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Mostrando postagens de 2011
PALAVRAS E VENTOS
Caros leitores, depois de quase três anos escrevendo aqui neste espaço, chega aquela hora denominada despedida. A flutuação das coisas trouxe minha vida para o Rio de Janeiro e, embora esteja enlaçada com Joinville, é preciso seguir o fluxo. Ver os presentes que flutuam em todos os movimentos. E como não estar feliz quando o presente extrai o que nos passa pela alma? Foi isso que, sobretudo, recebi com o presente de estar aqui: a oportunidade de, a cada quinta-feira, extrair o que assoberbava ou assolava. Fosse a chuva sobre o transparente do meu guarda-chuva ou a folha que redemoinhava na calçada. Presente sem preço. E por falar em presentes e coisas que redemoinham ao vento, penso em uma miniatura de fusca para colocar na estante, um livro com palavras que já li, uma comida preparada com especiarias leves ou um sabor inusitado no meio da maionese. Um sorriso largo em uma foto ou os cabelos voando com o vento. Uma paçoca, um pé-de-moleque ou aquele doce de flocos de …
O GRITO
O 7 de setembro de 1822 já passou. 189 anos atrás. Mas a simbologia atravessa os anos. Cantar o hino. Hastear bandeiras, desfile de tropas e de estudantes. Lembrar e pensar o quanto esta data, mais do que comemorativa de um fato, exprime o desejo de uma nação. O ato de Dom Pedro é repleto de controvérsias históricas que não cabe aqui falar. Quero dizer é da importância do simbólico na comemoração do dia. E não é à toa que faço isso uma semana depois da data. A despeito de como tenha sido decretada a independência, penso no que isso representa pra nós hoje. No que significa viver em uma nação independente e que tenha força e competência para trilhar esse caminho. Bem sabemos que a independência é um ideal. Não é real porque não existe independência por si só e sim a que se estabelece no contato, nas inter-relações, no jogo de direitos e deveres e tantas outras coisas. No ceder e avançar das diferentes frentes, dos diferentes lados. E isso pode acontecer de forma equilibrada ou n…

