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Mostrando postagens de 2015

TERRA NATAL

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Pergunta-se o que é Terra Natal. Escuta dizerem
que tal qual o amor, é coisa única. Um só amor. Uma só terra natal. Mariana não pensa assim. Sente-se capaz de abrigar em si muito amor. Amor simultâneo por coisas, cidades e pessoas. Por isso ama Edgar e Rafael. O vestido com estampa de oncinha e os chinelos. Por isso navega nas ruas de tantas cidades e diz: eu nasci aqui. À muitos lugares ela sente pertencer. Lembra-se das aulas de matemática e dos símbolos de  pertence e não pertence... Fundamental é mesmo o amor. E isso não muda. Do que muda, ela escuta o que se avizinha e faz ninho no seu quintal. Ao cair da tarde, vislumbra possibilidades de recriar-se e sair da mesmice. Estamos todos destinados à mesmice! , diz apocalíptica. Dentre as mudanças, ela prefere aquelas que não tecem motivos para acontecer. Aquelas que se interpõem feito tiro – entre o disparo e o alvo. E simplesmente não tem para onde correr. Não há tempo, talvez, para temer.  Mariana gosta de experimentar desassossegos,…

SINAL FECHADO

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SINAL FECHADO
Dezembro, 24. Mais uma vez é natal. Repetição e possibilidade de enxergar diferente a mesma coisa, a mesma situação. Para talvez poder se surpreender. Pelas nossas atitudes ou pelas dos outros. Simples assim. Salve Lenine! Todos os dias tem isso. O natal é um data que traz isso; e junto, traz aquilo tudo que a gente empresta dos outros e também dos momentos, para agregar às nossas fantasias e dar sentido às nossas vidas. Se podemos emprestar a loucura, o corre-corre, os presentes, os panetones (e a vida que às vezes acaba em panetones caríssimos!), de outro lado podemos emprestar o desejo genuíno de olhar para o nosso desejo. O desejo de representar no mundo da fantasia o NOSSO desejo mais de dentro. Silenciar um pouco diante da correria para nos escutar e, quem sabe, escutar o outro. Tentar subtrair um pouco as armaduras tantas. Como na música “Sinal Fechado” de Paulinho da Viola, que diz que no nosso corre-corre estamos “sempre a cem”. Se deixar surpreender com algo. …

BAÍA BABITONGA

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eu, baía

foto/vídeo: Clotilde Zingali

eu, baía
No canto da Babitonga, eu mar; eu pedaço de água e terra; pedaço que avista; pedaço-ponte, pedaço-ponto no dela horizonte; Eu ilha.
Nas adjacências desse lugar, aromas de verde e de atalho. Sou eu que transverso o caminho e poemo a possibilidade. Eu barco. Eu vento e velas.



"AO MESTRE, COM CARINHO"

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Crônica publicada no Jornal A NOTÍCIA de Joinville em 15 de outubro de 2009.

Com um abraço muito especial para os professores que tive e tenho. Meu mundo ganha coloridos especiais com o que cada um trouxe e traz de si dia após dia. Obrigada!
Ouvir alguém falando com propriedade a respeito de um assunto sempre despertou em mim muito interesse. Sou capaz de lembrar tons de voz, expressões e exemplos. E isso me engrandece. É essa sensação que tenho enquanto aluna. E todo dia saio das aulas modificada. Entro uma e saio outra. Talvez por ter tido uma mãe professora. Inclusive minha professora durante um ano. Talvez por tê-la escutado tantas vezes falar sobre a dinâmica escolar, a dinâmica do processo ensino-aprendizagem. Por ter acompanhado o seu percurso nessa trajetória. Escutado e assistido a paixão dela pelo trabalho implantado em salas de leitura. Terminei por me tornar uma amante desse ser que se dedica ao ensino. Que dá de si pelo outro. Que cede do seu desejo para que o outro se si…

SOLO PARA GUITARRA

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SOLO PARA GUITARRA

SOBRE A ADJACÊNCIA DAS COISAS

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Queridos daqui, dali, de lá e acolá :) preparei essa prosa hoje, terça-feira, dia de postagem aqui no blog... então... espero que gostem, ok? fiquei feliz de prosear falando em perfume, falando em cheiro... tem perfume novo no "CHEIRO DAS PALAVRAS" :) nos vemos na atualização de quinta-feira! um beijo pra todos.


