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Mostrando postagens de 2009

CONVERSAS DE BOTECO

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O casal que cozinha junto abre portas para as coisas. Ao ouvir isso na mesa ao lado da sua, Alex, que anda meio “assim” com Júlia, resolve experimentar. Telefona pra mulher e diz de sopetão: vamos fazer uma comidinha hoje? Ela quer dizer não. Anda tão cansada. Mas o inusitado se impõe. Ela então diz: tá; vamos. E é assim que Júlia e Alex certa noite resolvem preparar uma salada de polvo e camarão. Onde começa isso pode variar. Pode ser quando se compra o polvo. Pode ser que começe com a ideia de fazer algo juntos ou pelo inusitado do convite do próprio marido. Porque recorda um prato que comeram. Um lugar onde estiveram, ou simplesmente porque passam a gostar da ideia de inventar algo juntos. E aí dizem. Ou ele diz. Ou é ela quem diz: Vamos fazer uma salada com camarão e polvo? Igual aquela que comemos no Nordeste? Continuam. Tem toda uma dinâmica envolvida. Pode ser bem trabalhoso. Ou não, como diria o amado Caetano. Como se prepara um polvo? Ela pergunta. Vão para internet. Pesquis…

SINAL FECHADO

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SINAL FECHADO É leitor, é dezembro. Mais uma vez é natal. Esse negócio de mais uma vez acontecer alguma coisa, se por um lado passa a ideia de “repetição”, de outro remete à possibilidade de enxergar diferente. Porque acontece e acontece de novo, e mesmo assim a gente pode se surpreender. Pelas nossas atitudes ou pelas dos outros. E o natal, a despeito dos significados próprios e agregados, traz essa dinâmica de “acontecer de novo”, essa oportunidade de nos colocar num mesmo lugar e poder olhar para isso de um jeito diferente. Em verdade, todo dia é especial. Ao dormir, o simples fato de depois acordar já é um recomeço. Suar a camisa o dia inteiro, e novamente ir dormir no final desse dia, também é. É que tendemos a não ver assim no embolo da vida. É tanta correria que a maior parte de nós mal se dá conta. 365 dias de trabalho e compromissos que nos absorvem e muitas vezes a gente só vai seguindo e cumprindo as etapas. Outra questão é o que a gente empresta dos outros e também dos mo…

PAIXÃO E PREVISÕES METEREOLÓGICAS

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PAIXÃO E PREVISÕES METEREOLÓGICAS Quando, em meio ao feio de uma tempestade que no céu se arma, questionam a moça (ela em vão tenta recolher as roupas do varal), entrelábios responde: eu tento segurar e livrar as roupas da tempestade. Eu tento segurá-las. Eu tento me segurar porque as coisas ventam e fazem tempestades em mim. . Nara está apaixonada e diante de todas as alterações climáticas, prevê cataclismas. No verão eu ardo de amor e no inverno sinto muita falta dele. Ele, que desde aquele manso setembro (em outros tempos a natureza era mais quieta) chegou sem previsão. O clima já era em ebulição (apenas não se sabia). Foi então depois de algum tempo que as geleiras começaram a derreter. O aquecimento global a deitar seus efeitos. Nara então passou a ler previsões. Se precaveu. Trancou as portas, colocou travas na janela e elevou os móveis do chão. Mas ele veio água em movimento. Veio tsunami. Passou por cima de todos os esteios. Balançou a rigidez dos arranjos e entrou por todos os…

A ARQUITETURA E AS CIDADES - publicado no caderno ANEXO do Jornal A NOÍCIA de Joinville em 10 de dezembro de 2009.

