminação. Educação, assistência médica, saneamento básico e segurança. Mas pode ser ofuscado. Assim é a luz. Entre outras tantas coisas, é fenômeno que propaga energia e potencializa nossa crença. Nossa aposta num desejo de bons tempos e na ideia de que aquilo que não possui luz própria, ou a tem em baixa, quando iluminado possa absorver e refletir. Que nem a lua. E dentro da imensidão das coisas relativas à luz, isso é apenas uma pequena parte. Quanto mais pensamos, mais vemos que o assunto ilumina e abre perspectivas. Isso porque nem falamos nas lentes que filtram o olhar, que dão convergência, divergência, distorção, profundidade de campo, mais ou menos foco e outros tantos artifícios que fazem parte do universo de fotógrafos, iluminadores e diretores de imagens. A iluminação é cinematográfica. Altera a perspectiva de quem está vendo, mexe com o imaginário. Esconde, evidencia, nubla, abre o olhar de quem olha. Além disso, tem a luz que o ser humano possui. Que aquece, contagia e alimenta. Que nesse natal, todos os espectros da luz e dessa influência possam ampliar nosso olhar. Nesse âmbito de luzes fugazes e passageiras, que acendem e apagam muitas vezes preenchendo nosso espírito nessa mesma freqüência, que a luz que recebemos e transmitimos não seja passageira. Que possamos reconhecê-la e ampliá-la. E que possa perdurar por todo o ano, independente da crença e do que venha pela frente. Que possamos nos envolver com isso de forma continuada. E replicar esse espírito por todo o ano. Por todo lugar deixar a luz iluminar e dimensionar o contato. Abrir espaço para a luz. Com palavras, gestos e ações que não se apagam. Lindas festas para você, leitor. E muita luz para todos nós. Dessa que ilumina, amplia, dá consistência, alimenta e perdura.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ANA


Demônios são coisas que se acendem e descascam por dentro. Que nem mexerica. Gomo por gomo. Sulco e bagaço. Cheiro impregnado no ar. Ana pensa nisso enquanto o olhar do médico a sabatina. Odeia esse olhar de quem nada sabe do outro e busca atribuir-lhe um diagnóstico. Repete maquinalmente o 33. Caso ele perguntasse, diria que nasceu às 17:53 de um outono distante. As folhas caindo no quintal da casa e tingindo a grama de pós-verão. Sabe o que é pós-verão, doutor? Repita 33. Horário de verão e calor sepulcral na cidade de concreto. Olhos nostálgicos castanho-esverdeados. Sente dores? Eu sou muitas dores. Inclusive as suas. Vai pensando que esse aparelhinho que ausculta nada pode saber dela. Nomear o que borbulha? Impossível. Você fica aí se escondendo atrás desse branco e nem sequer imagina o que palpita na esfera da epiderme. Ossos e músculos me carregam sobre alcunhas diversas e eu existo suturada, doutor. Aberta e precipitada. Esse aparelhinho nada dirá. Nada sabe de mim. Apenas que palpito. Ora mais, ora menos. Os sons internos do meu corpo nada dirão, exceto bobagens. Aliás, doutor, eu vomito bobagens, sabe? Exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono. Coleciono xícaras de café e na estante empilho CDs em linguagem diametralmente oposta às boas leis estruturais. Sou neurologista, doutor. Leio radiografias, reconheço lesões e nervos entranhados. Ausculto possibilidades na esfera de minha existência. Também da sua. Aspiro à fugas e insanos instantes. Sabe diagnosticar isso? Teorias mutantes tramelam seus estampidos e ecoam no aparelho metálico: 33,33,33. E tudo que sabe de mim é que meu coração bate. Meu estômago reverbera. Mas é só saliva que engulo desde ontem à noite. Simples, não é? Meus rins ressoam porque filtram toda sorte de pseudoentendimentos do que eu possa ter, do que eu possa ser. E o fígado tenta inerte metabolizar minha existência. Os órgãos sequer desconfiam que nada seriam sem o que me vai aqui, ó. Bem dentro da minha cabeça. Esse aparelho aí ausculta a cabeça, doutor? Garanto que não. Escuta. Eu só quero que me escute. Tem tempo para isso? Outro dia me internaram. Fiquei maluca com a violência da coisa. Eu presa naquela cama e aquela coisa me entrando pela veia. Aquele branco. É vida isso? Eu vim para a terra para espalhar a mensagem. Contar tudo que escuto. Os fios dentro da minha cabeça são como telefone antigo. Ligo e desligo os pinos. O tempo todo eu escuto. A minha missão é simplesmente revelar a verdade e os espaços. O eterno, o infinito. Aquilo que eu vi. Eu sei porque eu vi. E os espaços, sejam eles verdade ou mentira, são sujos. Debaixo desse branco todo aqui tem sujeira, doutor. Bactérias, vírus, papilomas. Os papilomas estão por toda parte nas mulheres. Querem-nas. Estejam onde estiverem. E eu estou em toda parte. Que nem os papilomas, as leptospiroses. Até aquele líquido que entrava em mim pela agulha era eu. Porque sou líquida, sou sólida. Eu sou imaterial. E não escondo não a minha mão. Eu mostro. Jogo a pedra e mostro a mão. O líquido quer me dopar, mas eu não quero. Querem me nomear, doutor. Mas eu não deixo. O que transborda em mim grito em palavras estampadas.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A REVOLTA DE MARIA


Maria é moça de muita candura e delicadeza. Tão singela que Jair tem medo de tocar. Tem medo dela desmanchar. Ela diz para ele que isso tudo é fachada, que por dentro, é pura fortaleza. Ele estranha. Há, de fato, muita coisa que lhe escapa. Por exemplo: as respostas inadvertidas. Nunca consegue sabê-las. Nunca está preparado quando Maria as dá. Assim mesmo: sem a menor delicadeza e no meio daquela candura toda, ela solta a farpa doída que o atravessa. Jair pensa sobre isso. Conversa com os amigos. Pede a Maria que olhe com cuidado para isso, que entenda porque reage assim. Ela desacata. Diz a ele que o que causa estranhamento em si é a doçura que ele contempla. O sorriso que escapa da boca e ela não quer dar. O espaço que ela abre e não quer abrir. Houve um tempo em que sentia mesmo certo estranhamento quando isso acontecia. Vinha de dentro, de sabe lá onde, e irrompia. Mas agora sente que isso passou. Sabe que não quer conter a volúpia dessa vida escondida debaixo da candura. Aliás, candura que ela odeia. Vontade mesmo, ela tem de mostrar os dentes. Jair diz: sorria, minha prenda. Se quer mostrar os dentes, sorria. É tão doce o seu sorriso. Maria olha Jair bem dentro dos olhos que lhe pedem a candura. Pensa o que ele quer, de fato, com esse pedido. Advinha que ele não quer ter que se bater com seus dentes. Seus caninos. Mas Maria quer o confronto. Já não agüenta a docilidade que grudou nela e compõe a cara que ela tem e Jair adora. Não agüenta mais a meiguice que a habita e não lhe pertence. Não lhe pertence. Maria sabe seus espinhos. Cultiva-os. Sabe também que é preciso encontrar a justa matemática. Mas não agora. Por ora desespera-se com tanto sorriso que lhe vem de dentro. Pergunta de que entranhas vem. De que entranhas? Esse sorriso que chega na boca e suaviza o passo de quem olha para ela. Quer agora que suavizem o seu passo. Olha Jair e vê isso nele. Um desejo de que ela seja travesseiro, colchão, espuma qualquer onde ele possa afundar o peso de seu corpo e lá deixar sua marca. Lá moldar-se. Maria não quer mais ser espuma que se molda facilmente com o peso dos corpos. Quer ser tábua. Incomodar e forçar mudanças de posição. Lá dentro da candura que Jair vê e deseja mais e mais, ela quer o susto. O desconforto do outro para variar um pouco. Dentro de si ela sabe. Deseja, na justa medida, se destituir da maciez que grudou na sua cara, no seu jeito. Quer olhar de cima e deixar fluir água, fogo, avalanche, hecatombe e o que vier. Quer ver isso passar por ela. Quer o fenômeno tal como é. E sabe que isso não pode ser lido em cartas climáticas, cartas de tarô ou qualquer outro tipo de leitura. Sabe que isso tem que assustar. Causar desconforto. Até para ela. Jair vai se afastar. Pedro, Janaína, Isaura e Bete. Mas Maria vai passar arrastando o vestido no vermelho do tapete e sorrindo na boca o desejo que a move. Todos vão saber e invejar. E ela não vai sorrir encorajando, abrindo seu espaço. Vai seguir. Quem quiser, que aumente o peso do seu corpo e procure espumas para se moldar. Maria agora vai ser a tábua que há por baixo da espuma. Osso duro de roer. Espinho. Colchão ortopédico. Quem quiser que ajeite sua casca à dela. Arrume pirógrafo, faca ou canivete e aprenda a inscrever-se na sua nova superfície. Que mude a posição quando o osso do quadril sentir que ali não é mais o seu espaço, mas o dela. O espaço de Maria. São as superfícies que se relacionam, não são? Quer sentar no pudim, José? Comigo, não!

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

LAVANDO A ROUPA SUJA


Sem nenhuma exaltação e como estivessem já ali, bem no meio da lavanderia, ela foi explícita. Disse a ele, bem devagarzinho, tudo que tinha para dizer. De forma calma e pausada para que ele pudesse entender. Pediu-lhe desculpas pela rudeza do assalto. Pelo seqüestro. Argumentou que não havia outra alternativa para ela. Agora, na posição em que ele estava, instalado bem no meio da lavanderia, talvez pudesse sentir o amor e o desejo lacerando seu corpo. Que se olhasse bem, talvez pudesse ver a melancolia atravessada, brilhando laranja na parede atrás de si. Talvez.

Ele desentendeu. Estar ali naquela lavanderia, escutar aquela mulher falar tão baixo e tão devagar como se fosse para ele escutar a dor dela não fazia o menor sentido. Como se ele pudesse entender a rudeza do ato. Do seqüestro. Escutou ela falar e falar sem nada sentir, a não ser o peso de seu corpo sobre as pernas e o calo no mindinho do pé direito. Esse maldito calo. Sem nada ver, a não ser uma mulher que já não tinha mais nada. Sequer cor que pudesse salvá-la de um profundo e irreversível branco.

Ela se disse tão cansada daquela impotência horrorosa. A palavra impotência era horrorosa. Olhou para ele. Lembrou que era um homem de algumas experiências e mentiras. Muitas mentiras. Até lembrou e contou o episódio da estrela que ele um dia disse ter visto cair. Quanta bobagem! Por fim sentenciou o castigo e assumiu seu desejo de vê-lo ali estreitado bem no meio da agonia. No meio da lavanderia.

Ele sorriu seu desdém. Até lembrou o episódio da estrela e o mistério: ele apontou e ela desceu. Quase gargalhou. Olhando bem para ela, via que não passava de um inseto. Um inseto nojento. Cheio de visco. De sobrevôos. Faminto de migalhas humanas.

