terça-feira, 29 de dezembro de 2009

CONVERSAS DE BOTECO





O casal que cozinha junto abre portas para as coisas. Ao ouvir isso na mesa ao lado da sua, Alex, que anda meio “assim” com Júlia, resolve experimentar. Telefona pra mulher e diz de sopetão: vamos fazer uma comidinha hoje? Ela quer dizer não. Anda tão cansada. Mas o inusitado se impõe. Ela então diz: tá; vamos. E é assim que Júlia e Alex certa noite resolvem preparar uma salada de polvo e camarão. Onde começa isso pode variar. Pode ser quando se compra o polvo. Pode ser que começe com a ideia de fazer algo juntos ou pelo inusitado do convite do próprio marido. Porque recorda um prato que comeram. Um lugar onde estiveram, ou simplesmente porque passam a gostar da ideia de inventar algo juntos. E aí dizem. Ou ele diz. Ou é ela quem diz: Vamos fazer uma salada com camarão e polvo? Igual aquela que comemos no Nordeste? Continuam. Tem toda uma dinâmica envolvida. Pode ser bem trabalhoso. Ou não, como diria o amado Caetano. Como se prepara um polvo? Ela pergunta. Vão para internet. Pesquisam. E aí vem o segredo, começam a improvisar. De improviso em improviso vão conversando, ela conta uma estória. Serve vinho para os dois. Ele lembra e recorda uma viagem que fizeram. Alex e Júlia improvisam o estarem juntos. A sensação do “assim assim” vai diluindo. Improvisam no preparo do polvo. A receita é só um guia. Manda mais a lembrança do que viram e o entendimento vai surgindo. Como algo primitivo. Vai vindo à tona conforme você caminha. E seguem os processos. Lavar as folhas da salada. Deixá-las de molho. Lavar o manjericão e sentir o cheiro dele enquanto é manipulado. O cheiro que também fica nas mãos. Cortar os tomatinhos cereja. Essa parte ele inventa, já modificando a receita que experimentaram antes (para melhor, muito melhor!). Temperar o camarão. Separar. Aí vem o polvo. 
E a surpresa de achar um minúsculo peixinho embaraçado nele. Deve ficar de molho em água com vinagre por uns 15 minutos, que é para soltar qualquer vestígio de areia. Depois o enigma: Batê-lo ou não contra a tábua para tirar de vez qualquer vestígio de areia. Uns dizem quem sim, outros que não. Na dúvida, bateram. Depois cozinhar num caldo aromatizado. Uns 25 minutos dependendo do tamanho. É nesse momento que ele olha pra ela e diz. Temos 25 minutos. Sorriem quase surpresos. 25 minutos. Correm para o quarto. Vão arrancando peça por peça de roupa e se atiram embaixo das cobertas. Seguem-se abraços e beijos que se esquentam. E o polvo lá na cozinha. Ele esquenta também. Polvo na panela. Dinamite é polvo cozinhando ali no quarto. Tentáculos pra todo lado. Uns tantos minutos depois ela pergunta brejeira: E então, quanto tempo o polvo ainda tem? Riem. E lá vai ele atrás do bicho lá na panela. Escorre. Corta em pedacinhos. Monta meticulosamente a salada. Entrelaça as folhas de cada espécie. Joga os tomatinhos por cima. Joga os camarõezinhos por cima. Os pedacinhos do polvo. Azeite de oliva. Pouquinho de sal. Sentam. Olham aquilo tudo. Uma garfada, outra. Uma delícia. Cada um na sua boca sente o sabor e a dureza do camarão. Do polvo. Sentem sua textura. Entreolham. 25 minutos. Perfeito para eles. O polvo? Ela diz: Passou um pouco do ponto. Ele sorri matreiro. Nem pensa na conversa que ouviu na mesa.

sábado, 26 de dezembro de 2009

SINAL FECHADO

SINAL FECHADO
É leitor, é dezembro. Mais uma vez é natal. Esse negócio de mais uma vez acontecer alguma coisa, se por um lado passa a ideia de “repetição”, de outro remete à possibilidade de enxergar diferente. Porque acontece e acontece de novo, e mesmo assim a gente pode se surpreender. Pelas nossas atitudes ou pelas dos outros. E o natal, a despeito dos significados próprios e agregados, traz essa dinâmica de “acontecer de novo”, essa oportunidade de nos colocar num mesmo lugar e poder olhar para isso de um jeito diferente. Em verdade, todo dia é especial. Ao dormir, o simples fato de depois acordar já é um recomeço. Suar a camisa o dia inteiro, e novamente ir dormir no final desse dia, também é. É que tendemos a não ver assim no embolo da vida. É tanta correria que a maior parte de nós mal se dá conta. 365 dias de trabalho e compromissos que nos absorvem e muitas vezes a gente só vai seguindo e cumprindo as etapas. Outra questão é o que a gente empresta dos outros e também dos momentos, para agregar às nossas fantasias. Se podemos emprestar a loucura, o corre-corre, os presentes, os panetones (e a vida que às vezes acaba em panetones caríssimos!), de outro lado podemos emprestar o desejo genuíno de olhar para o nosso desejo. Porque de certo modo se apresenta um movimento geral em torno dessa ideia. Fim de ano é algo convencionado e também carregado de simbolismos. E isso é próprio do ser humano. Trata-se, justamente, de representar no mundo da fantasia o nosso desejo. De lançar uma proposta para o futuro. E então “dar duro” por ela, em nome dela. E porque não, silenciar um pouco diante dela para nos escutar e, quem sabe, escutar o outro. Como na música “Sinal Fechado” de Paulinho da Viola, no nosso corre-corre estamos “sempre a cem”. Então, esse silenciar vira mesmo uma oportunidade recheada desse desejo dele que representa o de tanta gente: de silenciar um pouco, tirar a armadura. Tentar se surpreender com algo, mesmo que esse algo nos seja conhecido. Enfiar nossas mãos na terra e sentir. Eu convido você. Convide alguém. Surpreenda-se. Ao invés do fluxo doido do consumo, da correria, das obrigações: estancar no vermelho. Deixar um pouco de seguir a tropa. Buscar um afortunado encontro com o “seu dentro”, com o seu desejo. Aproximar-nos das pessoas com quem convivemos e que às vezes, pouco sabemos delas; e, de algum modo, nos deixar nortear pelo “sinal fechado”:

“olá, como vai?

eu vou indo, e você, tudo bem?

tudo bem, eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro e você?

tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranqüilo, quem sabe?

quanto tempo

pois é, quanto tempo...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

PAIXÃO E PREVISÕES METEREOLÓGICAS

PAIXÃO E PREVISÕES METEREOLÓGICAS
Quando, em meio ao feio de uma tempestade que no céu se arma, questionam a moça (ela em vão tenta recolher as roupas do varal), entrelábios responde: eu tento segurar e livrar as roupas da tempestade. Eu tento segurá-las. Eu tento me segurar porque as coisas ventam e fazem tempestades em mim. . Nara está apaixonada e diante de todas as alterações climáticas, prevê cataclismas. No verão eu ardo de amor e no inverno sinto muita falta dele. Ele, que desde aquele manso setembro (em outros tempos a natureza era mais quieta) chegou sem previsão. O clima já era em ebulição (apenas não se sabia). Foi então depois de algum tempo que as geleiras começaram a derreter. O aquecimento global a deitar seus efeitos. Nara então passou a ler previsões. Se precaveu. Trancou as portas, colocou travas na janela e elevou os móveis do chão. Mas ele veio água em movimento. Veio tsunami. Passou por cima de todos os esteios. Balançou a rigidez dos arranjos e entrou por todos os canais. Alagou o mundo da moça. Se ela tivesse prestado atenção... Lembra do silêncio que se fez antes. Do barulho que retumbou quando se viu no olhar dele. Se prestasse mais atenção não estaria tão distraída, tão sujeita aos ventos, às águas e seus movimentos. Mas estava. E então as previsões encheram os vazios de sustos e sulcos. De olhares afivelando ideias, escapes – saída qualquer. Nara sente-se escorrer. Olha para trás e vê o chão que sumiu a cada passo que ela deu. Pensa no seu nome diante disso. Em cada uma das letras de seu nome que circula no centrípeto e no centrífugo da ideia, dos furacões e tornados misturadas com as letras do nome dele. As letras misturadas rodando lá dentro e o fenômeno se carregando dessa energia. Parte das ideias sendo arremessadas sabe-se lá para onde e as outras numa descida frenética para o centro. Então ela pensa no ralo. O ralo do mundo. Tudo vai para o ralo, afinal. O ralo do mundo. Quase se aquieta (se o caminho natural é esse, o que se pode fazer?). Ela quase. Porque a despeito de previsões metereológicas, ela é instabilidade: é vento e coisa que é levada por ele. É tempestade. É fenômeno e pessoa. Apaixonada, Nara nunca toca a vida com a ponta dos dedos. Então ela abre a porta e pisa na soleira olhando para o céu. Um feixe de cinza e alguns raios prenunciam outra tempestade. Lembra de uma poeta catarinense e vai até a calçada. Atravessa repetindo: “mulheres ensimesmadas não atravessam a calçada”. Sorri relâmpagos.

sábado, 19 de dezembro de 2009

A ARQUITETURA E AS CIDADES - publicado no caderno ANEXO do Jornal A NOÍCIA de Joinville em 10 de dezembro de 2009.

A ARQUITETURA E AS CIDADES


Terça-feira, dia 15, Niemeyer fez 102 anos. O homem-arquiteto, ícone da arquitetura no Brasil e no mundo, ativo aos 102 anos. Independente de como repercutem suas obras, não há dúvida de que se trata de um grande artista mundial, páreo para Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Gaudi, Santiago Calatrava e demais "artesãos da forma". Eu nunca fui fã dele e de suas obras, mas sou fã da vida. Um século de existência produtiva e criativa nos faz pensar no tempo. Refletir sobre a ideia que "a vida é tão efêmera quanto uma fagulha para o tempo, mas para o homem é tudo". Isso me fez pensar em arquitetura, em Joinville, e em como estamos preparando a nós e a nossa cidade para nossa existência aqui. Obviamente, o tempo cobra seu preço, apesar de todos os recursos possíveis para mitigar os prejuízos da idade. As atividades mais elementares para um cidadão centenário tornam-se fortes desafios quando tais recursos não se colocam à disposição. Estou falando de inclusão universal - inclusão cultural, social, urbanística e tecnológica. A sociedade, a cidade, os meios de comunicação, os serviços públicos e privados têm, para o seu próprio bem, obrigação de amparar dignamente todo e qualquer estado físico e emocional de seus cidadãos. Cidades que excluem seus cidadãos - quer por seus espaços e elementos construídos, suas barreiras arquitetônicas (escadas, degraus e toda parafernália imprópria instalada nas calçadas e praças), falta de sinalização podotátil, sonora e visual entre outros, até o mal atendimento nas instituições, falta de assentos para filas, desrespeito ao parco privilégio dos idosos, grávidas, deficientes permanentes ou provisórios - estão em descompasso com a própria existência. Sim, porque ninguém se imagina numa cadeira de rodas ou de muletas, até quebrar um pé ou perna, ou ter que empurrar um carrinho de bebê, ou ter que atravessar uma rua no tempo do farol com pernas que não são mais jovens. Confortos tão simples e tão raros. Joinville tem uma faculdade de arquitetura. Um curso com viés tecnológico e compatível com a necessidade de formar pessoas para atuar na arquitetura e urbanismo, no paisagismo e na reciclagem. Atuar nas empresas de gerenciamento e execução de obras civis, públicas e privadas, de planejamento urbano e industrial. É preciso pensar numa interlocução desses seres em formação com a sociedade que lhe faz frente. A arquitetura pode muito. Na atual crise das cidades que vivenciamos, sabendo ser a cidade “a coisa humana por excelência” , o estado do homem e das relações que ele estabelece com o espaço que ocupa e constrói, temos que dialogar. Quando se pensa que no Brasil são gastos recursos enormes na realização de planos e de projetos urbanísticos sem que muitas vezes ninguém se preocupe em verificar a eficácia de seus postulados quando levados à prática, vemos a necessidade de se preocupar com o fato de que é na cidade que a vida acontece. Onde seres humanos se relacionam, interagem e se expressam como sujeitos. O que tudo isso tem a dizer aos planejadores urbanos? Há que se pesquisar e responder a isso. Cidades não são objetos idealizáveis abstratamente e nunca se comportam de acordo com as fantasias de quem as trata dessa forma. É preciso saber quais são os verdadeiros efeitos de determinadas ações sobre o meio urbano. Se um dia houve espaço para Niemeyer junto com Lúcio Costa, projetar uma cidade inteira, o exercício de produção de espaços urbanos está mais que na hora de exigir uma boa parada crítica e reconsiderações teóricas. Não é mais possível separar o ato de se pensar em propostas de arquitetura e urbanismo do ato de pensar também suas consequências. É preciso repensar uma área de domínio profissional, propor novos conceitos e re-examinar o que sempre foi proposto como verdade. Problematizar para buscar novas soluções. Como disse Aldo van Eike em 1974: “Apontar as estrelas-alvo antes que os foguetes partam”.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

PRÊMIO JOINVILLE DE LITERATURA - Crônica publicada no Jornal A notícia em 10 de dezembro de 2009.

