quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

TERRA NATAL



Pergunta-se o que é Terra Natal. Escuta dizerem
que tal qual o amor, é coisa única. Um só amor. Uma só terra natal. Mariana não pensa assim. Sente-se capaz de abrigar em si muito amor. Amor simultâneo por coisas, cidades e pessoas. Por isso ama Edgar e Rafael. O vestido com estampa de oncinha e os chinelos. Por isso navega nas ruas de tantas cidades e diz: eu nasci aqui. À muitos lugares ela sente pertencer. Lembra-se das aulas de matemática e dos símbolos de  pertence e não pertence... Fundamental é mesmo o amor. E isso não muda. Do que muda, ela escuta o que se avizinha e faz ninho no seu quintal. Ao cair da tarde, vislumbra possibilidades de recriar-se e sair da mesmice. Estamos todos destinados à mesmice! , diz apocalíptica. Dentre as mudanças, ela prefere aquelas que não tecem motivos para acontecer. Aquelas que se interpõem feito tiro – entre o disparo e o alvo. E simplesmente não tem para onde correr. Não há tempo, talvez, para temer. 
Mariana gosta de experimentar desassossegos, cheiros inusitados e rajadas de vento. Sabe que viver é como estar no sofá de uma sala de espera, somente no aguardo da sua vez de entrar. É dar ou receber o diagnóstico. Assinar ou não o contrato e assumir as prestações que nos farão refém ou algoz. Os papéis todos da gaveta espalhados em cima da mesa. Um foco de luz roendo um pedaço do seu chão. Viver é estar no conflito. 
Mariana sabe disso e ama cada estrondo. Cada parede que desmorona. Sabe que coragem não é ausência de medo – é o medo mais o desejo de fazer determinada coisa, de superar aquele medo. 
Deve ser por isso que toma o avião carregando apenas sua bolsa. Sabe que quando se tem muito a perder não há espaço para pensar. Esse é o caso e ela vai perder cada uma das suas coisas. E vai nascer num outro lugar repleto de coisas outras que vai amar e odiar. Uma outra terra natal.
Feliz 2016:)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

SINAL FECHADO




SINAL FECHADO

Dezembro, 24. Mais uma vez é natal. Repetição e possibilidade de enxergar diferente a mesma coisa, a mesma situação. Para talvez poder se surpreender. Pelas nossas atitudes ou pelas dos outros. Simples assim. Salve Lenine! Todos os dias tem isso. O natal é um data que traz isso; e junto, traz aquilo tudo que a gente empresta dos outros e também dos momentos, para agregar às nossas fantasias e dar sentido às nossas vidas. Se podemos emprestar a loucura, o corre-corre, os presentes, os panetones (e a vida que às vezes acaba em panetones caríssimos!), de outro lado podemos emprestar o desejo genuíno de olhar para o nosso desejo. O desejo de representar no mundo da fantasia o NOSSO desejo mais de dentro. Silenciar um pouco diante da correria para nos escutar e, quem sabe, escutar o outro. Tentar subtrair um pouco as armaduras tantas. Como na música “Sinal Fechado” de Paulinho da Viola, que diz que no nosso corre-corre estamos “sempre a cem”. Se deixar surpreender com algo. Enfiar nossas mãos na terra e sentir. Eu convido você. Convide alguém. Surpreenda-se. Ao invés só do fluxo doido do consumo, da correria, das obrigações: estancar no vermelho. Deixar um pouco de seguir a tropa. Buscar um afortunado encontro com seu dentro. Aproximar-nos das pessoas com quem convivemos e que às vezes, pouco sabemos delas; e, de algum modo, nos deixar nortear pelo “sinal fechado” de Paulinho da Viola: 

“olá, como vai?

eu vou indo, e você, tudo bem?

tudo bem, eu vou indo correndo pegar meu lugar no futuro e você?

tudo bem, eu vou indo em busca de um sono tranqüilo, quem sabe?

quanto tempo

pois é, quanto tempo...


UMA BOA NOITE DE ENCONTRO PARA TODOS NÓS :)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

BAÍA BABITONGA


eu, baía


foto/vídeo: Clotilde Zingali


eu, baía

No canto da Babitonga,
eu mar;
eu pedaço de água e terra;
pedaço que avista;
pedaço-ponte, pedaço-ponto no dela horizonte;
Eu ilha.

