sexta-feira, 23 de junho de 2017

SOBRE FERNÃO


http://www.ijba.com.br/single-post/2015/11/10/Fernão-Capelo-Gaivota
Fonte: IJBA - INSTITUTO JUNGUIANO DA BAHIA

Movimentos do Arqueiro Maior, recentemente, me colocaram na experiência de um voo do qual devo desfrutar pelos dias daqui em diante. Em tempos idos eu já havia lido "Fernão Capelo Gaivota". Do escritor americano Richard Bach, o ano da obra é 1970 e eu devo ter lido lá pela década de 80. Mas olhando daqui confirmo a ideia de haver um tempo certo para leituras fazerem sentido. Se ler Fernão naquela época fez algum sentido lá, eu não me lembro e daí quase concluo que não; ou se sim, o sentido estava soterrado debaixo de meu eu cebola. Enfim. Agora foi diferente. Agora fez muito sentido. E todo dia esse sentido se refaz e amplia. Feito o AmOr.

Quase todos os dias, principalmente naqueles em que caminho na praia, Fernão se recria diante dos meus olhos que o seguem ávidos. Fernão se desdobra em criatura que ama a liberdade e o voo. Um voar desatrelado da ideia de apenas servir à necessidade de buscar alimento. Um voo de desejo que o coloca em processo de solidão nesse mergulho. Uma busca que o distancia do bando e faz emergir sua singularidade na trilha de um caminho solitário.

Um caminho onde vai explorar suas habilidades e descobrir seu tamanho e até onde consegue ir. Vai descobrir seus limites no exercício do real. Fernão vai perceber que os limites podem ser uma ilusão uma vez que muitos nos são impostos. Vai descobrir seu eu através de explorar essa ideia, onde vai romper com os limites que lhe foram impostos pela sociedade a qual pertencia, e que no caso, entre outras, atrelava o voo ao alimento. Sua busca experimenta a ideia de não apenas manter-se vivo e sim encontrar um sentido para a sua existência. 

Nessa saga ele se torna uma gaivota desgarrada do bando para fazer algo a seu modo e com a sua singularidade. Vai viver uma espécie de MatriX no mundo das GaivOtaS, e nesse mergulho Fernão entende que todo o corpo vive no pensamento e que desse lugar é possível quebrar as amarras sociais e partir para uma existência mais liberta mas onde suas habilidades precisam ser aperfeiçoadas. 

Em seu caminho encontra mestres que lhe ensinam como atingir a excelência na arte de voar com o voo do pensamento. “Para voar à velocidade do pensamento, para onde quer que seja, você deve começar por saber que já chegou...”.  Ou como me disse um dia Agadman, um mestre do entalhe em madeira, um artista,  lá em Prado, na Bahia: "pra ir daqui até qualquer lugar é só girar a maçaneta". E Fernão, de conquista em conquista,  torna-se ele um mestre e segue acompanhado por seus discípulos até o dia de retornar à comunidade que o baniu e mostrar o seu ideário. Nesse processo de retorno, Fernão entende que para ser livre e poder dar significado a tudo que viveu é preciso compreender o antigo bando;  perceber que perdoar é conseguir enxergar a condição de consciência que limita o  outro. Entende que sua missão é usar a sua virtude em favor dos outros. Isso é que dará sentido ao seu existir. Fernão entende, que desconectada do amor,  até a liberdade pode aprisionar.