A ARQUITETURA E AS CIDADES


Terça-feira, dia 15, Niemeyer fez 102 anos. O homem-arquiteto, ícone da arquitetura no Brasil e no mundo, ativo aos 102 anos. Independente de como repercutem suas obras, não há dúvida de que se trata de um grande artista mundial, páreo para Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Gaudi, Santiago Calatrava e demais "artesãos da forma". Eu nunca fui fã dele e de suas obras, mas sou fã da vida. Um século de existência produtiva e criativa nos faz pensar no tempo. Refletir sobre a ideia que "a vida é tão efêmera quanto uma fagulha para o tempo, mas para o homem é tudo". Isso me fez pensar em arquitetura, em Joinville, e em como estamos preparando a nós e a nossa cidade para nossa existência aqui. Obviamente, o tempo cobra seu preço, apesar de todos os recursos possíveis para mitigar os prejuízos da idade. As atividades mais elementares para um cidadão centenário tornam-se fortes desafios quando tais recursos não se colocam à disposição. Estou faland…

PRÊMIO JOINVILLE DE LITERATURA - Crônica publicada no Jornal A notícia em 10 de dezembro de 2009.

PRÊMIO JOINVILLE DE LITERATURA


Quinta-feira, 03 de dezembro, aconteceu no Anfiteatro da Biblioteca da Univille, a 6° edição do Prêmio Joinville de Literatura. A novidade dessa edição é justamente a participação da Univille através da Pró-reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários que agora se une ao departamento de Letras, ao programa de extensão Proler e a Mercado de Comunicação para a realização do concurso. Todos unidos para abarcar a movimentação literária e cultural que ocorre na cidade por conta disso. É algo que, como eu disse a respeito da feira do livro de Porto Alegre, não pode passar sem se comentar. Por que? Porque ano a ano a ideia se amplia, os talentos se ampliam e o evento ganha dimensão. A edição atual teve 391 inscritos (o dobro da última edição), participando na categoria poemas e também contos e crônicas. Uma novidade também que se reforça esse ano é a integração de outros municípios, envolvendo Araquari, Barra Velha, Barra do Sul, Campo Alegre, Corupá, Garuva, G…

O MUNDO DE RAMIRO - texto publicado no Jornal A Notícia em 03 de dezembro de 2009

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O MUNDO DE RAMIRO


Maria da Cota Nascimento esperou pelo homem que amava por anos a fio. Quando, no rigoroso de um inverno sem precedentes ele chegou, não o viu propriamente. Alucinou. Viu a figura incomum de um homem montado num cavalo malhado. Quase um os dois. Ela teve certeza do amor assim que olhou nos olhos dele. Em seguida abaixou olhos. Ramiro, homem de resoluções e poucas palavras foi logo dizendo: Sobe moça que não sou homem de ficar esperando. Cota, que sequer o tinha visto antes, sentiu nascer. Sentiu mesmo a volúpia e o intenso de passar pelo estreito de um canal e aparecer num outro lugar. Lágrimas desceram de seus olhos. Ele emendou: Moça não venha com dengos e me dê logo sua mão. Era tão miudinha diante da imagem dele que julgou não conseguir esse feito. Ele iria sem ela. Isso era um fato. Titubeou. Mas braço e mão dele se impuseram diante do receio dela. Ele a puxou para cima de um só golpe. E Cotinha ficou no alto, presa e prenda de um herói a mais de três metros do …

FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE

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55  FEIRA DO LIVRO DE PORTO ALEGRE    30/10 a 15/11 de 2009





De 30 de outubro a 15 de novembro aconteceu a 55° feira do livro de Porto Alegre. Algo que não pode e não deve passar sem comentários. Porque é um exemplo. Porque é de dar água na boca. Aos que escrevem, aos que lêem. A todos. A geografia da cidade atravessada por uma Feira do Livro. Uma praça, ladeada por edifícios cheios de história; onde um dia comerciantes e quitandeiros se juntaram e onde também acontece hoje comércio de artesanatos diversos. Um lugar onde tanto se falou e se fala. Histórias da alfândega, dos comerciantes, dos mendigos, dos que sentam para ler livros, dos que a atravessam. Do espanto dos poetas. Um lugar estampado de palavras, de falas-palavras. Em cada caco do chão. E pela 55° vez, a edição de uma feira de livros. Por toda parte. Inclusive num hospital, onde a feira foi “improvisada” para as crianças que não podem sair terem acesso ao espírito da leitura, da festa. Terem acesso ao ritmo. Vida que pulsa…

NADA

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Crônica publicada no jornal A Notícia em 12 de novembro de 2009.

