Postagens

Mostrando postagens de 2013

TERRA NATAL

Imagem
Pergunta-se o que é Terra Natal. Escuta dizerem que tal qual o amor, é coisa única. Um só amor. Uma só terra natal. Mariana não pensa assim. Sente-se capaz de abrigar em si muito amor. Amor simultâneo por coisas, cidades e pessoas. Por isso ama Edgar e Rafael. O vestido com estampa de oncinha e os chinelos. Por isso navega nas ruas de tantas cidades e diz: eu nasci aqui. À muitos lugares ela sente pertencer. Lembra-se das aulas de matemática e dos símbolos de  pertence e não pertence... Fundamental é mesmo o amor. E isso não muda. Do que muda, ela escuta o que se avizinha e faz ninho no seu quintal. Ao cair da tarde, vislumbra possibilidades de recriar-se e sair da mesmice. Estamos todos destinados à mesmice! , diz apocalíptica. Dentre as mudanças, ela prefere aquelas que não tecem motivos para acontecer. Aquelas que se interpõem feito tiro – entre o disparo e o alvo. E simplesmente não tem para onde correr. Não há tempo, talvez, para temer.  Mariana gosta de experimentar desa…
Imagem
LUZ E SOMBRA A luz, quando ilumina o que está escuro, propicia a possibilidade de se enxergar. Ao menos, aponta algo. Pode ser forte e ofuscante, às vezes clareando ao ponto de cegar, e pode ser um pontinho bem fraco e suave como vindo de um abajur. Cria clima. Favorece ângulos. Evidencia defeitos. Evidencia a vida como ela é. A luz, entre outras tantas coisas, é fenômeno que propaga energia e potencializa a crença no caminho. Na melhor das hipóteses, favorece e sustenta o passo. O que é iluminado pode também refletir. Que nem a lua. E dentro da imensidão das coisas relativas à luz, uma parte refere-se ao que pode se iluminar enquanto letras formam frases e frases formam ideias e pensamentos vão se tecendo dentro da gente. Quanto mais pensamos, mais vemos o assunto se iluminar e criar perspectivas. Perspectivas são talvez como as lentes fotográficas; filtram o olhar, dão convergência, divergência, distorção, profundidade de campo, mais ou menos foco e outros tantos artifícios que fazem…

DESENHO NOVEMBRINO

Imagem
“Se eu fosse desenhar minha vida, pintava você nela me contando uma história qualquer. Atrás, o sol esquentando nossa pele”

SOBRE SAQUINHOS

Imagem
Pensei em ordenar algumas coisas. Separei saquinhos de diferentes mercados: os que traziam estampada a marca (esses uso para o lixo da cozinha) e os menorzinhos que utilizo na lixeira da pia. Os outros, aqueles coloridos e sem nenhuma marca, uso na lixeira do banheiro. Ficam especialmente simpáticos pois contrastam com o azul do piso e as bolinhas brancas e vermelhas da lixeira. Acho estranho quando eu navego por minha casa e penetro nesta ordem tão minha. Quase a me espiar nessa espécie secreta de prazer. Desde cedo desejos e adjacências.

CÊ NÃO IMAGINA A AFLIÇÃO QUE EU SINTO

Imagem
No vão do que se disse, nas frestas dos silêncios, em meio ao que é inexato, sobram perspectivas... O que tem no vão? O que? Onde é que a batida do tambor ressoa mais? É dentro dele ou da pessoa? Tem pedra que a gente joga e mostra a mão. Tem palavra que só cabe em boca maiúscula.
Por isso adoro pessoas possuídas. Por isso alguém escreveu e depois cantou que quando um homem tem uma mangueira no quintal ele não é goiaba! Quer saber? Mãos, tambor, boca e voz são instrumentos de sentido e razão. O amor? O amor é muito importante, porra!

