quinta-feira, 25 de novembro de 2010

LAVANDO A ROUPA SUJA


Sem nenhuma exaltação e como estivessem já ali, bem no meio da lavanderia, ela foi explícita. Disse a ele, bem devagarzinho, tudo que tinha para dizer. De forma calma e pausada para que ele pudesse entender. Pediu-lhe desculpas pela rudeza do assalto. Pelo seqüestro. Argumentou que não havia outra alternativa para ela. Agora, na posição em que ele estava, instalado bem no meio da lavanderia, talvez pudesse sentir o amor e o desejo lacerando seu corpo. Que se olhasse bem, talvez pudesse ver a melancolia atravessada, brilhando laranja na parede atrás de si. Talvez.

Ele desentendeu. Estar ali naquela lavanderia, escutar aquela mulher falar tão baixo e tão devagar como se fosse para ele escutar a dor dela não fazia o menor sentido. Como se ele pudesse entender a rudeza do ato. Do seqüestro. Escutou ela falar e falar sem nada sentir, a não ser o peso de seu corpo sobre as pernas e o calo no mindinho do pé direito. Esse maldito calo. Sem nada ver, a não ser uma mulher que já não tinha mais nada. Sequer cor que pudesse salvá-la de um profundo e irreversível branco.

Ela se disse tão cansada daquela impotência horrorosa. A palavra impotência era horrorosa. Olhou para ele. Lembrou que era um homem de algumas experiências e mentiras. Muitas mentiras. Até lembrou e contou o episódio da estrela que ele um dia disse ter visto cair. Quanta bobagem! Por fim sentenciou o castigo e assumiu seu desejo de vê-lo ali estreitado bem no meio da agonia. No meio da lavanderia.

Ele sorriu seu desdém. Até lembrou o episódio da estrela e o mistério: ele apontou e ela desceu. Quase gargalhou. Olhando bem para ela, via que não passava de um inseto. Um inseto nojento. Cheio de visco. De sobrevôos. Faminto de migalhas humanas.

Sem nenhuma exaltação agora foi ela quem esboçou um movimento nos lábios. Parecia sorriso, mas era dor. Falou de seus olhos nas noites sozinha. Do vermelho deles e da luz ao sobrevoar sua agonia ali naquele espaço. Um foco de luz laranja na lavanderia. Estreitou-se com o que era da sua natureza. Ser objeto do apetite. Cega de amor e desejo. Bela e disposta a abdicar de tudo por um sentimento. Apenas um sentimento. De que pudesse ser olhada sem nojo. Confessou estremecer quando ele a olhava com escárnio. O desespero de não poder sentir suas mãos nela. Seu beijo e o gosto dele. Foi saindo sem olhar para trás. Sorrindo a prisão dele e a incompreensão estampada. A atitude de mantê-lo ali. Vê-lo salivar diante da agonia que escolheu. Que ele escolheu.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