Sem nenhuma exaltação agora foi ela quem esboçou um movimento nos lábios. Parecia sorriso, mas era dor. Falou de seus olhos nas noites sozinha. Do vermelho deles e da luz ao sobrevoar sua agonia ali naquele espaço. Um foco de luz laranja na lavanderia. Estreitou-se com o que era da sua natureza. Ser objeto do apetite. Cega de amor e desejo. Bela e disposta a abdicar de tudo por um sentimento. Apenas um sentimento. De que pudesse ser olhada sem nojo. Confessou estremecer quando ele a olhava com escárnio. O desespero de não poder sentir suas mãos nela. Seu beijo e o gosto dele. Foi saindo sem olhar para trás. Sorrindo a prisão dele e a incompreensão estampada. A atitude de mantê-lo ali. Vê-lo salivar diante da agonia que escolheu. Que ele escolheu.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

SOBRE ANIVERSÁRIOS


No último dia 13, meu pai fez 70 anos. Ano passado foi minha mãe a completar 70. Duas “desculpas mais que perfeitas” para reunir toda a família e fazer festa. Família é um conforto que transpassa o tempo. As distâncias e as diferenças. De repente você está lá conversando com os primos que não vê há tanto tempo e isso não transparece. O que emerge é a estranheza de uma intimidade de outrora. Uma mesma história que perpassa. Um algo que enlaça a todos. É boa a sensação. Meu pai gosta de festa. Sempre foi festeiro. E é bom fazer festa pra quem gosta de festa. Minha irmã que mora perto deles orquestrou os detalhes todos do evento. Ela também gosta muito de festa. Meu irmão também. Eu também. Pois é, somos todos filhos do pai. Sei lá se o momento conspirou ou a condição propiciou, mas eu tive a ideia de montar uma apresentação de slides para ele. Eu tinha algumas fotos e comecei por elas. Logo surgiu um mote que foi amarrando as fotos soltas. Então minha irmã mandou mais algumas e também meu pai. Ele mesmo, o maior entusiasta. A história foi encorpando e eu ia mexendo nessa construção de um olhar meu para ele. Um olhar dele para sua própria vida a partir do meu. Fui adicionando alguns textos. Pensamentos dele pensados por mim. E fui gostando muito dessa experiência. O entusiasmo me fez remexer álbuns e caixas em busca de mais fotos. Descobri piqueniques, viagens para Ubatuba, reuniões tantas de família e banhos de mangueira no quintal da casa onde cresci. Fotos que ele tirou para contar das nossas vidas. Fui “construindo” a história dele e a minha ia emergindo e me surpreendendo. No final, eu queria uma frase para finalizar a apresentação. Qual representaria o sentimento genuíno dele que eu queria captar? Foi Adélia Prado quem resolveu meu problema. E nada, nenhuma outra frase poderia abarcar a profundidade que eu queria, senão aquela. Que eu não seria sem ele. Eu vim da família que ele construiu. Ele e seu desejo. Meu olhar que tudo olha viu muita coisa acontecendo ali naquela noite. Coisas que vou guardar para sempre. Coisas que me alimentam e talvez eu não soubesse como sei a partir de agora. Mas sobre a história do meu pai, lá pelas tantas, houve um momento em que todos se juntaram na sala para ver a exibição das fotos. Meu sobrinho também havia preparado alguns slides para apresentação. Um olhar da 3ª geração. Juntos nós fizemos um só filme, “A vida do Zé”; e que todos assistiram e apontaram com emoção. Lembraram também de si. Foi muito legal ver as fotos de meu pai criança, moço. Tantos sorrisos no rosto mudando de desenho no tempo. A cidade onde ele nasceu. Os amigos do futebol, de pescaria. As mil e uma aventuras. Tudo nas imagens falava dele e de cada um de nós. Foi lindo ver o olhar feliz do meu sobrinho em ter feito parte disso tudo. Horas antes da festa, até talhou em si costeleta e bigodinho para se aproximar da imagem do tio de meu pai numa foto muito antiga. Tio Pedrinho. Ligou os tempos em si mesmo. A frase que plasmei de Adélia, e que Adélia plasmou da vida que borbulha em cada um, encerrou o que estava dentro de nós naquela noite feliz: Eu sou o Zé: “não quero faca nem queijo: quero a fome”. Nós? Idem.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ENTRE JANELAS E PORTAS


Nas minhas andanças por aí, sempre fico me perguntando como é que certas pessoas podem ser tão mal humoradas. Sempre que consigo, penso numa explicação. Ela não deve ter tido um bom dia. Ele deve estar com algum problema. Se a coisa ocorre logo pela manhã, penso que talvez não tenha dormido bem. Vou sendo assim, meio Pollyanna. Sei lá se porque li esse livro quando criança. Talvez. Mas de fato, não gosto de mau humor. Daquele que de tão enraizado vira estilo. Tem gente que gosta. Dizem alguns que ficar sorrindo demais passa atestado de solicitude demais, de paciência demais, de alienação demais. Não sei. Acho apenas que bom humor é vírus. E, como o mau humor, contamina. Nesse sentido penso: ainda bem que há bastante gente contaminada com bom humor também. Espalhando e espalhando sorrisos por aí. Feiticeiros urbanos. Tudo bem que por todos os lados correm notícias ruins e indícios de uma “civilidade” que desintegra cotidianamente. Isso vai refletindo uma espécie de “descontrole” geral do qual ninguém está protegido. Nem a linda senhorinha que todos os dias, faça chuva ou sol, senta-se na cadeira da varanda para tomar ar e olhar o trânsito desconcertante da avenida. E todo vez que passo e a vejo lá, abrimos as duas um sorriso e nos cumprimentamos. Não sei nada dela, além disso. Ela nada sabe de mim também. Apenas trocamos sorrisos. E eu gosto tanto do sorriso dela! Eu acredito no mistério das coisas. Penso que quando fazemos coisas como pensar, imaginar, sorrir e até sonhar, mudanças profundas acontecem em nosso corpo. Corpo esse que é porta para a vida. Quase sinto as células entrarem em ebulição após uma troca de sorrisos. A cascata que se desenvolve depois dessa “efusão” celular é remédio puro e gratuito. Está em cada troca de bons fluidos. Definitivamente, as emoções atuando sobre os nossos sistemas referem a algo que devemos mais e mais aprender a explorar. Se de um lado o tempo esgarça-se à nossa frente e vai denotando egoísmos, violências e mesquinharias, de outro há o sorriso. O bom humor que contamina e pode romper essa dura couraça. Se por trás de cada impulso, que é o véiculo a jato da emoção, há sentimentos que vão se transformar em ações, porque não se deixar arrebatar pelo impulso do sorriso? Não seria uma maneira de carregar a emoção de inteligência? De não permitir que nossas melhores emoções sejam solapadas por hábitos endurecidos? Eu acho que sim. Continuo pensando que impulsos e movimentos negativos e destrutivos são natimortos. Prefiro abrir a janela e olhar a vida que anda para além da minha. Prefiro o mergulho que me permite a transformação. Prefiro janelas às portas.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

VOZES DO ORIENTE



Clotilde Zingali, de Joinville.

Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que estranha, um transbordar que é excesso e é falta. Um não se reconhecer. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses de certa descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Que a falta de “consciência prática” do lugar que o coloca, digamos “meio perdido”, pode ser a mãe dessa boa descarga hormonal. E por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário ao modo ocidental de se olhar para as coisas. Ele cita que lá tudo escapa ao estrangeiro: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. Eu já fico a imaginar que tudo que lhe falta também o arrebata. O mistério, leitor. O tal mistério das coisas. Vejam que coisa interessante Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está atrás. E por isso "hou tian" (literalmente "atrás dia") significa o dia depois de amanhã.” O passado está à sua frente porque você consegue vê-lo. Sobre o futuro: "O futuro está atrás de você. Não se pode ver o que o futuro reserva." Achei empolgante. Muda tudo, não é? Isso é algo que escapa quando se é estrangeiro na China. Também quando um chinês vem parar no ocidente. Mas é algo que vou juntar aos meus hábitos a partir de agora. Guardar junto com aquele exercício que faço de quando em quando: fechar os olhos e tentar fazer algumas coisas do dia a dia lá em casa. Tatear o desconhecido. Distanciar-me da maneira habitual que tenho de pensar as coisas. De fazer as coisas. O interessante de distanciar-se de algo é o ângulo que se cria e de onde passamos a ver a mesma coisa de outro jeito. É rico esse movimento, pois podemos distanciar um passinho, 3 ou 4 metros, 89 metros. 350 quilômetros. De cada um desses pontos a coisa olhada já não é mais a mesma. E o melhor: nem você é. Para escrever essa crônica, eu fiz uma viagem até Xangai. Experimentei o ameno da temperatura, a fumaça no ar que deixa o fog londrino tão suave! Experimentei o mormaço. Os exageros e a estranheza. Me vi a buscar referências ocidentais onde eu pudesse me escorar. Nada. Via espetos de carne e pensava em cachorros. No café da manhã, o gafanhoto ocupava o lugar do pãozinho. Mas quando pensei no homem, naquele que habita esse espaço tão estrangeiro ao meu olhar de agora, acho que me teletransportei. Sei que o dedo dele sangra como o meu quando há um corte. Mas o como ele e eu experimentamos a dor é o que nos diferencia. Como ele e eu olhamos a alegria. O passado, o presente e o futuro. No mais, são hábitos. Tivesse eu nascido lá, não seria estrangeira. Para mim, que “não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”, isso é muito significativo. Depois de saber desse olhar sobre o passado, que está em frente a mim e por isso posso vê-lo, aquele filminho que alguns dizem ver numa experiência de “quase morte” começa a rodar nesta minha doida experiência de vida. A minha vida misturada a tantas vidas. Me dá uma paz carnavalesca. Olho para ela com doçura. É o que posso ver, afinal. O futuro, esse fugaz cavalheiro que insiste em causar estranheza, vejo se dissipar. Partícula em cima de partícula. Está muito claro. Ele está atrás de mim e não posso vê-lo. Sei lá porquê, mas isso não me causa nenhum estranhamento. Estou na China, afinal. Uma espécie de exílio onde uma onda de pertencimento me invade. Eu pertenço, ainda que estrangeira.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

AMIZADE


Quando minha cachorrinha me leva para passear, eu vou. Às vezes sou eu quem pega a coleira e acena para ela a possibilidade. Mas normalmente é ela quem começa a sassaricar e fazer barulhinhos. Estaca diante da porta e fica esperando que eu me movimente. Se eu não vejo, ela me chama, corre para a porta, estaca lá de novo. Então eu vou. Pego dois sacos de lixo e coloco na bolsinha que uso para passear com ela. Um kit de passeio que ela já conhece, pois se pego a bolsinha ou sacola de lixo ela já fica toda serelepe! Aliás, dia desses alguém me parou na rua para dizer: Se todos fizessem como você e carregassem um saquinho quando saem com seus cachorros... Pois é, leitor. Pois é. Não esqueçam os saquinhos!!!! (E quiçá apareçam brevemente saquinhos biodegradáveis!). Depois desses passos básicos coloco a coleirinha nela, mas é ela quem me leva. Sempre opta por descer e subir pela escada. Sinto que não gosta de elevador. Eu também não. Descemos e já conheço seus movimentos. A porta por onde prefere sair, o local onde espera para que eu abra o portão e o pulinho certeiro que ela dá para a calçada. Aí começa o desbravar dos matinhos e canteiros. Não passa ileso um metro quadrado que ela não perscrute. E assim vamos. Algumas vezes ela me faz caminhar mais rápido: parece afoita no seu descortinar. Em outras, caminha tão serena que sou eu a sentir o passo de maneira diversa, a descobrir coisas que ainda não havia visto. Lembro quando pensei que poderia ser enfadonho “ter” que sair com ela sem estar com vontade.... Qual o quê! Meu esmorecer mais arraigado vira pó diante dos apelos dela e tudo que quero é atendê-la. E vou. Já aí estou passeando. Já aí estou totalmente “na dela” e curtindo cada detalhe do passeio. Na escada, ela desce uma sequência de degraus e me olha. São cinco olhadelas que me encantam! Quando pula na calçada olha de novo. Esquerda ou direita? Deixo para ela a decisão já que estou sendo levada. Ela vai me guiando e eu vou descortinando. Nos último mês passou por uma cirurgia (nunca mais mãezinha). Mudei a rotina então. Descemos e subimos de elevador e sua caminhada e gestos foram diversos. Ela não entendia, mas se sabia diferente. Me sabia cheia de cuidados. Andamos um trecho curto e ela parou. Não dava para prosseguir. Aguardei um pouco e tentei voltar. Nada. Foi com cumplicidade sem igual que ela, normalmente um pouco arisca a colos, aceitou o meu e se deixou levar de volta para casa. Dois dias de molho. Sem passeio para nós até que a rotina fosse lentamente retornando. Uma apelando para a vontade da outra. Final de semana passado ela já corria desatinada pelo quintal da praia. Passou. Sentada em sua almofada ela agora me olha. Meu marido diz que não entende o olhar prolongado que ela me dá. Pensa no que ela quer dizer. Eu nem sei. Mas sempre acho que seus olhares pedem passeio, comida e água. As alegrias da sua vidinha cã. Mas sabe lá o que pensa um cachorro? Bem, se eu for por aí vou dar nó nos “nervos”, pois sabe lá o que é pensar! Pelo critério de pensamento como capacidade de conceituar e abstrair o mundo que nos rodeia, fazendo uso da linguagem, só o homem é capaz de pensar. Mas se a gente enveredar pelos caminhos da linguagem... os tipos de linguagem... sabe lá. De fato, a gente sabe que o cão tem sido o melhor amigo do homem já há muito tempo. E a amizade, bem, esta a gente sabe que se constrói sobre a base de compreensão mútua e companheirismo. Condicionamento? Pode ser. Mas se formos por aí, seres humanos também podem ser condicionados.... Afinal, tem gente que só na hora da foto escancara um sorriso. Quem sabe atrás do clique tem alguém mostrando um ossinho....