Nada, além de ser o contrário de tudo, a resposta que você dá quando perguntam: “E aí, alguma novidade?” (e você não tem nenhuma), o vazio do espaço (que sabemos que não é vazio), o que tem na caixa de chocolate quando você chega pra pegar e não tem mais nenhum; é também uma carta do tarô.
Muito interessante essa carta. Tirá-la numa leitura pode gerar decepção. A pessoa paga um tanto pra se consultar com aquela cartomante que dizem que é o supra-sumo, ou aguarda horas numa fila pra falar com um guru não sei de onde que promete dar todas as respostas e a carta tirada é o NADA. Aí você não se conforma. Pô... nada? Fui fazer uma sondagem e deparei com o possível significado da carta: shunyata. Um equivalente do inglês “nothingness”, que se você esmiuçar: nothing (nada) ness (partícula de negação). A negação do nada? O significado dela, basicamente, é o “tudo” que pode existir potencialmente no “nada”. Se o tudo não se apresen…

EDUARDA

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Crônica publicada no Jornal A NOTÍCA de Joinville em 29 de outubro de 2009.

Eduarda precisa de férias. Há meses vem notando fragilidades. Outro dia achou a chave do carro na lavanderia. O telefone celular esquece na bolsa. Pois se não toca ela até esquece que tem. Eduarda não esquece que não toca e então esquece que tem. O celular que não toca. A academia que não está indo. As duas consultas finais com o dentista que não arranja tempo para marcar. O marido que trabalha como máquina. Quando chega em casa ele desliga. Eduarda e o marido estão precisando de férias. Quando começam a perguntar quem tirou de não sei aonde o não sei o quê, já o sinal amarelo está aceso e o diabo é que não percebem o ringue instalado bem no meio da sala. Eduarda, mulher à beira de um enguiço, pensa se isso é justo com ela. Fica se amarrando com as roupas para lavar, a comida para fazer, o seminário de geopolítica que deve apresentar e essa maldita lâmpada que não ilumina nada. Essa lâmpada não ilumina nada! e…
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http://poetasnosingular.blogspot.com.br/2009/10/tres-singulares-na-feira-do-livro-de.html quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Três singulares na Feira do Livro de Porto Alegre Cristiano Moreira, Dennis Radünz e Marco Vasques farão debate sobre a literatura feita em Santa Catarina na Feira do Livro de Porto Alegre

Santa Catarina é o estado homenageado na Feira

A Feira do Livro de Porto Alegre contará com a participação expressiva da literatura catarinense durante sua 55ª edição, que começa nesta sexta-feira (30) e termina em 15 de novembro. Este ano, Santa Catarina comparece como Estado Convidado, e 15 escritores e estudiosos de literatura foram indicados para integrarem a movimentada programação da feira, participando de mesas redondas e divulgando seus trabalhos.
O catarinense Silveira de Souza será o escritor homenageado, em uma lista da qual também fazem parte Dennis Radünz, Carlos Henrique Schroeder, Rodrigo de Haro, Alcides Buss, Amilcar Neves, Clotilde Zingali, Ramone Abreu Amado…

SOBRE ESPAÇOS, AUSÊNCIAS E COISAS PARA SE FAZER

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Espaço. Um pedaço de margem branca depois que acaba o texto. Entre um texto e outro também pode ser. Espaço pode ser grande, mas é bom você delimitar. Espaço numa fita para gravar músicas. Como as cassetes de outro dia (porque o espaço entre hoje e o tempo das fitas cassete é muito pequeno). Agora é o espaço do CD, ou do pen-drive e outras tecnologias. É engraçado lembrar das fitas cassetes. O gravador fazendo aquele barulho para rebobinar. E quando a fita enroscava? Ah, era engraçado. Espaço é o que pode haver entre as pessoas quando elas estão com humor alterado. É o que você dá para as pessoas quando permite que entrem na sua vida. Espaço é onde os astronautas flutuam; os planetas todos orbitam no espaço. Espaço é um lugar que você precisa ocupar pra fazer algo melhor. E diz: -

me dá mais espaço, por favor. Espaço é o branco do papel, qualquer branco que se queira ou precise vencer. A tela do artista em branco ou não, é espaço. A casa inteira é espaço para a criança correr. Quarto…