SOBRE ANIVERSÁRIOS


No último dia 13, meu pai fez 70 anos. Ano passado foi minha mãe a completar 70. Duas “desculpas mais que perfeitas” para reunir toda a família e fazer festa. Família é um conforto que transpassa o tempo. As distâncias e as diferenças. De repente você está lá conversando com os primos que não vê há tanto tempo e isso não transparece. O que emerge é a estranheza de uma intimidade de outrora. Uma mesma história que perpassa. Um algo que enlaça a todos. É boa a sensação. Meu pai gosta de festa. Sempre foi festeiro. E é bom fazer festa pra quem gosta de festa. Minha irmã que mora perto deles orquestrou os detalhes todos do evento. Ela também gosta muito de festa. Meu irmão também. Eu também. Pois é, somos todos filhos do pai. Sei lá se o momento conspirou ou a condição propiciou, mas eu tive a ideia de montar uma apresentação de slides para ele. Eu tinha algumas fotos e comecei por elas. Logo surgiu um mote que foi amarrando as fotos soltas. Então minha irmã mandou mais algumas e também meu pai. Ele mesmo, o maior entusiasta. A história foi encorpando e eu ia mexendo nessa construção de um olhar meu para ele. Um olhar dele para sua própria vida a partir do meu. Fui adicionando alguns textos. Pensamentos dele pensados por mim. E fui gostando muito dessa experiência. O entusiasmo me fez remexer álbuns e caixas em busca de mais fotos. Descobri piqueniques, viagens para Ubatuba, reuniões tantas de família e banhos de mangueira no quintal da casa onde cresci. Fotos que ele tirou para contar das nossas vidas. Fui “construindo” a história dele e a minha ia emergindo e me surpreendendo. No final, eu queria uma frase para finalizar a apresentação. Qual representaria o sentimento genuíno dele que eu queria captar? Foi Adélia Prado quem resolveu meu problema. E nada, nenhuma outra frase poderia abarcar a profundidade que eu queria, senão aquela. Que eu não seria sem ele. Eu vim da família que ele construiu. Ele e seu desejo. Meu olhar que tudo olha viu muita coisa acontecendo ali naquela noite. Coisas que vou guardar para sempre. Coisas que me alimentam e talvez eu não soubesse como sei a partir de agora. Mas sobre a história do meu pai, lá pelas tantas, houve um momento em que todos se juntaram na sala para ver a exibição das fotos. Meu sobrinho também havia preparado alguns slides para apresentação. Um olhar da 3ª geração. Juntos nós fizemos um só filme, “A vida do Zé”; e que todos assistiram e apontaram com emoção. Lembraram também de si. Foi muito legal ver as fotos de meu pai criança, moço. Tantos sorrisos no rosto mudando de desenho no tempo. A cidade onde ele nasceu. Os amigos do futebol, de pescaria. As mil e uma aventuras. Tudo nas imagens falava dele e de cada um de nós. Foi lindo ver o olhar feliz do meu sobrinho em ter feito parte disso tudo. Horas antes da festa, até talhou em si costeleta e bigodinho para se aproximar da imagem do tio de meu pai numa foto muito antiga. Tio Pedrinho. Ligou os tempos em si mesmo. A frase que plasmei de Adélia, e que Adélia plasmou da vida que borbulha em cada um, encerrou o que estava dentro de nós naquela noite feliz: Eu sou o Zé: “não quero faca nem queijo: quero a fome”. Nós? Idem.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

ENTRE JANELAS E PORTAS


Nas minhas andanças por aí, sempre fico me perguntando como é que certas pessoas podem ser tão mal humoradas. Sempre que consigo, penso numa explicação. Ela não deve ter tido um bom dia. Ele deve estar com algum problema. Se a coisa ocorre logo pela manhã, penso que talvez não tenha dormido bem. Vou sendo assim, meio Pollyanna. Sei lá se porque li esse livro quando criança. Talvez. Mas de fato, não gosto de mau humor. Daquele que de tão enraizado vira estilo. Tem gente que gosta. Dizem alguns que ficar sorrindo demais passa atestado de solicitude demais, de paciência demais, de alienação demais. Não sei. Acho apenas que bom humor é vírus. E, como o mau humor, contamina. Nesse sentido penso: ainda bem que há bastante gente contaminada com bom humor também. Espalhando e espalhando sorrisos por aí. Feiticeiros urbanos. Tudo bem que por todos os lados correm notícias ruins e indícios de uma “civilidade” que desintegra cotidianamente. Isso vai refletindo uma espécie de “descontrole” geral do qual ninguém está protegido. Nem a linda senhorinha que todos os dias, faça chuva ou sol, senta-se na cadeira da varanda para tomar ar e olhar o trânsito desconcertante da avenida. E todo vez que passo e a vejo lá, abrimos as duas um sorriso e nos cumprimentamos. Não sei nada dela, além disso. Ela nada sabe de mim também. Apenas trocamos sorrisos. E eu gosto tanto do sorriso dela! Eu acredito no mistério das coisas. Penso que quando fazemos coisas como pensar, imaginar, sorrir e até sonhar, mudanças profundas acontecem em nosso corpo. Corpo esse que é porta para a vida. Quase sinto as células entrarem em ebulição após uma troca de sorrisos. A cascata que se desenvolve depois dessa “efusão” celular é remédio puro e gratuito. Está em cada troca de bons fluidos. Definitivamente, as emoções atuando sobre os nossos sistemas referem a algo que devemos mais e mais aprender a explorar. Se de um lado o tempo esgarça-se à nossa frente e vai denotando egoísmos, violências e mesquinharias, de outro há o sorriso. O bom humor que contamina e pode romper essa dura couraça. Se por trás de cada impulso, que é o véiculo a jato da emoção, há sentimentos que vão se transformar em ações, porque não se deixar arrebatar pelo impulso do sorriso? Não seria uma maneira de carregar a emoção de inteligência? De não permitir que nossas melhores emoções sejam solapadas por hábitos endurecidos? Eu acho que sim. Continuo pensando que impulsos e movimentos negativos e destrutivos são natimortos. Prefiro abrir a janela e olhar a vida que anda para além da minha. Prefiro o mergulho que me permite a transformação. Prefiro janelas às portas.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

