sexta-feira, 23 de junho de 2017

SOBRE FERNÃO


http://www.ijba.com.br/single-post/2015/11/10/Fernão-Capelo-Gaivota
Fonte: IJBA - INSTITUTO JUNGUIANO DA BAHIA

Movimentos do Arqueiro Maior, recentemente, me colocaram na experiência de um voo do qual devo desfrutar pelos dias daqui em diante. Em tempos idos eu já havia lido "Fernão Capelo Gaivota". Do escritor americano Richard Bach, o ano da obra é 1970 e eu devo ter lido lá pela década de 80. Mas olhando daqui confirmo a ideia de haver um tempo certo para leituras fazerem sentido. Se ler Fernão naquela época fez algum sentido lá, eu não me lembro e daí quase concluo que não; ou se sim, o sentido estava soterrado debaixo de meu eu cebola. Enfim. Agora foi diferente. Agora fez muito sentido. E todo dia esse sentido se refaz e amplia. Feito o AmOr.

Quase todos os dias, principalmente naqueles em que caminho na praia, Fernão se recria diante dos meus olhos que o seguem ávidos. Fernão se desdobra em criatura que ama a liberdade e o voo. Um voar desatrelado da ideia de apenas servir à necessidade de buscar alimento. Um voo de desejo que o coloca em processo de solidão nesse mergulho. Uma busca que o distancia do bando e faz emergir sua singularidade na trilha de um caminho solitário.

Um caminho onde vai explorar suas habilidades e descobrir seu tamanho e até onde consegue ir. Vai descobrir seus limites no exercício do real. Fernão vai perceber que os limites podem ser uma ilusão uma vez que muitos nos são impostos. Vai descobrir seu eu através de explorar essa ideia, onde vai romper com os limites que lhe foram impostos pela sociedade a qual pertencia, e que no caso, entre outras, atrelava o voo ao alimento. Sua busca experimenta a ideia de não apenas manter-se vivo e sim encontrar um sentido para a sua existência. 

Nessa saga ele se torna uma gaivota desgarrada do bando para fazer algo a seu modo e com a sua singularidade. Vai viver uma espécie de MatriX no mundo das GaivOtaS, e nesse mergulho Fernão entende que todo o corpo vive no pensamento e que desse lugar é possível quebrar as amarras sociais e partir para uma existência mais liberta onde suas habilidades precisam ser aperfeiçoadas. 

Em seu caminho encontra mestres que lhe ensinam como atingir a excelência na arte de voar com o voo do pensamento. “Para voar à velocidade do pensamento, para onde quer que seja, você deve começar por saber que já chegou...”.  Ou como me disse um dia Agadman, um mestre do entalhe em madeira, um artista,  lá em Prado, na Bahia: "pra ir daqui até qualquer lugar é só girar a maçaneta". E Fernão, de conquista em conquista,  torna-se ele um mestre e segue acompanhado por seus discípulos até o dia de retornar à comunidade que o baniu e mostrar o seu ideário. Nesse processo de retorno, Fernão entende que para ser livre e poder dar significado a tudo que viveu é preciso compreender o antigo bando;  perceber que perdoar é conseguir enxergar a condição de consciência que limita o  outro. Entende que sua missão é usar a sua virtude em favor dos outros. Isso é que dará sentido ao seu existir. Fernão entende, que desconectada do amor,  até a liberdade pode aprisionar.

Claro Que Caminho Pela Praia e admiro as alçadas solitárias e as rasantes desses pássaros. Eles vão e voltam. E voo eu própria pensando em Fernão. Mas confesso, amo perceber essa liberdade atrelada aos voos conjuntos; ora de dois, ora de mais. Amo mais pensar cada uma das gaivotas como Fernão e ainda assim e talvez por isso, vê-los também em bando. Sempre em bando.

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