Nas adjacências desse lugar,
aromas de verde e de atalho.
Sou eu que transverso o caminho e
poemo a possibilidade.
Eu barco. Eu vento e velas.




quinta-feira, 15 de outubro de 2015

"AO MESTRE, COM CARINHO"

Crônica publicada no Jornal A NOTÍCIA de Joinville em 15 de outubro de 2009.


Com um abraço muito especial para os professores que tive e tenho. Meu mundo ganha coloridos especiais com o que cada um trouxe e traz de si dia após dia. Obrigada!

Ouvir alguém falando com propriedade a respeito de um assunto sempre despertou em mim muito interesse. Sou capaz de lembrar tons de voz, expressões e exemplos. E isso me engrandece. É essa sensação que tenho enquanto aluna. E todo dia saio das aulas modificada. Entro uma e saio outra. Talvez por ter tido uma mãe professora. Inclusive minha professora durante um ano. Talvez por tê-la escutado tantas vezes falar sobre a dinâmica escolar, a dinâmica do processo ensino-aprendizagem. Por ter acompanhado o seu percurso nessa trajetória. Escutado e assistido a paixão dela pelo trabalho implantado em salas de leitura. Terminei por me tornar uma amante desse ser que se dedica ao ensino. Que dá de si pelo outro. Que cede do seu desejo para que o outro se signifique. Que contribui para que o aluno possa expandir suas fronteiras: transcender. Esse sujeito é o professor. Com mais de 30 anos quase ininterruptos na condição de estudante, admiro cada vez mais esse profissional. Não quero agora falar das falhas, dos salários, do apoio do governo, da política. Não. Quero falar daqueles que, a despeito de tanta força contrária, conseguem modificar um quadro, conseguem ser multiplicadores e mais: conseguem produzir novos multiplicadores. Alguns podem dizer que tenho uma visão romântica. Que os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e a caravana segue. Mas é que não é disso que quero falar, sabe? Quero falar do que me surpreende nesse contato. Como quando tive a oportunidade de ter aulas de literatura com uma professora, que por gostar tanto de ler e portanto, ler muito, era incapaz de falar sobre qualquer assunto em sala de aula sem citar uma estória para ilustrar o assunto. E com isso nossos mundos engrandeciam assustadoramente. E nosso interesse em ler aquelas estórias ganhava uma dimensão que não era da ordem da obrigatoriedade, mas de uma outra ordem. Ou outros professores tantos, que por terem um contato com a arte, a literatura, a política, são capazes de pontuar seus discursos em sala de aula com exemplos e conhecimentos diversos. Vão costurando o conteúdo que desejam passar e o que está no programa com histórias de vida, tornando os alunos capazes de fazer conexões, de ampliar suas redes. Porque é assim que se arrebata um aluno. Ou daquele professor que por seu fazer tão exigente, quase militar, vai ensinando a importância da disciplina, da organização e faz emergir de cada um algo que era desconhecido. Amplia nossas possibilidades. Através da firmeza da sua sistemática ensina essa importância para cada um. Faz a diferença. E assim essas figuras vão ficando na história de nossas vidas, nas nossas lembranças e vão se tornando “mestres” de seu ofício. Não é que não saibam ou compreendam as dificuldades. Não é que tenham se alienado dentro de uma estrutura engessada. Ao contrário. Conseguem ir provocando rachaduras numa condição naturalizada de que certas coisas são assim mesmo e vão quebrando essa ideia. Fazendo emergir outros caminhos. Porque é isso que conta afinal. Entender que estão formando seres humanos. E é esse entendimento que faz a diferença. É isso que provoca a verdadeira revolução. Você pode me dizer que é um processo lento, que é trabalho de formiguinha. É sim. Mas as mudanças que ocorrem dentro desse espectro são estruturais e profundas. E por serem assim, se multiplicam numa base alicerçada, que significa que futuras atitudes podem ser calçadas sobre uma nova consciência. Uma consciência de que estamos aqui para fazer diferença. Professores formam “seres humanos” que irão lidar com “seres humanos” em diversas instâncias. Acho imprescindível pensar essa condição da formação do ser humano. E a dimensão disso. Naturalizar uma condição de replicadores sem formação humana consistente é algo que se vai deixando passar e quando você vê, estamos ali à mercê dessa falta de consciência replicada. É isso que desejamos para nós e nossos filhos?