BALANÇO ATÔMICO-PATOLÓGICO

Imagem
Sim, sou esquizofrênica. Sou e tenho vários "sintomas co-existentes"... Agitação, variações de humor, insônia, depressão... a lista é grande. Acho que é por isso que tomo tantos medicamentos... e que por isso também a lista dos efeitos secundários adversos dos medicamentos prescritos para esquizofrenia: de diabetes a tremores passando por efeitos secundários também dos medicamentos prescritos para sintomas co-existentes... tem coisa...mas ele disse que tudo está no manual. Basta segui-lo e não se preocupar. O que eu disse? Elementar caro Watson, nada. Eu não discuto com médico. Eu acato. Simples assim. Não gosto de contrariar o doutor. Às vezes, talvez muitas vezes, as pessoas agem de modo malicioso. Aparecem pensamentos estranhos e coisas que até deus põe em dúvida... aliás, deus existe? não sei... Às vezes, quando me perguntam algo, acho que demoro um pouco pra responder... acho estranho responder rápido.  E tem pergunta que choca a gente... aí a gente deita falas e olhare…

BURACO DA FECHADURA

Imagem
ilustração: Estevão Teuber


pela fresta, pelo vão olho-me nas pontas dos pés:
em meu cheiro metade;
quem é essa moça nua, essa outra que me espia pelo buraco da fechadura?

poema do livro BRICOLAGES para GELADEIRA, 2006.





AMOR QUE FICA

Imagem
Entre tantas coisas, uma coisa.  Interação gravitacional. Plutônio + potássio + açúcar comum = bomba, injetar gasolina ou querosene em uma lâmpada e quando você acende = buuum!!! (sim, a onomatopeia é minha). Há também onomatopeias providenciais, um dia especial e talvez um neurologista que não entenda nada de amor. Mas ele pode dizer que, ainda que seja improvável, o recomendável é manter-se isento. Se o constrangimento piora a gagueira, eu não sei absolutamente nada sobre incêndios e preciso, desmedidamente, ganhar tempo antes de declarar o que sinto. Então ele me diz que nossa mente tende a encontrar padrões... Tende? Talvez por isso eu passe lustra-móveis em todas as portas antes do meu amor chegar. Pergunto ao neurologista quanto tempo precisarei para viver entre tantas coisas sem apenas uma? como manter o escrúpulo diante do que me aborda pela porta da frente? Ele sorri e diz que para abrir ou fechar a porta basta girar a maçaneta. Que todo o mais pode ser arbitrário ou adjacent…

SOL QUE NÃO SE MEXE

Imagem
Eu escrevo para escavar, relatar e resgatar a dinâmica que algumas coisas podem ter: tempo, duração e sentido. Por exemplo: Na noite mais longa do ano, o sol - ao longo de sua dança ao redor da terra, em um momento específico (sim, tudo tem a hora certa) - faz uma espécie de pausa para depois, lentamente, retomar o caminho de volta. Esse momento funda a noite mais longa do ano e recebe o nome de Solstício, do latim, solis + sistere: “sol que não se mexe”. Talvez, pelo motivo-pausa, esse seja considerado um período de recolhimento. Período onde o que o que é escuro subverte o que é claro; talvez para nos permitir um "chacoalhar" por dentro. Porque coisas e pessoas gravitam para nos alcançar e nos fazer balançar por dentro.

