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"AO MESTRE, COM CARINHO"

Crônica publicada no Jornal A NOTÍCIA de Joinville em 15 de outubro de 2009.


Com um abraço muito especial para os professores que tive e tenho. Meu mundo ganha coloridos especiais com o que cada um trouxe e traz de si dia após dia. Obrigada!

Ouvir alguém falando com propriedade a respeito de um assunto sempre despertou em mim muito interesse. Sou capaz de lembrar tons de voz, expressões e exemplos. E isso me engrandece. É essa sensação que tenho enquanto aluna. E todo dia saio das aulas modificada. Entro uma e saio outra. Talvez por ter tido uma mãe professora. Inclusive minha professora durante um ano. Talvez por tê-la escutado tantas vezes falar sobre a dinâmica escolar, a dinâmica do processo ensino-aprendizagem. Por ter acompanhado o seu percurso nessa trajetória. Escutado e assistido a paixão dela pelo trabalho implantado em salas de leitura. Terminei por me tornar uma amante desse ser que se dedica ao ensino. Que dá de si pelo outro. Que cede do seu desejo para que o outro se signifique. Que contribui para que o aluno possa expandir suas fronteiras: transcender. Esse sujeito é o professor. Com mais de 30 anos quase ininterruptos na condição de estudante, admiro cada vez mais esse profissional. Não quero agora falar das falhas, dos salários, do apoio do governo, da política. Não. Quero falar daqueles que, a despeito de tanta força contrária, conseguem modificar um quadro, conseguem ser multiplicadores e mais: conseguem produzir novos multiplicadores. Alguns podem dizer que tenho uma visão romântica. Que os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e a caravana segue. Mas é que não é disso que quero falar, sabe? Quero falar do que me surpreende nesse contato. Como quando tive a oportunidade de ter aulas de literatura com uma professora, que por gostar tanto de ler e portanto, ler muito, era incapaz de falar sobre qualquer assunto em sala de aula sem citar uma estória para ilustrar o assunto. E com isso nossos mundos engrandeciam assustadoramente. E nosso interesse em ler aquelas estórias ganhava uma dimensão que não era da ordem da obrigatoriedade, mas de uma outra ordem. Ou outros professores tantos, que por terem um contato com a arte, a literatura, a política, são capazes de pontuar seus discursos em sala de aula com exemplos e conhecimentos diversos. Vão costurando o conteúdo que desejam passar e o que está no programa com histórias de vida, tornando os alunos capazes de fazer conexões, de ampliar suas redes. Porque é assim que se arrebata um aluno. Ou daquele professor que por seu fazer tão exigente, quase militar, vai ensinando a importância da disciplina, da organização e faz emergir de cada um algo que era desconhecido. Amplia nossas possibilidades. Através da firmeza da sua sistemática ensina essa importância para cada um. Faz a diferença. E assim essas figuras vão ficando na história de nossas vidas, nas nossas lembranças e vão se tornando “mestres” de seu ofício. Não é que não saibam ou compreendam as dificuldades. Não é que tenham se alienado dentro de uma estrutura engessada. Ao contrário. Conseguem ir provocando rachaduras numa condição naturalizada de que certas coisas são assim mesmo e vão quebrando essa ideia. Fazendo emergir outros caminhos. Porque é isso que conta afinal. Entender que estão formando seres humanos. E é esse entendimento que faz a diferença. É isso que provoca a verdadeira revolução. Você pode me dizer que é um processo lento, que é trabalho de formiguinha. É sim. Mas as mudanças que ocorrem dentro desse espectro são estruturais e profundas. E por serem assim, se multiplicam numa base alicerçada, que significa que futuras atitudes podem ser calçadas sobre uma nova consciência. Uma consciência de que estamos aqui para fazer diferença. Professores formam “seres humanos” que irão lidar com “seres humanos” em diversas instâncias. Acho imprescindível pensar essa condição da formação do ser humano. E a dimensão disso. Naturalizar uma condição de replicadores sem formação humana consistente é algo que se vai deixando passar e quando você vê, estamos ali à mercê dessa falta de consciência replicada. É isso que desejamos para nós e nossos filhos?

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