Claro Que Caminho Pela Praia e admiro as alçadas solitárias e os rasantes desses pássaros. Eles vão e voltam. E voo eu própria pensando em Fernão. Mas confesso, amo perceber essa liberdade atrelada aos voos conjuntos; ora de dois, ora de mais. Amo mais pensar cada uma das gaivotas como Fernão e ainda assim e talvez por isso, vê-los também em bando. Sempre em bando.

terça-feira, 20 de junho de 2017

SEDUÇÃO, de Adélia Prado



http://www.escritas.org/pt/estante/adelia-prado

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

PoEma para FERNÃO

Fotografia: Clô Zingali


não é pelo céu cheio de estrelas
sequer pela lua
de transbordamentos e enchentes. 
Não é isso.
é antes por um roçar de antebraços
perspectivas de verão e
cócegas na eternidade.
depois silêncio e enigma
claustros e velas,
um caleidoscópio de se perder e achar.
mas não, não é isso.
é talvez o curso de um rio misturado ao mar
que escorrega da concha das mãos
e faz pororoca.
é o que sobra 
de música e potássio.
mar e ocaso,
desenho no ar ou um desabafo sob a asa. mas não é.
nem mesmo é quando aterrizo em lágrimas no meio da tarde. 
não é isso. nem é por isso. 
aprendi a obliterar a densidade
escutar dentro das veias
sob a árvore da cidade antiga;
sem armas nem escudo
pressuponho o amor;
mas ainda não é isso. e nem é por isso.
nem mesmo a abóbada, 
a sombra da árvore
a chuva ou sequer o mofo depois da chuva;
é talvez a metade que sou depois,
que sou agora:
metade fonte 
metade varanda
metade horizonte 
metade estrutura
metade mecânica
metade asa
metade flor de cerejeira
metade memória cortada pela metade;
mas ainda não é isso. e nem importa tudo isso.
é talvez porque desoxido 
e emudeço sob o teu beijo.

domingo, 11 de junho de 2017

E JÁ QUE O O AMOR ESTÁ NO AR... RESPIREMOS ;) - Sobre Quintana o Amor e o Espiar-se




... e já que o amor está no ar, lembrei de uma crônica que escrevi pro AN em 2010 e que claro, falava de amor. Um amigo havia me emprestado um livrinho de bolso do Mario Quintana e então.....

 Então eu sabia de Quintana e tinha na cabeça: “Sonhar é acordar para dentro”. E também: "Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei. O amor é quando a gente mora um no outro." Essa última frase eu sabia na ponta da língua. 
Considerado o poeta das coisas simples e com um estilo marcado pela ironia, profundidade e perfeição técnica, foi antes um pensador. Ele dizia: “ Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão”. Dizia também: “Poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação”.
 Acho que é isso que acontece quando lemos poemas: nos colocamos diante de nós mesmos e entre esse olhar – nos enxergamos como se nos espiássemos a nós mesmos através de um buraco de fechadura.
Nesse percurso achei uma carta de Quintana a um jovem poeta em que ele dizia: “Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá”. E o mais encantador – ele dizia que sonhava escrever um poema “que fosse como um fruto sumarento, cujo sumo escorresse pelos cantos da boca antes que a pessoa compreendesse seu sentido”. Feito certos tipos de amor. Então, querido leitor, espie-se e seja você mesmo do outro lado da porta. Arrisque um novo olhar. Um novo livro. E páginas e olhares irão se desdobrar diante dos seus olhos. Pra finalizar deixo mais um pouco do Quintana aqui, através do poema “auto-retrato”, (agora AUTORRETRATO). Um espelho que toca nossa inconstância e nos pede busca e  reconstrução eternas. SAGATIBA, pois ;)


AUTORRETRATO

No retrato que me faço
– traço a traço –
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco

sexta-feira, 9 de junho de 2017

ADÁLIA E QUASAR



Crônica Publicada no caderno ANEXO do Jornal A Notícia em 02 de julho de 2009.
Quando os dois se esbarraram por acaso no meio da calçada, ele se surpreendeu quando ela disparou: “Posso cheirar você?”. Diante do silêncio ela se aproximou, tocou uma de suas mãos e se elevou. Então cheirou atrás da orelha, o pescoço e o rosto. Respirou o agridoce. Um cheiro que entrou pelo alto da cavidade nasal e disparou sinais. Então ele a afastou. (uma vida toda dentro). Estavam no meio da calçada, do dióxido de carbono e da falta de oxigênio. Ela quis ficar, mas ele segurou seu braço, e seus olhos bem dentro dos dele e a impediu. Refletida no gesto ela soltou sem despregar os olhos dos dele e foi embora sem olhar para trás. Ele, dentro do seu próprio cheiro e do que dela havia se misturado, ficou ali preso no momento. No rastro dela, nada, nem nenhum caminho que ele pudesse seguir. Então ficou. Ainda hoje, ao passar naquela rua se pode ver o homem. Estátua de pedra e cheiro. Dizem que ela mora ali mesmo por perto, mas não deseja ser reconhecida. Durante a noite, enquanto a rua ainda dorme, ela aparece para cheirá-lo. Chega perto, ronda a figura de pedra e delonga-se. Então toca uma de suas mãos, se eleva e cheira. Faz isso tão profundamente que os contornos dele começam a se definir, e os batimentos cardíacos lentamente a voltar. Então eles se olham e se entregam ao momento. Um mora no outro. Depois, mais uma vez ele segura seu braço e seus olhos dentro dos dele. Uma firmeza que ela não sabe de onde vem. Então mais uma vez ela se solta e vai embora (uma vida toda dentro). E ele torna pedra uma vez mais. É assim quase todas as noites. Dizem. O povo diz muita coisa. Mas ao passar por ali senti eu mesma um perfume no ar. Sim, era agridoce.

domingo, 4 de junho de 2017

GRAMÁTICA E DESENLEIO




http://br.stockfresh.com/image/3975048/man-and-woman-love-couple-in-pop-art-comic-style


experimentei uma vírgula depois de, em frente ao espelho, pronunciar alto: eu te amo. foi a vírgula ou o quê a perguntar: como assim? então experimentei outros parágrafos. neguei e afirmei impressões. em seguida, o ponto final, e o ponto e vírgula, que é uma coisa que garante uma ação futura depois de uma parada qualquer. pensei em fendas e sinapses. em pontes de eletricidade e informação. em ser arquiteta e mudar o desenho das pontes. fazer uma ponte entre um neurônio e outro. entre eu e você. pensei em títulos e em CoiSas Para DiZer Em TemPos De CólEra E A DesPeito Do AmOr, por exemplo: "entuba. come com farinha. dá tuas voltas. buliu com a onça….engole o choro. cê não é quadrado. cada um no seu quadrado. trouxe o motor ou temos que voltar remando? ué… mas… então…. eu? vixe, menino; quebrou o catulé… ué, bate panela. entuba! se ao menos tivesse...”. não é que tanto desembaraço desatou em visagem? 

voltei ao espelho
e num frêmito, era 
Outra já. você? ué menino… trouxe o motor?

quinta-feira, 1 de junho de 2017

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA



sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e sem jeito. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria talvez mais que um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono, depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

OPALINA




todo o horizonte:
escama e escuma.

todas as palavras:

rotas,
terras lavradas;
e o barulho dentro da concha. 


tudo cabe no olhar. até o universo.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

PALAVREADO METAFÍSICO-METAFÓRICO E SEM NENHUM SENTIDO PARA ENCERRAR MAIO









vou primeiro: me atiro e mergulho em meio ao susto, a cólera e os passos (mal) calculados. o corpo quase inerte na água que borbulha e se movimenta. confronto o mar. há uma hipótese até que se esgote o saldo de sinais e todo o cheiro se esvaia. deixo o vento ventar o que quer que seja. crepitar as águas. depois elas vão se incumbir de devolver as coisas aos seus lugares. até a temperatura do corpo. enquanto isso, descaradamente, eu finjo.