BÁRBARA

Imagem
Acumulada em devaneios, se olha no espelho. Tira uma a uma as peças de roupa: a blusa última linha da boutique mais cara da cidade, o soutien "eu também tenho peito", o jeans vintage de preço surreal e a bota. Talvez devesse preparar uma mala mínima, comprar uma passagem no cartão de crédito do marido e embarcar parra Macau. Com os olhos amendoados,  permanecer impávida nas cercanias chinesas. do livro 40 Possíveis Maneiras de se Descascar uma Mulher, 2008
Imagem
por uma razão qualquer.... dia qualquer. um lugar. eu e você. nós um. (nada qualquer se parece)
você melodia.... eu desenho... uma partitura. uma escala de tons.
qualquer coisa de setembro insiste; apesar das flores no chão, apesar do aroma bem aqui (sente). digo qualquer coisa,  te tirando da testa uns fios de cabelo; num roçar de mãos num dia qualquer, nos lábios debaixo de um dia de sol qualquer; e nos olhos depois, numa noite de pizza qualquer.
 (nesse lugar), nós um. (nada qualquer se parece)
Imagem
Ladeando o que pode ser ter 50 anos, penso sobre princípios de aerodinâmica e combustão. Gisele, uma amiga toda afeita em pequenas magias e coisas transcendentais escuta meu desabafo: “Gi, preciso de uma garrafada! Aloe vera e formol juntos será que me adiantam? Resolvem meus problemas?” Gargalhamos juntas. Gisele diz que para quase todas as coisas, precisamos apenas de dois dias. Não tem quaisquaisquais;
seja para iniciar um regime, cair na esbórnia, aceitar ou não uma proposta, mudar a vida em tudo ou em nada: Uma cesta de métodos mais dois dias de concentração e tudo se resolve. Não vai ter aloe vera que faça páreo! Quanto ao formol, nem pensar, não é? Por acaso você deseja, aí bem no seu fundinho, estacionar esse estado de coisas ou qualquer outro? O movimento rejuvenesce, amiga! Sei bem que os fios soltos existirão apesar de algumas certezas e palavras de conforto. Palavras rede que agora me parecem aprisionamento diante da fome e do existir borboleta... um modo de existir que par…

FUMEGAÇÕES AGOSTINAS

Imagem
 Abaixo do que é a superfície de mim, sinto algo fumegando... Galeno poderia dizer que é esquizofrenia; porque não? Afinal, alguém já disse que Haloperidol deixa a alma dormente. (a fumegação, é então, um revertério?). De qualquer modo, escrever transforma o que é invisível em palavra. Quando é possível gotejar com encantamento essa palavra; ela então se desdobra e pode contaminar. Feito aroma que entra pelas narinas, passa pelo coração e segue ao cérebro. Ou seria o contrário? Seja como for, as palavras podem ter cheiro. Cheiro de jasmim, por exemplo. Quando as palavras tem cheiro de jasmim, sorvê-las é como participar de uma dança. Uma coreografia se forma no espaço e quando se abre ou fecha os olhos, se vê flor. Me pergunto se isso é igual ao inverso dessa equação: por exemplo, quando eu vejo flores em alguém e então sinto cheiro de jasmim. O que fumega quando a alma está desperta? O quê?
Imagem
Não importa se é pelo direito ou avesso que se vai usar a velha calça jeans: No caminho, a alma aproveita da trilha para ser matéria.

COISAS VERMELHAS

Imagem
Quero falar de coisas vermelhas para, juntos, imaginarmos sem moderação. Se a imaginação é um ato vermelho, significações e simbologias, quando vermelhas, não ficam omitidas. A fraternidade é vermelha, a paixão (inclusive quando não correspondida) é vermelha. A boca e a língua depois de comer cerejas, também. Ficam ainda mais vermelhas. Campari, quando cai na roupa. As gotas que escorrem num pacto de sangue. A árvore, quando você corta seu tronco, escorre um líquido que é vermelho. Arnaldo Antunes diz em uma canção, lindamente, que o corpo, se cortado, espirra um líquido vermelho. O sinal de PARE. Vermelho. A flor detrás da orelha da espanhola que dança. O sorriso dela é vermelho. O tango também é. Ela e ele: puro vermelho, puro sangue. Luiz Melodia canta vermelho. O corte na pele e o calor das mãos quando se tocam é vermelho. As flores, um dia, em uma camisa. O “não” que se interpõe feito bala em uma via só de sim. Coisa muito vermelha. Certas músicas ou um poema que alguém diz para …

