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PoEma para FERNÃO

Fotografia: Clô Zingali


não é pelo céu cheio de estrelas
sequer pela lua
de transbordamentos e enchentes. 
Não é isso.
é antes por um roçar de antebraços
perspectivas de verão e
cócegas na eternidade.
depois silêncio e enigma
claustros e velas,
um caleidoscópio de se perder e achar.
mas não, não é isso.
é talvez o curso de um rio misturado ao mar
que escorrega da concha das mãos
e faz pororoca.
é o que sobra 
de música e potássio.
mar e ocaso,
desenho no ar ou um desabafo sob a asa. mas não é.
nem mesmo é quando aterrizo em lágrimas no meio da tarde. 
não é isso. nem é por isso. 
aprendi a obliterar a densidade
escutar dentro das veias
sob a árvore da cidade antiga;
sem armas nem escudo
pressuponho o amor;
mas ainda não é isso. e nem é por isso.
nem mesmo a abóbada, 
a sombra da árvore
a chuva ou sequer o mofo depois da chuva;
é talvez a metade que sou depois,
que sou agora:
metade fonte 
metade varanda
metade horizonte 
metade estrutura
metade mecânica
metade asa
metade flor de cerejeira
metade memória cortada pela metade;
mas ainda não é isso. e nem importa tudo isso.
é talvez porque desoxido 
e emudeço sob o teu beijo.

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