quarta-feira, 31 de maio de 2017

OPALINA




todo o horizonte:
escama e escuma.

todas as palavras:

rotas,
terras lavradas;
e o barulho dentro da concha. 


tudo cabe no olhar. até o universo.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

PALAVREADO METAFÍSICO-METAFÓRICO E SEM NENHUM SENTIDO PARA ENCERRAR MAIO









vou primeiro: me atiro e mergulho em meio ao susto, a cólera e os passos (mal) calculados. o corpo quase inerte na água que borbulha e se movimenta. confronto o mar. há uma hipótese até que se esgote o saldo de sinais e todo o cheiro se esvaia. deixo o vento ventar o que quer que seja. crepitar as águas. depois elas vão se incumbir de devolver as coisas aos seus lugares. até a temperatura do corpo. enquanto isso, descaradamente, eu finjo.

sábado, 27 de maio de 2017

SOU FELIZ SÓ DE PREGUIÇA

Mia Couto – Mar Me Quer. ilustração João Nasi Pereira









Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. – Levanta, ó dono das preguiças. É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo: -Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. -Conversa de malandro… – Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver… Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza. – Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher… – Mulher, eu? – Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira. – Que quer vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir. Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
– Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida. – A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não Deus…
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações. – Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro? Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do actual presente. E basta. – Só eu quero é ser um homem bom, Dona. – Você é mas é um aldrabom. 
A gorda mulata não quer amolecer conversa. E tem razão, sendo minha vizinha desde há tanto. Ela chegou ao bairro depois da morte de meus pais, quando herdei a velha casa da família. Nessa altura, eu ainda pescava em longas viagens, semanas de ausência nos bancos de Sofala. Nem notava a existência de Luarmina. Também ela, logo que desembarcou, se internou na Missão, em estágio para freira. Ficou enclausurada nessas penumbras onde se murmura conversa com Deus. Só uns anos mais tarde ela saiu dessa reclusão. E se instalou na casa que os padres lhe destinaram, bem junto à minha morada. Luarmina costureirava, era seu sustento. Nos primeiros tempos, ela continuava sem se dar às vistas. Só as mulheres que entravam em seus domínios é que lhe davam conta. No resto, me chegavam apenas os perfumes de sua sombra. Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de 1á da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos.
Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua actual moradia, nos arredores de minha existência.
Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se. – Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol? – Que ideia, Dona vizinha? Quem lhe disse que eu tinha essa intenção? Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela. – Dona Luarmina, o que é isso? Parece ficou mesmo freira. Um dia, quando o amor lhe chegar, você nem o vai reconhecer… – Deixe-me, Zeca. Eu sou velha, só preciso é um ombro.
Confirmando esse atestado de inutensílio, ela esfrega os joelhos como se fossem eles os culpados do seu cansaço. As pernas dela da maneira como incham, dificultam as vias do sangue. Lhe icebergam os pés, a gente toca e são blocos de gelo. E ela sempre se queixa. Um dia aproveitei para me oferecer: – Quer que lhe aqueça os pés? Arrepiando expectativa, ela até aceitou. Até eu fiquei assim, meio desfisgado, o coração atropelando o peito. – Me aquece, Zeca? – Sim, aqueço mas… pela parte de dentro.
– Mia Couto, ‘excerto’ do livro “Mar Me Quer”. [ilustrações João Nasi Pereira]. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

SOBRE SER ESTRANGEIRO ;)



Fotografia: Clô Zingali
Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que se estranha, um transbordar de excesso e falta. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses da descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Da “consciência prática” de estar nesse lugar; e diz que por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário.  Mesmo com tudo que escapa: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. 

Mesmo sem sair daqui, penso que tudo que falta de algum modo também arrebata. Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está atrás. E por isso "hou tian" (literalmente "atrás dia") significa o dia depois de amanhã.” O passado está à sua frente porque você consegue vê-lo. Sobre o futuro: "O futuro está atrás de você. Não se pode ver o que o futuro reserva". Gostei de olhar para as coisas assim. É bom distanciar-se da maneira habitual de pensar as coisas. De fazer as coisas. Mudar o ângulo. É rico esse movimento, pode-se distanciar um passinho, 3 ou 4 metros, 89 metros. 350 quilômetros. De cada um desses pontos a coisa olhada já não é mais a mesma. E o melhor: nem você é. 