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

CANTANDO NA CHUVA


Ele deve ter entre 9 e 10 anos. Do alto de seu, talvez, um metro e quarenta, carrega uma pequena mochila no ombro esquerdo e na mão direita um guarda-chuva. Passeia e faz malabarismos com o objeto. Brinca com o chuvisco e o corpo. Roda o guarda-chuva entre os dedos. Sobe e desce o objeto, que como o meu, é transparente. Olha a água que cai fininha. Inclina pra lá e pra cá. E de novo sobe e desce, rodopia entre os dedos, e dá um passinho pra trás. O menino brinca com a chuva! Eu, que dentro do carro vou chegando perto e vendo melhor a cena, avisto é Gene Kelly cantando. Porque como no filme, a expressão de felicidade e a naturalidade com que ele parece flutuar pela rua são iguais à do ator em “Dançando na Chuva”. Sigo escutando a trilha em minha mente, lembrando os movimentos, os pés nas poças d’água e o guarda-chuva bailando sob as goteiras das casas. É tão boa a brincadeira do menino que minha boca cantarola: I’m singing in the rain... É apenas a manhã de um dia que começou antes das 6 para mim, ainda escuro e chovendo bem mais. Agora já uma ideia de sol quer vingar sobre o chão ainda umedecido pelo chuvisco. Quer vencer o intermitente dele que cai fininho e vai espalhando pelo ar um cheiro doce de melancia. Um cheiro vermelho. E embora haja tanto ainda por fazer, isso tudo insiste em se sobrepor. Confesso que não é difícil deixar-me arrebatar por essas pequenas coisas. Acho até que algo em mim as procura. Algo em mim quer, permanentemente, se deixar arrebatar. E então essas coisas pequenas da vida, essas pequenas “grandes coisas”, me surgem. É claro que, na verdade, estão sempre ali, sempre por aí. Mas às vezes, mesmo não sendo difícil, eu não vejo...tão absorta que estou... então, quando volto a ver, me encanto. A vida é cada segundo, leitor. Cada fração. Uma somatória de fagulhas. Acho que o menino sabe disso. Melhor que isso: nem sabe. Apenas vivencia. Carpe diem! Talvez porque seja início de primavera, porque o verão está mais próximo hoje do que ontem. Porque o sol tenta rasgar o branco. Não importa. Importa o verão dentro dele e dentro de mim olhando para ele. Há pouco era Gene Kelly no ar e já será George Harrison, com sua “Here Comes The Sun”. A minha música e a do menino. Quem sabe também a sua “Here comes the sun, here comes the sun, Little darling, it's been a long cold lonely winter. Little darling, the smiles returning to the faces. Here comes the sun, here comes the sun and I say it's all right”. “Aqui vem o sol”, Joinville! Tudo prediz. Porque a vida é sim, uma aventura. “I’m singing in the rain”! “Here Comes the Sun”! Bom dia, leitor! E a vida continua avançando. Pouco antes da dança do menino me arrebatar, vi uma porção de árvores de natal numa vitrine!!!! Tudo isso, porque ainda é outubro.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DA UTILIDADE DAS COISAS


A utilidade de uma coisa é algo a ser desvendado com humor e imaginação. Aliás, desvendar o mistério das coisas é tarefa de muita utilidade e que muito me encanta. Quando coloco minhas perninhas para caminhar por aí, vou deitando os olhos em tudo que é coisa exposta e que arrebata minha atenção. De meiazinhas para guardar celular a cabo de panela. Falando nisso, dia desses deitei os olhos numa referência a um texto de Humberto de Almeida, que discorre sobre a utilidade do cabo em sua dupla função: de empunhadura e/ou apoio para o manejo dos mais diversos utensílios e ferramentas. Da panela à enxada. Pense nisso, leitor! E lá vai o estudioso para os subterrâneos da coisa: o cabo e sua influência sobre a história e o comportamento dos homens. O próprio autor, Marcelo Sguassábia, que faz referência ao texto do cabo, já sugere novas coisas para se pensar nessa linha e que podem, quiçá, se prestar a futuras dissertações e estudos de maior envergadura. Cita as alças:

- Alça de sacola de feira, com peculiaridades ergonômicas e relevância como agente alavancador, especialmente da economia informal, alça de trem de metrô e seu papel gregário no contexto do transporte coletivo, dado que cada alça é dividida por duas, três ou até mais mãos que nela se apóiam ou seguram nos horários de pico; alça de sutiã e de vestido, entendidas não apenas como elementos de sustentação, mas também como fetiches a povoar o imaginário masculino, alça de caixão, alça de mira e até a expressão “mala sem alça”, que ele diz ser cunhada originalmente no Reino Unido (olha só!); o verbo “alçar”, de onde deriva a expressão alçar vôo, decolar por si mesmo, “por propulsão própria”e até a enigmática e quase hieroglífica definição do Dicionário Houaiss para “alça” como termo de marinha: “estropo adaptado à goivadura da caixa de moitões, cadernais ou sapatas”. Quem puder que lance luz! É engraçado pensar, repetindo o autor, em arregaçar as mangas e se debruçar com o devido afinco sobre tema tão rico e pouco investigado. Eu, por mim, agradeço a possibilidade de poder ter uma alça à mão caso eu precise me segurar. Peço que eu possa alcançá-las do alto de meu metro e cinqüenta e seis. Acho louvável meus pais terem instalado duas delas dentro do box para banho e muito gosto das que seguram as bolsas e bolsas que eu adoro trocar. Gosto, sobretudo, das invisíveis, daquelas que me alçam para longe quando eu quero voar. Alças, de algum modo, nos dão asas. Sem misturas e sem efeitos colaterais. Basta imaginar.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

VIVA A INSTABILIDADE DO ENVELHECER




Somos organismos vivos, certo? Alto grau de flexibilidade e plasticidade para tantas transformações que passamos no decorrer da vida. Tudo bem: somos guiados por alguns padrões, de certo modo, cíclicos, que se auto-regulam, auto-organizam e tudo mais. Mas não somos máquinas! Ao menos enquanto pudermos inventar e ir rompendo com antigos padrões. Enquanto existir criatividade, haverá transpasse de limites em direção ao novo. Se assim é, temos a possibilidade de escrever dia a dia a nossa história com a única certeza de que é possível transformar. Estabilidade e garantias? Não, não, leitor amigo. Isso não há. Podemos saber que a cada movimento nosso, um outro é produzido. E assim temos um fluxo entre pólos: expansão e contração, contato e retração, côncavo e convexo e outros tantos. Cumpre dizer que a vida ocorre através das experiências que atingem o corpo. Atingem e atravessam. Mas que tudo começa quando se respira e sente. Quando se está conectado com as circunstâncias que rodeiam o sentir. Quando se está conectado com o desejo. Eu penso na vida que passa nesse caminho de invenções e sou projetada para algum momento onde o desejo não mais nos pertence. Quando vamos ficando velhos, talvez? Será? Quando numa sociedade determina-se que o tempo do velho é o passado e as circunstâncias começam a resvalar a ideia de que cessem os movimentos, a autonomia, a decisão de ir pra lá ou pra cá, isso pode acontecer. Se comprarmos essa ideia aí vira verdade mesmo! E se não há desejo, não há movimento. E dá um medo danado a perspectiva dessa espécie de involução. Desse “deixar de pertencer”. Dá medo a ideia de ir jogando coisas para escanteio, minando os sentidos que podem nos impulsionar para novas invenções. Para continuar inventando. O que pode decorrer desse movimento transverso senão o hábito de despertencer? Despertencimento esse, que gera isolamento, gera angústia, gera depressão. Talvez eu tenha pensado nessas coisas porque acabo de ver uma senhorinha no centro que muito me chamou a atenção. Talvez pelas recentes comemorações do dia do idoso. Talvez porque bem do nosso lado, a gente veja muitas situações que nos põe a pensar. Não importa. Importa a atenção para não cair no isolamento. Importa também investir no corpo que é porta para o sentir. Abrir os pulmões e sentir. Com mais ou menos ar. Mais ou menos dor. Então, abra sua janela. Coloque uma música para tocar e cante arrancando seu corpo da inércia. Dance! A vida está bem aí, ao alcance das mãos. Vai incomodar algumas pessoas que pensam os velhos como peças de antiquário. Sentadinhos numa cadeira de balanço e silenciosos como num quadro. Colocariam moldura se possível fosse. Mas esqueça disso. Saia do quadro. De preferência, cantando. Pinte o mundo “jovem” com tudo que trilhou no seu caminho e que, fosse luz, iluminaria cidades inteiras.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

PARA SENTIR OS SABORES


Olá leitor! Esses dias lembrei quando nossos sentidos eram cinco: Olfato, Paladar, Visão, Audição e Tato. Hoje já se fala em alguns outros... Pressão, Dor, Temperatura... Segundo a neurocientista Suzana Herculano, haveria mais dois. Ela diz que enquanto os cinco sentidos básicos se ocupam do que vem de fora, os outros dois cuidam do que vem de dentro. Um deles é o movimento e o outro o equilíbrio. Faz muito sentido, inclusive porque, sem esses dois últimos fica até um pouco difícil usar os outros. Enfim, é através desse conjunto que se pode falar um pouco da viagem pelo mundo do sabor, onde os sentidos atuam em conjunto: tem a visão, gatilho que dispara a idéia de sabor, o paladar, que através da generosidade anatômica da boca, capta as partículas de sabor enquanto mastigamos; e o olfato, que junto com a gustação, é talhado perfeitamente para captar as moléculas de cheiro que estão no ar. Depois tem a viagem das informações captadas pelos órgãos dos sentidos até o cérebro. Uma viagem através dos disparos de potenciais de ação pelos neurônios, sinapses, nervos e instâncias cerebrais onde tudo chega no final desse caminho. Mas o que é de fato encantador nessa complexa dinâmica é tudo que se pode desvendar a partir desse conhecimento. A questão da construção das imagens mentais e dos afetos envolvidos. Pensar que quando se aprende algo, a diferenciar sabores, por exemplo, criam-se no cérebro redes neuronais que podem ser reforçadas com a repetição dessa informação ou experiência; e que quando se vivencia uma experiência diferente, mas relacionada à experiência original, automaticamente o cérebro está apto para reescrever o arquivo considerando a nova informação. E assim nossa memória vai se ampliando e se modificando. E as emoções vão carregando todo esse processo com cor; de modo que quanto maior a carga de emoções associadas, maior e melhor será o envio e o armazenamento das informações. Isso faz pensar na importância dos estímulos para nossa vida. Para a criança que está iniciando a descoberta dos alimentos e coisas tantas até bem mais lá na frente – quando, por uma série de fatores, como envelhecimento, uso de medicamentos, doenças e até o afastamento do convívio social, vamos “fechando” mais para a vida e para tudo que os sentidos estimulados podem propiciar. O que é uma grande pena. Conhecer essa capacidade do estímulo e seus resultados na maneira como olhamos o mundo pode mudar tudo. É o que já se disse: não podemos viver sem o sentir porque “somos a partir de nossos sentidos”. Estar aberto para essa possibilidade é estar aberto para o enfrentamento da vida. É viver. Mas às vezes descuidamos disso. Esquecemos até. Vamos vivendo homens-máquinas com mensagens entrando e saindo sem que a gente se perceba, sem que a gente possa interagir com toda nossa estrutura. E diante de tantas instabilidades, funcionamos mal por não estarmos conectados com nossos sentidos. Quis lembrar isso, de que vivemos pelo conhecer e de que o conhecer surge do sentir – disso que nos atravessa através das experiências que atingem o corpo e depois transformamos em “sentir”, e a partir daí em “ser”.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