A MINHA, A SUA, A NOSSA ESTÉTICA

A MINHA, A SUA, A NOSSA ESTÉTICA

De frente para o espelho, penso no formato que as coisas têm. No que tentamos moldar. Minhas unhas, por exemplo: elas tinham um formato antes que alicates se metessem nas cutículas alterando o seu desenho. Talvez por permear esse estranho período eu pense agora que somos máquinas. Máquinas de usar e ser usadas. Por outros e por nós mesmos. E por mais que vozes queiram se instaurar contra isso (até aquelas que vêm de mim mesma), não há mal nenhum nisso. Somos máquinas comandadas por um cérebro, por um inconsciente e por um coração que não mora bem no meio do nosso peito. Se o tempo é a acumulação contínua dos segundos, eu projeto meus sonhos para construir. Para costurar e representar "idéias" que possam traduzir algo qualquer que está mais além e que nem sempre eu posso ver. Algo que, entre outras coisas, tem também uma estética. Se, como dizem, "não importa ser; há também que parecer", é interessante também pensar que nosso ser tamb…
VAZIOS, SUPER E ANTI-HEROIS
Dia desses me vi a pensar em super-herois e em mundos de fantasia, onde a principal protagonista, parodiando a língua do espetáculo, é a espetacular, a majestosa, a surpreendente... Imaginação. Aquele lugar onde o inconsciente tem voz e palco. Que espaço mais absoluto os super-herois, esses seres sobre-humanos poderiam ocupar? Se há quem possa estar na base das cenas da ilusão e de toda uma sorte de desejos, esses são eles. E o bacana com relação aos super-herois é que suas aventuras expressam fantasias comuns a algumas pessoas ou grupos, e isso carrega o conceito de uma questão que também é do campo da energia. O desejo de poder, por exemplo, é uma das expressões de desejo inconsciente que ganha asas no mundo da fantasia, onde, quase sempre, não há farol vermelho. É lá estão os super-herois rompendo os limites e atuando na busca de valores como justiça e defesa dos necessitados. E é lá então que se vêem coisas como voar, virar pedra, água, fogo, elástico, r…
O BALANÇO DE CECÍLIA
Quando a mãe de Cecília perde sua calça preta e a carteira de motorista, não sabe se a carteira está no bolso da calça ou mesmo se estão no mesmo lugar. Sabe apenas que estão perdidas. Procura em lugares possíveis. Também nos impossíveis. Telefona para os filhos e perscruta com afinco seus últimos 6 meses. Nada. Conversando com Cecília, diz: “Filha, olha bem aí na sua casa que eu posso ter deixado cair atrás de algum móvel. Ah, sei. Você arrastou todos os móveis na limpeza da última semana... E aquela bolsa que eu usei quando estive aí? Você lembra? Ah, andou vendo isso ontem mesmo? Não achou nada... Está certo. O quê?”. Ouve a filha dizer o quanto isso é simbólico. “Não vê a contundência do desejo que está expresso nesse sumiço, mãe? A calça, que guarda suas pernas que andam, está desaparecida junto com a carteira de motorista, que é seu passaporte para dirigir e dirigir-se aos lugares. Elementar, caro Watson. É um claro indicativo de que calça e carteira estão ju…
CATARINA E A ECONOMIA
Catarina, a moça que tira cópias de sua monografia na sobreloja de um centro empresarial na cidade, pensa na palavra copiar. Ela lembra, quando era mais nova, que copiar era pedir o caderno emprestado para copiar à mão as aulas que tinha perdido. Era trabalhoso, mas eficiente. Um modo de estudar o conteúdo que havia perdido. Pensa que as coisas no mundo estão ficando bem mais simples desde que inventaram a roda.Até dizem isso em tom de sarro quando alguém está querendo recompor os primórdios de qualquer coisa... e lá vem a frase: “Você quer o quê? Inventar de novo a roda? Na natureza nada se cria, tudo se copia”. Copiam até dinheiro... Nesse ponto ela se assevera. Por vezes lhe parece difícil compreender a economia e as coisas do dinheiro. Ela sabe que quando o governo imprime o papel que todos, inclusive ela, tratam como dinheiro, os juros sobem e acontece a tal matemática que os economistas chamam de inflação. Porque que quando se coloca mais dinheiro no mercado…
CÉLIA É UM MAMÍFERO
Célia, funcionária de uma empresa de telefonia móvel, olhando-se no espelho, admite que é um mamífero. Afinal, tem sangue quente e respira pelos pulmões. Quando está na água e usa o snorkel, sente-se inadvertidamente adaptada e em comunhão com as espécies todas que ela descortina. É sociável dentro e fora da água. Olhando a coisa desse modo, pensa que o que de fato lhe falta são nadadeiras. Olha seu corpo com cuidado, os braços e pernas que podem movê-la. As narinas para respirar. Tudo a contento. O que lhe falta mesmo é uma grande cauda, como as baleias. Algo que dê propulsão ao seu desejo de deslocamento. E mais uma grande camada de gordura para ajudar na flutuação e manter o calor. De posse desses itens, não tem dúvida de que atravessaria o Atlântico e todos os mares. Faria grandes travessias e de quando em quando iria emergir e expelir o ar quente e úmido dos pulmões. Daria um show formando colunas de água cada vez mais altas. Sabe que é bom poder habitar e desa…
DOIS DIAS PARA MARA
Mara está próxima de completar 40 anos e só consegue pensar em princípios de aerodinâmica e combustão. Liga para sua amiga toda afeita em pequenas magias e coisas transcendentais e diz: “Amiga, preciso de uma garrafada! Aquela de aloe vera e formol será que me adianta? Resolve meus problemas?” E a amiga se ri. E se riem juntas. Gisele lhe diz que tudo que ela precisa são dois dias. Sempre e para todas as coisas. Não tem quaisquaisquais. Iniciar um regime, cair na esbórnia, aceitar ou não uma proposta, sair de casa ou mudar de vida. De métodos. Isso principalmente. Dois dias de concentração nessa máxima e não vai ter aloe vera que faça páreo. Formol nem pensar, não é, Mara? Por acaso você deseja, aí bem no seu fundinho, estacionar esse estado de coisas ou qualquer outro? Gisele diz para ela deixar as coisas fluírem, que esse é o segredo. E mais os dois dias, claro. Mara talvez ache muito difícil a transição, o deslocamento. Certas vezes pega seu caderno de angústias,…