O FOTÓGRAFO

Imagem
Eu fotografo ideias e projetos para ver as estórias. Para capturar e interpretar o momento. É então que a imagem é bandeira que defendo; argumento que apresento. Se a vida é um evento, eu fotografo para conservar. Para guardar.Feito poema onde guardo o que é primeiro plano e também o plano de fundo. Desarticulo para ver mais a gravidade da cena. E de novo interpreto. No fundo, sou contador de estórias. Sou contador e fotografo para guardar. Ontem, por exemplo, a vazante de águas raras e claras eram como janelas no manguezal; e eu interpretei a dinâmica da seca e da cheia naquele poema. Feito mata ciliar, o que distancia e protege também põe em contato; provoca o conflito e o argumento; e então sou escrevinhador e espécie entre as espécies que fotografo.

DESAMBIGUAR

Imagem
Eu gosto de misturar palavras. Fazer frases com elas e depois misturar estas frases: afirmativas, negativas, exclamativas! Adoro lançar perguntas e criar enigmas. Acho que isso é uma forma de ser perversa. De fazer sacanagem com as palavras. Isso sem contar o que faço depois: lavo, torço, encero, faço bola de meia e às vezes, chuto para pensar em outras palavras. Me sinto volúvel nessas ocasiões. Por vezes também sou sucateira: eu reivento. Coloco de molho no amaciante. Eu nino algumas palavras e deve ser por isso que um amigo me disse que elas ganham magia. Seja como for, depois disso tudo eu levo palavras e frases para roda de samba e faço batucada com elas. Elas dançam nas misturas que faço e vão criando ideias novas, ideias subversivas, ideias que me deixam arrepiada. Então eu corro para o espelho e as proclamo em voz alta. Se fazem sentido para mim ao escutar, elas sobrevivem. É sinal que envelheceram no carvalho, criaram vincos, sulcos e adjacências; caso contrário eu as demito …

MATÉRIA SEM CULPA

Imagem
Capto a vida através de instrumentos. Mergulho em diferentes águas e pinço toda sorte de objetos: flutuantes, evanescentes, com mais ou menos contraste entre eles e a água. O critério segue o visgo dentro do olhar. Só o visgo. Ainda assim são objetos fugidios e, através deles, palmilho e desvendo. Depois percorro a orla com os pés descalços. Orla e órbita. Tropeçando em pequenos crustáceos, eu desvelo. Sangro no perímetro das coisas que tem textura, aroma e intensidades. Desenho nós dois sentados na areia. Sentados na beira em volta do buraco. Em volta da beira e da probabilidade. Da possibilidade. Às vezes é como gravidade: Não dá para negociar. Fóssil sem corpo. Afinal, quem dorme com cães, não necessariamente vai acordar com pulgas. Além disso, diante da tv, vejo tudo que pode haver de submerso em Moçambique, e que apenas três moças, antes dos 30 anos, podem desvendar e desvelar em rede para o mundo. Assim eu descubro o que pode haver no fundo só com o visgo do olhar. Sem sair do s…

CRÔNIQUETA DE JULHO

Imagem
De novo é julho. É julho e talvez não importe o que eu poderia falar: as chuvas que não cessam, o frio lá do norte, as perspectivas para o próximo ano ou mesmo para amanhã. É julho; e talvez por ser o meio entre o que há e o que pode haver, o que vejo de olhos arreganhados é o tecido que cobre minha pele e eu quero desmanchar. Trama por trama para estar nua entre o que foi e o que pode ser. Entre os escombros. Tudo quer voltar. Até os passos que não dei aos 2 anos. As mãos nas cordas do violão que meu pai tanto queria que eu tocasse. As linhas me trouxeram até aqui. Estou dentro delas. Dentro das cordas do violão. Dentro dos fios que fazem a trama do tecido e da minha pele e que seguem ao infinito.  O caminho é cheio de bordados: desenhos no tecido que eu tenho que desfiar. Estou costurada nas paralelas. Bordada em osso e carne. Em fibra e desejo. Dentro do buraco da agulha. Sinto no ar um perfume. meu cheiro? Um perfume de begônias Quem é  essa mulher toda nua? essa que me espia enq…