terça-feira, 6 de outubro de 2015

SOBRE A ADJACÊNCIA DAS COISAS


Queridos daqui, dali, de lá e acolá :) preparei essa prosa hoje, terça-feira, dia de postagem aqui no blog... então... espero que gostem, ok? fiquei feliz de prosear falando em perfume, falando em cheiro... tem perfume novo no "CHEIRO DAS PALAVRAS" :) nos vemos na atualização de quinta-feira! um beijo pra todos.



sobre a adjacência das coisas 
(prosa para Ouver 06/10/205)

primeiro escolhi uma palavra
entre todas que encontrei, apenas uma
então fui até a vitrola antiga
e coloquei nela um disco
foi bonito ver a palavra deslizar pelo vinil;
nesse dia foi quando eu mais fui música.

uma outra vez, imersa em paisagens, o amor que eu sentia me mudou para o estado de folha;
 foi quando eu mais fui verde.

depois, imersa em poema, (des)inventando, escrevi a palavra jasmim; palavra grama com orvalho da manhã; palavra pasto depois que a manada retorna ao galpão. nessa vez foi quando eu mais fui perfume.

toda vida desejei escrever palavras com cheiro. 

terça-feira, 29 de setembro de 2015



DE CERTA OBLIQUIDADE DE UM OLHAR

fonte: www. POSSE.pt
http://apfp.blogspot.com.br


meus olhos vendados agora podem espiar rumores pela trama do tecido. de esguelha (1), o amor fez um breve ensaio nas páginas de uma revista científica. sobrei entre as circunstâncias do esquecimento e da covardia no exato parágrafo 15. maiores explicações no pé da página.

(1) esguelha: Oblíquo, de viés; Andar de esguelha = andar desconfiador, olhar de esguelha= olhar de lado, olhar enviesado; Olhos tortos. Voce só nos olhava de esguelha; Sinônimos:  soslaio   obiiquidade   esguelha   °esguelha   detravés   través   viés   flanco   envies   enviés   diagonal ; s.f. Característica ou estado do que é oblíquo; soslaio ou viés; Tecido cortado de viés; loc. adv. De esguelha. De uma maneira oblíqua; obliquamente; Andar de Esguelha (com alguém). Demonstrar desconfiança; que não está em harmonia com alguém. (Etm. do grego: skólios.á.ón); esguelha, (guê) f. Través; obliquidade. Soslaio. (Do gr. skolios?); Sinónimos: través

terça-feira, 15 de setembro de 2015

MAGDA


MAGDA
do livro 40 Possíveis Maneiras de se Descascar uma Mulher (2008)

 uma das ideias para a capa... trabalho do amado Estevão Teuber :)
eu e o cartaz de divulgação :)

o trabalho gráfico final e as gentis palavras de Amilcar Neves :)

Magda, uma das mulheres... para OuVer :)

terça-feira, 1 de setembro de 2015

EX-VOTO, ADÉLIA PRADO





Adélia Prado - Ex-voto
Na tarde clara de um domingo quente, surpreendi-me
Intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro
Desejo de raspar a cabeça e me por nua no centro da minha vida
E uivar até me secarem os ossos
Que queres que eu faça Deus?


Quando parei de chorar, o homem que me aguardava disse-me:
Voce é muito sensível, por isso tem falta de ar!
Chorei de novo porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo



Respira fundo, insistiu !
Joga água fria no rosto, vamos dar uma volta, é psicológico



Que ex-voto levo à Aparecida se nao tenho doença e só lhe peço a cura?
Minha amiga devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as orações católicas.



Eu nunca ia ser budista!
Por medo de não sofrer, por medo de ficar zen
Existe santo alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?



Minas tem coisas terríveis.
A serra da piedade me transtorna.
Em meio a tanta rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador do mundo.



O menino não consegue mais, vai morrer, sem força para sugar a corda de carne preta do que seria um seio, agora às moscas.


Meu coração é bom mas não aceita que o seja.
O homem me presenteia.
Porque tanto recebo quando seria justo mandarem-me à solitária?



Palavras não, eu disse. Eu só aceito chorar!
Porque então limpei os olhos quando avistei roseiras e mais o que não queria, de jeito nenhum queria aquela hora, o poema, meu ex-voto.
Não a forma do que é doente, mas do que é são em mim.
E rejeito e rejeito premida pela mesma força do que trabalha contra a beleza das rochas.