OS CHEIROS

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Crônica publicada no Jornal a Notícia em 06 de agosto de 2009.
Eu realmente tinha planejado falar de raviolli, mas desde a publicação da crônica de Adália e Quasar venho recebendo mensagens que me fizeram mudar de idéia. Muito bacana saber das histórias envolvendo cheiros de várias ordens. De perfume, de comida, de lembranças, de fatos. Esse negócio de cheiro dá mesmo o que falar. E embora cheiro de raviolli seja muito bom e traga junto cheiro de amigos em torno da mesa, trabalhando juntos, preparando a massa e comendo, me pus a pensar em outros cheiros. Porque cheiro é um modo de a gente se “orientar”. Também pode ser um modo de a gente se perder. Mas se a gente pode se perder, também dá pra se achar. Como “cheiro da casa da gente”. É bom esse cheiro. Dá conforto. Dá aconchego. Cheiro de beijo na boca quando começa a pegar fogo. Cheiro de roupas limpas secando no varal (nem precisa usar amaciante pra cheirar gostoso). Cheiro da roupa de alguém com restinho de perfume. Cheiro de mar.…

DOIDA OU SANTA?

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Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 08 de outubro de 2009.
Maria Angélica, que já completou 40 anos há algum tempo, sentada diante de um espelho, fica parodiando Adélia Prado. De tanto ler o poema já nem precisa mais do livro apoiado sobre suas pernas. Mas ele lá está. Olha mansamente a imagem instalada, invertida. Respira e diz o trecho do poema: “Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa”. Pensa no que Adélia teria pensado ao escrever aquilo. Em quem teria se inspirado? De todo modo é uma temática semelhante à que sente agora diante do espelho. Uma inquietação. Um desassossego diante da vida que se apresenta na mais absoluta impermanência. Sabe lá em que situação imagina o amor a arrebatá-la e ela mesma suspensa pela vida que não para. E ela envelhece enquanto pensa. E envelhecendo é arrebatada pelas dúvidas que não a habitavam antes. Pensa de que maneira poderá sucumbir ao amor que sente se não é mais jovem. Olha o livro sobr…

S.O.S. RIO CACHOEIRA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 01 de outubro de 2009.

Sábado último, depois de voltar do Mercado Municipal com friozinho e chuvisco intermitente, no aconchego de casa dormi um soninho gostoso e sonhei. Sonhei com a capivara que tínhamos visto na margem do Cachoeira e que tanto nos impressionou; ela não era sobrevivente em meio a um esgoto a céu aberto; era sim habitante de um rio despoluído que cortava a cidade, margeado por calçadões, decks, árvores e jardins. Uma Cidade-Parque, onde natureza e seres humanos conviviam em harmonia. Andava sozinha e por vezes em pequenos bandos. Os filhotes a se engraçar na mata ciliar. E lá na parte de trás do mercado, onde os carros se juntam, era um outro espaço voltado para o rio vivo, para o desfrute. Mesinhas espalhadas e convívio. Muita gente ali, joinvilenses e turistas. E falando em esgoto e gente, dois conjuntos de banheiros, masculino e feminino, lá estavam para os usuários. Uma beleza, leitor! Banheiro limpo, papel hig…

DOMINGO EM JOINVILLE

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 24 de setembro de 2009.

