quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

ANA


Demônios são coisas que se acendem e descascam por dentro. Que nem mexerica. Gomo por gomo. Sulco e bagaço. Cheiro impregnado no ar. Ana pensa nisso enquanto o olhar do médico a sabatina. Odeia esse olhar de quem nada sabe do outro e busca atribuir-lhe um diagnóstico. Repete maquinalmente o 33. Caso ele perguntasse, diria que nasceu às 17:53 de um outono distante. As folhas caindo no quintal da casa e tingindo a grama de pós-verão. Sabe o que é pós-verão, doutor? Repita 33. Horário de verão e calor sepulcral na cidade de concreto. Olhos nostálgicos castanho-esverdeados. Sente dores? Eu sou muitas dores. Inclusive as suas. Vai pensando que esse aparelhinho que ausculta nada pode saber dela. Nomear o que borbulha? Impossível. Você fica aí se escondendo atrás desse branco e nem sequer imagina o que palpita na esfera da epiderme. Ossos e músculos me carregam sobre alcunhas diversas e eu existo suturada, doutor. Aberta e precipitada. Esse aparelhinho nada dirá. Nada sabe de mim. Apenas que palpito. Ora mais, ora menos. Os sons internos do meu corpo nada dirão, exceto bobagens. Aliás, doutor, eu vomito bobagens, sabe? Exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono. Coleciono xícaras de café e na estante empilho CDs em linguagem diametralmente oposta às boas leis estruturais. Sou neurologista, doutor. Leio radiografias, reconheço lesões e nervos entranhados. Ausculto possibilidades na esfera de minha existência. Também da sua. Aspiro à fugas e insanos instantes. Sabe diagnosticar isso? Teorias mutantes tramelam seus estampidos e ecoam no aparelho metálico: 33,33,33. E tudo que sabe de mim é que meu coração bate. Meu estômago reverbera. Mas é só saliva que engulo desde ontem à noite. Simples, não é? Meus rins ressoam porque filtram toda sorte de pseudoentendimentos do que eu possa ter, do que eu possa ser. E o fígado tenta inerte metabolizar minha existência. Os órgãos sequer desconfiam que nada seriam sem o que me vai aqui, ó. Bem dentro da minha cabeça. Esse aparelho aí ausculta a cabeça, doutor? Garanto que não. Escuta. Eu só quero que me escute. Tem tempo para isso? Outro dia me internaram. Fiquei maluca com a violência da coisa. Eu presa naquela cama e aquela coisa me entrando pela veia. Aquele branco. É vida isso? Eu vim para a terra para espalhar a mensagem. Contar tudo que escuto. Os fios dentro da minha cabeça são como telefone antigo. Ligo e desligo os pinos. O tempo todo eu escuto. A minha missão é simplesmente revelar a verdade e os espaços. O eterno, o infinito. Aquilo que eu vi. Eu sei porque eu vi. E os espaços, sejam eles verdade ou mentira, são sujos. Debaixo desse branco todo aqui tem sujeira, doutor. Bactérias, vírus, papilomas. Os papilomas estão por toda parte nas mulheres. Querem-nas. Estejam onde estiverem. E eu estou em toda parte. Que nem os papilomas, as leptospiroses. Até aquele líquido que entrava em mim pela agulha era eu. Porque sou líquida, sou sólida. Eu sou imaterial. E não escondo não a minha mão. Eu mostro. Jogo a pedra e mostro a mão. O líquido quer me dopar, mas eu não quero. Querem me nomear, doutor. Mas eu não deixo. O que transborda em mim grito em palavras estampadas.

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