sábado, 27 de maio de 2017

SOU FELIZ SÓ DE PREGUIÇA

Mia Couto – Mar Me Quer. ilustração João Nasi Pereira









Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. – Levanta, ó dono das preguiças. É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo: -Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. -Conversa de malandro… – Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver… Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza. – Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher… – Mulher, eu? – Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira. – Que quer vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir. Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:
– Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida. – A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não Deus…
Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações. – Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro? Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do actual presente. E basta. – Só eu quero é ser um homem bom, Dona. – Você é mas é um aldrabom. 
A gorda mulata não quer amolecer conversa. E tem razão, sendo minha vizinha desde há tanto. Ela chegou ao bairro depois da morte de meus pais, quando herdei a velha casa da família. Nessa altura, eu ainda pescava em longas viagens, semanas de ausência nos bancos de Sofala. Nem notava a existência de Luarmina. Também ela, logo que desembarcou, se internou na Missão, em estágio para freira. Ficou enclausurada nessas penumbras onde se murmura conversa com Deus. Só uns anos mais tarde ela saiu dessa reclusão. E se instalou na casa que os padres lhe destinaram, bem junto à minha morada. Luarmina costureirava, era seu sustento. Nos primeiros tempos, ela continuava sem se dar às vistas. Só as mulheres que entravam em seus domínios é que lhe davam conta. No resto, me chegavam apenas os perfumes de sua sombra. Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de 1á da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos.
Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua actual moradia, nos arredores de minha existência.
Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se. – Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol? – Que ideia, Dona vizinha? Quem lhe disse que eu tinha essa intenção? Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela. – Dona Luarmina, o que é isso? Parece ficou mesmo freira. Um dia, quando o amor lhe chegar, você nem o vai reconhecer… – Deixe-me, Zeca. Eu sou velha, só preciso é um ombro.
Confirmando esse atestado de inutensílio, ela esfrega os joelhos como se fossem eles os culpados do seu cansaço. As pernas dela da maneira como incham, dificultam as vias do sangue. Lhe icebergam os pés, a gente toca e são blocos de gelo. E ela sempre se queixa. Um dia aproveitei para me oferecer: – Quer que lhe aqueça os pés? Arrepiando expectativa, ela até aceitou. Até eu fiquei assim, meio desfisgado, o coração atropelando o peito. – Me aquece, Zeca? – Sim, aqueço mas… pela parte de dentro.
– Mia Couto, ‘excerto’ do livro “Mar Me Quer”. [ilustrações João Nasi Pereira]. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

SOBRE SER ESTRANGEIRO ;)



Fotografia: Clô Zingali
Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que se estranha, um transbordar de excesso e falta. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses da descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Da “consciência prática” de estar nesse lugar; e diz que por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário.  Mesmo com tudo que escapa: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. 

Mesmo sem sair daqui, penso que tudo que falta de algum modo também arrebata. Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está atrás. E por isso "hou tian" (literalmente "atrás dia") significa o dia depois de amanhã.” O passado está à sua frente porque você consegue vê-lo. Sobre o futuro: "O futuro está atrás de você. Não se pode ver o que o futuro reserva". Gostei de olhar para as coisas assim. É bom distanciar-se da maneira habitual de pensar as coisas. De fazer as coisas. Mudar o ângulo. É rico esse movimento, pode-se distanciar um passinho, 3 ou 4 metros, 89 metros. 350 quilômetros. De cada um desses pontos a coisa olhada já não é mais a mesma. E o melhor: nem você é. 

Para escrever esse texto, eu fiz uma viagem até Xangai. Experimentei o ameno da temperatura, a fumaça no ar que deixa o fog londrino desconcertado! Experimentei o mormaço. Os exageros e a estranheza. Me vi a buscar referências ocidentais onde eu pudesse me escorar. Nada. Via espetos de carne e pensava em cachorros. No café da manhã, o gafanhoto ocupava o lugar do pãozinho. Mas quando pensei no homem, naquele que habita esse espaço tão estrangeiro ao meu olhar de agora, me teletransportei. Sei que o dedo dele sangra como o meu quando há um corte. Mas o como ele e eu experimentamos a dor é o que nos diferencia. Como ele e eu olhamos a alegria. O passado, o presente e o futuro. No mais, são hábitos. Tivesse eu nascido lá, não seria estrangeira. 

