domingo, 14 de maio de 2017

MARIA TEREZA


Ilustração: Cy Claudel

Ela mistura espanto e paz ao abrir a porta do 102. Pede, entre delicadeza e rigor, que os pés sejam limpos no capacho antigo. "A limpeza do apartamento é feita uma vez por semana e é preciso conservar limpo". Recebe visitas na sala de alguns móveis. Tudo ali tem uma história que ela sabe e conta. O feixe de luz que vem do lustre antigo cria aconchego entre as janelas semi-serradas. O dentro preservado. Lar castelo. Maria Tereza é rainha em vida. Não sei de onde sinto a intimidade. Algo que me convida e incita a estar ali. Ouvir cada uma das histórias que ela tem para contar e me deixar contagiar por um ânimo que profundamente desejo. Ter perto de 80 anos com um vigor que sinto de apenas olhá-la. Penso na história de seu nome. No signo. No ascendente. Tudo sobre a vida dela que paira na sala de alguns móveis e tanta história. Penso em quem sou frente à mulher de nome, idade e signo? "Leão". Ela diz que é leonina e procura um amor para restar nos dias. Que não importa o gênio que tenha. Quer sua companhia e há de domá-lo. Queria dar o homem para ela. Criá-lo em minha imaginação e inscrevê-lo repentinamente na vida de Maria Tereza. Na vida dela repleta desse desejo. Caminha para me mostrar o imóvel. As marcas dela nas fotos de família. A mãe com a qual ela parece. "Sou muito parecida com mamãe". Eu, que tudo perscruto com os olhos e com o desejo, vejo em cada coisa a mulher. Em cada mínimo canto. Esquadrinho uma idéia da fome e da vontade dela e do que pode haver depois da porta do refrigerador. O desejo do café com bolo de laranja é meu ou dela? Como me serviria um copo de água se eu pedisse? Como afagaria meus cabelos se eu deitasse a cabeça em seu colo? Afagaria? O tempo nos espreme dentro da sala e ela não quer que o tempo pare. Quer continuar a contar uma história enredada em outra. Uma história só. Uma colcha de retalhos estendida no meio da sala. Eu quero ouvir as histórias cheias de ar que ela conta. Quero respirar  esse ar. Maria Tereza pega o caderninho pequeno de espiral sobre  a mesinha de canto. Que guarda ali? Anota meu nome. Pede o sobrenome. Escreve numa das folhas com a doçura e firmeza da sua letra, e o joga sobre o sofá. Restarei ali. Um nome escrito em um papel um dia na vida dela. Nesse momento. Depois, já na rua, o canto do olho rabisca para mim sua figura na janela. Qualquer coisa que se estreita entre o que pode e o que não pode ser, e entre o que será. Tenho saudade de algo que já não é, e é apenas isso. É e paira. Ela está lá. Eu estou aqui. E mesmo que Maria Tereza pudesse propiciar meus sonhos e eu os dela, ainda assim seríamos tão outras e tão as mesmas. O canto do olho desolha e sigo sem olhar para trás. Acarinho a vontade de tornar os olhos para ela ou para a janela sem ela e sigo. Eu a tenho dentro.  Te abraço e me aninho em seu colo, Terê.

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