Bom dia Joinville! Bom dia Flor do dia! O último domingo de inverno na cidade foi um domingo pré-primavera, de sol nascendo um pouquinho antes das 7 horas, e que eu tive a oportunidade de aproveitar por inteiro. Saí para fazer uma caminhada e entre tantas pessoas também caminhando, não é que passou uma senhora com dois botões de rosa nas mãos e me disse: Bom Dia! Feliz respondi: Bom Dia! Caminhei pela Rua Dr. João Colin desde a Rua Benjamin Constant até chegar ao Shopping Müeller e então segui até o Batalhão, contornei, andei um pedaço da Jacob Eisenhuth e retornei ao Shopping Müeller, onde parei para tomar um café. Sentei numa mesinha com sol no aconchegante espaço do Empório e me pus a pensar Joinville. Pensar a ideia dos parques. Joinville poderia ter um parque. É, poderia. Mas pensando nas pessoas que vi caminhando junto comigo, voltei a pensar na minha velha ideia da cidade feita em parque (já falei sobr…

IDALINA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 17 de setembro de 2009.

Idalina, agora que vai completar 64 anos, pretende começar a trabalhar. Sempre viveu com os ganhos do marido e depois que ele se foi, vítima de um câncer na próstata, passou a viver da aposentadoria dele. O dinheiro - se não permite excentricidades como pagar a escola dos netos e ajudar um pouco a filha que sempre diz: Ah mãe. Eu queria era mais dinheiro. Aí eu seria feliz – tem permitido a tintura que recobre o branco dos cabelos, um ou outro presentinho para os netos e os filhos, e pagar as aulas de dança de salão que frequenta todas as quartas e sextas-feiras. Também o supermercado. Os remédios para a pressão e um dinheirinho que coloca todo mês em uma caderneta de poupança para fazer uma viagem à Itália. Um dia eu vou. Diz sorrindo. Enquanto isso tudo não acontece ela preencheu com cuidado a ficha para a vaga de emprego. Maria Idalina Silveira Castagnetti. Esteja em paz meu italiano amado. Ela pensa pensa…

TEMPORADA DE ALCACHOFRAS

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Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 03 de setembro de 2009

Eu gosto de rituais. De modo que nessa primeira crônica de setembro, mês onde, pelo menos em tese, vamos entrar na primavera, quero falar de um jantar especial, um jantar de ritual que fizemos nessa noite do dia 01. Um dia antes fomos ao supermercado. Compramos alcachofras. Como são “flores”, deixamos num vaso com água. Enfeitaram a cozinha por quase dois dias inteiros. Pertencem à mesma família dos girassóis e das margaridas, e formam campos lindíssimos em várias regiões da Europa. Dizem que na época do Império Romano era uma iguaria na mesa dos nobres logo depois do inverno. E é mesmo uma iguaria. Primeiro por sua beleza. Depois por tudo que contorna o saboreá-la. Há diversas formas de preparo, mas nesse dia optamos pelo modo mais simples e tradicional. Uma receita do sul da Itália que aprendi com meu sogro. Primeiro tirando seu caule e abrindo bem as pétalas para ficarem algum tempo de molho na água com vi…

VANESSA ATALANTA

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Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 20 de agosto de 2009.
Ela pensou em bater na porta umas batidas leves. Em colocar um bilhete pelo vão debaixo da porta e ir embora. Pensou em bater umas batidas fortes e esperar abrir. Ver a surpresa estampada, o desconforto por detrás da alegria. Pensou em chegar na hora da chuva. Encharcada. Passou pela Rua Dr. João Colin a caminho do Shopping Cidade das Flores desviando de sombras e sorrisos. Entre uma bicicleta e outra uns sobressaltos; e já são eles sombras. Entrou para dar uma espiada em quem estava por ali. Entre a fumaça que ondula e a que se esvai pelo exaustor, um mundo acontece naquele café pulmão. Muita gente, mas ninguém aqui. Preciso de ar. Depois foi só descer pela Blumenau e olhar de frente o local onde sempre encontrava com ele... Ver que o lugar estava ainda no mesmo lugar. Quantas quintas... “Prometo que vou resolver. De hoje em diante não esperarei mais”. Ele prometeu. Ela escutou. Noutro dia passeou pela Rua Mare…

achado carinhoso de um amigo querido, Rubens da Cunha

O POETA ASSASSINA A MUSA

Há dez dias que Clotilde
- Uma das musas queridas -
Anda aborrecendo o poeta.
Aparece carinhosa,
De repente vira as costas,
Diz várias coisas amargas,
Bate impaciente o pé.
Então o poeta aporrinhado
Joga álcool e ateia fogo
Nas vestes da musa.
A musa descabelada
Sai cantando pela rua.
Súbito o corpo grande se estende no chão.
Diversas musas sobressalentes
Desandam a entoar meus cânticos de dor.
Clotilde ressuscitará no terceiro dia,
Clotilde e o poeta farão as pazes.
Música! Bebidas! Venham todos à função.