INSTABILIDADE e ELUCUBRAÇÕES PASSAGEIRAS


O leitor que já jogou fliperama poderá me entender. Sabe quando você solta a bolinha e ela sai ricocheteando para tudo que é lado sem marcar nenhum ponto? Assim me sentia na última tarde de outono. Tentando arrancar um maldito pêlo do queixo, lembrei daquela música que Durval Vieira escreveu, Luiz Gonzaga interpretou e Gal Costa também. “Que diferença da mulher o homem tem? Espere aí que eu vou dizer meu bem: é que o homem tem cabelo no peito, tem o queixo cabeludo e a mulher não tem”. Qual o quê! Bendita seja Nossa Senhora da Pinça! Sem contar Nossa Senhora da cera quente, da cera fria e do laser, né? Seja como for, para além das possíveis diferenças e semelhanças entre homens e mulheres, a bolinha continua ricocheteando. Também! O que se pode dizer de alguém que tira pêlos do queixo? Queria ser mulher-girafa. Aquele pescoção para exibir além de poder limpar as orelhas com a própria língua! Mas não tem problema, não. Eu fico bombeando 50 litros de sangue por minuto, e nem sou girafa. Tô batendo um bolão. Mas veja, de novo é setembro. E eu, ao contrário da girafa, nem tenho língua de ½ metro, intestino de 77 metros e fico pensando como definir o tempo que acelera e o que passa devagar. Qual é o jeito de ver o tempo passar? Ir de bicicleta? De táxi? Ficar olhando disfarçado por trás de um muxarabi? Ou dar uma de pulga e ir saltando de 34 em 34 cm? Passando quase despercebida e ao mesmo tempo causando uma coceira danada? Pode ser. Seria uma ideia boa pra muita gente! Também seria bom ter uma estrutura semelhante a das minhocas: cinco pares de corações na parte dianteira do corpo. Daria para distribuir melhor as emoções todas! Não faz mal. Tô me virando com um coraçãozinho só. E rindo dessa nossa cômica sociedade. Você sabe para que serve um deputado estadual? Tiririca também não. Sei que tem estado de espírito que é impossível de definir, caro leitor. É melhor aceitar o mistério. É por isso que quedo admirada diante da definição de Aurélio Buarque de Holanda para Definição. “Uma definição é muitas vezes sorte. É pegar borboleta no ar, é capturar. É ter um lado poético e um lado prosaico, duro. E a satisfação quando se vê aquilo cristalizado”. Então a gente precisa se abrir para as fissuras, leitor. Não é filosofia de boteco, não. O tempo cria tramas onde a gente se enreda e se a gente não cria um fissura no tempo não pode vivenciar os acontecimentos. Isso significa correr o risco de ser encontrado pela memória para ver o que já estava ali e a gente não via. Potencializar a vida, entende? Dar novas cores, construindo e mudando nossa história. Abrindo espaço para o futuro. Mas não pense não que sou doida. É a sociedade pós-moderna que é. Entendendo assim, a gente abre nossa ideia das coisas. Abre o conceito do que é ou não ser doido. E se pergunta se a vida realmente só existe nos pólos...lá onde as coisas são tão engessadinhas que uma martelada pode quebrar. Eu não quero quebrar. Rachar é coisa de parede, que ao sofrer pressões de várias ordens pode trincar. É coisa de jatobá. Quebra e não enverga. Minha estrutura apaixonada me pede recorrentemente para ser bambu. Envergar e ver todas as nuances disso. Viva a instabilidade da mudança de estação. Elocubrações primaveris. Boa semana, leitor. Aproveite a primavera! Carpe Diem!

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

O AMOR E AS ABELHAS


Bom Dia, Joinville. Bom dia, leitor. Tenho que contar um segredo: sou moça escutadeira e certas vezes, quando pareço estar “ausente”, estou mesmo é ligada em coisas que capto por aí e que, confesso, não posso evitar somar com minha imaginação para depois reproduzir a vida que acontece “escondida” nos cantos da vida. Nossa saborosa vida. Vejam essa conversinha e me digam se meu “pecado” procede.


“As pessoas quando ficam, são ficantes. Quando amam, amantes. Quando namoram, namorados. Quando casados namoram, são namoridos. Os enamorados se enamoram de si e do outro, que é relativo a um estado de enamoramento”.


- Pára de rir, menino.


- Pra quê? Eu gosto de ver você me olhando assim.


- E por isso você ri? Tem graça... Mas eu gosto do seu jeito, sabia? Deixa eu te falar, sabe que eu tenho uma pitangueira em casa? Está comigo há três anos.


- E dá flor?


- Flor dá. Não dá é pitanga. Já viu pitangueira que não dá pitanga?


- Já vi coisa muito pior. Mas posso passar na sua casa.


- Você quer ver a pitangueira?


- É. Eu vejo ela também.


- Para de rir, menino.


- Eu vou de bicicleta. A gente pode dar uma volta depois.


- É. A gente pode, sim. O meio de transporte mais perigoso é a bicicleta, sabia?


- Nada.


- Eu moro em apartamento.


- O meio de transporte mais seguro é o elevador. Relaxa. Nem tudo está perdido. Sua pitangueira é grande?


- Quase bate no teto! Deve ter uns três metros...


- E dá flor mas não dá pitanga.


- Isso.


- Alguém me disse que pincelar as flores faz nascer as frutas.


- Sério?


- Diz que sim. Você tem que passar o pincel nelas quando estiverem abertas. Um pincel bem macio.


- Um pincel?!?


- Isso. Como se fosse pintar uma a uma. Eu posso te ajudar.


- Você quer?


- É exatamente o que quero.


- Mesmo? E o que acontece depois?


- A lenda diz que que a abelha, além de picar e fazer mel, ela carrega pólen. Então a gente vai abrir a flor com o pincel, abrir terreno para a abelha, criar o clima, entende?


- Eu acho que é você que tá criando clima falando desse jeito. Falando de abelha, de abrir a flor e de pitanga.


- Vai dar uma volta comigo de bicicleta?


- Eu rodaria o mundo com você. Vai comer geléia de pitanga comigo depois que tudo der certo?


- Você quer?


- O quê? Dar a volta de bicicleta? Que eu rode o mundo com você? Que você coma geléia de pitanga comigo?


- Eu quero isso. (dá um beijo nela)


- Sabe, o seu beijo tem um gosto bom.


- Pitanga também.


- Sério? Você já provou?


- Adocicado e ácido. Levemente ácido.


- Dizem que beijos ácidos são os melhores.


- Dizem?


- Dizem. Talvez seja o mesmo pessoal do “pincel nas flores” quem diz isso.


- Pode ser. Você é engraçada.


- E você é tão bonito.


- E a gente vai dar uma volta legal de bicicleta. Várias voltas.


- E a gente vai ver a pitanga nascer e depois vai fazer geléia juntos.


- É. A gente vai sim.


- Pra sempre juntos. (rindo)


- Pra sempre. (rindo)


- Então tá. Espero você.


- Você tem pincel lá?


- Até tem. Mas vou comprar um especialmente para esse fim. Acho que merece, não é?


- Não sei não...


- Pincel novo pode causar efeito contrário...


- Sério? Então melhor não arriscar. Usamos um dos meus.


- Fechado. Eu passo lá.


- Eu te espero. Um não sei o quê me diz que vai dar certo.


- Já deu. Tá sentindo?


- O que, menino?


- O cheiro da geléia que a gente vai fazer.


- Tá bom! Tchau, então.


- Tchau, até lá.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

A CRIANÇA, O ERRO E O POEMA

Bom dia, leitor! Há quem diga que feriados são péssimos para a economia do país. Que as empresas perdem muitos milhões. Pode ser. Eu prefiro achar que um tempo de folga entre um tostão e outro é muito bem recebido. Porque aparece a chance de olhar as coisas de um jeito diferente. E isso é tão bom! Esse último feriado eu tive a chance de ver Gabriela, na gracinha de seus seis anos, declamando o poema “Meus errinhos” de Pedro Bandeira. A platéia era composta de seus pais e os amigos, mais duas crianças. O cenário era uma prainha encravada no mangue, em São Chico. Sem vento. Final de tarde de sol esquentando nossas vidas. E Gabriela, entre pedidos dos pais e de todos, finalmente ergue-se e inicia sua fala silenciando a todos. O que me chamou atenção foi a força que ela imprimiu no declamar. O que ela captou do texto. A intenção. O desejo contido nas palavras do poeta que ela tomou para si, carregando de força genuína cada palavra. Um entendimento muito peculiar, mas não menos real. Eu que amo tanto poesia fiquei muda! Poema para mim era ela ali declamando e sentindo, o dedo em riste algumas vezes, as expressões, o olhar que se modificava a cada entonação de voz. Lindo ver Gabriela, que encontrou maneira de dar voz ao seu desejo. Admitindo em expressões e entonações que erra, sim. (Mas quem não erra?) Construindo uma ideia sobre isso e se colocando diante dela. Numa tarde de sol e sororoca na brasa, que mais poderia arrebatar o coração de alguém que vive da palavra? O erro talvez? Talvez. Mas aproveito a força da menina e digo. De que outro modo poderia ser? É claro que nossa consciência das coisas vai fazendo com que o posicionamento diante delas se modifique. Mas não nos livramos de todo de alguns borrões. Dos castigos e broncas. E dos conselhos, que ao contrário da lenda “se fosse bom era vendido em farmácia”, muitas vezes têm o seu espaço e entram muito bem. Sobre o poema, inclusive, está na beira da vida: presente em cada folha, toco de madeira, olhar de menina que cresce, que aprende, que erra. Também nos nossos erros de gente grande. Na nossa vidinha de adulto. Mas o erro maior, leitor amigo, talvez seja não criar tempo para correr o risco de errar e correndo esse risco, acertar. Veja, o domingo, apesar do sol, tinha um vento danado. A ideia de pegar o barquinho e sair mangue a dentro, para muitos poderia parecer insana. E creiam. Pareceu. Mas a gente que insistiu terminou por achar um oásis com sol e protegido do vento. Assistimos ao preparo inusitado de uma sororoca que nos encheu de prazer e mais tarde, quando o sol começa a esfriar um pouquinho, surge Gabriela e o poema. Surge a possibilidade de se deixar arrebatar por tudo isso. Pelas possibilidades que moram lá na pontinha do que às vezes parece assim-assim, e que de pronto, a gente nem sempre vê. Esse é o erro maior. Pra terminar mando um pedacinho do poema que ela declamou e peço: Poeme-se, leitor. Poeme-se. O poema está ao pé da vida, em cada fração de segundo. É só você se colocar nessa fronteira. Molhar a pontinha do dedo na água que parece fria. O resto acontece.
... Só o que eu peço é que saibam que eu necessito errar.
Se eu não errar vez por outra,
como é que eu vou aprender.
Como se faz pra acertar? ...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Inês e a Concha

