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A REVOLTA DE MARIA


Maria é moça de muita candura e delicadeza. Tão singela que Jair tem medo de tocar. Tem medo dela desmanchar. Ela diz para ele que isso tudo é fachada, que por dentro, é pura fortaleza. Ele estranha. Há, de fato, muita coisa que lhe escapa. Por exemplo: as respostas inadvertidas. Nunca consegue sabê-las. Nunca está preparado quando Maria as dá. Assim mesmo: sem a menor delicadeza e no meio daquela candura toda, ela solta a farpa doída que o atravessa. Jair pensa sobre isso. Conversa com os amigos. Pede a Maria que olhe com cuidado para isso, que entenda porque reage assim. Ela desacata. Diz a ele que o que causa estranhamento em si é a doçura que ele contempla. O sorriso que escapa da boca e ela não quer dar. O espaço que ela abre e não quer abrir. Houve um tempo em que sentia mesmo certo estranhamento quando isso acontecia. Vinha de dentro, de sabe lá onde, e irrompia. Mas agora sente que isso passou. Sabe que não quer conter a volúpia dessa vida escondida debaixo da candura. Aliás, candura que ela odeia. Vontade mesmo, ela tem de mostrar os dentes. Jair diz: sorria, minha prenda. Se quer mostrar os dentes, sorria. É tão doce o seu sorriso. Maria olha Jair bem dentro dos olhos que lhe pedem a candura. Pensa o que ele quer, de fato, com esse pedido. Advinha que ele não quer ter que se bater com seus dentes. Seus caninos. Mas Maria quer o confronto. Já não agüenta a docilidade que grudou nela e compõe a cara que ela tem e Jair adora. Não agüenta mais a meiguice que a habita e não lhe pertence. Não lhe pertence. Maria sabe seus espinhos. Cultiva-os. Sabe também que é preciso encontrar a justa matemática. Mas não agora. Por ora desespera-se com tanto sorriso que lhe vem de dentro. Pergunta de que entranhas vem. De que entranhas? Esse sorriso que chega na boca e suaviza o passo de quem olha para ela. Quer agora que suavizem o seu passo. Olha Jair e vê isso nele. Um desejo de que ela seja travesseiro, colchão, espuma qualquer onde ele possa afundar o peso de seu corpo e lá deixar sua marca. Lá moldar-se. Maria não quer mais ser espuma que se molda facilmente com o peso dos corpos. Quer ser tábua. Incomodar e forçar mudanças de posição. Lá dentro da candura que Jair vê e deseja mais e mais, ela quer o susto. O desconforto do outro para variar um pouco. Dentro de si ela sabe. Deseja, na justa medida, se destituir da maciez que grudou na sua cara, no seu jeito. Quer olhar de cima e deixar fluir água, fogo, avalanche, hecatombe e o que vier. Quer ver isso passar por ela. Quer o fenômeno tal como é. E sabe que isso não pode ser lido em cartas climáticas, cartas de tarô ou qualquer outro tipo de leitura. Sabe que isso tem que assustar. Causar desconforto. Até para ela. Jair vai se afastar. Pedro, Janaína, Isaura e Bete. Mas Maria vai passar arrastando o vestido no vermelho do tapete e sorrindo na boca o desejo que a move. Todos vão saber e invejar. E ela não vai sorrir encorajando, abrindo seu espaço. Vai seguir. Quem quiser, que aumente o peso do seu corpo e procure espumas para se moldar. Maria agora vai ser a tábua que há por baixo da espuma. Osso duro de roer. Espinho. Colchão ortopédico. Quem quiser que ajeite sua casca à dela. Arrume pirógrafo, faca ou canivete e aprenda a inscrever-se na sua nova superfície. Que mude a posição quando o osso do quadril sentir que ali não é mais o seu espaço, mas o dela. O espaço de Maria. São as superfícies que se relacionam, não são? Quer sentar no pudim, José? Comigo, não!

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