Murilo Mendes em "O Visionário" 1930-1933

tem certas coisas que só o Rubens faz por você :))

CÓDIGOS

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Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 30 de julho de 2009.
Esses dias eu me lembrei de uma brincadeira que a gente fazia lá em casa quando éramos crianças. Minha mãe ensinou pra gente. Chamava-se “Língua do P”, e consistia em separar as sílabas de todas as palavras que você queria dizer e inserir na frente o “P”. Então, se você queria dizer “pega um chocolate pra mim”, dizia: P-vo P-cê P-pe, P-ga, P-um, P-cho, P-co, P-la, P-te, P-praP-mim? Era muito legal falar essa língua e a gente sempre “sacaneava” alguém com isso. E também era uma brincadeira nossa. A gente falava e nem importava se entendessem ou não, era uma brincadeira da minha mãe com a gente. E era muito bom. Depois, com a pré-adolescência, inventamos muitas outras. Tinha uma tão complicada que nem me lembro pra contar agora! Que pena! Mas lembro que escrevia coisas no meu diário com essa língua! E quando eu repassava as cois…

SOBRE ATITUDES E VARINHAS MÁGICAS

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SOBRE ATITUDES E VARINHAS MÁGICAS


Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 23 de julho de 2009.

Acho que não me engano ao dizer que o leitor, assim como eu e todos os outros que por aí estão na vida, vez por outra esbarramos em coisas, pessoas, situações... Enfim, a gente às vezes dá de frente com barreiras, precipícios, maremotos, terremotos existenciais e pensa: como vou sair dessa? E assim pensamos no que é possível fazer. Em como podemos efetivamente, fazer o que nos cabe diante da dificuldade de agir, das barreiras sociais, políticas, de vida mesmo, onde damos de frente com a couraça do outro, das instituições, e até mesmo com a couraça invisível dos sentimentos que nos rodeiam. Como romper com isso? Como trabalhar com essas contingências e fazer fluir, seja lá o que for? Li algo que falava sobre isso, sobre esse “estar em contato” com o ser humano nessa condição ampliada, de arbitrariedades e barreiras. Sobre remover nossas couraças ideológicas para entrar em conta…

O REI ROBERTO

Crônica publicada no Jornal a Notícia de Joinville em 16 de julho de 2009.

Eu nuca fui fã do Roberto Carlos. Mas lembro, eu devia ter por volta de 8 ou 9 anos, de alguns disquinhos dele lá em casa. Discos pequeninhos, maiores que um cd, mas de vinil. Eram os discos compactos. Se eu não me engano podiam ter duas músicas ou apenas uma. E meu pai tinha alguns dos grandes também. Mas lembro mesmo é de uma tia minha, que era...Como posso dizer? Era “apaixonada” por ele. Tia Irene. Ela colocava os discos e cantava junto. Ou cantava sem disco mesmo. Enquanto lavava louças, arrumava a casa. Puxa... Lembro bem de detalhes de algumas casas em que ela morou. E ela sempre cantarolava aquelas músicas. Mas cantava mesmo. Soltava a voz. Soltava a emoção. Depois passei muito tempo distante dos discos dele, da minha tia Irene também. “Saudades de você, tia”. Eu passei a gostar de outras músicas e fui criando meu repertório predileto e próprio. Fui me apropriando de novos sons, novas vozes. Bem normal…

DEMOROU, VAI SER MELHOR.