VOZES DO ORIENTE



Clotilde Zingali, de Joinville.

Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que estranha, um transbordar que é excesso e é falta. Um não se reconhecer. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses de certa descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Que a falta de “consciência prática” do lugar que o coloca, digamos “meio perdido”, pode ser a mãe dessa boa descarga hormonal. E por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário ao modo ocidental de se olhar para as coisas. Ele cita que lá tudo escapa ao estrangeiro: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. Eu já fico a imaginar que tudo que lhe falta também o arrebata. O mistério, leitor. O tal mistério das coisas. Vejam que coisa interessante Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está atrás. E por isso "hou tian" (literalmente "atrás dia") significa o dia depois de amanhã.” O passado está à sua frente porque você consegue vê-lo. Sobre o futuro: "O futuro está atrás de você. Não se pode ver o que o futuro reserva." Achei empolgante. Muda tudo, não é? Isso é algo que escapa quando se é estrangeiro na China. Também quando um chinês vem parar no ocidente. Mas é algo que vou juntar aos meus hábitos a partir de agora. Guardar junto com aquele exercício que faço de quando em quando: fechar os olhos e tentar fazer algumas coisas do dia a dia lá em casa. Tatear o desconhecido. Distanciar-me da maneira habitual que tenho de pensar as coisas. De fazer as coisas. O interessante de distanciar-se de algo é o ângulo que se cria e de onde passamos a ver a mesma coisa de outro jeito. É rico esse movimento, pois podemos distanciar um passinho, 3 ou 4 metros, 89 metros. 350 quilômetros. De cada um desses pontos a coisa olhada já não é mais a mesma. E o melhor: nem você é. Para escrever essa crônica, eu fiz uma viagem até Xangai. Experimentei o ameno da temperatura, a fumaça no ar que deixa o fog londrino tão suave! Experimentei o mormaço. Os exageros e a estranheza. Me vi a buscar referências ocidentais onde eu pudesse me escorar. Nada. Via espetos de carne e pensava em cachorros. No café da manhã, o gafanhoto ocupava o lugar do pãozinho. Mas quando pensei no homem, naquele que habita esse espaço tão estrangeiro ao meu olhar de agora, acho que me teletransportei. Sei que o dedo dele sangra como o meu quando há um corte. Mas o como ele e eu experimentamos a dor é o que nos diferencia. Como ele e eu olhamos a alegria. O passado, o presente e o futuro. No mais, são hábitos. Tivesse eu nascido lá, não seria estrangeira. Para mim, que “não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”, isso é muito significativo. Depois de saber desse olhar sobre o passado, que está em frente a mim e por isso posso vê-lo, aquele filminho que alguns dizem ver numa experiência de “quase morte” começa a rodar nesta minha doida experiência de vida. A minha vida misturada a tantas vidas. Me dá uma paz carnavalesca. Olho para ela com doçura. É o que posso ver, afinal. O futuro, esse fugaz cavalheiro que insiste em causar estranheza, vejo se dissipar. Partícula em cima de partícula. Está muito claro. Ele está atrás de mim e não posso vê-lo. Sei lá porquê, mas isso não me causa nenhum estranhamento. Estou na China, afinal. Uma espécie de exílio onde uma onda de pertencimento me invade. Eu pertenço, ainda que estrangeira.

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SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

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