Para escrever esse texto, eu fiz uma viagem até Xangai. Experimentei o ameno da temperatura, a fumaça no ar que deixa o fog londrino desconcertado! Experimentei o mormaço. Os exageros e a estranheza. Me vi a buscar referências ocidentais onde eu pudesse me escorar. Nada. Via espetos de carne e pensava em cachorros. No café da manhã, o gafanhoto ocupava o lugar do pãozinho. Mas quando pensei no homem, naquele que habita esse espaço tão estrangeiro ao meu olhar de agora, me teletransportei. Sei que o dedo dele sangra como o meu quando há um corte. Mas o como ele e eu experimentamos a dor é o que nos diferencia. Como ele e eu olhamos a alegria. O passado, o presente e o futuro. No mais, são hábitos. Tivesse eu nascido lá, não seria estrangeira. 

Eu que “não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”, acho isso muito significativo. Depois de experimentar ver o passado na minha frente e não atrás como de costume, sinto uma paz carnavalesca. Olho para ele com doçura. É o que posso ver, afinal. O futuro, esse fugaz cavalheiro que insiste em causar estranheza, vejo se dissipar. Partícula sobre partícula. Está muito claro. Ele está atrás de mim e não posso vê-lo. Isso é bom e sei lá porquê, isso não me causa nenhum estranhamento. Estou na China, afinal. Uma espécie de exílio onde uma onda de pertencimento me invade. E nada me faria mudar isso.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS






sou palavra. entre bolores e cheiros acres, sou palavra e corto a superfície e seu dentro. faço ecos: sou sobressalto e limalha dentro da córnea. 
em cada instante, quero vôo e mergulho: saco pinça, cureta, alicate, picareta. até as unhas. sou inquilina do escuro até que ele me tire para dançar. sou paixão de nascença. o tempo e entremeios sem ar. sou a coragem do que faz febre. inspiração e brônquios dilatados. por isso anfitrio o ar e o caminho enquanto (des) espero.  desdobro ante um aroma de flor e ocaso. sob o cantar dalgum pássaro e o seu vôo. hibiscus em flor. gaivotas que sobrevoam o quintal. um choro convulsivo às duas da tarde. sou diversa. permeada de hipóteses no claro das horas. depois, irônica; salto do sobressalto, e, com unhas pintadas; rodopio no meio da sala. palavra em arterial coreografia.