Eu que “não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”, acho isso muito significativo. Depois de experimentar ver o passado na minha frente e não atrás como de costume, sinto uma paz carnavalesca. Olho para ele com doçura. É o que posso ver, afinal. O futuro, esse fugaz cavalheiro que insiste em causar estranheza, vejo se dissipar. Partícula sobre partícula. Está muito claro. Ele está atrás de mim e não posso vê-lo. Isso é bom e sei lá porquê, isso não me causa nenhum estranhamento. Estou na China, afinal. Uma espécie de exílio onde uma onda de pertencimento me invade. E nada me faria mudar isso.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS






sou palavra. entre bolores e cheiros acres, sou palavra e corto a superfície e seu dentro. faço ecos: sou sobressalto e limalha dentro da córnea. 
em cada instante, quero vôo e mergulho: saco pinça, cureta, alicate, picareta. até as unhas. sou inquilina do escuro até que ele me tire para dançar. sou paixão de nascença. o tempo e entremeios sem ar. sou a coragem do que faz febre. inspiração e brônquios dilatados. por isso anfitrio o ar e o caminho enquanto (des) espero.  desdobro ante um aroma de flor e ocaso. sob o cantar dalgum pássaro e o seu vôo. hibiscus em flor. gaivotas que sobrevoam o quintal. um choro convulsivo às duas da tarde. sou diversa. permeada de hipóteses no claro das horas. depois, irônica; salto do sobressalto, e, com unhas pintadas; rodopio no meio da sala. palavra em arterial coreografia.

domingo, 14 de maio de 2017

MARIA TEREZA


Ilustração: Cy Claudel

Ela mistura espanto e paz ao abrir a porta do 102. Pede, entre delicadeza e rigor, que os pés sejam limpos no capacho antigo. "A limpeza do apartamento é feita uma vez por semana e é preciso conservar limpo". Recebe visitas na sala de alguns móveis. Tudo ali tem uma história que ela sabe e conta. O feixe de luz que vem do lustre antigo cria aconchego entre as janelas semi-serradas. O dentro preservado. Lar castelo. Maria Tereza é rainha em vida. Não sei de onde sinto a intimidade. Algo que me convida e incita a estar ali. Ouvir cada uma das histórias que ela tem para contar e me deixar contagiar por um ânimo que profundamente desejo. Ter perto de 80 anos com um vigor que sinto de apenas olhá-la. Penso na história de seu nome. No signo. No ascendente. Tudo sobre a vida dela que paira na sala de alguns móveis e tanta história. Penso em quem sou frente à mulher de nome, idade e signo? "Leão". Ela diz que é leonina e procura um amor para restar nos dias. Que não importa o gênio que tenha. Quer sua companhia e há de domá-lo. Queria dar o homem para ela. Criá-lo em minha imaginação e inscrevê-lo repentinamente na vida de Maria Tereza. Na vida dela repleta desse desejo. Caminha para me mostrar o imóvel. As marcas dela nas fotos de família. A mãe com a qual ela parece. "Sou muito parecida com mamãe". Eu, que tudo perscruto com os olhos e com o desejo, vejo em cada coisa a mulher. Em cada mínimo canto. Esquadrinho uma idéia da fome e da vontade dela e do que pode haver depois da porta do refrigerador. O desejo do café com bolo de laranja é meu ou dela? Como me serviria um copo de água se eu pedisse? Como afagaria meus cabelos se eu deitasse a cabeça em seu colo? Afagaria? O tempo nos espreme dentro da sala e ela não quer que o tempo pare. Quer continuar a contar uma história enredada em outra. Uma história só. Uma colcha de retalhos estendida no meio da sala. Eu quero ouvir as histórias cheias de ar que ela conta. Quero respirar  esse ar. Maria Tereza pega o caderninho pequeno de espiral sobre  a mesinha de canto. Que guarda ali? Anota meu nome. Pede o sobrenome. Escreve numa das folhas com a doçura e firmeza da sua letra, e o joga sobre o sofá. Restarei ali. Um nome escrito em um papel um dia na vida dela. Nesse momento. Depois, já na rua, o canto do olho rabisca para mim sua figura na janela. Qualquer coisa que se estreita entre o que pode e o que não pode ser, e entre o que será. Tenho saudade de algo que já não é, e é apenas isso. É e paira. Ela está lá. Eu estou aqui. E mesmo que Maria Tereza pudesse propiciar meus sonhos e eu os dela, ainda assim seríamos tão outras e tão as mesmas. O canto do olho desolha e sigo sem olhar para trás. Acarinho a vontade de tornar os olhos para ela ou para a janela sem ela e sigo. Eu a tenho dentro.  Te abraço e me aninho em seu colo, Terê.