Me imploram amor Deus e o mundo.
Sou pois mais rica que os dois.
Só eu posso dizer a pedra: És bela até a aflição!
O mesmo que dizer a ele: Sois belo, belo, sois belo.



Quase entendo a razão da minha falta de ar
Ao escolher palavras com que narrar minha angústia, eu já respiro melhor.



A uns, Deus os quer doentes, a outros quer escrevendo.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

ARQUITETANDO Minúcias











sou arquiteta.
tenho apaixonamento por palavras estruturais: por exemplo, palavra ferro, palavra concreto; ou ainda pela mecânica das palavras, como a palavra envergada, a palavra cisalhada ou a palavra fundida. amo especialmente palavras fio. com alma de aço. gosto de até de onde elas podem ir, como a palavra balanço: 
atravessa vãos inteiros e compreende amplamente um vazio. de lá, desdobra em contemplação.


terça-feira, 4 de agosto de 2015

terça-feira, 28 de julho de 2015

quarta-feira, 22 de julho de 2015

ROMANCEAMENTOS


ROMANCEAMENTOS


não é pelo relato dos juros, correção monetária ou pelo dinheiro que me chega via caixa postal; mas porque devo admitir, embora muito me custe, que sibilo ainda ao lembrar dele. faço isso contínua e silenciosamente. é inútil. mas não é estranho. modelo o barro e me embalo na rede antes e depois das febres como um rubro gesto de atear fogo em abismo. aqui não brisa tanto e, ainda assim, permaneço equivocada e conjugando verbos manuelinos. é então que tomo, sem pestanejar, o trem noturno para Lisboa. nada mais de albergue espanhol ou balas de caramelo. o closet passou a língua nas coisas, o amor ficou nos tempos do cólera e eu na antiga cadência. no fogo que o vácuo fez.

domingo, 19 de julho de 2015

SÉRIE DESABAFOS INCONFESSÁVEIS 1




 "A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana"   
                                      Nelson Rodrigues 

quinta-feira, 16 de julho de 2015

CRONIQUETA DE JULHO





Croniqueta de Julho


De novo é julho. É julho e talvez não importe o que eu poderia falar: as chuvas que não cessam, o frio lá do norte, o frio daqui ou as perspectivas para o próximo ano. Tudo isso porque, de novo é julho. E de novo e eu não tenho outro assunto que não seja o amor. Esse tecido que cobre minha pele e que quero desmanchar. Trama por trama. As paredes que fazem a casa onde estou e que desejo ver ruir para estar só. Tudo quer voltar. Até os passos que não dei aos 2 anos. Até as mãos nas cordas do violão um dia. As cordas me trouxeram até aqui e eu estou dentro delas. Estou dentro das cordas do violão. Nas linhas do tecido. Elas levam ao infinito e eu estou dentro delas. O caminho para o infinito é cheio de bordados; desenhos no tecido que eu tenho que desfiar para seguir. Estou costurada nas paralelas. Dentro do buraco da agulha. E o amor que sinto desejo que corte. Que seja faca, tesoura. Que corte o tecido bem no meio das linhas e me deixe pendurada nas bordas. O tecido todo esparramando no chão. Eu desfiada na ponta da agulha. Eu ressoando no timbre das cordas. Eu reluzindo dentro dos olhos. Bordada em osso. Bordada em carne. Atrás, uma canção de tardes e noites.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

TURBULÊNCIA VIRAL

TURBULÊNCIA VIRAL




de viés, sob o baixo dos olhos, o homem faz silêncio. se perguntasse, diria que, ainda que inexata, sinto agora estar mais demonstrável. por exemplo: aceito a ideia da mente como máquina de fazer relevâncias; sigo aberta e precipitada. exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono: ossos e músculos me carregam sob alcunhas diversas. estou quase em paz. se ele, debaixo dos olhos, perguntasse, diria ainda que com mais ou menos ferrugem nos nervos, ainda sou volúpia e aconchego; fertilidade e seca. diria bem calma e pausadamente, que em cada palmo de mim o sol brilha e se apaga; que acato flores de cerejeira e revoadas de pássaros. aceito e acato o que chega e o que vai. procuro nas coisas vagas, cadência; e se for preciso, eu brigo. ele, de olhos baixos, talvez anotasse coisa qualquer no papel. talvez escutasse.