PRÊMIO JOINVILLE DE LITERATURA


Quinta-feira, 03 de dezembro, aconteceu no Anfiteatro da Biblioteca da Univille, a 6° edição do Prêmio Joinville de Literatura. A novidade dessa edição é justamente a participação da Univille através da Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários que agora se une ao departamento de Letras, ao programa de extensão Proler e a Mercado de Comunicação para a realização do concurso. Todos unidos para abarcar a movimentação literária e cultural que ocorre na cidade por conta disso. É algo que, como eu disse a respeito da feira do livro de Porto Alegre, não pode passar sem se comentar. Por que? Porque ano a ano a ideia se amplia, os talentos se ampliam e o evento ganha dimensão. A edição atual teve 391 inscritos (o dobro da última edição), participando na categoria poemas e também contos e crônicas. Uma novidade também que se reforça esse ano é a integração de outros municípios, envolvendo Araquari, Barra Velha, Barra do Sul, Campo Alegre, Corupá, Garuva, Guaramirim, Itaiópolis, Itapoá, Jaraguá do Sul, Mafra, Massaranduba, Monte Castelo, Papanduva, Rio Negrinho, São Bento do Sul, São Francisco do Sul, São João do Itaperiú e Schroeder. E o desejo da palavra vai diluindo os limites. Foram 6 vencedores nas duas categorias e mais 4 menções honrosas. Para aqueles que tiraram seus textos da gaveta, ou que escreveram pela primeira vez incentivados pela ideia, ou que já caminham nessa seara, o que fica é o que o trabalho proporciona. O espaço que se abre para aqueles que fazem da palavra escrita sua maneira de comunicar, de dar a ver. Que desencadeia a produção de textos e faz circular a palavra. Como colocou a pró-reitora de extensão e assuntos comunitários da Univille, Berenice Rocha Zabbot Gracia, “o concurso abre um momento de reflexão sobre a arte e permite que a sociedade se torne mais leitora, crítica e comprometida com a realidade social”. Ana Ribas Diefenthaeler, coordenadora editorial do Prêmio, coloca que a literatura se faz entre amigos. Elas estão certas. Acima de tudo são pessoas que se fazem amigas da e pela palavra - fazendo dela sua forma de expressão - e fomentam a ideia de uma sociedade leitora. Como Ivan Ferraz Lemke, primeiro lugar na categoria poesia com o poema “Membrana”. Ele disse entre a surpresa e a alegria, “procuro ler mais do escrevo”. Juntamente com ele, Gleber Pieniz, Melanie Peter, Denise Warneck, Jefferson Kielwagen, Fernanda Lange, Claudio Vittória, Philipe Hugo Fransozi e Joyce Jaqueline Diehl. Todos eles e mais todos os outros que participaram descascados em seus textos e fundados na palavra. Palavra que silencia, que corta, que arrebata e então nos faz pensar ainda mais na beleza desse Prêmio. No que ele oportuniza para quem se dedica. Termino deixando alguns versos do poema premiado de Ivan. A prova de que a poesia é imagem. Imagem que a gente pinça no revés da vida e transmuta. E Ivan fez isso com maestria.

MEMBRANA

“Minha tarde é um cachorro na sombra

E olhos molhados pelo asfalto onduloso

É uma montanha levantando o braço

Poeira alcançando o branco, cor-camaleão”



O poema na íntegra mais todos os outros premiados farão parte de uma coletânea que é editada pelo Prêmio, a cada dois anos desde o seu início. O próximo é para 2010. Para Taiza Mara Rauen Moraes, professora e coordenadora do Programa Institucional de Incentivo à Leitura (Proler/Joinville) o aumento no número de inscrições comprova a necessidade da manutenção e fortificação do Prêmio. As possibilidades estão lançadas. Dentro de cada um que esteve envolvido com ele e que, premiado ou não, traz em si o desejo de se pronunciar através da palavra. É como disse Ana Diefenthaeler “Ano que vem tem mais. O Prêmio só vai acabar se as pessoas deixarem de escrever”. E tanto mais escreverão se continuarem lendo. Não tem jeito dessa equação não se fazer assim. Quem ganha com isso? Todos nós.

O MUNDO DE RAMIRO - texto publicado no Jornal A Notícia em 03 de dezembro de 2009

O MUNDO DE RAMIRO



Maria da Cota Nascimento esperou pelo homem que amava por anos a fio. Quando, no rigoroso de um inverno sem precedentes ele chegou, não o viu propriamente. Alucinou. Viu a figura incomum de um homem montado num cavalo malhado. Quase um os dois. Ela teve certeza do amor assim que olhou nos olhos dele. Em seguida abaixou olhos. Ramiro, homem de resoluções e poucas palavras foi logo dizendo: Sobe moça que não sou homem de ficar esperando. Cota, que sequer o tinha visto antes, sentiu nascer. Sentiu mesmo a volúpia e o intenso de passar pelo estreito de um canal e aparecer num outro lugar. Lágrimas desceram de seus olhos. Ele emendou: Moça não venha com dengos e me dê logo sua mão. Era tão miudinha diante da imagem dele que julgou não conseguir esse feito. Ele iria sem ela. Isso era um fato. Titubeou. Mas braço e mão dele se impuseram diante do receio dela. Ele a puxou para cima de um só golpe. E Cotinha ficou no alto, presa e prenda de um herói a mais de três metros do chão. O homem cavalgou por três dias. Sem palavras. Nas paradas que fizeram ele nada disse. Quando decidia apear para passar a noite, parava o cavalo sem mais dizer, colocava Maria no chão e ia tratar de fazer fogo para passarem a noite. Assim que as labaredas começavam a chispar deitava o agudo do corpo e já era um sono que ela não ousava sequer se mexer. A moça sequer suspirava. Sequer dormia. Quando ele acordava sem falar palavra, juntava suas coisas e montava no cavalo, ela já embaixo pronta esperava pelo braço. No quarto dia chegaram a Tucksland, um povoado no meio de um lugar qualquer. Maria viu uma quantidade inimaginável de água apoçada num dos cantos do vilarejo e bem diante de seus pés e seus olhos, pequenos morros d’água rebentavam e desmanchavam em espuma. Esse é o mar, ele disse. O lugar tinha talvez umas 20 pessoas. Homens e Mulheres. Trabalhavam todos em tarefas diversas. Extraiam água, separavam alimentos, folhas, teciam e forravam cestos com aquilo que parecia a colheita. Ramiro foi até um grande galpão coberto de palha. Maria o seguiu e ao seu silêncio. No galpão ele ateou fogo em alguns galhos, cortou com precisão a peça de carne sobre um tabuleiro, salgou e embrulhou em folhas. Colocou sobre o fogareiro. Num movimento chegou tão perto de Maria que a moça estremeceu sem sair do lugar. Sentiu o ar quente que veio junto com ele e o grave do cheiro. Olhou o homem. Aqui eu cozinho. Tomou-a pelas mãos e seguiram para outro galpão. Aqui eu durmo. E se foi do povoado sem mais dizer. Ela ficou ali, no mundo e no calor das palavras curtas e definitivas dele. Refrescou-se numa tina com água que lá estava e sorriu quando um cachorro aproximou-se balançando o rabo e fazendo chistes. Chamou-o de Dipsy. Ramiro voltou depois de alguns meses de um silêncio sem ele. No galpão tomou-a nos braços e fez nela um filho. Partiu mais uma vez. O menino cresceu dentro dela nas conversas que tinha com ele enquanto alisava a barriga. Contou para o menino como era seu mundo antes de Ramiro chegar. E contou quando ele chegou e com raras palavras a levou. Maria da Cota Nascimento agora é mãe de um filho de Ramiro e vai mostrar para o menino o mar e a cozinha do mundo do pai. O cavalo e o povoado assistem. Dipsy balança o rabo. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE



55  FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE    30/10 a 15/11 de 2009






De 30 de outubro a 15 de novembro aconteceu a 55° feira do livro de Porto Alegre. Algo que não pode e não deve passar sem comentários. Porque é um exemplo. Porque é de dar água na boca. Aos que escrevem, aos que lêem. A todos. A geografia da cidade atravessada por uma Feira do Livro. Uma praça, ladeada por edifícios cheios de história; onde um dia comerciantes e quitandeiros se juntaram e onde também acontece hoje comércio de artesanatos diversos. Um lugar onde tanto se falou e se fala. Histórias da alfândega, dos comerciantes, dos mendigos, dos que sentam para ler livros, dos que a atravessam. Do espanto dos poetas. Um lugar estampado de palavras, de falas-palavras. Em cada caco do chão. E pela 55° vez, a edição de uma feira de livros. Por toda parte. Inclusive num hospital, onde a feira foi “improvisada” para as crianças que não podem sair terem acesso ao espírito da leitura, da festa. Terem acesso ao ritmo. Vida que pulsa na palavra. Em cada sacola. Na boca. É isso que acontecia nas barraquinhas personalizadas embaixo das imensas paineiras, dos ipês e jacarandás; o chão coalhado de cores e a praça invadida, circulada, vivificada; diante da conversa paralela entre Drummond e Quintana e milhares de fotos. A democracia da palavra. Falada, encadernada, escutada, televisada, sussurada. Os escritores de muitos livros, os de um livro só, e também os de nenhum; os consagrados, os pela primeira vez nessa trilha e os que estarão lá nas próximas edições. As outras mídias envolvidas. Rádio, televisão. Jornais. Uma comunhão, uma vitrine, um oásis. A área dos expositores, dos autógrafos. A conexão com o outro lado da via. Com o rio, com a Bienal do Mercosul. Milhares de pessoas cruzando todas as fronteiras nesse passear em torno de 26 mil m2. Vozes por todos os lados, inclusive a do poste, que através de um sistema de alto-falantes divulga a programação do evento pontualmente. Shows, palestras, mesas de discussão, autógrafos. Informações, segurança. Um mundo envolvido com a circulação da leitura, da escrita, da palavra. Isso sem contar as casas de cultura, exposições, cinemas. Gentes de todos os lugares. Lugares para todas as gentes. A maior feira a céu aberto da América Latina. Literalmente. Para Santa Catarina, o estado homenageado nessa 55° Feira do Livro de Porto Alegre, além da imensa honra, possibilidades de troca cultural, de novas idéias, de verificações, constatações; de encontro, de trânsito com as diversas dinâmicas envolvidas e de mudanças. Aos que lá estiveram e também aos que não, a possibilidade de representatividade, de exposição, de “dar a ver”. Contato. Peles descascadas e o encontro do que há dentro, daquilo que funda, da palavra que nos configura, nos remete, nos assina. A palavra que descortina o homem em sua complexidade. Instaura esse mesmo homem num outro lugar. Estamos todos aqui. Estivemos todos lá. Somos um. Porque nos fundamos na palavra. A que diz, a que silencia. A que se expõe e a que balbucia. A que se arremete nos palcos e a que descansa. Para além do que foi o evento, existem as possibilidades. Que nem o Guaíba. Aquele mar doce. Que em sua origem indígena significa o lugar onde o rio se alarga. Que nem as possibilidades quando a gente silencia e admira o inesperado.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

NADA

Crônica publicada no jornal A Notícia em 12 de novembro de 2009.


Nada, além de ser o contrário de tudo, a resposta que você dá quando perguntam: “E aí, alguma novidade?” (e você não tem nenhuma), o vazio do espaço (que sabemos que não é vazio), o que tem na caixa de chocolate quando você chega pra pegar e não tem mais nenhum; é também uma carta do tarô.

Muito interessante essa carta. Tirá-la numa leitura pode gerar decepção. A pessoa paga um tanto pra se consultar com aquela cartomante que dizem que é o supra-sumo, ou aguarda horas numa fila pra falar com um guru não sei de onde que promete dar todas as respostas e a carta tirada é o NADA.
Aí você não se conforma. Pô... nada? Fui fazer uma sondagem e deparei com o possível significado da carta: shunyata. Um equivalente do inglês “nothingness”, que se você esmiuçar: nothing (nada) ness (partícula de negação). A negação do nada? O significado dela, basicamente, é o “tudo” que pode existir potencialmente no “nada”. Se o tudo não se apresenta abrem-se portas para quê?

Para possibilidades. Para coisas que estão ali contidas e que, unicamente, não as sabemos. Realmente não sabemos porque, de tão ansiosos em enxergar ali respostas, cegamos e saímos esbofeteando o ar (só pra começar). Um professor meu, falando sobre os mecanismos do estresse, fez uma analogia interessante. “O que é o estressado? O ansioso? É o sujeito que acelera o carro com o freio de mão puxado. Fica lá, injetando combustível, rosnando que nem louco e não sai do lugar.” Ou seja, o sujeito coloca uma energia danada na impotência. Termina o dia estarriado. Isso se não tem uma pane no meio do caminho!

Esquecendo a carta, a situação de se encontrar num grande, sonoro e retumbante vazio, pode parecer igualmente devastadora. Olhar para os lados, todos eles, e não localizar nada onde se apoiar, não localizar saídas. É aí, caro leitor, que está a mágica. Nesse escuro, nesse vazio ou nada, estão as potencialidades.

Potencialidades são o avesso do nada. Mas, para acessá-las, é preciso mergulhar antes no silêncio que antecede o encontro. É preciso relaxar. Adentrar o silêncio. Respirar, que significa inspirar, expirar. É o que digo: tem de dar chance pro “azar”, certo? E fazer como dizia Dadá Maravilha: “Deixe a bola rolar em campo que ela tem pulmão”.

Temos de abrir espaço para que as possibilidades surjam e você as veja. Porque senão, elas até vêm, mas você não vê, tão louco que está articulando sem parar. E também tem um outro dizer ótimo: “Habian cerrado todas las salidas, però el escapou por uma de las entradas”. É isso. Certas coisas você tem de silenciar para ver.

Por isso, a beleza de se olhar o vazio. O nada. Porque ele pode fazer a conexão com o que há de mais impalpável em você. Com o seu “dentro”. Só nesse estado é possível enxergar potencialidades. Todo o mais são articulações inúteis sobre coisas que nos fogem. E não é preciso o tempo todo correr atrás das coisas. Sério! Na delícia do silêncio, no encontro de você com seu “dentro”, certas coisas caem no seu colo, tocam a campainha. Vamos escutar o vazio?

terça-feira, 3 de novembro de 2009

EDUARDA

Crônica publicada no Jornal A NOTÍCA de Joinville em 29 de outubro de 2009.