Inês doura ao sol. Recostada no barco fecha os olhos para ver as coisas de outro jeito. Escuta as vozes que se misturam e procura ler através do som das vozes. Mais ao fundo tem o som do remo cortando a água e que ao fim de cada movimento resvala no barco. Resvala nela. Lembra da concha do mar que ficava sobre a lareira da casa dos pais quando era criança. Do barulho que havia dentro da concha e o pai mostrava para ela. Era mágico escutar o mar tão lá dentro daquela concha. Tão longe e tão lá dentro. Todinho em suas mãos. Com as mãos ela pegava e levava bem pertinho do ouvido. O mar então molhava e salgava Inês deleitada. Reverberava lá dentro da concha e também dentro dela. Agora, assim recostada ela lembra disso. Lembra do som que escutava na concha (onde estará?) e que agora reverbera nela. Inês é concha e sente o mundo ecoar dentro dela. O dia quente de sol, os sons das vozes que escuta, o roçar do remo no barco. Tudo roça nela. Roça e reverbera. Ela própria a estrutura da concha. Interior semelhante a um labirinto em espiral que concentra e amplifica os sons, produzindo um efeito parecido com o barulho do mar. Inês é caixa de ressonância. É o próprio mar e a soma do que reverbera. É a soma de ecos e ecos produzidos dentro da concha. Dentro dela. Que vêm de fora e penetram nela. Como a concha, Inês capta tudo que é residual no ambiente, até os sons que se propagam em todas as direções e, se é possível dizer isso, passam direto pelo ouvido. Ela é concha e capta. E dentro dela as ondas repercutem, refletem-se nas paredes. Concha. Caverna. Voz e o som da voz. Remo e o som do remo. Reverberam em Inês e Inês reverbera. Talvez. Talvez se a voz que escuta não falasse ela reverberaria? Não sabe. E se na verdade não é possível se ouvir o som do mar na concha? Se é uma associação humana com o barulho do vento transitando pela parte interna e que então vira marulho ecoando na parede da concha? Talvez seja tudo uma grande bobagem e Inês escutasse o mesmo mar encostando uma xícara no ouvido. Apenas uma xícara. Nem quer saber. Sabe que o som que vem de fora (uns mais que outros), entra na concha e se envolve naquele espaço, naquela espiral e nas paredes . E reverbera. Como criança, sabe ler as coisas assim e quer escutar as coisas reverberarem nela. O som das vozes. O som do remo que resvala e todo tipo de contato. Como criança, num instante vai descobrindo o momento certo de dobrar o corpo para aumentar a amplitude do que deseja dentro dela. Dentro dela. Sabe que se balançar na freqüência certa, na freqüência do que lhe parece tão natural, logo vai chegar à ressonância e obter grande amplitude de oscilação. É física e Inês nada entende disso. Intuitivamente sabe. Talvez, como se seu corpo fosse um instrumento musical. Um violão? E as vibrações do dedilhar as cordas entrando em ressonância dentro da caixa de madeira que ela é. Do instrumento que ela é. Amplificando o som e dando o timbre. Percebendo as diferentes freqüências. Girando e girando o dial para sintonizar o que escapa. Para sintonizar o que quer dentro. Variando as correntes elétricas (se existem) e captando aquela energia. Talvez por isso Inês prefira o estômago vazio. Nada que possa alterar a frequência natural de seus órgãos internos e quebrar a ressonância. Inês é mulher que quer as coisas por inteiro. Por inteiro. Até mesmo se o dedilhar durar meio segundo. Respira e reverbera.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

FEROMÔNIOS?


Ela caminha pela calçada. Olha. Acelera o passo. Desacelera. Sente o sol e sorve cada verde que chama sua atenção. Ora se deixa levar por impulsos, ora pisa com cuidado e vai sentindo o caminho. Os vieses do caminho. Pressente sustos. Quase corre. Por vezes parece que esquece. Sabe lá o quê. Espreguiça e outra vez recebe o sol. O quente do sol. Vai respirando de novo os verdes. O tipo deles. E também as flores. O aroma delas. Deve enxergar por dentro do que chega até as pequenas narinas. Até o DNA. Cumprimenta amigas na passada. Também seus desafetos. Dá atenção. Desdá. Perde-se outra vez. Vai, volta, para e vai de novo. A mesma determinação para um lado e seu contrário. Saberá aonde vai? Importa isso? Importa é que vai. É então que vê o amor. Se ajeita, se apruma no passo. Olha o amor estampado nos olhos. No porte. Na imagem do “pirata”. Na brisa que traz o cheiro dele pra ela. Ela respira o cheiro. Desapruma. Parece toda na fresta. É tudo isso ou sei lá o quê que a faz atravessar a rua e ir até ele. Ele que só olha. Estacado olha. Olha e espera. Parece sentir amor igual ao dela. Do mesmo tamanho. E como parece grande o amor que estampam nos olhos. No brilho deles. Quando ela chega, ele colore. É pavão multicor que desalinha em danças. Faz de um tudo para chamar sua atenção. Cairia nos seus braços se pudesse. De súbito chega bem perto. De susto ela recua. Volta. Vira. Quiçá ele a pegasse de súbito. Se querem e se assustam um com o outro. É controverso o amor. Agora é ela quem se aproxima. Ele apruma. Prepara o desejo desarrumado. Avança sôfrego e de novo para. Ela estaca. Ele esbarra no alambrado que impede. Quase uiva. Ela quase uiva. Quase chora. Olha pra mim. Raspa e raspa a grama sob seus pés. E de novo. Lascas de grama espirram no branco do outro pêlo. Agora é ele quem raspa. Raspa e raspa a grama sob seus pés. Os dois pisam na mesma grama separados pelo alambrado. Tentam fazer que espirre o cheiro de um no outro, que cole, agregue. Que desconstrua o que impede. Que possa amalgamar. Eu olho os olhos dos dois. Enterneço. Até em mim a grama espirra e me coloca no confuso do estado. Bem no meio desse amor. Nem sei se é por mim ou por ela ou por ele que eu puxo a cordinha da coleira. Vou puxando e vamos saindo da grama e alcançando o duro do asfalto. O caminho sem tropeços e onde a gente pode correr. E a gente corre para fazer a travessia e alcançar a outra calçada. Ela me puxa ou eu a ela. Sabe lá. Sei que lá do outro lado as duas tornam o olhar para ele. Grande, branco, uma mancha marrom que envolve todo o olho esquerdo. Garboso sobre as patas e o desespero. Sob o olho que ainda olha. Ela de novo me olha. Eu olho mais uma vez a cena e puxo de novo a cordinha. Ela abana o rabinho. Desentende. Entende e me segue. Eu sigo a ela e a esse adeus. Desentendo e aceito. Entendo e sigo.

domingo, 15 de agosto de 2010

Leiam PERFUME. Um conto feito na Oficina do SESC Santa Catarina em 2009. Disponível em: http://poemasclotildezingali.blogspot.com/

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

ABSORTO EM ABSURDOS


Dia desses acordei por volta de 5 da manhã. Como estava num hotel e a televisão bem na minha frente, liguei. Estava passando uma daquelas aulas do Telecurso 2° grau. Aula de desenho técnico em mecânica. Projeção Ortogonal e rotação. Comecei a olhar aquilo. O pensamento cheio de nós. Rodando perdido numa imagem insistente. Eu estava tão absorta. Acho que nada ali fazia sentido, mas por estar tão absorta, deixei meu olhar ali. Lembrei de algumas aulas do curso de Arquitetura. Desenho Industrial. Comecei a enxergar alguns cortes possíveis e consequentemente, a visão da peça por aqueles pontos de vista. Olhando assim um detalhe parece estar distorcido. Você então deve fazer a rotação desse trecho para visualizá-lo melhor. Sinapses ocorrem e começo a transferir essas informações para a vida. Para as coisas da vida. Pois não é verdade que certas vezes as coisas da nossa vida ficam com, digamos, uma alteração na sua imagem? É verdade. Dependendo dos óculos com que vemos certas coisas, descontadas as patologias e alterações do pensamento, do juízo e do diabo a quatro, certas vezes o que vemos é pura distorção. Aproveitando a técnica busquei a imagem insistente. Olhei-a bem de frente. Observei o que, esteticamente, me pareceu em desalinho. Acho até que meu inconsciente quis me impedir esse olhar. Parecia tudo tão perfeito. Tão convergente. Quase me absorvendo. Chacoalhei a cabeça, os neurônios e fixei o olhar. Depois distanciei para ajeitar o foco. Foi então que eu vi. Ali. Quase escondida embaixo da ilusão de ótica estava enunciada a distorção. Aí parti para a aplicação da técnica. Rotacionei aquele trecho em relação ao eixo para enxergá-lo melhor. Ajeitei o ângulo para melhor visualização. Fiz elevações frontais, laterais. Explodi o detalhe. E então fiz o corte. Agora eu podia olhar aquele trecho por dentro. Examinar suas partes. Entender a “peça” em perspectiva, suas diferentes visões e os possíveis cortes. Um show de pontos de vista complementares. Aí percebi as maravilhas da ciência. Com técnica ela faz a gente ver poesia onde há apenas uma peça. Descolada da sua realidade. Poderia ser desentendida inclusive por isso. Por despertencer. Mas dependendo dos olhos que você põe sobre ela, você a localiza no tempo e no espaço, enxerga seu movimento e ela vai deixando de ser peça para ser componente de algo. De algo que tem uma função. Entender a peça no seu contexto é amá-la e amar uma coisa é perceber isso. Perceber que sem o contexto, a coisa é simplesmente acúmulo de átomos. Contextualizada ela passa a ser um acúmulo organizado. Tem função. Tem razão de ser. Eu idem. De certos pontos de vista sou somente acúmulo de átomos. Mas olhando a coisa desse jeito eu ganhei contexto. Virei pessoa que manipula a peça e enxerga seu bonito. Tudo isso porque eu estava tão absorta. No mais, continuo por aí. Como se eu pudesse tocar alguém com a palma da minha mão, com a superfície dela e a alma, e ampará-la caso caísse. Mas certas vezes nada pode ser feito. Há um silêncio por demais grande e desmedido. Há planetas e peças e pessoas e coisas que orbitam em diferentes eixos e jamais se comunicarão. Cada um absorto no seu absurdo. E então a gente canta. É como diz aquela música: “pois cada um é cada um, no desejo e no sonhar”.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

