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Mostrando postagens de Agosto, 2017

MADRIGAL MELANCÓLICO

O que eu amo em ti não é esse jeito de cereja e esse olhar de seis da tarde não é essa mania de andar bolerodiando nem mesmo a tua educadez O que eu amo em ti não é essa tua boca de vinho nem o teu piano. Tocas. E nem é isso. Os livros que leste, nem mesmo o que sabes ou não sabes Não é tampouco o teu ambicionismo ou teu traço de desenho ou o compasso. Nem teu andando em lenta marcha vagarosa nem a doçura, a ternura, a candura, a loucura, a pura frescura tua de alface... nem mesmo teu cheiro de alface teu cheiro de ar com um resto de perfume nem teu carro (com ar condicionado) nem teu cachorro não, não é nem isso que eu amo em ti.
O que eu amo em ti não é a tua preguiça esticada ao sol ensombreada de impressionismo não são os silêncios de que és feito nem o instante que povoas ou o mistério que às vezes te povoa, Não é esse ar letárgico, trágico, trístico, tanguístico, místico com que te sentas na cadeira ou acendes um cigarro somente para por um pouco de fumaça entre ti mesmo e o mundo
Não é tua voz irônica e sábi…

DA CALMA E DO SILÊNCIO, de Conceição Evaristo

Quando eu morder a palavra, por favor, não me apressem, quero mascar, rasgar entre os dentes, a pele, os ossos, o tutano do verbo, para assim versejar o âmago das coisas.
Quando meu olhar se perder no nada, por favor, não me despertem, quero reter, no adentro da íris, a menor sombra, do ínfimo movimento.
Quando meus pés abrandarem na marcha, por favor, não me forcem. Caminhar para quê? Deixem-me quedar, deixem-me quieta, na  aparente inércia. Nem todo viandante anda estradas, há mundos submersos, que só o silêncio da poesia penetra.
In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008

NADA

Crônica publicada no jornal A Notícia em 12 de novembro de 2009.

Nada, além de ser o contrário de tudo, a resposta que você dá quando perguntam: “E aí, alguma novidade?” (e você não tem nenhuma), o vazio do espaço (que sabemos que não é vazio), o que tem na caixa de chocolate quando você chega pra pegar e não tem mais nenhum; é também uma carta do tarô.
 Tirar o NADA numa leitura pode gerar decepção. A pessoa paga um tanto pra se consultar com a cartomante ou aguarda horas numa fila pra falar com um guru não sei de onde que promete dar todas as respostas e a carta tirada é o NADA.  Mas veja, fui fazer uma sondagem e localizei um significado da carta: shunyata. Um equivalente do inglês “nothingness”, que se você esmiuçar: nothing (nada) ness (partícula de negação). A negação do nada? O significado dela, basicamente, é o “tudo” que pode existir potencialmente no “nada”. Esse "tudo" são as possibilidades. O NADA pede um olhar para as coisas que estão ali contidas e que, talvez, nã…

ODE ao BALDIO

pelo sulco do olho verte uma lágrima. ato ridículo e baldio como carta de amor nunca escrita. uma lágrima furtiva. rútila. apenas para edificar a dor: dar equilíbrio e resistência.
galhofeira, insiste em frente ao espelho; um tanto lânguida (vês?). amarra com arame as lacunas para estar assim: súbita e obscena. 
dedilhante, suprime o ar da palavra faz cardume de desejos em franca apnéia; divide o mar com arraias: heterônima e abandonada. cerzida e voadora.
depois, farpa os espaços por puro capricho. coloca a palavra deserto no meio da palavra água pelo prazer de ver tudo desandar. por delirar vítrea, viscosa e febril.