Eduarda precisa de férias. Há meses vem notando fragilidades. Outro dia achou a chave do carro na lavanderia. O telefone celular esquece na bolsa. Pois se não toca ela até esquece que tem. Eduarda não esquece que não toca e então esquece que tem. O celular que não toca. A academia que não está indo. As duas consultas finais com o dentista que não arranja tempo para marcar. O marido que trabalha como máquina. Quando chega em casa ele desliga. Eduarda e o marido estão precisando de férias. Quando começam a perguntar quem tirou de não sei aonde o não sei o quê, já o sinal amarelo está aceso e o diabo é que não percebem o ringue instalado bem no meio da sala. Eduarda, mulher à beira de um enguiço, pensa se isso é justo com ela. Fica se amarrando com as roupas para lavar, a comida para fazer, o seminário de geopolítica que deve apresentar e essa maldita lâmpada que não ilumina nada. Essa lâmpada não ilumina nada! ela diz. Ano que vem vou passar um mês na Bahia, ah vou. Correr tanto pra quê? Amanhã tenho uma crise de pânico, um lapso na memória, esqueço até meu próprio nome e daí quero ver. Arnaldo tendo que me convencer o tempo todo que ele é o meu marido. Dizendo: olha querida, a foto do dias em que nos casamos. Aí quero ver ele desligar quando chega em casa. Vai ter que ficar na tomada o tempo inteiro! Porque eu, Ah, Luzia, eu é que vou estar desligada! Logo bate na boca. Pensa, não posso reclamar, ai, não posso. Tenho uma vida tão boa. E se eu tivesse que todos os dias ir para sessões de hemodiálise? Se eu fosse cega? Ai meu Deus! Nessas ocasiões se enche de vigor e então prossegue. Fica nessa dependência esquizofrênica e agradece. Obrigada, Senhor. Obrigada. Mas o diabo é que não há permanência nenhuma nisso. Mas será o Benedito? Eduarda, que é assim assim com as coisas do céu tem lá sua predileção pelo santo. E às vezes canta: “Não freqüento missa, novena, confissão, mal faço o sinal da cruz, não ando em procissão. Nas coisas do céu eu muito pouco acredito, mas gosto, gosto, de São Benedito. Mas gosto, ah, como eu gosto, do meu São Benedito”. E então se enche de uma paz que quase não reconhece. 

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

http://poetasnosingular.blogspot.com.br/2009/10/tres-singulares-na-feira-do-livro-de.html

quarta-feira, 28 de outubro de 2009


Três singulares na Feira do Livro de Porto Alegre

Cristiano Moreira, Dennis Radünz e Marco Vasques farão debate sobre a literatura feita em Santa Catarina na Feira do Livro de Porto Alegre

Santa Catarina é o estado homenageado na Feira

A Feira do Livro de Porto Alegre contará com a participação expressiva da literatura catarinense durante sua 55ª edição, que começa nesta sexta-feira (30) e termina em 15 de novembro. Este ano, Santa Catarina comparece como Estado Convidado, e 15 escritores e estudiosos de literatura foram indicados para integrarem a movimentada programação da feira, participando de mesas redondas e divulgando seus trabalhos.
O catarinense Silveira de Souza será o escritor homenageado, em uma lista da qual também fazem parte Dennis Radünz, Carlos Henrique Schroeder, Rodrigo de Haro, Alcides Buss, Amilcar Neves, Clotilde Zingali, Ramone Abreu Amado, Cristiano Moreira, Fabio Brüggemann, Tânia Piacentini, Péricles Prade, Eliane Debus, Marco Vasques e Tânia Ramos. “Levamos em conta a qualidade e representatividade literária desses escritores e estudiosos. Tomamos cuidado para também indicar representantes da nova geração da literatura catarinense, e procuramos representantes de fora da Capital, apesar de haver grande concentração de escritores em Florianópolis, o que é natural. Foi um trabalho difícil, inclusive tivemos convidados que declinaram por problemas pessoais, como agenda comprometida ou problemas de saúde”, explica a diretora de Difusão Artística da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), Mary Garcia, que coordena a ida da comitiva catarinense para a Feira.
Ela lembra que esta é a primeira vez que Santa Catarina participa como Estado Convidado. Segundo o presidente da Câmara Rio-Grandense do Livro João Carneiro, entre os motivos que levaram à escolha do Estado estão a possibilidade de troca cultural com o Rio Grande do Sul e a riqueza da cultura catarinense, em especial no que se refere à produção literária e editorial. Para Mary Garcia, a participação é muito importante para o Estado. ?Essa é uma oportunidade muito especial para promover o contato com escritores de todo o Brasil e do exterior, mostrar nossa literatura e apresentar o pensamento catarinense através dos debates?, considera.
A homenagem ao escritor Silveira de Souza está prevista para o dia 02 de novembro, segunda-feira, e será precedida pela declamação de dois contos do autor pelo também literato Dennis Radünz. No dia anterior (1), Silveira de Souza autografará seu décimo livro, “Janela de Varrer”, da Editora Bernuncia, lançado em 2006. Aos 76 anos, o ocupante da 33ª cadeira da Academia Catarinense de Letras transita entre os diversos gêneros literários e é reconhecido pela habilidade em transformar os desencontros da vivência humana em ficção. Os catarinenses protagonizarão também muitos lançamentos de livros e sessões de autógrafos, e integrarão mesas redondas sobre temas variados, como reedição dos autores dos séculos XIX e XX, novos editores e autores e leitura na internet.
A Feira do Livro de Porto Alegre é maior feira a céu aberto da América Latina e atrai milhares de pessoas todos os anos. Toda a estrutura será montada na Praça da Alfândega, no Centro de Porto Alegre, onde estará também o estande catarinense. Lá, os escritores se revezarão no lançamento de livros, encontros e oficinas. Segundo Mary Garcia, a permanência média dos autores de Santa Catarina na feira será de dois dias para cada um. Ela ressalta que a FCC vai arcar apenas com o valor das passagens, já que hospedagem, alimentação e translado do hotel ao evento serão pagos pela Câmara Riograndense do Livro.


MESA 2 “Literatura Catarinense: Novos Autores/Editores”
DIA: 02 de novembro de 2009
HORÁRIO: 17h30 - Sala O Arquipélago - CCCEV


Péricles Prade
Cristiano Moreira
Dennis Radünz
Fabio Brüggemann
Marco Vasques

Matéria feita pela jornalista Deluana Buss

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

SOBRE ESPAÇOS, AUSÊNCIAS E COISAS PARA SE FAZER







Espaço. Um pedaço de margem branca depois que acaba o texto. Entre um texto e outro também pode ser. Espaço pode ser grande, mas é bom você delimitar. Espaço numa fita para gravar músicas. Como as cassetes de outro dia (porque o espaço entre hoje e o tempo das fitas cassete é muito pequeno). Agora é o espaço do CD, ou do pen-drive e outras tecnologias. É engraçado lembrar das fitas cassetes. O gravador fazendo aquele barulho para rebobinar. E quando a fita enroscava? Ah, era engraçado. Espaço é o que pode haver entre as pessoas quando elas estão com humor alterado. É o que você dá para as pessoas quando permite que entrem na sua vida. Espaço é onde os astronautas flutuam; os planetas todos orbitam no espaço. Espaço é um lugar que você precisa ocupar pra fazer algo melhor. E diz: -

me dá mais espaço, por favor. Espaço é o branco do papel, qualquer branco que se queira ou precise vencer. A tela do artista em branco ou não, é espaço. A casa inteira é espaço para a criança correr. Quarto é um espaço onde alguém pode morrer. Espaço é qualquer fresta por onde a luz entra no tubo de revelação e queima o filme fotográfico. Espaço é um lugar numa cama para uma pessoa. Mas pode caber mais de uma também. Espaço é algo para onde as coisas vão: pessoas também. - Foi pro espaço! No espaço as coisas desintegram. Espaços são outros endereços, novos endereços onde podemos morar. Espaço é um tempo que você arruma para alguém: - assim que possível. Espaço é um lugar onde você guarda idéias impossíveis. Um lugar onde moram nossas interpretações. É o que há ou não no freezer quando você quer colocar lá uma bandeja para fazer gelo, ou uma vasilha com feijão pra você comer daqui a 15 dias. É o que há de vazio no seu guarda-roupa quando você olha e diz: não tenho roupa para ir! Espaço é algo que se pode ocupar com letras. Espaço de alguém que você usa para escrever. Como esse. Um espaço onde cabem aproximadamente 3.500 caracteres, um título e uma ilustração. Cabe também a propaganda de ar condicionado logo abaixo. Espaços vendidos. Espaços comprados, cedidos, que podem ser tirados e oferecidos. Espaço é um lugar que a gente ocupa. Toda a gente. Os objetos também. Como os jornais, que ocupam um espaço sobre a mesa, um espaço na vida dos leitores de jornal; e as pessoas dizem que com tantas novas mídias o jornal nessa forma que conhecemos um dia vai acabar. Não acho. Espaço é um trecho que os corredores de fórmula I percorrem de 0 a 300 Km em menos de 10 segundos. É um lapso de tempo onde você olha para o seu parceiro enquanto trabalham cada um no seu computador e ele te olha com um sorriso maroto e você pergunta: - Que tá me olhando? Você ama nós dois trabalhando juntinhos ou quer um pedaço da minha pizza? É o tempo que ele leva pra dar a resposta que vem na forma de um sorriso. Espaço é o que se cria de bom quando alguém sorri. É tudo que cabe no reflexo dos olhos. É o tempo que alguém precisa pra ficar sozinho e também com outro alguém. É um tempo que se leva até que a gente possa estar com alguém que a gente muito quer. E é tudo que a gente faz enquanto isso não acontece. É também o que a gente não faz. O que a gente não faz ocupa um espaço muito grande, por isso temos a sensação de ser insuportável. O que a gente faz às vezes torna as coisas bem pequenininhas e então a gente quer fazer outras coisas para encher o espaço que ficou vazio. Espaço é um lugar que a gente enche de fumaça quando a gente fuma. O pulmão é um espaço que fica cheio de fumaça quando a gente fuma. E o pulmão ocupa um espaço grande dentro do corpo da gente. Quando se deixa de fumar se abre espaço para outras coisas e o pulmão tem mais oxigênio para respirar. Espaço é a prova de redação que alguém deixou em branco e lá no final escreveu: “o que o lápis escreveu, a borracha apagou”. E dez tirou. Espaço ocupado com 3.774 caracteres é o que tenho até agora. É melhor parar. Espaço é o tempo que tenho que dar antes de surtar. Até semana que vem, querido leitor.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

OS CHEIROS








Crônica publicada no Jornal a Notícia em 06 de agosto de 2009.

Eu realmente tinha planejado falar de raviolli, mas desde a publicação da crônica de Adália e Quasar venho recebendo mensagens que me fizeram mudar de idéia. Muito bacana saber das histórias envolvendo cheiros de várias ordens. De perfume, de comida, de lembranças, de fatos. Esse negócio de cheiro dá mesmo o que falar. E embora cheiro de raviolli seja muito bom e traga junto cheiro de amigos em torno da mesa, trabalhando juntos, preparando a massa e comendo, me pus a pensar em outros cheiros. Porque cheiro é um modo de a gente se “orientar”. Também pode ser um modo de a gente se perder. Mas se a gente pode se perder, também dá pra se achar. Como “cheiro da casa da gente”. É bom esse cheiro. Dá conforto. Dá aconchego. Cheiro de beijo na boca quando começa a pegar fogo. Cheiro de roupas limpas secando no varal (nem precisa usar amaciante pra cheirar gostoso). Cheiro da roupa de alguém com restinho de perfume. Cheiro de mar. Cheiro do crepúsculo no mar. Alguns cheiros me marcaram. Como o cheiro do pão de queijo que minha avó fazia e escondia num tacho de cobre no armário do quarto. Pode? Era uma diversão. A gente chegava e ia fuçando, comendo pelas bordas. Ela dava bronca quando via o tacho quase vazio mas no fundo devia adorar o fato de a gente “adorar” os pãezinhos que ela fazia pra gente. Tem cheiro inesquecível. Como o cheiro da Ilha de Páscoa. Aquele pedaço de terra no meio do pacífico. Lembro de lá e já sinto um odor de terra virgem, de pura descoberta. E cheiro de café? De pão quentinho? Você coloca um pouco de manteiga e junto com o café fresquinho isso vira a porta do céu. Cheiro de “eu consegui! Eu consegui!”. E também cheiro de lugar errado. De hora errada. Isso sem contar o cheiro das situações que nos colocam em alerta: Cheiro de gás, de “acho melhor a gente se mandar”, “eles brigaram”, “que arapuca!”, “acho que isso pode nos prejudicar”, “aí tem armação”... E por aí vai. Ás vezes coisas que cheiram bem escondem ciladas. E tem cheiro que a gente sente que dá até náusea. Outros são apenas ruins, outros ainda, são tóxicos. Tem cheiro difícil de esquecer. Cheiro de gente dormindo na rua. Cheiro de gente cheirando crack. Cheiro de gente “se acabando” por dificuldades de todas as ordens. Cheiro de quando se passa em trechos de estrada que abrigam determinadas indústrias. Típico de fábrica de celulose. Cheiro de indústrias que jogam seus esgotos nos rios que temos, cheiro de residências que fazem o mesmo. Cheiro de falta de saneamento básico. De rio poluído. Cheiro de esgoto a céu aberto. Cheiro de descaso político. De falta de vontade política e falta de “panelaço” de uma sociedade civil não organizada. Esses cheiros a gente pode associar às coisas. Ou a gente deveria! Para o cheiro vir junto e ajudar a gente e todo mundo a não esquecer. Porque tem cheiro que definitivamente não é bom esquecer. É bom guardar na memória que chamam de não-declarativa ou de procedimentos. Aí na ocasião propícia, do voto, por exemplo, a gente lembra, associa e pode tentar uma opção que cheire diferente. Um cheiro que não cheire a pizza.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

DOIDA OU SANTA?




Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 08 de outubro de 2009.