REMINISCÊNCIAS DE UMA PELADA

REMINISCÊNCIAS DE UMA PELADA


Oi Luís. Ontem falaram de você lá no boliche. Foi uma conversa de que não participei. Falo isso porque quero dizer que apenas escutei um rabinho da conversa. Quando escutei seu nome senti saudade, sabia? Tanta, que acho que esse tempo todo estive disfarçando. Não que eu goste, mas é o que se pode fazer. A verdade é que tenho saudade de você e ponto. Ponto. Ponto para eu abrir um novo parágrafo ou simplesmente continuar exatamente de onde parei. Sabe onde parei? Nunca, um dia sequer, eu não senti saudade. Ficou um vazio enorme e eu coloquei uma porção de coisa no lugar. Tanta coisa. Fiz até um doutorado. Muitos sonhos acalentados. Distrações várias. Muita distração para tirar o foco de luz da saudade. Eu precisava “jogar” você pra escanteio. Recomeçar o jogo depois da bola ter violado a linha. Mesmo pelo ar. Isso é escanteio, certo? Escanteio é de onde surge a possibilidade de alguém fazer gol, não é? Pois então. Passei essa bola para alguém bater e saí da frente da televisão. Nem vi se foi certeira pro gol. Foi? Sei lá. Nem me conte. Eu é que fui pra escanteio e acho que estou lá até agora. O escanteio virou limbo. Limbo, que é o lugar onde a gente fica em estado de “pause”. Só os ponteiros no relógio andam e a cena fica lá. Paradinha. Agora, sei lá quem foi que desapertou o botão. Eu nem percebi como. Quando vi estava no canto do campo, a bola ali pedindo pra ser chutada e o maldito “pause” dentro de mim. Dentro de mim. E de novo tenho opções em demasia só para piorar o confuso do meu estado. Acho que não te coloquei pra escanteio. Eu fui pra lá. Pra esse canto do campo onde botam fé na gente, esperam um chute certeiro. E que alguém pegue de rabeira e faça o gol. Eu não chutei com garra e fé. Sequer fechei os olhos e chutei. Não aleguei contusão. Não veio maca. Eu simplesmente deixei a bola pra outro. Desisti. Desistir é verbo de ação. Ação de quem não age. De quem prefere fugir. Eu quase vi seu rosto naquele momento. Um certo alívio misturado a uma certa perda. Será? Confesso que senti um enorme alívio. Pensei ter adentrado o paraíso – espaço qualquer sem rastro nenhum da sua ausência. Sem a presença da ausência. Dias bons aqueles da sua ausência. E agora? De onde vem essa lembrança do som da sua voz? De onde vem para me invadir assim? Me fazer descobrir que ainda estou sob o aperto do botão. No jugo. No canto. De novo com a bola no pé. Você ali no meio. Quer que eu chute pra você meter o pé e fazer o gol. É você quem quer fazer o gol. Eu quero chutar pra você. Quero? Quer saber, Luis? Tô tirando meu time de campo. Fica você com o uivo da galera. Com o êxtase do momento. Chama o juiz. Pede cartão vermelho. Surta de verdeamarelo dentro do campo e me esquece. Vê se me esquece. É só um jogo. Só uma bola rolando. Tinha graça eu adorar o som da sua voz, o seu sorriso, o seu beijo molhado e deixar a bola metida dentro da rede? Eu preciso mesmo de um bom tiro de meta. Reiniciar essa partida do zero. Afinal, a bola saiu completamente do campo pela linha de fundo. Sem gol marcado. E o último toque você sabe de quem foi. Isso não se pode negar. Então tá falado. Eu fui. Se não tiver bom pra você, reclama lá com o cara de preto. Na dúvida, ele apita.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

CARTA PARA OSWALDO


Oi Oswaldo. Fui embora, amor. Não dava mais, não. A canoa já andava repleta de furos, a gente sabe. Mas a gente fazia de conta que não. A gente, não é, Oswaldo? Esse bendito curso de verão que estou fazendo me mostra que pra falar de si próprio tem que dizer EU. Porque senão fica esse negócio enrolado: a gente isso, a gente aquilo... que é isso, né Oswaldo? Acaso tem um batalhão atrás de cada um? Uma turma que “acompanha” e compartilha nossos pensamentos? Que dá a força que um só não teria? E aí vira essa “entidade” endossando a opinião que pode ser só de um. De qualquer modo eu fui embora. Eu vejo, Oswaldo, que tem coisa que não tem explicação “biopsicosocial-espiritual” além da compreensão possível que a gente possa ter. Ó! De novo. Que eu possa ter. Mas eu entendi, viu? Nem que amanhã eu tenha que desentender tudo. Não adianta tampar o sol com a peneira. Os raios estão por toda parte. Vê Oswaldo? Sei lá. Eu acho que não. Eu? Eu quero ser feliz, né Oswaldo? É você que é todo organizado, compenetrado e cheio de um rigor científico que eu fico até sem saber como entrar. Falar “Oi. Estou aqui”. A gente – desculpa - eu, faço tudo que posso para dar vida às coisas... até usar sabonete íntimo afrodisíaco eu uso, Oswaldo. Mas você... Pegada, Oswaldo. Te falta pegada para chegar junto e me juntar num canto. Sabe lá, né? Vai ver anda se enchendo de sonhos românticos e cheios de rigor. Eu quero é vigor, Oswaldo. E eu nem sei como te falar tanta coisa... Por isso mandei essa carta pro jornal. Quem sabe você lê e vem falar comigo. O que não dá é para desistir. Ficar aí ensimesmado. Cheio de silêncios e pontas. Silêncios e obtuosidades tontas. Eu, hein! Como disse o mocinho no final: O que fica é a certeza do convite. De querer ser feliz. Você quer? Quer pensar naquilo que nos move? Os músculos? O cérebro que comanda os músculos? Ou o coração que nada sente, mas que se parar, a gente morre? Sabe lá. É como me disse um amigo esse final de semana: “Viver dá um vesgo na gente”. E eu achei tão poético. “O amor é filme”, Oswaldo. “eu sei pelo cheiro de menta e pipoca que faz quando a gente ama”. E é aventura sem tamanho estar vivo e aqui e agora. Agora... as letrinhas “the end” que aparecem no final é outra coisa. E quando é que termina? Quando é que “dá certo?” Uns dizem que no final tudo dá certo. Senão não é o final. Eu fico com o sinal de “dois pontos” que Clarice Lispector dá em Felicidade Clandestina... Fico com a surpresa a cada respiro. Deixo você com seu castelo de minúcias. Torcendo para que um insondável efeito dominó a tudo devaste sem piedade. Que reste só você e o recomeço. Você e as possibilidades que deixou passar. Que dessa vez você as veja. Eu, Amélia fui.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

PASSEIO NA CHUVA

Dia desses resolvi dar uma passeada na chuva. Tudo - friozinho, chuva fina e constante, soninho de depois do almoço, uma pilha de coisas para ler, trabalhos para a faculdade, a crônica da semana – me pedia para ficar mesmo em casa. Apontava essa direção. Acontece, porém, que gosto muito de caminhar (e os últimos dias não tinham permitido isso), de modo que, qualquer coisa entre criar coragem e já estar um pouco predisposta, enfiei o pé no tênis (invenção danada de boa pra caminhar), passei a mão no meu guarda-chuva e tranquei a porta atrás de mim. Todas as obrigações ficaram e eu fui.

Comecei a caminhada escolhendo ir de escada. Desci lá os exatos 70 degraus. E saí na chuvinha. Já na rua comecei a pensar nas peculiaridades desse objeto: o guarda-chuva. O meu é fantástico porque é transparente. Eu que sou uma moça olhadeira preferi esse na hora da compra porque poderia olhar pro céu de quando em quando, ver nuvens, relâmpagos, raios. A própria chuva que pinga forte ou devagar, grossa ou fina sobre ele e você vê isso e vê também a água escorrer pelas bordas. Mas eu nem precisava de guarda-chuva transparente para ver outras coisas que vi pelo caminho.

O bacana de fazer coisas diferentes é que tem todo um olhar novo que você coloca sobre as coisas que normalmente vê. São outros pontos de vista em você mesmo. Porque nem sempre as coisas mudam, é você que pode mudá-las (ou não) colocando um olhar diferente naquela mesma direção. Os calçamentos quebrados da Blumenau e da Dr. João Colin, por exemplo, como sou moça andadeira, bem sei que estão lá há bastante tempo. Com a tal chuvinha, imagine... poças e poças pra gente desviar. Ou meter o pé de forma distraída e molhar o sapatinho. Ou torcer o pé! O cruzamento da Benjamin Constant com a Visconde de Mauá já é um desassossego em dias de sol e noites de lua, pense com chuva! É preciso um semáforo urgente – já perdi a conta de quantas vezes corri para a sacada ver mais um acidente. Foram muitos motoqueiros no chão. Gente correndo, triângulos no meio da via, socorro, guincho... Se não for instalado um semáforo ou ao menos um redutor de velocidade, talvez se possa pensar num ponto fixo para um carro do SAMU. Mas enfim, também tem coisa boa. No caminho fui me encantando com meus companheiros de passeio. O alinhado homem com terno e guarda-chuva pretos. A linda senhorinha com sombrinha marrom cheia de minúsculas flores em rosa e verde. O acessório combinava com a calça marrom e o casaquinho bege. Uma graça a senhorinha.

Já lá no centro, a confusão de transeuntes com seus acessórios. Há que ter certo cuidado para desviar o objeto do rosto das pessoas que passam apressadas. Eu por vezes levantava o meu e deixava aqueles que vinham irredutíveis passarem ao largo (alguém tem que ceder, não é?). Mais lá na frente, quando a chuva deu um sossego, uma mulher com sobretudo 7/8, sapato bom de andar tipo aqueles “calçados Vulcabrás” que eu via em propagandas quando era criança, uma bolsa toda cheia de compartimentos, com presilha para guarda-chuvas e o guarda-chuva preso lá. Um charme de mulher “efetiva”, pronta para sol e chuva e para andar! Já na volta uma moça chama minha atenção com seu acessório: Um guarda-chuva branco com algumas pintas pretas e, pense leitor: duas orelhas! E divertida cruzou a via na faixa. Uma graça.

Já na rua de casa peguei a chuva de frente. Inclinei meu objeto transparente e vi aquilo chover em mim sem me molhar. Vi os carros quando mudei de calçada e as pessoas que passaram por mim. Vi até o portão de casa por onde eu ia passar e logo logo tomar um cafezinho quente e degustar a aventura do passeio. “Certos dias, de chuva, nem é bom sair de casa e agitar. É melhor dormir”. Ah. Guilherme, hoje eu tive que cantar sua música sem o NÃO e também tirei a parte do “dormir”. Eu tentei e aconteceu. Valeu!