quarta-feira, 10 de maio de 2017

CRôNIQUETA DE MAIO (reeditada)

Fotografia: Clô Zingali

Ei, presta atenção: Vambora fazer a hora? é maio. de novo é maio. é maio e talvez não importe o que eu poderia falar: mas talvez. talvez as folhas por cair, o frio nas ruas. noites com fogueira. pinhão na brasa ou na panela e casacos no armário. talvez isso. talvez não. de novo é maio e de novo noivas, mães, e até as flores de maio. a pele e o tecido sobre a pele. o que teço. trama por trama. as paredes que fazem a casa. as folhas que entremeio caem e as coisas que entremeio voltam. campos e fomes. passos aos dois anos. braços dados ou não. outros maios. outras cores. até as mãos um dia nas cordas de um violão. as mãos agora na corda do violão. a música. de novo é maio: no jardim ou atrás dos muros da casa. debaixo do que é terra, debaixo do que é semente e adubo. do que espelha em nitidez no céu, na água e até na pedra. de novo é maio e maio é flor da pele. é caminho para o infinito entre bordados de fiar, desfiar e fazer história. aqui ou em Pequi. coração juventude e fé. de saber a hora e fazer acontecer. na linha, no buraco e na ponta da agulha, um desejo que corta, projeta e faz chão pra amanhã primavera. vambora fazer a hora?

sábado, 6 de maio de 2017

GUARDAR



Fotografia: Clô Zingali

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.

Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.



terça-feira, 2 de maio de 2017

DEPOIS DA NOITE, DEPOIS DO VENTO

Fotografia: Clô Zingali

algo se esconde entre um dia e outro. em meio a um intervalo, algo se esconde sob os pés descalços: pegadas na areia. o caminho até um outro lugar. entre as coisas esparramadas e algum desleixo, algo que se esconde entremeios aparece: debaixo das sobras, imiscuído sob a pele, no ritmo ou na música. num cheiro que evanesce. sempre. nos intervalos tem sempre um tom que atravessa esvoaçante. algo que tateia e desliza por sob o azul. por debaixo. depois tem névoa e perfume no ar. um pedaço que fica e outro que vai. fragmento de uma ideia antiga e corroída que agora é sedimento e chão. caminho de percorrer e sacudir. de deixar fugir. e feito todo em universo, caber assim. na concha das mãos.




quinta-feira, 27 de abril de 2017

EU SOU O MEIO 2


Desenho: Clô Zingali


pelas fendas, frestas e espaços em branco, pelos fragmentos de uma ideia; enigmas sobrepostos por entre fissuras e luz, acendem. 
por isso, e talvez por outra razão qualquer (nem importa);
 sou melodia e desenho. vôo e ritmo.
sou qualquer coisa de verão. qualquer coisa de estação; um aroma bem aqui (sente). sou cor e luz que refrata, apesar das flores no chão;
 o nítido da luz quando espalha e esparrama entre as coisas: nas ruas por onde passo e até por sobre as águas. por sobre a ondulação.