Maria Angélica, que já completou 40 anos há algum tempo, sentada diante de um espelho, fica parodiando Adélia Prado. De tanto ler o poema já nem precisa mais do livro apoiado sobre suas pernas. Mas ele lá está. Olha mansamente a imagem instalada, invertida. Respira e diz o trecho do poema: “Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa”. Pensa no que Adélia teria pensado ao escrever aquilo. Em quem teria se inspirado? De todo modo é uma temática semelhante à que sente agora diante do espelho. Uma inquietação. Um desassossego diante da vida que se apresenta na mais absoluta impermanência. Sabe lá em que situação imagina o amor a arrebatá-la e ela mesma suspensa pela vida que não para. E ela envelhece enquanto pensa. E envelhecendo é arrebatada pelas dúvidas que não a habitavam antes. Pensa de que maneira poderá sucumbir ao amor que sente se não é mais jovem. Olha o livro sobre suas pernas. Não precisa dele, mas de algum modo quer subtrair a energia das palavras ali estampadas. Tem tudo dentro. Mas quer. Pensa de novo na poeta, nas palavras. Olha o desenho das letras. Inspira e repete: “De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?” No meio da idade quer definições. Sorri achando isso o retrato da adolescência. Sorri o caminho que andou até onde está. Todo ele. Com tudo que houve no meio. Sorri por tudo que há mais à frente e ela não conhece. Mas conhece outras coisas. Sabe que se quiser colocar toda essa impermanência à prova, terá que se deixar devastar por tudo o mais que vier junto com isso. Será doida. Se ao contrário, preferir evitar desilusões, optará pela abstenção. Será santa. Haverá algo no meio disso? Maria Angélica olha o sorriso no espelho. Olha o livro mais uma vez. Lê e declama num tom que não é outro senão a sua impermanência, a de Adélia, de Cristina, Luciana e outras.
“Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa. Eu que rejeito e exprobo o que não for natal como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão. Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua, os gerânios e ele serão os mesmos - só a mulher entre as coisas envelhece. De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?”
Pensa: Não sou doida nem sou santa. Sou poeta. Não há condições de não abrir a janela, escancarar a porta. Beijar quando ele me beijar. Sou assim mesmo exagerada, delirante, apaixonada. Fecha o livro e sorri mais uma vez. Adélia é porreta. E eu? Ora, sou por um triz a cada instante. Sou Maria Angélica. Filha de Augusto e Izabel. Mãe de Guilherme. Se quiser falar comigo, experimente bater na janela. Veremos como se resolve essa equação.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

S.O.S. RIO CACHOEIRA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 01 de outubro de 2009.

Sábado último, depois de voltar do Mercado Municipal com friozinho e chuvisco intermitente, no aconchego de casa dormi um soninho gostoso e sonhei. Sonhei com a capivara que tínhamos visto na margem do Cachoeira e que tanto nos impressionou; ela não era sobrevivente em meio a um esgoto a céu aberto; era sim habitante de um rio despoluído que cortava a cidade, margeado por calçadões, decks, árvores e jardins. Uma Cidade-Parque, onde natureza e seres humanos conviviam em harmonia. Andava sozinha e por vezes em pequenos bandos. Os filhotes a se engraçar na mata ciliar. E lá na parte de trás do mercado, onde os carros se juntam, era um outro espaço voltado para o rio vivo, para o desfrute. Mesinhas espalhadas e convívio. Muita gente ali, joinvilenses e turistas. E falando em esgoto e gente, dois conjuntos de banheiros, masculino e feminino, lá estavam para os usuários. Uma beleza, leitor! Banheiro limpo, papel higiênico, sabão líquido nas saboneteiras e papel para enxugar as mãos. O básico e elementar, não é? Mas no meu sonho eles estavam lá. Eu passeava por todos os espaços; o comércio de verduras, legumes, grãos e afins, que ocupava o térreo, era de uma beleza fotográfica. Lá se encontravam donos de restaurantes e cozinheiros de plantão buscando de um tudo. E tinha. A seção de pescados e carnes era de um movimento sem igual. Em cima, num novo mezanino construído sobre parte da área interna, a banda de chorinho encantava mais frequentadores, e dois ou três botecos serviam iguarias de tirar o ar. Gente falando alto, cheiro de vidas misturadas; uma atração. No espaço externo, no lado que faz face para a Beira Rio, muitas mesas ocupadas ao livre, nas sombras das árvores e também ao sol, o espaço repleto de gentes e gentes escutando rock, MPB e no outro palco, teatro, dança, poesia, estórias, performances e outras atrações. Nem havia espaço no estacionamento... Mas para quê, não é? As pessoas vinham mesmo caminhando pela Beira Rio e desfrutando o sábado na cidade-parque. Aliás, lá onde ficam as figueiras que na vida real um dia foram objeto de dúvida, elas lá estavam. Pois não é que decidiram mantê-las e criaram uma alternativa para a questão dos bueiros e tubulações? Fizeram contenções naquele trecho e tudo ficou bem? De modo que o calçadão estava repleto de pessoas caminhando no trecho “Alameda” da Beira Rio. Um orgulho da cidade. Em bancos espaçados alguns sentavam, tomavam picolé e ficavam a namorar a vida. Uns faziam cooper, outros passeavam de mãos dadas e alguns da caminhada já esticavam para uma comprinha no mercado, um instantinho de música, papo e encontro com amigos e mais desfrute, olhar o rio de perto, e as capivaras. Mostrar aos filhos o rio que passava sem gritar sua dor, sua falta de oxigênio, seu terrível odor, e contar como era bem o oposto há um tempo atrás. Agora as mesas repletas, o rio vivo e capivaras, garças e até o famoso jacaré desfrutavam. Vez por outra passava algum barquinho. Espiavam o movimento do mercado e seguiam... Foi então que comecei a escutar algo, como uma espécie de uivo, que foi ficando mais perto e eu percebi que era choro. Capivaras choravam as mazelas humanas, o rio chorava detritos, poluentes químicos e emanava um odor pútrido. As pessoas choravam. Choravam Joinville que chorava seu rio que chorava oxigênio que chorava descaso. Acordei incomodada com o úmido do travesseiro. Foi um sonho leitor. Era eu que chorava. Enxuguei o molhado do rosto e sentei para escrever esse texto. Alguns de vocês certamente sonham como eu. Vamos fazer virar verdade? Quem se habilita?

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

DOMINGO EM JOINVILLE

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 24 de setembro de 2009.

Bom dia Joinville! Bom dia Flor do dia! O último domingo de inverno na cidade foi um domingo pré-primavera, de sol nascendo um pouquinho antes das 7 horas, e que eu tive a oportunidade de aproveitar por inteiro. Saí para fazer uma caminhada e entre tantas pessoas também caminhando, não é que passou uma senhora com dois botões de rosa nas mãos e me disse: Bom Dia! Feliz respondi: Bom Dia! Caminhei pela Rua Dr. João Colin desde a Rua Benjamin Constant até chegar ao Shopping Müeller e então segui até o Batalhão, contornei, andei um pedaço da Jacob Eisenhuth e retornei ao Shopping Müeller, onde parei para tomar um café. Sentei numa mesinha com sol no aconchegante espaço do Empório e me pus a pensar Joinville. Pensar a ideia dos parques. Joinville poderia ter um parque. É, poderia. Mas pensando nas pessoas que vi caminhando junto comigo, voltei a pensar na minha velha ideia da cidade feita em parque (já falei sobre isso em outras crônicas). Imagine o leitor a Rua Dr. João Colin arborizada! As pessoas tradicionalmente caminham lá. Muitas pessoas. Aposto que se sentiriam muito melhor num caminhar arborizado. Pensei isso especialmente quando voltava com o sol já quase a pino. João Colin, a rua que corta Joinville de Norte a sul mudando de nomes. A rua-parque com ciclovia. Estudantes, trabalhadores e passeadores presenteados. Lindo. Na volta encontrei uma amiga e fomos almoçar em casa. Comidinha, papinho bom e lá pelas três mais uma passeio ao sol. Ela precisava comprar umas coisinhas e paramos então o carro no BIG. Saímos do mercado a pé para antes das compras, tomar um cafezinho. Mais um pouco do sol a nos aquecer. Voltamos ao mercado e compras feitas, já quase cinco horas da tarde, lá mesmo no BIG, paramos para tomar um chopp no Quiosque Chopp Brahma. Escolhemos uma mesinha alta no lado que fazia frente para o sol que ia começar a se pôr. De novo pensei: Joinville não tem parques. É, não tem. E bem poderia ter! Mas enquanto isso não acontece, insisto: um novo olhar sobre a cidade é o que conta para transformá-la num grande parque. Cidade das Flores. Cidade das bicicletas. Cidade parque. Inicialmente é só plantar árvores nas vias. Não é possível ciclovia em algumas ruas? Que se possa circunscrever linhas para bicicletas nas calçadas ou deixá-las, como em Amsterdã, a circular livres por elas. Na rua é que não podem estar! E trabalhar os espaços públicos como espaços de lazer também. No nosso caminho para o café vimos o pátio do Centreventos Cau Hansen repleto de crianças e adultos. Andavam de skate, patins, empinavam pipas. Lembrei da minha infância no Parque Ibirapuera, eu mesma de patins a rodar no pátio do saguão de exposições. Não tem parque? As pessoas usam o espaço disponível! Por que então não trabalhar tais espaços com esse viés? Veja, terminei meu domingo no quiosque do BIG. Vista para o estacionamento. Carros por todos os lados. Mas tinha gente pegando filme na locadora, tomando lanche no BIG, namorando em baixo das árvores do estacionamento; e virando a cabeça a gente via aqueles que caminhavam na Beira Rio e as árvores da Beira Rio, e de frente pra gente, lá na frente, vendo o sol deitar ao fundo do skyline das montanhas, dando adeus ao último domingo do inverno. Poderia ter um parque? Poderia sim. Estamos aguardando por ele. Mas pode haver qualidade de vida enquanto isso, durante isso, depois disso.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

IDALINA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 17 de setembro de 2009.

Idalina, agora que vai completar 64 anos, pretende começar a trabalhar. Sempre viveu com os ganhos do marido e depois que ele se foi, vítima de um câncer na próstata, passou a viver da aposentadoria dele. O dinheiro - se não permite excentricidades como pagar a escola dos netos e ajudar um pouco a filha que sempre diz: Ah mãe. Eu queria era mais dinheiro. Aí eu seria feliz – tem permitido a tintura que recobre o branco dos cabelos, um ou outro presentinho para os netos e os filhos, e pagar as aulas de dança de salão que frequenta todas as quartas e sextas-feiras. Também o supermercado. Os remédios para a pressão e um dinheirinho que coloca todo mês em uma caderneta de poupança para fazer uma viagem à Itália. Um dia eu vou. Diz sorrindo. Enquanto isso tudo não acontece ela preencheu com cuidado a ficha para a vaga de emprego. Maria Idalina Silveira Castagnetti. Esteja em paz meu italiano amado. Ela pensa pensando no marido. Viúva. 63 anos. Sexo feminino. Casa própria. Obrigada meu Deus. Obrigada. Dois filhos. C.P.F., R.G. O espaço do número da carteira de trabalho fica vazio. Não por muito tempo. Todos os papéis foram providenciados e o moço de rosto surpreso, que é contador, e está preparando tudo, vem à mente de Idalina. Ele prometeu tudo pronto em dois dias. Depois disso ela entregaria na Escola ali perto de sua casa para finalizar o contrato de trabalho. Ela sorriu. Pensou que ainda poderia surpreender. Respirou. Não escondeu de si mesma os receios que sobrevieram. À sombra do marido por tanto tempo e os vazios que foram aumentando de tamanho. Aumentando até que ela não se enxergasse mais. Então um dia Francisco se foi e o espelho desceu no meio do quarto em que ela chorava sentada na cama. Bem à sua frente. E ela se viu como há muito não se via. Idalina se viu. Viu até as roupas que cobriam seu corpo. O pálido delas. Entregou a ficha para a diretora da Escola. Sorriram as duas. Nos vemos em duas semanas. Prepare-se. A tarefa será árdua. Sorriram outra vez. De volta a casa lembrou mais uma vez do dia do espelho. Do pálido. Foi até o armário e abriu todas as portas. Colocou tudo na cama. Separou, vestiu, olhou no espelho muitas vezes. No início da tarde tinha uma pilha de roupas para doar. Levaria até um Lar de Idosos que ela conhecia. Sobre a cama poucas coisas restaram que ela decidiu manter. Dia seguinte iria comprar roupas novas. Iria agora afinal. Tomou um banho que a encheu de mais vigores e foi. Já na rua sinalizou para o táxi que passava. Boa Tarde. Shopping Muller, por favor. Falaram do tempo como é de hábito nas conversas dentro de um táxi. Falaram da chuva incessante e do verão que viria afinal. Ah! Viria sim. Ela nem contou ao taxista, mas já estava dentro dela o verão que ainda ia chegar. E foi no meio do caminho, ou quase isso, na esquina das Ruas Visconde de Mauá e Benjamin Constant, que toda essa perspectiva iluminou eternamente Idalina. Ali mesmo o coração parou. Na alegria de tanta perspectiva, o peso da carreta sobre o táxi e muito vidro estilhaçado. No preto do asfalto, diante da multidão que se alvoroçou, o sangue que ela verteu caminhou indiferente, desceu até a Rua Blumenau e seguiu insistente até o Shopping. Em frente à escada rolante rodamoinhou junto com vento que soprava. Agora, nesse 13 de outubro que se avizinha, Idalina faria 64 anos. Táxi, táxi. Boa Tarde. Shopping Muller, por favor.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

