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TEMPORADA DE ALCACHOFRAS

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 03 de setembro de 2009


Eu gosto de rituais. De modo que nessa primeira crônica de setembro, mês onde, pelo menos em tese, vamos entrar na primavera, quero falar de um jantar especial, um jantar de ritual que fizemos nessa noite do dia 01. Um dia antes fomos ao supermercado. Compramos alcachofras. Como são “flores”, deixamos num vaso com água. Enfeitaram a cozinha por quase dois dias inteiros. Pertencem à mesma família dos girassóis e das margaridas, e formam campos lindíssimos em várias regiões da Europa. Dizem que na época do Império Romano era uma iguaria na mesa dos nobres logo depois do inverno. E é mesmo uma iguaria. Primeiro por sua beleza. Depois por tudo que contorna o saboreá-la. Há diversas formas de preparo, mas nesse dia optamos pelo modo mais simples e tradicional. Uma receita do sul da Itália que aprendi com meu sogro. Primeiro tirando seu caule e abrindo bem as pétalas para ficarem algum tempo de molho na água com vinagre. Depois aferventando num caldo aromatizado até que as pétalas possam ser descoladas suavemente. Então é só preparar um molho feito de vinagre, azeite, alho, sal, pimenta do reino e iniciar a festa. Pétala por pétala você vai tirando, passando a parte carnuda nesse molho. As brácteas. Descascamos folha a folha o rigoroso do inverno, os dias gelados, e mesmo ainda um pouco distantes da primavera, adiantamos o calendário ao menos nessa noite. O clima que envolve esse saborear as alcachofras é delicado como a própria flor. Até quando você tira uma pétala, passa no molho e oferece. Até os olhares trocados nesse despetalar. Depois de todas as pétalas você chega à parte fibrosa. Vale o trabalho de extrair com cuidado para chegar ao fundo da flor. Ao coração. Uma base feita do mesmo conteúdo das pétalas. Mas envolve você de um jeito diferente agora. O ar tomado pelo perfume dela. Saboreamos a inflorescência. As propriedades nutritivas e medicinais despertam a atenção: vitaminas do complexo B, potássio, cálcio, fósforo, magnésio e ferro. O sabor um tanto amargo que estimula as secreções digestivas além das características diuréticas. As alcachofras foram trazidas para o Brasil por volta de 100 anos atrás. É uma planta de clima temperado a frio e de áreas úmidas. Até vegeta bem em regiões quentes, mas não forma os botões florais. São 4 as variedades mais encontradas: Violeta de Proença, Roxa de São Roque, Verde Lion e Verde Grande da Bretanha. É formada por quatro partes: o fundo fibroso e a parte superior das folhas (não comestíveis), a base das folhas e o fundo ou “coração”. Os talos também podem ser apreciados, tirando-se bem as fibras externas e cozinhando junto ou preparando a base para um delicioso espaguetti ao molho com talos de alcachofra. Dizem que lá por volta do século XVI na França, o consumo da alcachofra tornou-se proibido para as mulheres. Parece que Catarina de Médicis adorava a iguaria e andou dando algum trabalho para o Rei Henrique II. Talvez venha daí a lenda do fruto ser afrodisíaco. De qualquer modo, afrodisíaco mesmo é você pensar em degustá-la, trazê-la para casa, seguir os procedimentos do preparo e pétala a pétala ir descascando essa iguaria. Esse poema. Pétala a pétala encravada. Taquicardia lá dentro.

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