domingo, 18 de julho de 2010

INTERAÇÕES

Agora que o encaracolado do cabelo começa a tomar forma, que os cachos passeiam sobre minha pele e as roupas sobre meu corpo têm a graça de uma criança arrumada pela mãe (exceto pelos lacinhos e tiarinhas); me encontro como aquela amiga; também pensando seriamente em tomar suco de formol com aloe vera. Preciso de flexibilidade, amiga! Há algum jeito de se conseguir isso sem essa garrafada? E minha pele? Está gritando por um tratamento de choque! Eu penso em tudo que Tiago não faz, não diz, não sente. Ele é não. Não, não... Ele não é. E eu fico sempre boiando nesse assombramento. Ele entra, sai, vai embora, desaparece por quatro meses e sempre reclama do cachorro quando volta. Reclama do cachorro, mas é ele que não sai do banheiro sem deixar no chão resquícios de si. Será tão difícil assim mirar o vaso sanitário? Digo, acertar a mira? Por isso e por tudo que não falo eu pedi para ele ir embora de uma vez. Assim simples mesmo. Como quem pede uma pizza. E disse pra ele: Minha casa é casa que tem cachorro, sem dúvida. Mas não tem porco. Agora não tem mais. Minha amiga diz que tenho um “corpo-aquário de vidro”. Acho tão bonito. Diz que sou um oceano de informação-tensão-desejo, mas que no cotidiano só se deixa ver peixinho de aquário. Diz que sou como um livro com absurda quantidade de feromônio inundando cada página. Será? De qualquer modo mandei Tiago embora. Mas minha casa ainda tem cheiro. E cheira sexo. “Não é nada palpável”, minha amiga diz: “Nada que se aponte. Talvez mais para a ideia de um quarto de motel, fartamente usado, lençóis impregnados, toalhas úmidas, resquícios de toda volúpia que houve ali e que se mantém. Mas o que resta é cheiro.... Essa coisa que é senão gatilho para a memória. Me lembro de desejos equivalentes que tive e retive. Dos olhares que também fingi não dar e daqueles lancinantes capazes de desvirtuá-lo. Me lembro de sons de lençóis sob corpos agitados, de respiração arfante, sons de sussurros”. Ah...minha amiga, isso é conversa de “closet”. Conversa com sensação de calor, profundidade, amorfa. Conversa que vai esvaindo, escorrendo.... Conversa “magma” - lava, vulcão, jato, uma coisa forte, quente, perigosa, vermelha, amarela, laranja, atraente, brilhante, letal, destruidora, formadora, imponente, respeitosa, temerosa, dolorida. Ah! De novo, seja como for, ela lembra daquela pizza que comemos, onde estava tudo tão escuro mas a bicicleta era amarela! “Eu, por mim vou até o cabeleireiro esse final de semana: fazer uma francesinha branca sobre o azul nas mãos, quase não vai chamar atenção”. E aí me conta que o escritório para quem ela presta serviço pediu um orçamento de projeto. Diz que a coisa é mega. Um canteiro para 200 homens no caminho para um lugar chamado Rurópolis. No meio do absoluto nada. Fala sobre as implicações logísticas e que ela deu o preço, mas tem certeza que eles arranjarão quem faça por 1/4 do valor. E conta também que a hidrelétrica fez contato com ela. Diz que se ofereceu e que eles não aceitaram sob a alegação de que é qualificada demais para o serviço... Eu digo para ela que eu preciso mesmo arranjar um namorado! Que estou quase latindo de tanto conviver só com meu cachorro. E então a gente ri fartamente.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

POEMA NA CIDADE

POEMA NA CIDADE

Caminho pela cidade. Entre o monóxido de carbono e as jardineiras espalhadas estou eu e todas as pessoas que caminham. Ora apresso o passo e ora me perco. Olho a bolsa na vitrine. O cachorro que cheira cada milímetro da calçada. Eu caminho entre a multidão. Parte que vai. Parte que vem. Sou figura e sou fundo. Consciente e inconsciente. Destaco-me da multidão ou misturo-me a ela. Anônima. Entre o lixo e o luxo. O cheiro de urina pelas ruas e mamões, bananas, laranjas e feirantes que gritam. Apelam-me ou ignoram-me. Coleciono pedaços de papel até a próxima lixeira: cartomantes, dinheiro vivo, promoção de produtos para limpeza, como tornar meus dentes mais brancos em 5 dias e cursos que podem salvar minha vida e me dar um lugar no mundo. A mim que, ora leitosa e fluida e ora revestida de couraças, sigo pelas ruas. Se me destaco, sou figura; se me diluo, sou fundo. Para quem? Quem sou eu na rua em que passo, atravesso, detenho-me e suspendo ante o passante e o cachorro? A senhora de bengala ou o carro que atravessa em alta velocidade? Meu perfume fica para alguém? Outros perfumes ficam em mim. Do homem que passa com o cigarro. Do mendigo que carrega sua trouxa-casa. Da moça que passa mordendo uma coxinha. Do frango da coxinha misturado ao perfume dela. Eu vou. Eles vão. Cada um segue seu caminho. Acomoda seu passo ao da multidão apressada e em alguns momentos, altera o fluxo dessa mesma multidão. Alguém com bengala e certa dificuldade de passar por obstáculos tantos muda o ritmo do passo e o fluxo do pensar. E eu vou sendo em cada coisa que me detenho e que detém a mim. Cada poça. As folhas sobre o desenho do piso. As ondas lá do mar que estão sob meus pés. A cor dos carros que passam em alta velocidade. Nasci aqui. Eu faço parte daqui. De tudo que me cruza e arrebata. De tudo que não me nota e me permite ser ninguém. Não há nome nem sobrenome. Há apenas a sobrevivência. O conseguir, entre o ir e o vir, voltar para a casca que nos define e separa. Nos faz alguém? E ainda assim tem sempre o fundo que varia e faz emergir a figura de outro jeito. Nomeia o alguém. Ou a coisa. Todas as coisas. O moço de chapéu tomando um café. As senhoras esperando a sessão de cinema. A maquiagem. A livraria repleta de desejos estampados em páginas para alguém folhear. O caixa onde se paga por esse desejo e depois esquecer isso nas letras que formam palavras. Formam ideias das coisas. A ideia das coisas é o que destaca quem se esbarra ou não. Até aqueles que se vestem iguais. Cada um é único debaixo das cascas. É figura que se vê ou não. É fundo que se vê ou não. Eu? Nem sei o que mais desejo senão me reconhecer assim. Nua e coberta de cascas. Todos os poros recobertos da fuligem, da brisa ou da falta dela, dos papéis que me estendem e eu pego. Cada um quer um lugar. Ocupa um lugar que depende da força que se imprime nesse querer e do espaço que os outros cedem. E assim alternam-se os espaços do que é fundo. Do que é figura. Do que é estar vivo ou morto. Do que é estar aqui. Consciente ou não. No visgo do olho, no respirar os momentos ou morder a fruta exposta num tabuleiro em meio à calçada. Indo ou vindo. Vivendo e latejando. Como diz o poeta Caio Meira, “O poema está à vista. Ao alcance da mão. Transbordando no bueiro”.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

ZEITGEBERS OU fatores de arrasto

ZEITGEBERS  ou fatores de arrasto

O livro “Você Quer o Que Deseja?” de Jorge Forbes, questiona se queremos mesmo aquilo que desejamos. Faz atentar para o desejo de nos sustentar no enorme vazio que o mundo globalizado abre em nós e como podemos entender e enfrentar problemas como violência, uso indiscriminado de drogas, depressão, e tanta coisa a que estamos submetidos e que nos arrasta. Ao repetir e escutar a pergunta que ele faz me vi pensando sobre a profundidade dela. Passei a pensar mais propriamente se eu queria “de fato”, coisas que eu dizia desejar. Deparei com coisas inerentes às perguntas que eu me fazia: dúvidas, tomada de decião e escolhas. O significado das escolhas e a relação mais imediata: Renúncias! Sim, porque é como falou um alagoano a quem perguntamos sobre o caminho para determinado lugar: “Vocês seguem reto até encontrarem uma bifurcação. Quando lá chegarem, deixem a direita e peguem a esquerda”. Seguimos rindo da expressão “deixar a direita”, mas o fato é que nunca esquecemos a profundidade escondida na frase. Para pegar um caminho, leitor, é preciso “deixar” outro. E isso é que nem rapadura: É doce, mas não é mole não! Gera um estresse danado a visão da “perda de algo”. De algo que muitas vezes, não se tem. E tanta coisa pode ocorrer! Inclusive lutar para perseguir o desejo e logo após obtê-lo, desinteressar-se dele. O que aponta para a árdua visão de que nada possa ser suficiente na satisfação dos desejos. Porque seremos eternamente seres desejantes, sempre à procura do que é naquilo ou naquele que não é. Um eterno “furo” que nos configura e mantém. A expectativa de realização do desejo e não sua satisfação. Talvez daí venha a beleza da poesia. Reconhecemos o furo na imagem poética, na invenção do alheia que aponta para outro desejo: de inventar. De inventar-se. Re-inventar-se. Jorge Forbes toca nisso em seu livro: nessa possível “não-evitação de contato” do artista com a decisão. O artista talvez não a evite. Ao contrário: busca atravessar a fronteira, busca estar ali, bem no meio da bifurcação. Não evita a decisão ou a dor que decorre dela, mas instala-se lá. Na nevralgia. Lá onde os músculos se estendem e ultrapassam seu potencial de estiramento. No vivenciar o “arrebentar-se” inventa novas tensões. Altera a física, a química e a mecânica. Altera as possibilidades. É aí que pensei e fiz uma analogia com uma coisa que achei danada de bonita: zeitgebers sociais. Zeitgebers são fatores externos ao relógio de natureza rítmica que arrastam ritmos biológicos. Vem do alemão, Zeit=tempo; geber=dar. O ciclo claro-escuro é um exemplo. Zeitgeber social refere-se, então, a um conceito de ritmo social, aquele que é determinado pelas interações sociais de uma pessoa ou imposto por convenções sociais: “Vá para lá. Você deve fazer isso. Seguir por aqui. Ir por ali. Fazer desse jeito.” E o mais legal: zeitgebers sociais alteram zeitgebers biológicos e finalmente, alteram nosso comportamento. Por isso também se nomeiam “fatores de arrasto”. Algo que vem e detona uma mudança. FATUM. E onde isso ocorre com mais freqüência? Ali, bem na bifurcação, é um exemplo. Onde o estresse age, mudanças fisiológicas nos tomam, pressões sociais nos arrastam e lá vamos nós para o estiramento, para a angústia da escolha. Direto para a pergunta do autor: “Você quer o que você deseja?” Tentar responder a essa pergunta é o que podemos fazer quando imersos em fatores de arrasto de toda ordem. Se não podemos evitar nem a bifurcação e nem o fluxo, podemos silenciar, escutar o “dentro” e tomar a direção.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

FLUXO DE IN-CONSCIÊNCIA

FLUXO DE IN-CONSCIÊNCIA

Eu escrevo sobre coisas que não sei para saber delas. Descobrir. Também a mim. Porque daí “A gente não escreve um livro. A gente se livra dele.” Então eu escrevo e vou me livrando daquilo tudo. Até de mim. Daquela que escreveu e já não é mais. É outra. Penso isso descascando uma tangerina. Espirra na minha pele o perfume com fixador made in natura. É bom. Mas preciso lavar as mãos muitas vezes depois. De todo modo, vou soltando um a um os gomos e pensando na herança. Na genética. Vou sendo enquanto escrevo e então vou deixando de ser, afinal, está escrito. Eu me livro disso e posso me escrever outra. Falsear. Nesse fingimento que nunca se acaba vou me vendo furo. Cheia de abismos. Uma fraude. Uma ficção que crio e onde me enredo. Sou DNA e sou livro. Sigo sendo a partir dos olhos que me olham, das mãos que me folheiam e me tiram da estante. Me colocam de volta ou me largam sobre a mesa. Quando tornam a mim já sou outra. Cada vez uma. Gosto ou não de ir até o fim. Vou decidindo se como a caixa inteira de bombons ou um só e ainda largo um pedacinho. “Não gostei”. Decidindo o tempo verbal pra esconder a paixão. Jogar num cantinho e dizer: me esquece. Aí vem aquela fulana me dizer pra eu não colocar minhoca na cabeça. Será que você não sabe que para isso é preciso fazer uma cirurgia? Hein? Ela me olhou assustada quando eu afirmei assim bem afirmado. Depois deu uma gargalhada e saiu. Tonta. Ela é muito tonta. Eu bem sei que minhocas entram pelo nariz: é só respirar que elas vêm. Uma ninhada delas. Cirurgia precisa pra tirar. Procedimento feito em salas escuras. Sem anestesia. Com fórceps. E ainda tem esse cara que me sonha. Essa instância psíquica que sabe mais de mim que eu mesma. Pode isso? Mas deixa.... Eu te pego na curva. Te leio imagem em cima de imagem. Transformo em palavra em cima de palavra. Associo. Encadeio. Vira texto na minha boca que fala sem parar. Eu vou interpretando e descendo. Interpretando e descendo. Você não sabe, mas rondo seus escuros, suas sombras. E sabe o que faço? Te escrevo e você mesmo vira outro. Vira até mulher. Bárbara, Patrícia, Mara. Vira Eduarda. Eu te lapido e apelido. Duda. Eu te digo: Sou mais que uma porção de palavras enredadas num livro. Mais que moléculas empilhadas nessa ou naquela ordem. Eu é mais. Eu é ser que finge. “E finge tão assustadoramente, que finge acreditar no que deveras sente”. Dionisicamente. Apolineamente. Ou numa alquimia sem revés. Não importa. Não tem pudor. Portanto, Duda, você não assusta nem comove. Eu te escuto sem estetoscópio. Te enxergo sem radiografia. Te fatio. Te ultrassono. Te metabolizo. Eu é mais. É timbre. Tilinta e constrói com as palavras. E mente, assustadoramente. É você, Eu, ele, ela ou simplesmente um cachorro espreguiçando na calçada. Nada está separado. Nada é instância estanque. Que não se mistura. Eu é alquimia, e entre um bombom e outro, vai a cada segundo decidindo se vai comer a caixa inteira ou largar para as formigas. E se elas vêm, acata. Convive com elas. E as minhocas.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