TEMPORADA DE ALCACHOFRAS

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 03 de setembro de 2009


Eu gosto de rituais. De modo que nessa primeira crônica de setembro, mês onde, pelo menos em tese, vamos entrar na primavera, quero falar de um jantar especial, um jantar de ritual que fizemos nessa noite do dia 01. Um dia antes fomos ao supermercado. Compramos alcachofras. Como são “flores”, deixamos num vaso com água. Enfeitaram a cozinha por quase dois dias inteiros. Pertencem à mesma família dos girassóis e das margaridas, e formam campos lindíssimos em várias regiões da Europa. Dizem que na época do Império Romano era uma iguaria na mesa dos nobres logo depois do inverno. E é mesmo uma iguaria. Primeiro por sua beleza. Depois por tudo que contorna o saboreá-la. Há diversas formas de preparo, mas nesse dia optamos pelo modo mais simples e tradicional. Uma receita do sul da Itália que aprendi com meu sogro. Primeiro tirando seu caule e abrindo bem as pétalas para ficarem algum tempo de molho na água com vinagre. Depois aferventando num caldo aromatizado até que as pétalas possam ser descoladas suavemente. Então é só preparar um molho feito de vinagre, azeite, alho, sal, pimenta do reino e iniciar a festa. Pétala por pétala você vai tirando, passando a parte carnuda nesse molho. As brácteas. Descascamos folha a folha o rigoroso do inverno, os dias gelados, e mesmo ainda um pouco distantes da primavera, adiantamos o calendário ao menos nessa noite. O clima que envolve esse saborear as alcachofras é delicado como a própria flor. Até quando você tira uma pétala, passa no molho e oferece. Até os olhares trocados nesse despetalar. Depois de todas as pétalas você chega à parte fibrosa. Vale o trabalho de extrair com cuidado para chegar ao fundo da flor. Ao coração. Uma base feita do mesmo conteúdo das pétalas. Mas envolve você de um jeito diferente agora. O ar tomado pelo perfume dela. Saboreamos a inflorescência. As propriedades nutritivas e medicinais despertam a atenção: vitaminas do complexo B, potássio, cálcio, fósforo, magnésio e ferro. O sabor um tanto amargo que estimula as secreções digestivas além das características diuréticas. As alcachofras foram trazidas para o Brasil por volta de 100 anos atrás. É uma planta de clima temperado a frio e de áreas úmidas. Até vegeta bem em regiões quentes, mas não forma os botões florais. São 4 as variedades mais encontradas: Violeta de Proença, Roxa de São Roque, Verde Lion e Verde Grande da Bretanha. É formada por quatro partes: o fundo fibroso e a parte superior das folhas (não comestíveis), a base das folhas e o fundo ou “coração”. Os talos também podem ser apreciados, tirando-se bem as fibras externas e cozinhando junto ou preparando a base para um delicioso espaguetti ao molho com talos de alcachofra. Dizem que lá por volta do século XVI na França, o consumo da alcachofra tornou-se proibido para as mulheres. Parece que Catarina de Médicis adorava a iguaria e andou dando algum trabalho para o Rei Henrique II. Talvez venha daí a lenda do fruto ser afrodisíaco. De qualquer modo, afrodisíaco mesmo é você pensar em degustá-la, trazê-la para casa, seguir os procedimentos do preparo e pétala a pétala ir descascando essa iguaria. Esse poema. Pétala a pétala encravada. Taquicardia lá dentro.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

VANESSA ATALANTA




Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 20 de agosto de 2009.

Ela pensou em bater na porta umas batidas leves. Em colocar um bilhete pelo vão debaixo da porta e ir embora. Pensou em bater umas batidas fortes e esperar abrir. Ver a surpresa estampada, o desconforto por detrás da alegria. Pensou em chegar na hora da chuva. Encharcada. Passou pela Rua Dr. João Colin a caminho do Shopping Cidade das Flores desviando de sombras e sorrisos. Entre uma bicicleta e outra uns sobressaltos; e já são eles sombras. Entrou para dar uma espiada em quem estava por ali. Entre a fumaça que ondula e a que se esvai pelo exaustor, um mundo acontece naquele café pulmão. Muita gente, mas ninguém aqui. Preciso de ar. Depois foi só descer pela Blumenau e olhar de frente o local onde sempre encontrava com ele... Ver que o lugar estava ainda no mesmo lugar. Quantas quintas... “Prometo que vou resolver. De hoje em diante não esperarei mais”. Ele prometeu. Ela escutou.
Noutro dia passeou pela Rua Marechal Deodoro; pegou embalo no vácuo de uma bicicleta. Só ela e o silêncio da frente das casas; porque a vida é sempre nos fundos. Ele talvez pense ou saiba que ela parou ali, bem perto da árvore grande. Deve saber. Mas foi uma bicicleta encostada no muro quem a viu rondar a frente dos jardins. E viu a guia onde os dois sentavam olhando as árvores por baixo, pensando em toda a vida que acontece lá em cima, nas copas. Ela lembrou das conversas que tinham sobre pássaros, borboletas, sobre vôos. Mas agora nenhum som da voz dele... Lembrou quando disse para ele que a borboleta quando rodeia a gente é porque traz uma notícia boa. Como ele não acreditasse ela se pôs a ler os lábios de uma que lá estava para ele. Ele ria. Então ela chorou com a notícia trazida. Ele enxugou o rosto dela.
Ela tem muita saudade do que um dia eles desejaram, da capacidade que tinham de reinventar... Agora ela não sabe mais. Quer mudar de vida, de cidade, de país. Não quer acabar. Quer voar por outros lugares. Quer sentir-se humana, de carne e osso outra vez. Ela vai virar o jogo. Cansou de se camuflar para fugir dos predadores. Vai voar até que todo o medo saia de dentro dela. Vai esperar que ele saiba ouvir as borboletas e sorria outra vez pra ela, mande um bilhete, coloque um anúncio no jornal. Qualquer coisa que seja sinal de contato.
Não vai nada. Sendo mais humana ela vai é juntar todas as suas coisinhas, comprar uma passagem aérea para Portugal e começar tudo outra vez. Tão longe ela encontrará a si mesma e por certo deixará de bobagens como ler lábios de borboletas e pior, interpretar isso. Vai aproveitar o frio e migrar para um lugar mais agradável, mais propício à sua sobrevivência. Flores de urtigas, pequenas lagartas e néctar de flores hão de sustentar Vanessa.

domingo, 9 de agosto de 2009

achado carinhoso de um amigo querido, Rubens da Cunha

O POETA ASSASSINA A MUSA

Há dez dias que Clotilde
- Uma das musas queridas -
Anda aborrecendo o poeta.
Aparece carinhosa,
De repente vira as costas,
Diz várias coisas amargas,
Bate impaciente o pé.
Então o poeta aporrinhado
Joga álcool e ateia fogo
Nas vestes da musa.
A musa descabelada
Sai cantando pela rua.
Súbito o corpo grande se estende no chão.
Diversas musas sobressalentes
Desandam a entoar meus cânticos de dor.
Clotilde ressuscitará no terceiro dia,
Clotilde e o poeta farão as pazes.
Música! Bebidas! Venham todos à função.

Murilo Mendes em "O Visionário" 1930-1933

tem certas coisas que só o Rubens faz por você :))

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

CÓDIGOS

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 30 de julho de 2009.

Esses dias eu me lembrei de uma brincadeira que a gente fazia lá em casa quando éramos crianças. Minha mãe ensinou pra gente. Chamava-se “Língua do P”, e consistia em separar as sílabas de todas as palavras que você queria dizer e inserir na frente o “P”. Então, se você queria dizer “pega um chocolate pra mim”, dizia: P-vo P-cê P-pe, P-ga, P-um, P-cho, P-co, P-la, P-te, P-praP-mim? Era muito legal falar essa língua e a gente sempre “sacaneava” alguém com isso. E também era uma brincadeira nossa. A gente falava e nem importava se entendessem ou não, era uma brincadeira da minha mãe com a gente. E era muito bom. Depois, com a pré-adolescência, inventamos muitas outras. Tinha uma tão complicada que nem me lembro pra contar agora! Que pena! Mas lembro que escrevia coisas no meu diário com essa língua! E quando eu repassava as coisas que tinha escrito, tinha que eu mesma, ficar decifrando o que tinha escrito! Lembro de outra muito boa: a Língua do Geregsten. Essa consistia em soletrar todas as letras de cada palavra que se queria na frase, utilizando o “geregsten” depois de todas as consoantes, por exemplo, “N-geregsten, P-geregsten; e para as vogais usar a norma: agrafe para A, egrefe para E, igrife para I, ogrofe para O e ugrufe para U. Então, a frase do chocolate ficava assim: VgeregstenOgrofeCgeregstenEgrefe PgeregstenegrefeGgeregstenAgrafe UgrufiMregstem CgeregstenHgeregstemOgrofiCgeregstemOgrofoLgeregstenAgrafeTgeregstemEgrefe PgeregstenRgeregstenAgrafi MgeregstenIgrifiMgeregstem?
Imagina isso leitor! Uma loucura... Mas pensando com os olhos de agora vejo que aquilo era tão bom! Veja, essa língua do “P” dava pra gente uma intimidade muito grande com o ato de separar as sílabas, (rápido, naturalmente, porque não tinha graça falar gaguejando) e ainda enfiar um “P” na frente de todas as sílabas. Essa do Geregsten nos dava uma intimidade enorme com o ato de soletrar! Olha que domínio era cobrado para desempenhar essa fala! Um baita treino pro cérebro, não é? Acho que sim, agora ao menos, eu vejo com esses olhos. E me dá uma alegria imensa lembrar disso tantos anos depois (treinei tanto o cérebro com essas línguas que esqueci de aprender a fazer as contas de quanto tempo isso faz!). Bobagem. Mas acho de fato “um grande barato” essa história, essa cumplicidade que tínhamos. E a minha mãe estava sempre metida na brincadeira e também falava a língua do “Geregsten”. Acho que ela virava criança junto com a gente. Fomos crianças felizes. Ela e nós no mundo do “Geregsten” e do “P”. E também da mímica. Brincadeiras simples que nos uniam em torno do mundo encantado da não-palavra e do ato de comunicar-se de um modo diferente. Pensar que hoje em dia falamos um português tão claro e o ser humano às vezes ainda não se entende... Quem sabe é preciso subverter, não é? Tentar talvez falar uma língua estranha, ou por mímica para fazer valer o que “não sai” no português correto!

sábado, 25 de julho de 2009

SOBRE ATITUDES E VARINHAS MÁGICAS


SOBRE ATITUDES E VARINHAS MÁGICAS



Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 23 de julho de 2009.


Acho que não me engano ao dizer que o leitor, assim como eu e todos os outros que por aí estão na vida, vez por outra esbarramos em coisas, pessoas, situações... Enfim, a gente às vezes dá de frente com barreiras, precipícios, maremotos, terremotos existenciais e pensa: como vou sair dessa? E assim pensamos no que é possível fazer. Em como podemos efetivamente, fazer o que nos cabe diante da dificuldade de agir, das barreiras sociais, políticas, de vida mesmo, onde damos de frente com a couraça do outro, das instituições, e até mesmo com a couraça invisível dos sentimentos que nos rodeiam. Como romper com isso? Como trabalhar com essas contingências e fazer fluir, seja lá o que for? Li algo que falava sobre isso, sobre esse “estar em contato” com o ser humano nessa condição ampliada, de arbitrariedades e barreiras. Sobre remover nossas couraças ideológicas para entrar em contato com nossa ancestralidade, com nosso prazer e com a capacidade que temos de modificar. Uma modificação que se faz de baixo para cima, de dentro para fora, através de um exercício de liberdade e cidadania, através de diálogo. Tentando sair um pouco do nosso discurso para interagir com outros discursos, mesmo que contrários, de forma harmônica. Pensar um pouco, que todos nós, com nossos saberes e fazeres podemos nos lançar no imediato dentro da experiência do tempo, nos transformando em sujeitos ativos e exercitando a possibilidade de ser atravessado por essa experiência. Nos tornar agentes. Nos produzir. E como a gente faz isso? Simples, leitor. Como diz o filósofo Luiz Fuganti, a gente precisa se colocar “em variação”, inventando e transmutando nossos próprios desejos e se colocando numa relação imediata com o movimento que nos atravessa, qualquer que seja. Segundo ele, só assim a gente pode se desalienar, produzir o novo. Só através do vivenciar efetivamente as “realidades” poderemos produzir afetos e mudanças reais. Inventando novos modos de perceber e de experimentar. E conclui dizendo que é somente através do “modo de viver” que passamos a ser senhores ou causas de nossos próprios destinos. Que só colocando nosso corpo e pensamento como laboratório, fazendo de nós mesmos laboratórios, poderemos produzir algo diferenciado, algo que seja antes de tudo, necessário a nós mesmos e que sendo atravessado pela vida, pensa e produz a vida com intensidade. E então se removem as couraças. E removendo-se as couraças, pronto, é um tirinho para realizar, para transcender. Produzindo novos “eus”, promovemos novos “nós”. Diga leitor, diga se não parece encantadora essa idéia, mesmo que também pareça ingênua e desatrelada do “vivenciar” que estamos habituados e por onde sempre nos enredamos em teias e barreiras de proporções tamanhas! Quando eu era menina sonhava ter uma varinha mágica pra modificar todas as misérias e problemas que eu conhecia... Elas, as misérias de todas as ordens, ultrapassaram em muito o meu entendimento daquela época, mas pessoas juntas e unidas no mesmo desejo ultrapassam em muito as possibilidades da varinha.... Vamos pensar?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

O REI ROBERTO

Crônica publicada no Jornal a Notícia de Joinville em 16 de julho de 2009.