sábado, 4 de julho de 2015

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR




PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR 


se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão do mergulho na cheia da maré, da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. se a vida é mesmo bobagem e irrelevância, liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir. 

sexta-feira, 12 de junho de 2015

CÊ NÃO IMAGINA A AFLIÇÃO QUE EU SINTO








No vão do que se disse, nas frestas dos silêncios, em meio ao que é inexato, sobram perspectivas... O que tem no vão? O que? Onde é que a batida do tambor ressoa mais? É dentro dele ou da pessoa? Tem pedra que a gente joga e mostra a mão. Tem palavra que só cabe em boca maiúscula.
Por isso adoro pessoas possuídas. Por isso alguém escreveu e depois cantou que quando um homem tem uma mangueira no quintal ele não é goiaba! Quer saber? Mãos, tambor, boca e voz são instrumentos de sentido e razão. O amor? O amor é muito importante, porra!

segunda-feira, 25 de maio de 2015

SOBRE COISAS QUE ME OUTONAM






SOBRE COISAS QUE ME OUTONAM 

talvez porque pensamento e corpo um. talvez pelo descuido ou pela surpresa que se embrenha no escuro e de repente me atravessa. talvez pela falta, ausência imediata de qualquer certeza. talvez por isso  as profundidades. o mergulho e a transgressão exata que me permite bailar na força do que me venta. como em uma ciranda. um jogral. um poema, onde, feito serpente, me converto em meu contrário e volto. olho, faço  vigília e descuido para ter acesso ao obscuro. ao que se dobra por dentro. toque de voz e ritmo. tensão de ajuste. de alastramento do que se vê e sente.

terça-feira, 14 de abril de 2015

GAVETA



ilustração de Estevão Teuber para o livro BRICOLAGES para GELADEIRA, publicado em 2006.

GAVETA

vasculho a gaveta do apartamento da rua boa vista
o fio retorcido envolve a lâmpada
quem sabe aquele que iluminou um dia escuro na praia
depois que fizemos amor à luz de velas
um resto de fio para varal - aquele que te pedi
lembro das roupas que ainda esperam por ele
pregos, parafusos, tomadas, restos das reformas do pequeno 
apartamento da rua Padre Anchieta, da casa
do Parque São Lucas
se confundem com o pó de madeira
chaves, cadeados
o chaveiro que ganhei quando fiz dezoito anos
as moedas da escultura que ainda esculpo mentalmente - um resto
de veda rosca
não pode conter esse fluxo -
duas luvas esquerdas, restos de fita isolante colados em
pedaços de papel
sacos plásticos, extensões
tento soltar, desfazer nós
mal posso distinguir os restos de nossa vida amalgamada.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

SOBRE CORVOS, VOOS E PARTIDAS




Imagem: Stock Royalty Free: Assento dos Corvos



sobre corvos, voos e partidas

o corvo sabe da areia
do vapor e 
do útero

 vou por aqui. (ele diz)

 cativa 
em perpétua cisão,
 sigo o pássaro; 

por isso a conversão
gargantilha 
caos e partilha.

no fim, tudo é indolência e circunscrição.

domingo, 22 de março de 2015

PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS

projeto estético para desvirginar vazio

Foto: Clotilde Zingali    dez/2014


preciso de uma palavra para projetar. uma palavra para construir e representar ideias. uma palavra tijolo. preciso ainda  de uma palavra que sustente. uma palavra base. é mais do que organizar ou dispor as coisas com lógica e depois banhá-las em estética. preciso de palavra para desvirginar o vazio. palavra para fazer chão.

segunda-feira, 16 de março de 2015

TURBULÊNCIA

TURBULÊNCIA
FOTO: Clotilde Zingali    outubro/2014

de viés, vejo debruçado no tórax do homem o aparelho metálico. se me perguntasse, eu diria que, ainda que inexata, sinto agora estar um pouco mais demonstrável. aceito a ideia da mente como máquina de fazer relevâncias. no mais, sigo aberta e precipitada, exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono. diria que ossos e músculos me carregam sob alcunhas diversas e que estou quase em paz. e se ele, o homem com o aparelho metálico debruçado no tórax perguntasse, eu diria que com mais ou menos ferrugem nos nervos, ainda sou volúpia e aconchego. fertilidade e seca. diria bem calma e pausadamente, que em cada palmo de mim o sol brilha e se apaga; que acato flores de cerejeira e revoadas de pássaros. aceito e acato o que chega e o que vai. procuro nas coisas vagas, cadência. mas se for preciso, eu brigo. ele, o homem, de olhos baixos talvez anotasse coisa qualquer no papel. talvez perdesse o sentido e caísse. o aparelho metálico debruçado em seu ombro também.