por isso, e talvez por outra razão qualquer (nem importa); 
refrato. mesmo com a luz assim, torta.
pelas fendas, frestas e espaços em branco, pelos fragmentos de uma ideia; enigmas sobrepostos por entre fissuras e luz, acendem
eu sou o que reflete e o que fica na sombra. o meio do caminho entre o que se fala. entre o que se cala. sou o meio.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

OPALINA 2




Fotografia: Clô Zingali


há talvez uma opalina na matriz do olhar. uma alquimia que matiza em azul e faz desdobrar em enigma. depois, há no branco uma espécie de oscilação: sobrevivência e alguma brisa. há um permear pelo ocaso. pelo acaso de estar no momento. sol que cai. eu dentro. por isso garimpo e cavo a terra em busca do que freme e não do que brilha. de impulso e de ar. de sal e doce. porque preciso ter fome. isso nada tem a ver com a altura do morro ou as curvas do trajeto. nada que se possa calcular. se pondero e peso algo com minhas próprias mãos é porque talvez eu seja desenhada em ousadia e nitidez. todo contorno derivado do fluxo discreto da letra, pela forma integral da palavra e pelo que lhe dá impulso. no que sobra, sou caminho, cascalho que barulha sob meus pés e o barulhinho das ondas que chega no quintal de casa. sol que cai. eu dentro. na matriz de cada olhar, viagem e pernoites. dia seguinte, café.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

CALMARIA NO QUINTAL


Fotografia: José Antonio Baço

 nasce desdobrado em tons de branco. nuances. um sentir sem atribuições. 
uma espécie de mandarim. peculiar e morfológico. 
suave perfume e beleza semidobrada em ciclos.
uma imagem sob as pestanas. e mais ali, uma catenária a descrever um cheiro que
resta ainda na roupa. 
um sentir artesanal. fiado ponto a ponto. pão feito em casa.
partitura.
 um teorema de se enredar polifônica e numérica.
e mesmo agora,
debaixo da chuva que cai fina,
desata e desanda em enigma e vida. 
desdobra e faz luz em silêncio e cor.

segunda-feira, 17 de abril de 2017

SOBRE COISAS QUE ME OUTONAM





talvez porque pensamento e corpo um. talvez pelo descuido. por, pés descalços, adentrar o escuro. talvez pela surpresa. pela possibilidade que me atravessa. talvez pela falta. pelo que se avizinha e faz ninho. talvez por isso o mergulho e a transgressão. bailar na asa do que me venta. me voa: uma ciranda. um jogral. um poema, onde, serpente, sou meu avesso. olho, faço  vigília e descuido para ter acesso ao que dobra por dentro. toque de voz e ritmo. tensão de ajuste. de alastramento do que se vê e sente.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

SOBRE HORIZONTES


Fotografia: Alexandre C Pereira

captura uma imagem no horizonte. argumento para conservar. para guardar.  como um poema guarda a imagem do poema, guarda o primeiro plano e o de fundo. depois, desarticula o olhar para ver mais a gravidade da cena. na vazante de águas raras e claras;  uma janela no manguezal. o olhar é conflito e argumento no horizonte. a dinâmica da seca e da cheia. e é vôo.

domingo, 9 de abril de 2017

O RESTO É SILÊNCIO





ilustração: http://tanglebrasil.blogspot.com.br/2011/06/o-resto-e-silencio-rest-is-silence.html#axzz45U2TWvMw











imbricada na memória e na rocha;
urdida na prosa e no tempo;
embebida em saliva e sal;
sibilo.

se a hora se apresenta perpétua, deflagro as cores e os tons daquilo que fala.
nada concreto além de um oco. mas zumbe.

em qualquer tempo,
tem espessamento a dor de nascer:
ato pretérito, manhoso e baldio.
um sem número de rios invertidos: desvios e canais;
o doce e o sal. 

talvez por isso misturo a areia da praia com o que resta de cinza; interrompo a fuligem no espaço e (preteritamente) talho o futuro em pequenas partes. 
definitivamente, o resto é silêncio.

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