sobre a adjacência das coisas  (prosa para Ouver 06/10/205)
primeiro escolhi uma palavra entre todas que encontrei, apenas uma então fui até a vitrola antiga e coloquei nela um disco foi bonito ver a palavra deslizar pelo vinil; nesse dia foi quando eu mais fui música.
uma outra vez, imersa em paisagens, o amor que eu sentia me mudou para o estado de folha;  foi quando eu mais fui verde.
depois, imersa em poema, (des)inventando, escrevi a palavra jasmim; palavra grama com orvalho da manhã; palavra pasto depois que a manada retorna ao galpão. nessa vez foi quando eu mais fui perfume.
toda vida desejei escrever palavras com cheiro. 
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DE CERTA OBLIQUIDADE DE UM OLHAR
Yisa Akinbolaji fonte: www. POSSE.pt http://apfp.blogspot.com.br

meus olhos vendados agora podem espiar rumores pela trama do tecido. de esguelha (1), o amor fez um breve ensaio nas páginas de uma revista científica. sobrei entre as circunstâncias do esquecimento e da covardia no exato parágrafo 15. maiores explicações no pé da página.
(1) esguelha: Oblíquo, de viés; Andar de esguelha = andar desconfiador, olhar de esguelha= olhar de lado, olhar enviesado; Olhos tortos. Voce só nos olhava de esguelha; Sinônimos: soslaio  obiiquidade  esguelha  °esguelha  detravés  través  viés  flanco  envies  enviés  diagonal ; s.f. Característica ou estado do que é oblíquo; soslaio ou viés; Tecido cortado de viés; loc. adv. De esguelha. De uma maneira oblíqua; obliquamente; Andar de Esguelha (com alguém). Demonstrar desconfiança; que não está em harmonia com alguém. (Etm. do grego: skólios.á.ón); esguelha, (guê) f. Través; obliquidade. Soslaio. (Do gr. skolios?); Sinónim…

GUERRA FRIA

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ilustração de Estevão Teuber para o poema :)


MAGDA

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MAGDA do livro 40 Possíveis Maneiras de se Descascar uma Mulher (2008)
 uma das ideias para a capa... trabalho do amado Estevão Teuber :)
eu e o cartaz de divulgação :)
o trabalho gráfico final e as gentis palavras de Amilcar Neves :)
Magda, uma das mulheres... para OuVer :)

CASCA DE PINHEIRO

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LEITURA DE POEMA: CASCA DE PINHEIRO do  livro OCO HÁLITO


EX-VOTO, ADÉLIA PRADO

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Adélia Prado - Ex-voto
Na tarde clara de um domingo quente, surpreendi-me Intestinos urgentes, ânsia de vômito, choro Desejo de raspar a cabeça e me por nua no centro da minha vida E uivar até me secarem os ossos Que queres que eu faça Deus?

Quando parei de chorar, o homem que me aguardava disse-me: Voce é muito sensível, por isso tem falta de ar! Chorei de novo porque era verdade e era também mentira, sendo só meio consolo


Respira fundo, insistiu ! Joga água fria no rosto, vamos dar uma volta, é psicológico


Que ex-voto levo à Aparecida se nao tenho doença e só lhe peço a cura? Minha amiga devota se tornou budista. Torço para que se desiluda e volte a rezar comigo as orações católicas.


Eu nunca ia ser budista! Por medo de não sofrer, por medo de ficar zen Existe santo alegre ou são os biógrafos que os põem assim felizes como bobos?


Minas tem coisas terríveis. A serra da piedade me transtorna. Em meio a tanta rocha de tão imediata beleza, edificações geridas pelo inferno, pelo descriador do mundo.


O meni…

FEIRA DO LIVRO DE SÃO FRANCISCO DO SUL 2015

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Feira do Livro agosto/2015 São Francisco do Sul-SC






ARQUITETANDO Minúcias

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culturaecurriculo.fde.sp.gov.br





sou arquiteta. tenho apaixonamento por palavras estruturais: por exemplo, palavra ferro, palavra concreto; ou ainda pela mecânica das palavras, como a palavra envergada, a palavra cisalhada ou a palavra fundida. amo especialmente palavras fio. com alma de aço. gosto de até de onde elas podem ir, como a palavra balanço:  atravessa vãos inteiros e compreende amplamente um vazio. de lá, desdobra em contemplação.

