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Mostrando postagens de Maio, 2017

OPALINA

todo o horizonte: escama e escuma.
todas as palavras:
rotas, terras lavradas; e o barulho dentro da concha. 

tudo cabe no olhar. até o universo.

PALAVREADO METAFÍSICO-METAFÓRICO E SEM NENHUM SENTIDO PARA ENCERRAR MAIO

vou primeiro: me atiro e mergulho em meio ao susto, a cólera e os passos (mal) calculados. o corpo quase inerte na água que borbulha e se movimenta. confronto o mar. há uma hipótese até que se esgote o saldo de sinais e todo o cheiro se esvaia. deixo o vento ventar o que quer que seja. crepitar as águas. depois elas vão se incumbir de devolver as coisas aos seus lugares. até a temperatura do corpo. enquanto isso, descaradamente, eu finjo.

SOU FELIZ SÓ DE PREGUIÇA

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. – Levanta, ó dono das preguiças. É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo: -Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. -Conversa de malandro… – Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver… Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza. – Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher… – Mulher, eu? – Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira. – Que quer vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir. Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré: – Mas você, Zeca: é que n…

SOBRE SER ESTRANGEIRO ;)

Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que se estranha, um transbordar de excesso e falta. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses da descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Da “consciência prática” de estar nesse lugar; e diz que por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário.  Mesmo com tudo que escapa: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. 
Mesmo sem sair daqui, penso que tudo que falta de algum modo também arrebata. Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está atrás. E por isso "hou tian" (literalmente "atrás dia") significa o dia depois de amanhã.” O passado está à sua frente porque você consegue vê-lo. Sobre o futuro: "O futuro está atrás de você. Não se pode ver o que o futuro reserva". Gostei de o…

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS

sou palavra. entre bolores e cheiros acres, sou palavra e corto a superfície e seu dentro. faço ecos: sou sobressalto e limalha dentro da córnea.  em cada instante, quero vôo e mergulho: saco pinça, cureta, alicate, picareta. até as unhas. sou inquilina do escuro até que ele me tire para dançar. sou paixão de nascença. o tempo e entremeios sem ar. sou a coragem do que faz febre. inspiração e brônquios dilatados. por isso anfitrio o ar e o caminho enquanto (des) espero.  desdobro ante um aroma de flor e ocaso. sob o cantar dalgum pássaro e o seu vôo. hibiscus em flor. gaivotas que sobrevoam o quintal. um choro convulsivo às duas da tarde. sou diversa. permeada de hipóteses no claro das horas. depois, irônica; salto do sobressalto, e, com unhas pintadas; rodopio no meio da sala. palavra em arterial coreografia.

MARIA TEREZA

Ela mistura espanto e paz ao abrir a porta do 102. Pede, entre delicadeza e rigor, que os pés sejam limpos no capacho antigo. "A limpeza do apartamento é feita uma vez por semana e é preciso conservar limpo". Recebe visitas na sala de alguns móveis. Tudo ali tem uma história que ela sabe e conta. O feixe de luz que vem do lustre antigo cria aconchego entre as janelas semi-serradas. O dentro preservado. Lar castelo. Maria Tereza é rainha em vida. Não sei de onde sinto a intimidade. Algo que me convida e incita a estar ali. Ouvir cada uma das histórias que ela tem para contar e me deixar contagiar por um ânimo que profundamente desejo. Ter perto de 80 anos com um vigor que sinto de apenas olhá-la. Penso na história de seu nome. No signo. No ascendente. Tudo sobre a vida dela que paira na sala de alguns móveis e tanta história. Penso em quem sou frente à mulher de nome, idade e signo? "Leão". Ela diz que é leonina e procura um amor para restar nos dias. Que não import…

CRôNIQUETA DE MAIO (reeditada)

Ei, presta atenção: Vambora fazer a hora? é maio. de novo é maio. é maio e talvez não importe o que eu poderia falar: mas talvez. talvez as folhas por cair, o frio nas ruas. noites com fogueira. pinhão na brasa ou na panela e casacos no armário. talvez isso. talvez não. de novo é maio e de novo noivas, mães, e até as flores de maio. a pele e o tecido sobre a pele. o que teço. trama por trama. as paredes que fazem a casa. as folhas que entremeio caem e as coisas que entremeio voltam. campos e fomes. passos aos dois anos. braços dados ou não. outros maios. outras cores. até as mãos um dia nas cordas de um violão. as mãos agora na corda do violão. a música. de novo é maio: no jardim ou atrás dos muros da casa. debaixo do que é terra, debaixo do que é semente e adubo. do que espelha em nitidez no céu, na água e até na pedra. de novo é maio e maio é flor da pele. é caminho para o infinito entre bordados de fiar, desfiar e fazer história. aqui ou em Pequi. coração juventude e fé. de saber a…

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma. Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro Do que um pássaro sem vôos.
Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica, por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo: Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema: Por guardar-se o que se quer guardar.


DEPOIS DA NOITE, DEPOIS DO VENTO

algo se esconde entre um dia e outro. em meio a um intervalo, algo se esconde sob os pés descalços: pegadas na areia. o caminho até um outro lugar. entre as coisas esparramadas e algum desleixo, algo que se esconde entremeios aparece: debaixo das sobras, imiscuído sob a pele, no ritmo ou na música. num cheiro que evanesce. sempre. nos intervalos tem sempre um tom que atravessa esvoaçante. algo que tateia e desliza por sob o azul. por debaixo. depois tem névoa e perfume no ar. um pedaço que fica e outro que vai. fragmento de uma ideia antiga e corroída que agora é sedimento e chão. caminho de percorrer e sacudir. de deixar fugir. e feito todo em universo, caber assim. na concha das mãos.