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crônica publicada no Jornal A notícia de Joinville em 9 de julho de 2009



Domingo. Quinze para as dez da noite. Acabo de voltar de São Francisco. Como sei que a semana seguirá impiedosa na sua batalha pra comer meu tempo – cá estou em frente ao computador. A crônica da semana. Vou tentar livrá-la do caos que se impõe neste final de semestre que não termina. São Chico é oásis e eu ainda tenho energia da carga que peguei lá. Vou pegar essa onda. Ontem, fez um lindo sábado de sol. Minhas pernas caminharam pelas areias da Praia do Forte, chegaram até o riozinho quase lá no Capri. No caminho muitos pescadores com suas tarrafas, seus barquinhos e suas tainhas. Famílias inteiras ali partilhando aquilo. Inverno, sol, tainhas no mar e nas casas da gente... Mais na frente achamos uns amigos desfrutando do mesmo sol, do mesmo sábado, da mesma areia. Nos esquecemos um pouco por ali, deixando o calor entrar na gente. E lá foram as pernas caminhar de volta. Solzinho no outro lado do corpo, mais pe…

ADÁLIA E QUASAR

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ADÁLIA E QUASAR
Crônica Publicada no caderno ANEXO do Jornal A Notícia em 02 de julho de 2009.

“Posso cheirar você?” Foi exatamente essa a pergunta que ela fez ao homem que amava. Aquela pergunta, ao se esbarrarem por acaso no meio da rua o deixou qualquer coisa entre estupefato e vibrante (ele desejava imensamente a mulher), e surpreendeu-se. Sem que ele respondesse ela se aproximou, tocou uma das mãos dele com a sua, se apoiou e cheirou. Cheirou profundamente. Atrás da orelha, o pescoço e o rosto. Respirou o cheiro. O agridoce. Eles não se comunicavam mesmo. Não sabiam usar a linguagem verbal quando se encontravam e então silenciavam. “falar o que?” Não havia nada para ser falado. O “posso cheirar você” dava conta do que havia para ser entendido. Embevecida diante do cheiro que sentiu ela buscou seus arquivos. “Parece que há uma espécie de teto no alto na cavidade nasal que responde por essa questão do “cheiro” humano. Os resultados ainda são conflitantes... mas... de todo modo, seus …

Sobre Quintana, o amor e o espiar-se.

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crônica publicada no caderno ANEXO do Jornal A Notícia em 25 de junho de 2009.
Depois de encerrar a novela com Rubens da Cunha aqui e vivenciar por quatro semanas as intermitências de Iara e Tiago, continuo com vontade de falar de amor. E daí pensei em Mario Quintana. Um amigo me emprestou um livrinho dele. Um livrinho de bolso, perfeito pra carregar na bolsa. Vou socializar esse ato. Eu sabia de Quintana e tinha na cabeça: “Sonhar é acordar para dentro”. Despertar para o inconsciente. E também: "Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei. O amor é quando a gente mora um no outro." Essa última frase era a que eu sabia na ponta da língua. E isso já me era tão lindo. Comecei a percorrer o livrinho. Quantas minúcias e delicadezas! Considerado o poeta das coisas simples e com um estilo marcado pela ironia, profundidade e …

NOVELA POR DUAS MÃOS, um experimento.

A novela abaixo é descrita em oito capítulos e foi um trabalho conjunto realizado com o escritor Rubens da Cunha. Cada capítulo foi publicado no espaço de crônicas no Caderno ANEXO do Jornal A Notícia, de Joinville, pelo período de quatro semanas. Rubens da Cunha criou o personagem Tiago e eu criei Iara. Partindo de um mesmo roteiro cada um deu vida própria à seu personagem, mostrando os diferentes pontos de vista em relação às situações vividas por ambos. Foi uma experiência encantadora e que nos deixou muito felizes.


Capítulo 1, por Rubens da Cunha: TIAGO E A POSSIBILIDADE

Talvez eu tenha descoberto hoje, meio ao acaso, a paixão no sentido mais comum do termo: o suor, o tremor das mãos, aquele anuviamento contínuo dos olhos e das ideias. Tenho 38 anos, sou um homem banal, descasado, casado novamente, descasado mais uma vez. Será que estou apaixonado? É a primeira vez que sinto algo parecido, tenho certeza. Antes, a vida prática encaminhou as necessidades, o jogo da aparência determino…