MÁRCIA

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MÁRCIA (do livro 40 Possíveis Maneiras de se Descascar uma Mulher, 2008)

PALAVRAS E VENTOS

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PALAVRAS E VENTOS

SOBRE QUINTANA, O AMOR E O ESPIAR-SE

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SOBRE QIUINTANA, O AMOR E O ESPIAR-SE 
TEXTO ORIGINALMENE PUBLICADO EM JUNHO DE 2009 NO JORNAL ANotícia









ADÁLIA E QUASAR

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ADÁLIA e QUASAR (texto originalmente publicado no Jornal ANotícia em 02 de julho de 2009); agora prosa para OuVer :)

ROMANCEAMENTOS

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ROMANCEAMENTOS


não é pelo relato dos juros, correção monetária ou pelo dinheiro que me chega via caixa postal; mas porque devo admitir, embora muito me custe, que sibilo ainda ao lembrar dele. faço isso contínua e silenciosamente. é inútil. mas não é estranho. modelo o barro e me embalo na rede antes e depois das febres como um rubro gesto de atear fogo em abismo. aqui não brisa tanto e, ainda assim, permaneço equivocada e conjugando verbos manuelinos. é então que tomo, sem pestanejar, o trem noturno para Lisboa. nada mais de albergue espanhol ou balas de caramelo. o closet passou a língua nas coisas, o amor ficou nos tempos do cólera e eu na antiga cadência. no fogo que o vácuo fez.

SÉRIE DESABAFOS INCONFESSÁVEIS 1

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"A mais sórdida pelada é de uma complexidade shakespeariana"                                          Nelson Rodrigues

CRONIQUETA DE JULHO

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Croniqueta de Julho

De novo é julho. É julho e talvez não importe o que eu poderia falar: as chuvas que não cessam, o frio lá do norte, o frio daqui ou as perspectivas para o próximo ano. Tudo isso porque, de novo é julho. E de novo e eu não tenho outro assunto que não seja o amor. Esse tecido que cobre minha pele e que quero desmanchar. Trama por trama. As paredes que fazem a casa onde estou e que desejo ver ruir para estar só. Tudo quer voltar. Até os passos que não dei aos 2 anos. Até as mãos nas cordas do violão um dia. As cordas me trouxeram até aqui e eu estou dentro delas. Estou dentro das cordas do violão. Nas linhas do tecido. Elas levam ao infinito e eu estou dentro delas. O caminho para o infinito é cheio de bordados; desenhos no tecido que eu tenho que desfiar para seguir. Estou costurada nas paralelas. Dentro do buraco da agulha. E o amor que sinto desejo que corte. Que seja faca, tesoura. Que corte o tecido bem no meio das linhas e me deixe pendurada nas bordas. O tecido …

TURBULÊNCIA VIRAL

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TURBULÊNCIA VIRAL




de viés, sob o baixo dos olhos, o homem faz silêncio. se perguntasse, diria que, ainda que inexata, sinto agora estar mais demonstrável. por exemplo: aceito a ideia da mente como máquina de fazer relevâncias; sigo aberta e precipitada. exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono: ossos e músculos me carregam sob alcunhas diversas. estou quase em paz. se ele, debaixo dos olhos, perguntasse, diria ainda que com mais ou menos ferrugem nos nervos, ainda sou volúpia e aconchego; fertilidade e seca. diria bem calma e pausadamente, que em cada palmo de mim o sol brilha e se apaga; que acato flores de cerejeira e revoadas de pássaros. aceito e acato o que chega e o que vai. procuro nas coisas vagas, cadência; e se for preciso, eu brigo. ele, de olhos baixos, talvez anotasse coisa qualquer no papel. talvez escutasse.

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR

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PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR 
se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão do mergulho na cheia da maré, da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. se a vida é mesmo bobagem e irrelevância, liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir.

