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IDALINA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 17 de setembro de 2009.

Idalina, agora que vai completar 64 anos, pretende começar a trabalhar. Sempre viveu com os ganhos do marido e depois que ele se foi, vítima de um câncer na próstata, passou a viver da aposentadoria dele. O dinheiro - se não permite excentricidades como pagar a escola dos netos e ajudar um pouco a filha que sempre diz: Ah mãe. Eu queria era mais dinheiro. Aí eu seria feliz – tem permitido a tintura que recobre o branco dos cabelos, um ou outro presentinho para os netos e os filhos, e pagar as aulas de dança de salão que frequenta todas as quartas e sextas-feiras. Também o supermercado. Os remédios para a pressão e um dinheirinho que coloca todo mês em uma caderneta de poupança para fazer uma viagem à Itália. Um dia eu vou. Diz sorrindo. Enquanto isso tudo não acontece ela preencheu com cuidado a ficha para a vaga de emprego. Maria Idalina Silveira Castagnetti. Esteja em paz meu italiano amado. Ela pensa pensando no marido. Viúva. 63 anos. Sexo feminino. Casa própria. Obrigada meu Deus. Obrigada. Dois filhos. C.P.F., R.G. O espaço do número da carteira de trabalho fica vazio. Não por muito tempo. Todos os papéis foram providenciados e o moço de rosto surpreso, que é contador, e está preparando tudo, vem à mente de Idalina. Ele prometeu tudo pronto em dois dias. Depois disso ela entregaria na Escola ali perto de sua casa para finalizar o contrato de trabalho. Ela sorriu. Pensou que ainda poderia surpreender. Respirou. Não escondeu de si mesma os receios que sobrevieram. À sombra do marido por tanto tempo e os vazios que foram aumentando de tamanho. Aumentando até que ela não se enxergasse mais. Então um dia Francisco se foi e o espelho desceu no meio do quarto em que ela chorava sentada na cama. Bem à sua frente. E ela se viu como há muito não se via. Idalina se viu. Viu até as roupas que cobriam seu corpo. O pálido delas. Entregou a ficha para a diretora da Escola. Sorriram as duas. Nos vemos em duas semanas. Prepare-se. A tarefa será árdua. Sorriram outra vez. De volta a casa lembrou mais uma vez do dia do espelho. Do pálido. Foi até o armário e abriu todas as portas. Colocou tudo na cama. Separou, vestiu, olhou no espelho muitas vezes. No início da tarde tinha uma pilha de roupas para doar. Levaria até um Lar de Idosos que ela conhecia. Sobre a cama poucas coisas restaram que ela decidiu manter. Dia seguinte iria comprar roupas novas. Iria agora afinal. Tomou um banho que a encheu de mais vigores e foi. Já na rua sinalizou para o táxi que passava. Boa Tarde. Shopping Muller, por favor. Falaram do tempo como é de hábito nas conversas dentro de um táxi. Falaram da chuva incessante e do verão que viria afinal. Ah! Viria sim. Ela nem contou ao taxista, mas já estava dentro dela o verão que ainda ia chegar. E foi no meio do caminho, ou quase isso, na esquina das Ruas Visconde de Mauá e Benjamin Constant, que toda essa perspectiva iluminou eternamente Idalina. Ali mesmo o coração parou. Na alegria de tanta perspectiva, o peso da carreta sobre o táxi e muito vidro estilhaçado. No preto do asfalto, diante da multidão que se alvoroçou, o sangue que ela verteu caminhou indiferente, desceu até a Rua Blumenau e seguiu insistente até o Shopping. Em frente à escada rolante rodamoinhou junto com vento que soprava. Agora, nesse 13 de outubro que se avizinha, Idalina faria 64 anos. Táxi, táxi. Boa Tarde. Shopping Muller, por favor.

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