BÁRBARA

BÁRBARA

Bárbara descobriu o pior de si. É dissimulada. Mentirosa. Gosta de ter as coisas sob seu controle. Isso dá a ela algo muito valioso: segurança. Gosta do poder que a segurança lhe dá. Gosta de ver a movimentação das pessoas em torno do seu halo. Ela é o sol. Irradia luz e capta para si íons, nêutrons e prótons que gravitam em torno. Gosta de fazer alquimias. Misturar essa química toda para ver no que dá. E como ela se sente grande! Não é má. Bárbara não é má. Apenas arma estratégias, estratagemas, esquemas, cenas, cenários e aprecia o desenrolar. Por isso sempre admirou manipuladores de marionetes. Ela manipula. Os outros se encantam. Deslindam pelas teias que tece. Bárbara é aranha e prefere o devaneio ao sonho. No devanear ela está no controle. No sonho, quem sonha Bárbara? Por isso sai todas as tardes. Observa outras personagens femininas. Passeia por cada mulher. Cada uma um mundo que ela descortina. E vai ganhando tamanho. Por isso se identificou com a gorda do escritor. Ela própria a gorda. Gorda de tantas mulheres em si. Agora que tem consciência sabe que tem todas dentro dela. E assim ela passeia. Por isso lhe ficou na mente a frase da amiga: eu duvido um pouco de quem passeia bem por todas as esferas. Era a imagem de si própria. E a outra frase dela: você se veste e se porta de um jeito que não é bem o que lhe vai por dentro. É isso. Bárbara falseia e passeia por outras mulheres. Por seus íntimos, suas superfícies. Pelo que está contido e pelo que transborda. É por isso que as admira. Um pouco de cada uma delas a compõe. Pensa qual delas deverá assumir. Ela precisa se assumir. Precisa? Ela não sabe ainda. Por isso anda quieta. Fala apenas pelas palavras que escreve no caderno verde. Um dia amadurecerá? Ela não sabe se quer amadurecer. Para que? Que cobrança é essa? Quem está cobrando? Ela própria, decerto. Mas ela se ama do jeitinho que é. Diverte-se. Aprecia os desdobramentos de suas palavras, de seus atos. Observa e entende. Reflete. Confirma. Pensadora e cientista de si e do mundo. Às vezes pensa no que lhe escapa. Não sabe. Talvez seja o próximo passo depois da diversão. Competitiva. Reconhece-se a cada dia e apaixona-se. Tal qual Narciso. Adora espelhos e personagens. Ela mesma personagem do grande teatro que é a vida. Desliza suave. Talvez por isso não sinta dores, sequer o peso da vida. Adora a coxia onde tira peça por peça de roupa e de novo é ela. Nua. Depois veste outras e mais uma vez, sai. Exercita outras. Bárbara é sempre outra. Tiradas as roupas esvanecem os papéis. Então ela se tatuou. Agora é inscrita por ela mesma. Nua, inscrita e assinada. E assim segue brincando com a vida que alguns chamam de madrasta. Bárbara não acha. Só a mãe é capaz de desajustar seus entendimentos. Confunde-a sua mãe. Por isso gosta de máscaras. Chapéus. Mantos e véus. Esconde-se de si. Das mulheres tantas que é e de outras que não pode ser. Chora comovidamente. Olha no espelho os olhos vermelhos e aguados. Perde-se e já é outra. Pergunta a si mesmo se é uma fraude. Sorriem os olhos molhados.



quinta-feira, 10 de junho de 2010

QUE TAL UM RAVIOLLI?

QUE TAL UM RAVIOLLI?
Já tem alguns anos (muitos anos) preparamos raviolli. É sempre um acontecimento. Começa quando decidimos que vamos fazer. Cada vez é um de nós que lembra, os outros se estimulam e acontece. Tudo começou com meu sogro: quando íamos pra São Paulo vê-lo, pedíamos: vamos fazer um raviolli? Ele olhava pra gente com um sorriso maroto e pronto – estava decidido. Fazíamos juntos a massa, o molho e o recheio de ricota e espinafre enquanto ele contava suas histórias e canzoni italiane de fundo nos embalavam. Um dia resolvemos fazer para nós mesmos. Meu marido e eu. Lembro bem de uma vez em Curitiba. Ele veio de São Francisco do Sul, onde trabalhava, chegou em Curitiba por volta de nove da noite e disse: vamos fazer raviolli? Eu disse: vamos! Não tinha nada em casa. Fomos até o mercado ali perto, compramos farinha, carne moída, ricota, salsinha, cebolinha e tomates para o molho. Cebola tinha. Naquela minúscula cozinha começamos o trabalho. Fazer a massa. Preparar o recheio, o molho. Uma viagem. Antes da meia-noite, ceamos. E ainda sobrou um tanto pra congelar. (É uma delícia tirar do freezer raviolli feito por você, prontinho pra comer). Agora, faz um tempo que estendemos essa atividade para São Francisco do Sul e os amigos daqui. Quem nos conhece sabe. Uma vez por ano, no inverno, tem raviolli. Até cobrança já tem. E o raviolli? A gente podia fazer! Pronto. E lá vamos nós: o dia é marcado, compramos os ingredientes, calculamos o tamanho da festa e exageramos um pouco para o meu congelamento. Riem de mim, mas continuo tirando onda, congelando no dia da festa pra durante o ano, ir degustando a continuidade desse prazer. Todos envolvidos: um descasca tomate, outro prepara a massa, outro estica e vai revezando porque esticar a massa destronca o corpo inteiro! O molho começa a cozinhar por volta das 11 horas e segue até 4, 5 horas da tarde (quanto mais tempo no fogo, melhor). As meninas cuidam dos recheios (este ano eram 4 ou 5 diferentes!). Se revezam no cortar a massa em rodinhas, rechear, fechar os pasteizinhos e ir arrumando nas assadeiras e enfarinhando. O ano passado o recheio era um só mas a massa era tricolore: vermelha de beterraba, verde de espinafre e a básica branca. No meio da função que não cessa, papo bom, papo sério, papo nervoso, piadas e muita tiração de sarro. Milhões de papos. Coisinhas pra beliscar e beberiscar. É festa, né? Uma vez por ano é que nem aniversário. E a gente vai se enrolando, vai fazendo, vai se divertindo. Comer? Acontece sempre em torno das 5,6 horas da tarde, às vezes mais... e daí vai até onde for. Festa. No meio disso, milhares de louças para lavar, limpar a farinha que se espalha pela mesa e arredores e separar o que eu vou congelar. Claro! Já é pressuposto! Todo mundo trabalha. Todo mundo adora. E a gente come feliz. Todo ano repetindo. “Humm..que delícia” “Nossa, isso tá muito bom” “O do ano passado não estava tão bom” Nossa, bom mesmo foi aquele...” e vai. Nos irmanamos nós todos. Somos uma família com tradições. Um nasceu aqui, outro ali, uns gostam disso outros daquilo. Enfim, cada um de um jeito. Mas entre as coisas em comum temos isso. É uma das nossas tradições. Uma de nossas alegrias. É tão bom que quis dividir com você. Mangia che te fa bene!. Experimente.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

CRONIQUETA PARA VIRGÍNIA, VIVIANE E AS LINHAS

CRONIQUETA PARA VIRGÍNIA, VIVIANE E AS LINHAS

De novo é junho. E já que me pediram para falar de amor eu digo: Além da constatação de que nada mais posso fazer além de escrever, só há uma vontade enorme de estancar tanto ruído. De olhar dentro dos olhos e me deixar ficar lá. De novo é junho. Nem importa tudo que eu poderia falar: as chuvas que se avizinham, o frio do sul e as perspectivas para a próxima meia hora. Tudo isso porque, já que me pediram, de novo é junho e eu não tenho outro assunto que não seja o meu cansaço e a vontade de falar de amor. Do tecido que cobre minha pele e que quero desmanchar. Trama por trama. As paredes que fazem a casa onde estou dentro e meu desejo de vê-las ruir para estar só. Tudo quer voltar. Até os passos que não dei aos 2 anos. Até as mãos nas cordas do violão tocando musiquinhas do Roberto Carlos. As linhas me trouxeram até aqui e eu estou dentro delas. Estou dentro das cordas do violão. E nas linhas do tecido. Elas levam ao infinito e eu estou dentro delas. O caminho para o infinito é cheio de bordados, desenhos no tecido que eu tenho que desfiar. Estou costurada nas paralelas. Dentro do buraco da agulha. E o amor que sinto (e que pareço não sentir sozinha) desejo que corte. Que seja faca, tesoura. Que corte o tecido bem no meio das linhas e me deixe pendurada nas bordas. Tudo que penso é ver parte do tecido no chão. Eu desfiada na ponta da agulha. Eu ressonando no timbre das cordas e a música me embalando. Canção de tardes e noites. Eu reluzindo dentro dos olhos. Eu bordada em osso. Bordada em carne que as mãos tocam. Vibrando feito música. Nada muda a verdade bordada e tocada. Dedilhada. Seja de que jeito for: pinça, bucha vegetal, óleo medicinal, as pontas dos dedos e até as unhas. Banhos de imersão, agulha, alicate de cutícula e também pomada para calos: Nada pode arrancar o desejo que formulo e grafo em cada centímetro de mim. Talvez se eu dançasse, eu amolecesse e fizesse escorrer as letras. Talvez elas se soltassem e levassem o desejo com elas. Talvez o desejo criasse um poema e o poema desse novo sentido às palavras. Até para a palavra desejo. Até para a palavra talvez. Talvez. Esse meu amor pelo que pode haver em você me desnuda. Te pensa casa. As janelas rangendo e eu molhada no alpendre pedindo pra entrar. Porque não me abraça cordilheira? Me transborda? Me atinge enquanto desesperada tento me segurar em galhos que vão se arrebentando? Um a um. Estou farta de ser construção e não estar livre de hecatombes. De carregar essa gravidade nas costas. Eu te empresto meu pincel. Me pinta. Se mistura comigo. Estou farta de rodopiar de um canto a outro da casa. De não escutar outra voz que não seja a minha e de estar assim: cheia de pressão. Estou farta de escrever farpas na pele. De ter os peitos inchados todo mês e a cabeça inchada de palavras. E de ver isso vazando de mim. Delatando um estado de profundo silêncio que eu enfio no buraco da agulha e bordo, que eu enfio no fio da navalha e corto. Um estado de desvio e nódoa. E tudo isso porque é junho, leitor. É junho. É o meio entre janeiro e dezembro. O meio entre o calor que acaba e o que virá. Entre o sim e o não. O não e o talvez. Talvez.

Postagem em destaque

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

http://metropolitanafm.uol.com.br/novidades/entretenimento/imagens-incriveis-mostram-a-realidade-das-bailarinas-que-voce-nunca-viu...