CÊ NÃO IMAGINA A AFLIÇÃO QUE EU SINTO

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No vão do que se disse, nas frestas dos silêncios, em meio ao que é inexato, sobram perspectivas... O que tem no vão? O que? Onde é que a batida do tambor ressoa mais? É dentro dele ou da pessoa? Tem pedra que a gente joga e mostra a mão. Tem palavra que só cabe em boca maiúscula.
Por isso adoro pessoas possuídas. Por isso alguém escreveu e depois cantou que quando um homem tem uma mangueira no quintal ele não é goiaba! Quer saber? Mãos, tambor, boca e voz são instrumentos de sentido e razão. O amor? O amor é muito importante, porra!

SOBRE COISAS QUE ME OUTONAM

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SOBRE COISAS QUE ME OUTONAM 
talvez porque pensamento e corpo um. talvez pelo descuido ou pela surpresa que se embrenha no escuro e de repente me atravessa. talvez pela falta, ausência imediata de qualquer certeza. talvez por isso  as profundidades. o mergulho e a transgressão exata que me permite bailar na força do que me venta. como em uma ciranda. um jogral. um poema, onde, feito serpente, me converto em meu contrário e volto. olho, faço  vigília e descuido para ter acesso ao obscuro. ao que se dobra por dentro. toque de voz e ritmo. tensão de ajuste. de alastramento do que se vê e sente.

GAVETA

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ilustração de Estevão Teuber para o livro BRICOLAGES para GELADEIRA, publicado em 2006.
GAVETA
vasculho a gaveta do apartamento da rua boa vista o fio retorcido envolve a lâmpada quem sabe aquele que iluminou um dia escuro na praia depois que fizemos amor à luz de velas um resto de fio para varal - aquele que te pedi lembro das roupas que ainda esperam por ele pregos, parafusos, tomadas, restos das reformas do pequeno  apartamento da rua Padre Anchieta, da casa do Parque São Lucas se confundem com o pó de madeira chaves, cadeados o chaveiro que ganhei quando fiz dezoito anos as moedas da escultura que ainda esculpo mentalmente - um resto de veda rosca não pode conter esse fluxo - duas luvas esquerdas, restos de fita isolante colados em pedaços de papel sacos plásticos, extensões tento soltar, desfazer nós mal posso distinguir os restos de nossa vida amalgamada.

SOBRE CORVOS, VOOS E PARTIDAS

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Imagem: Stock Royalty Free: Assento dos Corvos

sobre corvos, voos e partidas
o corvo sabe da areia do vapor e  do útero
 vou por aqui. (ele diz)
 cativa  em perpétua cisão,  sigo o pássaro; 
por isso a conversão gargantilha  caos e partilha.
no fim, tudo é indolência e circunscrição.

PROJETO ESTÉTICO PARA DESVIRGINAR VAZIOS

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projeto estético para desvirginar vazio
Foto: Clotilde Zingali    dez/2014

preciso de uma palavra para projetar. uma palavra para construir e representar ideias. uma palavra tijolo. preciso ainda  de uma palavra que sustente. uma palavra base. é mais do que organizar ou dispor as coisas com lógica e depois banhá-las em estética. preciso de palavra para desvirginar o vazio. palavra para fazer chão.

TURBULÊNCIA

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TURBULÊNCIA FOTO: Clotilde Zingali    outubro/2014
de viés, vejo debruçado no tórax do homem o aparelho metálico. se me perguntasse, eu diria que, ainda que inexata, sinto agora estar um pouco mais demonstrável. aceito a ideia da mente como máquina de fazer relevâncias. no mais, sigo aberta e precipitada, exagero nas cores do que me anima e na amplitude do meu abandono. diria que ossos e músculos me carregam sob alcunhas diversas e que estou quase em paz. e se ele, o homem com o aparelho metálico debruçado no tórax perguntasse, eu diria que com mais ou menos ferrugem nos nervos, ainda sou volúpia e aconchego. fertilidade e seca. diria bem calma e pausadamente, que em cada palmo de mim o sol brilha e se apaga; que acato flores de cerejeira e revoadas de pássaros. aceito e acato o que chega e o que vai. procuro nas coisas vagas, cadência. mas se for preciso, eu brigo. ele, o homem, de olhos baixos talvez anotasse coisa qualquer no papel. talvez perdesse o sentido e caísse. o aparelho metá…