Eu nuca fui fã do Roberto Carlos. Mas lembro, eu devia ter por volta de 8 ou 9 anos, de alguns disquinhos dele lá em casa. Discos pequeninhos, maiores que um cd, mas de vinil. Eram os discos compactos. Se eu não me engano podiam ter duas músicas ou apenas uma. E meu pai tinha alguns dos grandes também. Mas lembro mesmo é de uma tia minha, que era...Como posso dizer? Era “apaixonada” por ele. Tia Irene. Ela colocava os discos e cantava junto. Ou cantava sem disco mesmo. Enquanto lavava louças, arrumava a casa. Puxa... Lembro bem de detalhes de algumas casas em que ela morou. E ela sempre cantarolava aquelas músicas. Mas cantava mesmo. Soltava a voz. Soltava a emoção. Depois passei muito tempo distante dos discos dele, da minha tia Irene também. “Saudades de você, tia”. Eu passei a gostar de outras músicas e fui criando meu repertório predileto e próprio. Fui me apropriando de novos sons, novas vozes. Bem normal. Mas Rei é Rei, não é? E se você esquece alguém trata de te lembrar. Com o passar dos anos, (muitos anos) quando alguém falava do Roberto eu dizia que gostava das antigas dele, da velha guarda. “Comigo aconteceu”, “Deixei meu cadilac”, “É proibido fumar”, “Quero que vá tudo pro inferno”. Discursos que a gente vai tendo e vai mudando no decorrer da vida (Ainda Bem, não é?). Mas sempre soube de cor as músicas que escutei naquela época. “Os botões da blusa que você usava...”. Essa eu canto de trás pra frente. Bobagem... Muitas das outras também! Eu nem sei o nome das músicas. Mas sei cantar. É só começar que a letra se desenrola todinha na minha cabeça. Esse show de 50 anos exibido pela Globo no último sábado me fez lembrar isso. Ele cantou quase todas as músicas que eu escutava naquela época, (“debaixo dos caracóis” ele não cantou...) e eu me emocionei tanto quanto lembro da minha tia emocionada cantando. Sobretudo da emoção dela. “Tantas emoções” como ele diz. E eu, olha só Tia Irene, cantei junto com o rei e fiz companhia à chuva que caía lá e cá. E chorei tantas lágrimas! Uma romântica típica, debulhada em lágrimas diante das palavras seculares de amor. Chorei tantas emoções! “Falando sério...”, “Amanhã de manhã...”, “Eu tenho tanto pra te falar...” Aquela dos botões da blusa, da capa pendurada (que loucura!) eu criança imaginava a cena da capa pendurada... achava aquilo tão cinematográfico, a capa pendurada lá mesmo no quintal da casa da minha mãe. Feito essas que o Maracanã inteiro usava. (Aliás, o “Maraca” estava mesmo maravilhoso!) Acho que era assim mesmo que minha imaginação pré-adolescente vivia e imaginava a emoção. Ou é minha emoção de agora que revive as cenas assim... sabe lá... Falando sério, como é bom você se entregar à coisas que não são do seu hábito e vivenciar esse “novo” sem preconceitos! É muito bom. Continuo não sendo uma fã do Roberto, mas, pensando bem, tudo que lembro suscita em mim “coisas boas”. Assisti o show “Elas cantam Roberto” e assim que sair o DVD gostaria muito de ter um. Lindas interpretações; e a parte final em que todas declaram-se, uma entrando na frente da outra - é muito boa - e assisti esse show dos 50 anos e provei “muitas boas emoções”. É leitor, “uma pedra no caminho, você pode retirar, uma flor que tem espinhos, você pode arrancar, pois se o bem e o mal existem, você pode escolher, é preciso saber viver”. Eu não sou fã do Roberto. Sou fã do amor. Mas sabe? “Como é grande, o meu amor, por você”

quinta-feira, 9 de julho de 2009

DEMOROU, VAI SER MELHOR.

crônica publicada no Jornal A notícia de Joinville em 9 de julho de 2009




Domingo. Quinze para as dez da noite. Acabo de voltar de São Francisco. Como sei que a semana seguirá impiedosa na sua batalha pra comer meu tempo – cá estou em frente ao computador. A crônica da semana. Vou tentar livrá-la do caos que se impõe neste final de semestre que não termina.
São Chico é oásis e eu ainda tenho energia da carga que peguei lá. Vou pegar essa onda. Ontem, fez um lindo sábado de sol. Minhas pernas caminharam pelas areias da Praia do Forte, chegaram até o riozinho quase lá no Capri. No caminho muitos pescadores com suas tarrafas, seus barquinhos e suas tainhas. Famílias inteiras ali partilhando aquilo. Inverno, sol, tainhas no mar e nas casas da gente... Mais na frente achamos uns amigos desfrutando do mesmo sol, do mesmo sábado, da mesma areia. Nos esquecemos um pouco por ali, deixando o calor entrar na gente. E lá foram as pernas caminhar de volta. Solzinho no outro lado do corpo, mais pescadores, tainhas, muitas gaivotas e nossas pegadas na areia: as que foram e essas outras que voltaram. Em meio à areia, a cadeira de “salva-vidas” (essa com função de observatório de tainhas) lindamente construída de troncos esbanja sua arquitetura. No alto, sob o guarda-sol, o pescador filma o mar com seus olhos. Nós sorvemos isso tudo.
De volta na Prainha. Uma caipirinha no “Amarelinho”, o bar do Adilson. Incomum a caipirinha dele. Incomum a simpatia e o clima bom do lugar. Uma olhadinha no jornal e já está de não se suportar o frio que vem chegando com a família inteira e muitas malas. No embalo pegamos as nossas. “Vambora já fazê uma fogueira”. E fomos. A alegria dos pescadores lá no mar e na mesa deles e a nossa na churrasqueira: tainha assada, tainha frita, salada de polvo e lula. Os amigos em volta do fogo. O fogo esquentado a gente e a lua enorme iluminando e enxergando tudo.
O domingo amanheceu sem sol. Os restos de ontem espalhados pelo quintal e nas pedras fora de lugar. Mas qual é o lugar das pedras? No meio do caminho, certamente. O fogo ontem hoje cinzas pedindo calor. “Vambora acendê essa fogueira”. Aí alguém fala ao telefone. Parece que tem uma baleia na Praia Grande. E lá saímos nós em caravana. Na Petiscaria Rosemeire nos dizem. “Ela passou por aqui, tomou uma cerveja, mas já se foi. Sorrimos e continuamos a empreitada. Não deve estar longe. No caminho, o carcará pousado numa cerca nos olha. Ele nada sabe da baleia. Observa atento as dunas e o que pode haver pra ele. “...Carcará não vai morrer de fome, carcará pega, mata e come...”. E eis que a vemos. Majestosa. Singrando o mar para o sul. Nobre, vasta nos seus 12 metros? Desliza. Nos deixa ficar ali a namorá-la. Nem sabe de nós. Mas nos dá de presente, sabe lá com quantos litros de ar que há no seu pulmão, dois jatos d’água. Ela sabe do nosso desejo. Sabe sim. E se vai. Damos adeus à bela criatura e voltamos pro nosso fogo. Pra nossa vidinha aqui na terra que agora tem essa história nela pra se juntar com as outras. O fogo vai queimando o domingo que afinal deve terminar. Os meninos lá dentro estão preparando um spaguetti. A gente lá fora tá tentando se esquentar. Final de semana que vem a gente inventa mais. Com tanta correria a semana vôa. Mas também pode demorar. Mas “Seu Jorge” tá rodando lá no CD: “... o clima é de partida, vou dar sequência na vida, de bobeira é que não estou e você sabe como é que é... demorou vai ser melhor”.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

ADÁLIA E QUASAR

ADÁLIA E QUASAR

Crônica Publicada no caderno ANEXO do Jornal A Notícia em 02 de julho de 2009.


“Posso cheirar você?” Foi exatamente essa a pergunta que ela fez ao homem que amava. Aquela pergunta, ao se esbarrarem por acaso no meio da rua o deixou qualquer coisa entre estupefato e vibrante (ele desejava imensamente a mulher), e surpreendeu-se. Sem que ele respondesse ela se aproximou, tocou uma das mãos dele com a sua, se apoiou e cheirou. Cheirou profundamente. Atrás da orelha, o pescoço e o rosto. Respirou o cheiro. O agridoce. Eles não se comunicavam mesmo. Não sabiam usar a linguagem verbal quando se encontravam e então silenciavam. “falar o que?” Não havia nada para ser falado. O “posso cheirar você” dava conta do que havia para ser entendido. Embevecida diante do cheiro que sentiu ela buscou seus arquivos. “Parece que há uma espécie de teto no alto na cavidade nasal que responde por essa questão do “cheiro” humano. Os resultados ainda são conflitantes... mas... de todo modo, seus genes disseram sim ao conteúdo do cheiro. Os sinais olfatórios e as respostas desencadeadas por eles eram as pistas mais evidentes de que ela estava no caminho. De que aquele era o único caminho. Se olharam demoradamente quando ele a afastou (uma vida toda dentro). Estavam no meio da calçada, do dióxido de carbono e da falta de oxigênio. Ela quis mais uma vez se amalgamar ao cheiro, mas ele segurou seu braço, segurou seus olhos bem dentro dos dele. Ali refletida ela devolveu o olhar, soltou-se do braço sem despregar os olhos dos dele, virou-se e começou a caminhar, sem sequer olhar para trás. Ele, dentro do seu próprio cheiro e do que dela havia se misturado, ficou ali preso no momento. Cheirou profundamente o “em volta”. No rastro, nada nem nenhum caminho que ele pudesse seguir. E dentro do cheiro e da ausência ali permaneceu de modo irremediável. Ainda hoje, ao passar naquela rua se pode ver o homem ali. Estátua de pedra e cheiro. Dizem que a mulher mora ali mesmo por perto, mas não deseja ser reconhecida. Durante a noite, enquanto muitos ainda dormem, ela aparece para cheirá-lo. Chega perto, ronda a figura de pedra e delonga-se. Então toca uma de suas mãos, se apóia e o cheira profundamente como daquela vez. Faz isso tão profundamente que os contornos dele começam a se definir, e os batimentos cardíacos lentamente a voltar. Então eles se olham e se entregam ao momento. Um mora dentro do outro. Ela se vê refletida em seu olhar e de novo tenta conter o desejo de cheirá-lo, de entranhar-se à ele. Mas não é possível: mais uma vez ele segura seu braço e seus olhos bem dentro dos olhos dele. Uma firmeza que ela não sabe de onde vem. Então mais uma vez ela se solta do braço que a prende e vai embora (uma vida toda dentro). E ele torna pedra uma vez mais. É assim todas as noites. Dizem. O povo diz muita coisa. Mas ao passar por ali (sim leitor, eu fui conferir!) senti eu mesma um perfume no ar. Um odor de vida e morte. Um odor misturado. É o que posso dizer. Um cheiro de vidas amalgamadas.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Sobre Quintana, o amor e o espiar-se.

crônica publicada no caderno ANEXO do Jornal A Notícia em 25 de junho de 2009.

Depois de encerrar a novela com Rubens da Cunha aqui e vivenciar por quatro semanas as intermitências de Iara e Tiago, continuo com vontade de falar de amor. E daí pensei em Mario Quintana. Um amigo me emprestou um livrinho dele. Um livrinho de bolso, perfeito pra carregar na bolsa. Vou socializar esse ato. Eu sabia de Quintana e tinha na cabeça: “Sonhar é acordar para dentro”. Despertar para o inconsciente. E também: "Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei. O amor é quando a gente mora um no outro." Essa última frase era a que eu sabia na ponta da língua. E isso já me era tão lindo. Comecei a percorrer o livrinho. Quantas minúcias e delicadezas!
Considerado o poeta das coisas simples e com um estilo marcado pela ironia, profundidade e perfeição técnica, foi antes um pensador com muitas idéias que estão sintetizadas em seus poemas. Fui pesquisar e achei uma fala sua: “ Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão” Dizia também: “Poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação”.
Impossível não pensar a nós mesmos diante de tal confissão. Acho que é isso que acontece quando lemos poemas: nos colocamos diante de nós mesmos e entre esse olhar - como um buraco de fechadura – nos enxergamos como se nos espiássemos a nós mesmos.
Folhear Quintana me trouxe isso: o espiar-me através das confissões do poeta e o desencadear de coisas que foram se sucedendo desde que tomei o livrinho em minhas mãos. Achei, por exemplo, uma carta dele a um jovem poeta em que ele diz coisas como: “Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá”. E o mais encantador – ele dizia que sonhava escrever um poema “que fosse como um fruto sumarento, cujo sumo escorresse pelos cantos da boca antes que a pessoa compreendesse seu sentido”. Feito certos tipos de amor. Feito o “efeito” dos poemas do livrinho dele. Então, querido leitor, espie-se e seja você mesmo do outro lado da porta. Arrisque um novo olhar. Um novo livro. E páginas e páginas irão se desdobrar diante dos seus olhos. E olhares e olhares diante da sua vida. E termino, como não poderia fazer diferente, deixando um pouco do Quintana aqui, através de seu poema “auto-retrato”, onde se pode sentir a feitura do poema entrelaçada à feitura de si e da criação de algo que funciona como um “espelho” para quem lê, tocando nossa inconstância e nos pedindo eterna reconstrução. No retrato dele, vemos a nós mesmos diante disso tudo: da dificuldade e da beleza de “se revelar”.


No retrato que me faço
– traço a traço –
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco

quinta-feira, 18 de junho de 2009

NOVELA POR DUAS MÃOS, um experimento.

A novela abaixo é descrita em oito capítulos e foi um trabalho conjunto realizado com o escritor Rubens da Cunha. Cada capítulo foi publicado no espaço de crônicas no Caderno ANEXO do Jornal A Notícia, de Joinville, pelo período de quatro semanas. Rubens da Cunha criou o personagem Tiago e eu criei Iara. Partindo de um mesmo roteiro cada um deu vida própria à seu personagem, mostrando os diferentes pontos de vista em relação às situações vividas por ambos. Foi uma experiência encantadora e que nos deixou muito felizes.