domingo, 14 de maio de 2017

MARIA TEREZA


Ilustração: Cy Claudel

Ela mistura espanto e paz ao abrir a porta do 102. Pede, entre delicadeza e rigor, que os pés sejam limpos no capacho antigo. "A limpeza do apartamento é feita uma vez por semana e é preciso conservar limpo". Recebe visitas na sala de alguns móveis. Tudo ali tem uma história que ela sabe e conta. O feixe de luz que vem do lustre antigo cria aconchego entre as janelas semi-serradas. O dentro preservado. Lar castelo. Maria Tereza é rainha em vida. Não sei de onde sinto a intimidade. Algo que me convida e incita a estar ali. Ouvir cada uma das histórias que ela tem para contar e me deixar contagiar por um ânimo que profundamente desejo. Ter perto de 80 anos com um vigor que sinto de apenas olhá-la. Penso na história de seu nome. No signo. No ascendente. Tudo sobre a vida dela que paira na sala de alguns móveis e tanta história. Penso em quem sou frente à mulher de nome, idade e signo? "Leão". Ela diz que é leonina e procura um amor para restar nos dias. Que não importa o gênio que tenha. Quer sua companhia e há de domá-lo. Queria dar o homem para ela. Criá-lo em minha imaginação e inscrevê-lo repentinamente na vida de Maria Tereza. Na vida dela repleta desse desejo. Caminha para me mostrar o imóvel. As marcas dela nas fotos de família. A mãe com a qual ela parece. "Sou muito parecida com mamãe". Eu, que tudo perscruto com os olhos e com o desejo, vejo em cada coisa a mulher. Em cada mínimo canto. Esquadrinho uma idéia da fome e da vontade dela e do que pode haver depois da porta do refrigerador. O desejo do café com bolo de laranja é meu ou dela? Como me serviria um copo de água se eu pedisse? Como afagaria meus cabelos se eu deitasse a cabeça em seu colo? Afagaria? O tempo nos espreme dentro da sala e ela não quer que o tempo pare. Quer continuar a contar uma história enredada em outra. Uma história só. Uma colcha de retalhos estendida no meio da sala. Eu quero ouvir as histórias cheias de ar que ela conta. Quero respirar  esse ar. Maria Tereza pega o caderninho pequeno de espiral sobre  a mesinha de canto. Que guarda ali? Anota meu nome. Pede o sobrenome. Escreve numa das folhas com a doçura e firmeza da sua letra, e o joga sobre o sofá. Restarei ali. Um nome escrito em um papel um dia na vida dela. Nesse momento. Depois, já na rua, o canto do olho rabisca para mim sua figura na janela. Qualquer coisa que se estreita entre o que pode e o que não pode ser, e entre o que será. Tenho saudade de algo que já não é, e é apenas isso. É e paira. Ela está lá. Eu estou aqui. E mesmo que Maria Tereza pudesse propiciar meus sonhos e eu os dela, ainda assim seríamos tão outras e tão as mesmas. O canto do olho desolha e sigo sem olhar para trás. Acarinho a vontade de tornar os olhos para ela ou para a janela sem ela e sigo. Eu a tenho dentro.  Te abraço e me aninho em seu colo, Terê.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

CRôNIQUETA DE MAIO (reeditada)

Fotografia: Clô Zingali

Ei, presta atenção: Vambora fazer a hora? é maio. de novo é maio. é maio e talvez não importe o que eu poderia falar: mas talvez. talvez as folhas por cair, o frio nas ruas. noites com fogueira. pinhão na brasa ou na panela e casacos no armário. talvez isso. talvez não. de novo é maio e de novo noivas, mães, e até as flores de maio. a pele e o tecido sobre a pele. o que teço. trama por trama. as paredes que fazem a casa. as folhas que entremeio caem e as coisas que entremeio voltam. campos e fomes. passos aos dois anos. braços dados ou não. outros maios. outras cores. até as mãos um dia nas cordas de um violão. as mãos agora na corda do violão. a música. de novo é maio: no jardim ou atrás dos muros da casa. debaixo do que é terra, debaixo do que é semente e adubo. do que espelha em nitidez no céu, na água e até na pedra. de novo é maio e maio é flor da pele. é caminho para o infinito entre bordados de fiar, desfiar e fazer história. aqui ou em Pequi. coração juventude e fé. de saber a hora e fazer acontecer. na linha, no buraco e na ponta da agulha, um desejo que corta, projeta e faz chão pra amanhã primavera. vambora fazer a hora?

sábado, 6 de maio de 2017

GUARDAR



Fotografia: Clô Zingali

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.



terça-feira, 2 de maio de 2017

DEPOIS DA NOITE, DEPOIS DO VENTO

Fotografia: Clô Zingali

algo se esconde entre um dia e outro. em meio a um intervalo, algo se esconde sob os pés descalços: pegadas na areia. o caminho até um outro lugar. entre as coisas esparramadas e algum desleixo, algo que se esconde entremeios aparece: debaixo das sobras, imiscuído sob a pele, no ritmo ou na música. num cheiro que evanesce. sempre. nos intervalos tem sempre um tom que atravessa esvoaçante. algo que tateia e desliza por sob o azul. por debaixo. depois tem névoa e perfume no ar. um pedaço que fica e outro que vai. fragmento de uma ideia antiga e corroída que agora é sedimento e chão. caminho de percorrer e sacudir. de deixar fugir. e feito todo em universo, caber assim. na concha das mãos.




Postagem em destaque

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

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