quinta-feira, 12 de março de 2015

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR

arte gráfica: Estevão Teuber


PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR 


se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão do mergulho na cheia da maré, da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. se a vida é mesmo bobagem e irrelevância, liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir. 

se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão do mergulho na cheia da maré, da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. se a vida é mesmo bobagem e irrelevância, liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir. 

sexta-feira, 6 de março de 2015

SORTE




uma greta, uma fenda. um espaço em branco. não tem jeito: sou uma sorte de fragmentos. sequência de enigmas e ausência de paz. o propósito? escrever para evitar a renúncia.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

PROTOCOLO SEM INDIGNAÇÃO PARA QUARTA-FEIRA DE CINZAS



protocolo sem indignação para quarta-feira de cinzas

foto: Clotilde Zingali - bar do Motta 2015


por excesso ou não de opacidade, quando se ultrapassa a ideia dos olhos e do olhar, o que sobra é oscilação e sobrevivência. sobra permear pelo ocaso. pelo acaso de estar no momento. sol que cai. eu dentro. por isso talvez garimpo e cavo a terra em busca do que freme e não brilha. de impulso e de ar. de sal e doce. porque preciso ter fome. isso nada tem a ver com a altura do morro ou as curvas do trajeto. nada que se possa calcular. se pondero e peso algo com minhas próprias mãos é porque talvez eu seja desenhada em ousadia e nitidez. todo contorno derivado do fluxo discreto da letra, pela forma integral da palavra e pelo que lhe dá impulso. no que sobra, sou caminho, pedregulho que barulha sob meus sapatos e o barulhinho das ondas que chegam no quintal de casa. sol que cai. eu dentro. tudo é viagem e pernoites. dia seguinte, café.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

5 MOVIMENTOS EM SI MAIOR

foto Clotilde Zingali 2015 em praia do Francês/SC

5 MOVIMENTOS EM SI MAIOR 
(diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... )

1. o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito. é também a descrição da catarata. definir é para quando se pode e do jeito que é possível. o sangue é rio que irriga a carne. são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial. tão somente unidade de informação e multiplicação. objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. eu poção de acasos, paisagem polar; fenômeno imprevisto e desintegração. Sim, ainda tenho flores no olhar. jardim e orvalho. no mais, sorrio o doce-amargo de um hiato.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

AH!





tudo que pode haver e que vai caindo 
debaixo do silêncio ou com música para dançar
a gente vai catando;
vai catando e separando,
por exemplo: separa a vontade da gente 
da vontade das coisas e do que havia para ser dito.
as coisas vão caindo 
e a gente deixa ou não que vá saindo e...
mesmo assim tremendo 
mesmo assim se espantando 
a gente vai separando;
separa o que diz 
do que escreve 
e o que se diz e escreve, a gente separa das pausas (sempre elas);
nas pausas a gente vê o que resta, 
vê o que sobra e pode ex (im) plodir …
entre que se diz e o que não
entre o que cai e a gente cata
entre o que se fala e o que se cala
sobra corpo, palavra e silêncio, 
entre o que se diz e que silencia, 
sobra sexo e poesia. 

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

ROSA DE JERICÓ

Desenho Tulipa Ruiz

ROSA DE JERICÓ

pensamentos tateiam cutucam e insistem; gravitam entre dois tempos e uma só promessa. a viagem é escrita e devaneio. é provar ser deliciosamente experimental e incompleto, enquanto resta no chão uma ideia antiga de maturidade. misturado imiscuido disfarçado declarado ou não, gabaritado surtado escondido escancarado. o que sobra é saara. pedras e rochas esculpidas pelo vento mais o reflexo do sol que cintila criando miragens: acácias cheias de espinhos são camelos vacilantes vindo em sua direção. no deserto, a única doença endêmica é a loucura. o que sobra é composição e poesia. pura reinvenção. 

Postagem em destaque

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

http://metropolitanafm.uol.com.br/novidades/entretenimento/imagens-incriveis-mostram-a-realidade-das-bailarinas-que-voce-nunca-viu...