Capítulo 1, por Rubens da Cunha: TIAGO E A POSSIBILIDADE

Talvez eu tenha descoberto hoje, meio ao acaso, a paixão no sentido mais comum do termo: o suor, o tremor das mãos, aquele anuviamento contínuo dos olhos e das ideias. Tenho 38 anos, sou um homem banal, descasado, casado novamente, descasado mais uma vez. Será que estou apaixonado? É a primeira vez que sinto algo parecido, tenho certeza. Antes, a vida prática encaminhou as necessidades, o jogo da aparência determinou as escolhas. Assim, o costume, esse deus dos comuns, alisou meu corpo, e disse que aquilo tudo que eu tinha era amor. Com a primeira esposa, o costume me enganou por 10 anos, com a segunda mais 6 anos. Meu nome é Tiago Nascimento. Tenho dois filhos do primeiro casamento. Sou motorista de taxi.
Talvez eu tenha descoberto hoje a rapidez com que a paixão pode se apossar de um corpo. De repente, ela abriu a porta da frente, sentou-se e disse: segue! Nem deu tempo de pedir para ela ir para o banco de trás. Segue! Segue! Arrisquei perguntar algum destino. Nada disse além de um não sei. Pensei em oferecer ajuda, liguei o rádio. “nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs, deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar, fé na vida, fé no homem, fé no que virá, nós podemos tudo, nós podemos mais...” cantarolou um Gonzaguinha enternecido. Ela quase riu, olhou para mim, parecia não acreditar que um motorista de taxi escutasse essa rádio, esse tipo de música. Tô precisando ouvir isso, aumenta. Depois iluminou-se, silenciosa, ao meu lado. Foi difícil prestar atenção no trânsito, pois tudo o que eu queria ver era seu perfil triste, misterioso. O cabelo preso, mas com uma mecha solta que teimava em cair sobre os olhos. Com a mesma mão que enxugou as lágrimas, arrumou o cabelo. Eu vi no gesto um grau de tristeza e de liberdade. Aquele jeito de arrumar o cabelo, e quem sabe ser livre, não saiu mais da minha memória desde então.
Pediu para descer numa esquina movimentada da zona sul. Pagou, agradeceu. Eu, sem saber o que estava acontecendo, dei meu cartão, ligue quando precisar. Ela riu novamente e saiu apressada. Não voltei mais trabalhar. Precisava entender o que seria esse sentimento que me movia, melhor, me estagnava. Meus amigos sempre me dizem: Tiago é homem culto, passa muito tempo lendo dentro do carro. Ler para mim é uma válvula de escape. Sempre tive uma vida medíocre, faltou-me a chama da ambição, da busca por algo melhor, foi por isso que minhas mulheres me deixaram. Você é muito parado, foi o veredicto das duas antes da separação. O fato é que nenhuma delas, ou qualquer outra que tenha entrado em minha vida, provocou aceleração no meu sangue. Nos vinte minutos que tive com essa mulher sem nome, eu soube pela primeira vez o que era velocidade. Espero que ela me ligue. Espero mais coragem da próxima vez. Eu sou Tiago Nascimento. Talvez a partir de hoje eu vá me chamar Tiago Renascimento.


Capítulo 2, por Clotilde Zingali: IARA E AS DÚVIDAS, sempre elas.

Aquele motorista de táxi deve ter pensado que sou doida. Devo ser realmente. Só o fato de estar pensando se ele pensou já dá notas disso. Tenho 39 anos e continuo me comportando como se tivesse 17. Até isso é ridículo em mim. Tem muitas meninas de 17 anos que são mais mulheres do que eu. Queria lembrar se quando criança que idéia eu tinha das coisas. Eu fui criança algum dia? Não me lembro efetivamente de muita coisa. Melhor seria dizer que não me lembro de nada. Na verdade, esse motorista de táxi talvez tenha sido a única pessoa que me conheceu inteira (uma mulher vertida em lágrimas na frente de um estranho é uma mulher inteira). Eu pedi para ele aumentar o som do rádio para eu vibrar junto com as ondas sonoras emitidas pela voz do Gonzaguinha. Ele colocou um cd do Gonzaguinha enquanto eu chorava. Acho que ele quis dar uma quebrada no clima. Acho que ele não entendeu nada... Até que ele era bonito. Era sim. O rosto meio quadrado, cabelo meio desarrumado. Tinha um cheiro bom no carro. Um cheiro que não era de nenhum sachet de baunilha ou qualquer coisa artificial. Era um cheiro bom. Nossa. Devo ser doida mesmo. Não sei porque estou pensando esse monte de coisas sem sentido. O gosto musical daquele homem. Sei lá. Deve ter sido efeito da música. Só isso. Música me ilumina. Tem um não sei o quê em mim que se vê inteira dentro da letra, eu começo uma espécie de “vivenciar” aquele sentimento, e quando vejo, não sou mais eu, ou sou eu mesma com todas aquelas dissonâncias. Sei lá. Ainda bem que desci naquela esquina, meio perto e meio longe de casa. Assim pude saltar do carro, da ideia que ele teve de mim, ou de qualquer ideia que eu tenha tido. Pude voltar andando pra casa. Andei uns quase 10 km e como sempre, como sempre faço quando caminho, rebobinei minha vida. Até quando vou rebobinar minha vida? Tenho tempo pra isso? Cada vez mais eu me convenço que não. Quando olho no espelho, não vejo o que sou. Vejo o que estou fazendo. O medo de chegar sozinha lá na frente. Sozinha nessa vida. Parece que sinto uma dor tão grande... Um arrependimento por tudo que não estou fazendo. Eu não estou fazendo. O que faço é ter medo. Um medo que me escapa de tão grande que é. E o medo de vencer esse medo me faz chorar. Que nem quando eu chorei naquele táxi. Talvez eu devesse ligar para ele. Pedir desculpas pelo descontrole. Sabe lá a vida do cara? Eu fico aqui olhando pro meu umbigo. Enfiada no meu sofrer. Enfiada. Será que guardei o cartão? Paguei a corrida, sorri amarelo pra ele e desci. Será que ele percebeu o amarelo? Talvez não. Entre tantos defeitos, vivo disfarçando. Eu sou um engodo. Eu queria ligar pra ele e pedir desculpas. Chego em casa, me jogo no sofá e viro a bolsa. Tá aqui. Tá aqui. Começo a discar, mas desligo em seguida. Tem cabimento fazer uma coisa dessas? “Vai ler um livro, minha filha”. É isso que meu pai diria. Ou deveria ter dito. Meu nome é Iara, e penso que minha mãe, sem o saber, imputou em mim essa sina de ser bonita, cantar feito um sabiá e matar os homens que me ouvem. Vou morrer sozinha numa fonte dentro da mata. Dois dias depois não resisto aos pensamentos que insistem. Pego o celular, disco. Só que dessa vez eu o escuto tocar. Chama duas vezes e de novo me submeto ao medo e desligo. Eu desligo.
Capítulo 3, por Rubens da Cunha: TIAGO E A COINCIDÊNCIA

Eu vi a mulher uma vez na vida, e vi só de banda, e fiquei assim... adolescente. Foi antes de ontem, ela não me ligou. Mas por que haveria de ligar? Eu pedi? Eu disse vamos sair, me liga? Não, eu entreguei o cartão e disse se você precisar de alguma coisa, me liga. Ela não precisou, Quando uma mulher igual aquela vai precisar de alguma coisa? Quase dois dias nesse estado lastimável. Agora apareceu esse número no celular. Será que...? Não, claro que não. Por que ela levaria dois dias para me ligar? Por que eu, antes tão firme nas certezas, agora só penso por perguntas? Não atendem o número. É, Tiago Nascimento, teu renascimento durou menos que 48 horas.
Chega de perguntas. Chega desse sentimento de impotência, de perda de uma oportunidade. Hoje, cada um que se aproximou do carro fez com que eu a visse primeiro, depois é que me dava conta da loucura. Estou voltando de uma corrida, foi o mesmo percurso que eu fiz para ela, mas a passageira tinha um endereço, era uma possibilidade de retorno. Já aquela mulher... eu a deixei no meio da rua, no meio de uma cidade com quinhentos mil habitantes.
Começa a chover forte, quase nem percebo que alguém fez sinal para eu parar. Estaciono a uns 30 metros. Olho pelo retrovisor. Não pode ser. Ela. Saio do carro para abrir a port. Ao caminhar abaixa o guarda-chuva sobre o rosto. Não me vê, quando se aproxima levanta o guarda-chuva. Estacamos os dois, molhados. Constrangidos? Felizes?
Ouço um que coincidência. Respondo um pois é. Ela pede para sentar novamente no banco da frente. Abro a porta, ela se acomoda. Dar a volta no carro leva uma eternidade. Erro marcha, o carro morre. Ela ri, acontecia sempre comigo, por isso deixei de dirigir. Eu respondo que isso nunca aconteceu antes. Ela ri mais ainda. Percebo a idiotice dita, não sei o que fazer. Não vai me perguntar para onde quero ir? Rápido, Tiago, renasça! Renasça! Talvez você queira ir a um outro lugar? Pergunto sem olhar para ela. O trânsito cheio das dezoito horas. Um seria interessante cai macio dentro de mim. O sinal fecha, posso olhar melhor seu rosto. Não chora hoje. A pele úmida, sem qualquer cobertura que não seja o mistério. É linda.
Meu nome é Iara. O meu Tiago, respondo, um pouco mais calmo, ainda adolescente. Eu sei, vi no teu cartão, eu te liguei. Agora te devo duas desculpas. Ela olha para mim enquanto fala, enquanto tenta explicar a atitude intempestiva da primeira vez, e também a ligação não completada. Não ouço, quer dizer, não atino suas palavras apenas me acariciam como música, são palavras sem sentido, parecem palavras-braços me segurando, me acariciando. Você está me ouvindo? Estou, estou te ouvindo como nunca ouvi ninguém.
Continuamos dentro do carro, ela falando coisas banais, sérias, divagando sobre a vida. Eu complementando, afirmando, percebendo estradas quase inéditas dentro de mim. A chuva continuava, firme. Dentro do carro, eu, Tiago Nascimento era um homem regado pelas palavras aquáticas de Iara.

Capítulo 4, por Clotilde Zingali: EU ACREDITO EM COINCIDÊNCIAS

Uma vez li em algum lugar que nossa existência aqui não passa de uma sucessão de instantes emparedados entre duas coisas: um “tudo” que ficou pra trás e um “nada” que há pela frente. E que não há espaço para coincidências e probabilidades. Mas como pode ser isso? Eu gastei tantos neurônios pensando naquele motorista de táxi. Tiago era o nome dele. E por fim não tive coragem de ligar. Dá pra acreditar que do alto da minha “não atitude” ontem desabou do alto uma chuva sem tamanho e sem aviso prévio e esse homem aparece do nada dentro de um táxi que eu parei? Eu fiz sinal pro táxi e era ele lá dentro? Como eu posso acreditar que não há coincidências? Alguém já disse que nada acontece por acaso – tudo acontece como deve ser, e quem procura acha, mas não necessariamente o que estava procurando. Será?
Eu e ele ali, aquele aguaceiro...Inacreditável. Ele ficou me olhando com aquele olhar. Eu deixei ele me olhar, meio estacada que estava. Mas eu acho que olhei pra ele também. A gente ficou se olhando e a chuva ficou molhando a gente. Antes que o instante nos colocasse dentro do carro tive tempo de balbuciar: que coincidência. (ah, eu não acredito que falei aquilo). E ainda pedi pra sentar no banco da frente. (de novo). Eu não acredito nas coisas que faço. E nem nas coisas que ele fez dentro daquele carro. Errou a marcha, o carro morreu. Ele parecia um adolescente. Acho que ficou nervoso. Sei lá. Eu gostei daquilo, por pura osmose também eu me senti adolescente. Ele ligou o som por fim. Aliviamos na voz que soava. Era Caetano dessa vez. Enquanto ele dirigia e entre o segundo que pensava entabular uma conversa e admirava o despenteado do cabelo, eu maluca pensei que naquela situação ele poderia sugerir um café, quem sabe. Eu aceitaria. E ele mudo com aqueles olhos me olhando entre um “ser discreto” e um “muito pelo contrário”. Eu rompi e disse meu nome. Meu nome é Iara. O meu é Tiago, ele disse. Sorrimos. Lembrei de súbito das desculpas que eu queria ter ligado pra pedir. Eu não liguei. Desculpa por aquele dia. Acho que você não entendeu nada. Não tinha sido um dia muito bom. Aliás, eu vinha numa sequência de dias não muito bons e acabou que descarreguei tudo aquele dia – bem no seu táxi, bem na frente de alguém sem nada a ver com tudo aquilo... desculpa. Sei lá. Eu fiquei lá falando uma porção de coisas pra ele e via ele só me olhando. E vendo ele me olhando eu mesma me olhava pelos olhos dele e pensava se podia estar acontecendo o mesmo com ele. De quando em quando ele comentava, falava outras coisas e eu me via dissonando no timbre da voz, no movimento da boca – no jeito dele e no jeito de nós dois ali naquele carro, naquele carro debaixo da chuva que seguia sem destino. Existe destino? Pensei. A coincidência que alguns dizem que não existe ficou entranhada na música que embalava agora esse nosso desvendar. Quis cantar junto. Mas silenciei para fazer durar aquilo tudo. Era Caetano cantando sua Queixa “... dessa coisa que mete medo, pela sua grandeza, não sou o único culpado, disso eu tenho certeza. Senhora, e agora, me diga onde eu vou, amiga, me diga... me diga onde eu vou”. Eis que então ele rompe a parede (permeável ou não, havia entre nós uma parede – uma pedra). Não fala no café que pensei, mas fala de irmos para algum lugar. Algum lugar. Eu quero ir com ele pra esse “algum lugar”. Depois a gente pensa onde. Eu aceito. E eu lá vou duvidar das coincidências? Não... não eu.

