Pular para o conteúdo principal
SOBRE ANIVERSÁRIOS


No último dia 13, meu pai fez 70 anos. Ano passado foi minha mãe a completar 70. Duas “desculpas mais que perfeitas” para reunir toda a família e fazer festa. Família é um conforto que transpassa o tempo. As distâncias e as diferenças. De repente você está lá conversando com os primos que não vê há tanto tempo e isso não transparece. O que emerge é a estranheza de uma intimidade de outrora. Uma mesma história que perpassa. Um algo que enlaça a todos. É boa a sensação. Meu pai gosta de festa. Sempre foi festeiro. E é bom fazer festa pra quem gosta de festa. Minha irmã que mora perto deles orquestrou os detalhes todos do evento. Ela também gosta muito de festa. Meu irmão também. Eu também. Pois é, somos todos filhos do pai. Sei lá se o momento conspirou ou a condição propiciou, mas eu tive a ideia de montar uma apresentação de slides para ele. Eu tinha algumas fotos e comecei por elas. Logo surgiu um mote que foi amarrando as fotos soltas. Então minha irmã mandou mais algumas e também meu pai. Ele mesmo, o maior entusiasta. A história foi encorpando e eu ia mexendo nessa construção de um olhar meu para ele. Um olhar dele para sua própria vida a partir do meu. Fui adicionando alguns textos. Pensamentos dele pensados por mim. E fui gostando muito dessa experiência. O entusiasmo me fez remexer álbuns e caixas em busca de mais fotos. Descobri piqueniques, viagens para Ubatuba, reuniões tantas de família e banhos de mangueira no quintal da casa onde cresci. Fotos que ele tirou para contar das nossas vidas. Fui “construindo” a história dele e a minha ia emergindo e me surpreendendo. No final, eu queria uma frase para finalizar a apresentação. Qual representaria o sentimento genuíno dele que eu queria captar? Foi Adélia Prado quem resolveu meu problema. E nada, nenhuma outra frase poderia abarcar a profundidade que eu queria, senão aquela. Que eu não seria sem ele. Eu vim da família que ele construiu. Ele e seu desejo. Meu olhar que tudo olha viu muita coisa acontecendo ali naquela noite. Coisas que vou guardar para sempre. Coisas que me alimentam e talvez eu não soubesse como sei a partir de agora. Mas sobre a história do meu pai, lá pelas tantas, houve um momento em que todos se juntaram na sala para ver a exibição das fotos. Meu sobrinho também havia preparado alguns slides para apresentação. Um olhar da 3ª geração. Juntos nós fizemos um só filme, “A vida do Zé”; e que todos assistiram e apontaram com emoção. Lembraram também de si. Foi muito legal ver as fotos de meu pai criança, moço. Tantos sorrisos no rosto mudando de desenho no tempo. A cidade onde ele nasceu. Os amigos do futebol, de pescaria. As mil e uma aventuras. Tudo nas imagens falava dele e de cada um de nós. Foi lindo ver o olhar feliz do meu sobrinho em ter feito parte disso tudo. Horas antes da festa, até talhou em si costeleta e bigodinho para se aproximar da imagem do tio de meu pai numa foto muito antiga. Tio Pedrinho. Ligou os tempos em si mesmo. A frase que plasmei de Adélia, e que Adélia plasmou da vida que borbulha em cada um, encerrou o que estava dentro de nós naquela noite feliz: Eu sou o Zé: “não quero faca nem queijo: quero a fome”. Nós? Idem.

Postagens mais visitadas deste blog

AH O AMOR. O TAL AMOR... É MINHA LEI, MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bo…

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.