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR

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arte gráfica: Estevão Teuber

PROSA DESARTICULADA EM SI MAIOR 
se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão do mergulho na cheia da maré, da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. em meio ao que me voa e assombra deparo com um olhar.  a beleza e o vazio de um olhar. no mais, mesmo que eu estranhe, talvez tudo seja leite derramado sobre natureza morta. choque e ausência de cor. vento e vertigem. se a vida é mesmo bobagem e irrelevância, liberdade e impotência, eu sigo. acho que viver é inspirar e seguir. 

se de acaso em acaso respiro e transpiro, virada em palavra sigo dentro de um tempo que me soa agora mais determinado. em meio ao que me varre e assusta deparo com a ideia de esvair e secar. da profusão do mergulho na cheia da maré, da composição, da melodia e de juntar as coisas segundo um critério. em me…

SORTE

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uma greta, uma fenda. um espaço em branco. não tem jeito: sou uma sorte de fragmentos. sequência de enigmas e ausência de paz. o propósito? escrever para evitar a renúncia.

PROTOCOLO SEM INDIGNAÇÃO PARA QUARTA-FEIRA DE CINZAS

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protocolo sem indignação para quarta-feira de cinzas
foto: Clotilde Zingali - bar do Motta 2015

por excesso ou não de opacidade, quando se ultrapassa a ideia dos olhos e do olhar, o que sobra é oscilação e sobrevivência. sobra permear pelo ocaso. pelo acaso de estar no momento. sol que cai. eu dentro. por isso talvez garimpo e cavo a terra em busca do que freme e não brilha. de impulso e de ar. de sal e doce. porque preciso ter fome. isso nada tem a ver com a altura do morro ou as curvas do trajeto. nada que se possa calcular. se pondero e peso algo com minhas próprias mãos é porque talvez eu seja desenhada em ousadia e nitidez. todo contorno derivado do fluxo discreto da letra, pela forma integral da palavra e pelo que lhe dá impulso. no que sobra, sou caminho, pedregulho que barulha sob meus sapatos e o barulhinho das ondas que chegam no quintal de casa. sol que cai. eu dentro. tudo é viagem e pernoites. dia seguinte, café.

5 MOVIMENTOS EM SI MAIOR

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foto Clotilde Zingali 2015 em praia do Francês/SC
5 MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... )
1. o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito. é também a descrição da catarata. definir é para quando se pode e do jeito que é possível. o sangue é rio que irriga a carne. são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial. tão somente unidade de informação e multiplicação. objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. eu poção de acasos, paisagem polar; fenômeno imprevisto e desintegração. Sim, ainda tenho flores no olhar. jardim e orvalho. no mais, sorrio o doce-amargo de um hiato.

AH!

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tudo que pode haver e que vai caindo  debaixo do silêncio ou com música para dançar a gente vai catando; vai catando e separando, por exemplo: separa a vontade da gente  da vontade das coisas e do que havia para ser dito. as coisas vão caindo  e a gente deixa ou não que vá saindo e... mesmo assim tremendo  mesmo assim se espantando  a gente vai separando; separa o que diz  do que escreve  e o que se diz e escreve, a gente separa das pausas (sempre elas); nas pausas a gente vê o que resta,  vê o que sobra e pode ex (im) plodir … entre que se diz e o que não entre o que cai e a gente cata entre o que se fala e o que se cala sobra corpo, palavra e silêncio,  entre o que se diz e que silencia,  sobra sexo e poesia. 

ROSA DE JERICÓ

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Desenho Tulipa Ruiz
ROSA DE JERICÓ
pensamentos tateiam cutucam e insistem; gravitam entre dois tempos e uma só promessa. a viagem é escrita e devaneio. é provar ser deliciosamente experimental e incompleto, enquanto resta no chão uma ideia antiga de maturidade. misturado imiscuido disfarçado declarado ou não, gabaritado surtado escondido escancarado. o que sobra é saara. pedras e rochas esculpidas pelo vento mais o reflexo do sol que cintila criando miragens: acácias cheias de espinhos são camelos vacilantes vindo em sua direção. no deserto, a única doença endêmica é a loucura. o que sobra é composição e poesia. pura reinvenção.