Capítulo 5, por Rubens da Cunha: TIAGO E AS DÚVIDAS

No banco em que ela sentou tantas vezes, um buquê de rosas vermelhas e uma caixa de bombons. Estou sozinho dentro do carro. Não estou trabalhando. Hoje faz três meses que ela sentou-se aqui pela primeira vez, chorando. Três meses que Iara acontece em minha vida. Bombons e rosas vermelhas. Tornei-me um romântico, pior, sem nenhuma originalidade. Fico aqui repetindo os padrões, os clichês. Estou na frente de seu apartamento, do outro lado da rua. A luz que vejo demonstra que ela está me esperando. Foi o que combinamos. Combinamos em muitas coisas desde que nos encontramos pela segunda vez, a cada dia Iara se descortina um pouco para mim. Estou aqui sem saber o que fazer. Nosso namoro, relacionamento... (que nome dar? tem nome?) está divertido, o sentimento inicial ainda surge sempre que a vejo, mas o que me angustia é a instabilidade, as zonas de sombra de Iara. Há nela, areias movediças demais. Sempre fui homem de poucos repentes, Iara se mostra instável demais para um velho como eu. Talvez esse seja o ponto: tenho 38 anos, mas todo uma carga de velhice espiritual que não se encaixa naquela imprevisibilidade adolescente que ela ainda carrega. A paixão me fez ficar também meio adolescente, mas nada que realmente me transformasse, que alterasse minha condição de homem metódico. Mesmo assim, eu alterei muitas coisas, mudei muito meu comportamento, mas Iara está sempre além das fronteiras, sempre um passo muito próximo do abismo, da mina terrestre, do fosso. Não sei se tenho ciúme, medo, se por ela ter tido mais vida do que eu pode ter mais coragem do que eu. Olho as rosas, os bombons. Essas bobagens se perderão dentro de Iara. Talvez ela se compadeça da minha ingenuidade e fique um pouco mais comigo. Talvez se encha e me mande embora. Estou aqui, quase uma hora pensando se devo continuar com essa história, se devo atravessar a fronteira, tantas vezes atravessada por Iara. Minha ex-mulher me procurou, queria voltar. Disse que estava arrependida e que me viu tão diferente. Perguntou por que eu nunca fui tão diferente com ela. Eu não soube responder, ou talvez soubesse, mas não quis ofendê-la. O fato é que a estabilidade emocional da minha segunda mulher mexeu ainda mais comigo. Eu agora vivendo nos extremos positivos e negativos, eu agora homem sem centro, sem esteio que me sustente, tenho que tomar uma decisão. Iara me espera, talvez com os mesmos questionamentos. Quer dizer, com questionamentos ao contrário. Ela que sempre viveu nas margens, conseguirá viver no centro? Ela que sempre balançou nada firme, conseguirá ser fixa? Conseguirá se aproximar de um homem raso, de um homem que é possível se vislumbrar começo meio e fim?
Estou no corredor que leva a seu apartamento. Sem as rosas. Apenas a caixa de bombons. Ela abre a porta. Eu a beijo e lhe entrego os bombons. Você esqueceu as rosas vermelhas, ela diz, fechando a porta atrás de si. Dentro de mim, portas e janelas se abrem e se fecham também, só não sei por quanto tempo.

Capítulo 6, por Clotilde Zingali: DANÇAR É SE DEIXAR LEVAR

A gente está junto há três meses mais ou menos. Lembro que era abril quando nos conhecemos. Um abril chuvoso. Por isso a gente se encontrou por acaso naquele dia. Agora, o dia eu não lembro não... Aquele dia agente acabou indo tomar um choppinho num boteco ali no centro. A gente ficou um pouco sem graça no início, mas foi diluindo depois. Conversamos sobre coisas tantas. O que eu fazia e ele. O básico quando duas pessoas conversam pela primeira vez. Achei tão engraçado ele me perguntar onde eu estava em 1988. É isso de achar alguém tão especial que se pensa no passado. Onde estávamos quando a vida acontecia para ambos? Mas isso é puro romancear. “O tempo não para”, já dizia Cazuza. Mas isso é romancear também. De qualquer forma, agora é julho. Estamos em 2009. E estamos como estamos. Temos tido momentos incríveis juntos. O que mais gosto é que ele gosta de dançar. A primeira vez que me chamou eu fiquei meio aflita. Às vezes sou dura como pedra. E tenho uma certa mania de estar no controle. Pra dançar a mulher tem que se deixar levar. Isso me assustou um pouco. Mas Tiago não medrou, não. Bem seguro ele disse: Deixa comigo que disso eu entendo. Ah, eu amei. Adoro homens seguros. Mesmo que seja só fachada, já é um estímulo e tanto pra fazer virar de verdade. Quando me tirou pra dançar a música era forró – Gonzagão – e lá fomos nós. Passou o braço em minha cintura de um jeito que me senti absolutamente pronta. A gente riscou aquele chão inteiro. Foi um, foi outro e outro. Voltei pra mesa parceira dele. Amei. Longe das pistas ele é mais quieto, mas não chega a ser distante. È apenas ele e seu silêncio. Ele lê muito. Não leu ainda na minha presença, mas algumas vezes liguei pra ele e ele disse: Estava lendo. Ele disse que suas duas ex-mulheres o deixaram porque ele lia demais. Mas que não consegue se livrar disso. Nem quer. Ele gosta de ler. Eu? Bem, eu adoro sair, ver pessoas. Ver o sol, ver a lua. Eu gosto de ler o mundo, do jeito que ele é. Pois bem. O mundo tem leitores. E Tiago é um deles. Eu acho também que ando numa fase de intensidades superlativas. Intensidades superlativas são efêmeras. E estou bem com isso e com o restante do período que não é superlativo, mas é o que há. Esse desejo está em mim, não posso ser diferente. Já ele não. É mais quieto. Mas eu quero que essas ondas possam chegar até ele. É trabalhoso, mas normalmente eu consigo. Ontem, por exemplo: Ele me ligou e disse que poderia vir à noite. Disse pra eu não me preocupar com nada. Tudo por conta dele. Chegou com algumas compras e foi para a cozinha. Eu gostei de ver ele ali, sem muita intimidade com o ambiente mas fazendo a coisa acontecer. Seguro. Entre achar panelas, talheres, arrumar a mesa e as coisas todas, a gente ficou falando de coisas banais, tomando vinho, rindo muito e ficando outras vezes em silêncio. A gente “matou” aquela garrafa de vinho que ele trouxe. Quando acordei ele já não estava mais... só um bilhetinho e um cheiro bom de ontem espalhado pela sala. E louças espalhadas pela cozinha. Não sei se vem hoje. Acho que não. Aliás, nunca nos vimos por dois dias seguidos. E tem sido bom isso. Nada de vida conjunta, cachorros e café da manhã todos os dias pela manhã. Eu prefiro o inusitado, os momentos superlativos que depois eu faço germinar. Sei que posso contar com ele para algumas coisas e ele também pode. Isso basta. Apenas algo me incomoda. Tenho ainda medo de cantar quando estou com ele, justo eu que sou tão musical. Tenho um medo estranho que tudo possa se perder e ele seja mais um fora da superfície, que afinal é onde se pode viver. Mas tudo bem, penso silenciosa enquanto cantarolo as músicas que sintonizam com minha existência. Uma para cada momento. Como que talhadas para mim. “... nós dois que sequer nos parecemos e não cabemos no mesmo espelho mas nos olhamos toda manhã. A ferrugem mesmo pouca corrói os trilhos, as ruas nos atravessam sem olhar pro lado, estou em você...”

Capítulo 7, por Rubens da Cunha: TIAGO E A DECISÃO

Hoje passei o dia com meu filho mais velho. É o que se parece mais comigo, tanto, que às vezes, descumpre os dias combinados e aparece para me fazer uma visita surpresa. Tem 11 anos e uma atenção superior. Tomara que não a perca. Meu filho me questionou sobre Iara, quando ele vai conhecê-la. E me falou sobre o amor. Não que ele saiba alguma coisa profunda e prática a respeito, mas na sua atenção capturadora de detalhes, me disse que eu deveria ser mais livre, esquecer o medo e amar profundamente. Olhei para ele de forma curiosa, querendo saber onde ele aprendeu esse discurso. Teve um palestrante lá na escola e ele falou isso, achei que se encaixava com você.
Não há dúvida que esquecer o medo é libertar-se e que o amor profundo só se dá na liberdade. Eu deveria deixar de ser motorista de táxi e virar palestrante em escolas de ensino fundamental. Como tudo na vida, falar é fácil, por em prática fica mais difícil. Meu relacionamento com Iara não se oficializou ainda. Estamos e não estamos. Somos e não somos. Iara continua sendo um lago de mistério, ela e suas canções. Eu continuo enfurnado nos meus livros e em minha vida cotidiana, sem muita coragem para equilibrar esse jogo, ou seja, trazê-la para a vida cotidiana, oficial, ao mesmo tempo eu ir para as profundezas de um amor vasto, inseguro. Chego num ponto em que uma decisão deve ser tomada. Esqueço os medos e amo profundamente, como pede meu filho, ou assumo o medo e me desfaço desse amor, antes que ele se torne sofrimento, vício.
Chamo Iara para sair. Ela me pergunta para onde vamos, digo que a lugar nenhum, vamos apenas andar de carro pela cidade, vamos apenas conversar dentro desse táxi em que ocorreu nosso primeiro encontro, e nosso reencontro, aqui onde leio a maior parte dos meus livros e onde, nos últimos meses, ruminei dúvidas e felicidades. Converso com Iara longamente, sobre coisas que até então eu tinha deixado do lado de fora do nosso relacionamento. Falo dos meus desejos, dos meus filhos, das minhas ex-mulheres, dos meus pais e amigos. Falo dos meus pequenos vícios, da minha quietude, da superficialidade com que eu tinha me envolvido amorosamente até então. Falo do seu corpo, da sua presença de luz e sombra dentro de mim, falo das insônias que tive, da fome de vida que ainda carrego, do amor, da liberdade, da palestrante na escola do meu filho. Falo e dirijo. Iara ouve, às vezes ri, às vezes fica muito séria. Entrevejo até lágrimas. Pela primeira vez falei mais do que ela, pela primeira vez falei mais do que a mim mesmo em qualquer outro momento da minha vida.
Depois desse meu fluxo de fala, nos olhamos longamente e peço para Iara ficar comigo mais do que ela já esta. Sabíamos nada do futuro. Sabíamos apenas que éramos dois adultos encontrados, encontrando-se na vida.

Capítulo 8, por Clotilde Zingali: IARA E O AMOR PELA PRIMEIRA VEZ, mas não sem medo. Quem não os tem?

Tem mais ou menos oito meses que eu e Tiago estamos juntos. E eu o amo. É engraçado falar assim. Sentir assim. Porque sinto que é “de verdade”. Se eu for colocar tudo sobre a mesa, eu sou obrigada a admitir que amo pela primeira vez. Sim. Não tenho como e nem quero fugir disso. Tive outras pessoas (inclusive, quando conheci Tiago eu estava com alguém), e sei que nunca senti isso antes. Outro dia ele me chamou pra sair. Falou que íamos a lugar nenhum, só rodar de táxi pela cidade e conversar. Ele falou tanta coisa... Se abriu, falou de seus receios, suas vontades. Falou dos seus desejos. Da sua realidade, do seu filho. Eu achei tão lindo aquilo. Todo o silêncio que presenciei nesses meses, as apreensões que eu percebia e ele silenciava. Ele deixou vir à tona. Ele deixou. Eu fiquei quase quieta enquanto ele falava. Só olhando o olhar dele, a boca que mexia e as palavras que saiam dela, e o despenteado dos cabelos que eu adoro. Ele nem imagina minhas suspeitas... Quando por fim ele terminou, perguntou o que eu achava. “Eu acho você lindo”. Ele pediu pra eu parar de brincar, que era sério. Aquilo tudo era muito sério pra ele. Pra mim também era. Cada palavra que ele usou. Cada frase. As dúvidas que vieram junto. Os medos e receios intercalados. Mas sobretudo, o desejo de lidar de peito aberto com isso tudo. Tiago ainda não sabe, mas talvez eu esteja grávida. (quero muito ter um filho com ele). Eu. Justamente eu que até agora não tinha tido vontade. Sim. Sei que tenho 39. Primeira gravidez. Aquilo tudo que dizem. Mas caso se confirme eu quero tentar. Ah, eu quero muito ter um filho com ele. E se for um menino, tiver o cabelinho despenteado do pai e aquele jeitinho pra dançar... Eu não vou resistir. Mas isso tudo são idéias, idéias de um sonho que a gente tem que construir – pedaço por pedaço, se for verdade. Ontem ele veio aqui. E antes de ontem também. E na semana retrasada ficou três dias inteiros aqui comigo. Na semana passada dois. Mas antes de ontem, quando ele ligou dizendo que vinha, eu dei um tapa na casa, tirei roupas e papéis do meio do caminho e preparei um Yakissoba pra gente. (Ele adora Yakissoba). Dentro de mim uma vontade maior que eu de cantar pra ele e vencer a minha barreira! Pois se ele, mesmo cheio de receios, foi capaz de se mostrar por inteiro; eu também quero dizer o que fica no fundinho do coração e que a gente termina mascarando. Como isso do filho (se vier), de cantar na frente dele, pra ele, de dizer: “Sim, eu quero tomar café da manhã com você todos os dias pelas manhãs”. Enquanto arrumava a casa eu escutei umas quatro vezes um CD da Adriana Calcanhoto que é meu xodó. Quando ele tocou a campainha, letra e música me compunham. Destranquei, virei a maçaneta, puxei ele pra dentro devagarzinho e cantarolei: “Entre por essa porta agora e diga que me adora, você tem meia hora pra mudar a minha vida. Vem que o que você demora é o que tempo leva...”. Ele sorriu tão meu. Disse que minha voz era linda. E ficamos um tanto lá a nos fitar. Eu puxei Tiago pra cozinha e levantei a tampa da panela. Ele sorriu. E eu sorri tão dele... O futuro é o dia a dia que a gente constrói. Ainda assim é incerto. Mas a gente tá com disposição pra escrever esse futuro. Pra construir esse dia a dia. Ontem falei pra ele do menino... da minha suspeita. Do meu desejo... ele disse: “Eu prefiro uma menina (e sorriu meio nervoso), mas quero sim. Quero ter esse filho com você. Tenho um medo tremendo... Mas eu quero. Sorrimos um.

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