AMY WINEHOUSE

AMY WINEHOUSE

É verão. Durante a noite a lua estará em seu quarto minguante no Atlântico Norte. Brilhará, ainda que a temperatura tenha caído. Talvez o vento sudoeste que flanasse a 8 km por hora fosse o suficiente para dar arranque nalgum moinho e talvez isso gerasse energia para alguém em algum lugar. Talvez folhas rodopiassem num canto qualquer fazendo com ele uma valsa, uma reza, um pedido. Talvez pequenos blocos de átomos se movimentassem num jogo de agregar e desagregar moléculas. Não importa. Fechando os olhos parece ser possível escutar um canto que vem da alma. Com todo o drama que pode haver em almas. Talvez fosse uma canção Soul, que ironicamente, significa alma. Um gênero de música que nasceu do rhythm and blues e do gospel durante o final de 1950 e início de 1960. Talvez. Não importa. Talvez tenha escolhido o gênero pela imensidão que ele carrega. E conjugou em si todo o desejo pulsante que flui com a melodia. Torvelinho de caos e dores. E fez isso em primeira pessoa. Nem …
OLÍVIA, ULYSSES E AS MANGAS
Quando Ulysses disse para Olívia que ia embora, ela ficou, assim por dentro, tão feliz. Não demonstrou, é claro, isso para ele. Ao contrário, assustou-se, quase indignada. E essa demonstração não era mentirosa, afinal perguntava-se o que tinha dado nele para dizer isso dessa maneira. Ela não podia encher a boca e dizer: “Sou feliz”. Mas vivia bem, achava. Ontem mesmo foram ao cinema, comeram pipoca e ficaram um longo tempo conversando sobre o filme enquanto tomavam um café. Isso sem contar o fim de semana na praia, o sol aquecendo seus corpos em meio ao inverno que fazia na sombra. Ela quase sente de novo o quanto estava bom. De qualquer modo, volta a si e a seus questionamentos. Isso tudo não tem nexo. “Ulysses, isso não faz nenhum sentido”. Não cabe aqui dizer o que ele disse. Foram tantas palavras simples e definitivas que a Olívia coube responder “tchau” quando ele finalmente se encaminhou para a porta e disse um “eu vou – a gente se fala”. Agora, depois…
SUZANA
Suzana está aguda. Olha-se no espelho e diz com voz firme: É hoje. Olha mais uma vez: De hoje não passa, Su. Afinal, tem que ser carinhosa com ela mesma nessa hora de enfrentamentos. Toma um café mais forte que o habitual e solta todo o verbo de frente para o espelho. Escuta a sonoridade das palavras. Deixa que ocupem o espaço que precisam ocupar. Começa a sentir algo se deslocar dentro dela, mas nem atina com o que vai acontecer. Só dá tempo de empurrar a cachorrinha e se jogar por cima da mesa de canto e dos cacarecos todos que estão lá. Espreme o berimbau contra o canto da parede e sente a haste a lhe esmagar as costelas. Toca o instrumento com as vísceras. Deixa o estrondo gerado pela queda terminar seu ressoar dentro dela e pensa no susto dos vizinhos. Principalmente no de baixo. Fazer o que quê? Armários caem. Isso acontece. Mas não às quinze para as duas da manhã. Continua sobre a mesa pensando o porquê daquele desabar. Será cupim? Bruxaria. Isso sim. Um móvel desse não d…
MARISA E AS PALAVRAS
Marisa é moça leitora, mas não leitora como os leitores de fato. Não lê também como os escritores, que dizem, precisam ler muito. Ela apenas ama as palavras e ama certas formas delas se encadearem. Pensa que algumas palavras têm ímãs para outras, e juntas formam coisas engraçadas. Coisas tristes. Coisas belas. Marisa acha que algumas palavras vêm dentro de uma espécie de saco quando as pessoas nascem. A bolsa estoura e caem o nenê e as palavras... Palavras de tantos tipos. De todos os tipos. De tipos que a gente nem imagina. Talvez nem todas sejam lembradas, mas Marisa acredita que ficam em algum lugar dentro de nós. Um lugar onde procuraremos sempre por elas sem jamais achar. Quais foram mesmo? Essas palavras, Marisa imagina que moram debaixo da pele. Entre a derme e a epiderme. Outras ficam em camadas mais profundas e por isso não se pode pinçá-las a qualquer hora. Diz que é preciso muito cuidado na busca por palavras entranhadas. Os pensamentos por vezes usam as…
ENTRE ROLL-MOPS E OVOS COR DE ROSA
Uma filósofa de plantão no boteco do Saldanha disserta com o garçon sobre Mozart enquanto manuseia o ovo cor de rosa entre goles da cachaça envelhecida nos píncaros de algum lugar. Francisca, na mesa ao lado, pensa nesse lugar e no homem a extrair o líquido que desce agora pela garganta da mulher e que talvez, deixe sua língua dormente feito perna quando se senta em cima dela e depois tem que esticar e fazer três sinais da cruz como sua avó ensinou – um no pé, outro na canela e mais um na coxa para a dormência passar. Parece ter tanto a explorar essa moça, que não percebe Francisca que a olha, atenta a cada movimento, gesto ou palavra que ela diz ou silencia. Diz ou engole enquanto engole a pinga. Francisca pensa que ela talvez durma atravessada no meio da cama. Porque não é saudável deixar um lado vazio quando não há ninguém mais nela. As pessoas precisam de romance. Precisam brincar. E Francisca, que não é diferente, vai dando asas à sua imaginação.…
CLARA (MENTE) INVERTIDA
Clara está de ponta cabeça no meio da sala. No meio da novela, e nem era propaganda, ela saltou do sofá e foi para esse lugar. O meio do tapete da sala. Achou cabalística a idéia. Posicionou-se para tentar a “invertida”, uma posição da yoga em que se fica de ponta-cabeça. Ela pode não assumir, mas eu sei qual foi a cena que detonou esse arranque. O beijo que tirou seu ar. Natural ela querer fazer a invertida. Oxigenar o cérebro e pegar mais ar para respirar. Não bastasse isso, amanhã precisa estar linda porque Vítor e o resto do pessoal do escritório virão para jantar. Ela adora juntar os amigos e fazer festa, mas queria era puxar Vítor para dentro do banheiro e ficar lá com ele até a festa dos dois acabar. Dado que isto está fora de questão, fica para ela a boa e velha possibilidade de estampar a cara de paisagem. Está tão acostumada a manter o protetor de tela ligado que não sabe ainda como não queimou. Anda já soltando fumaça. Invertida como está, o ideal é q…

DIOGO E RAFAELA

DIOGO E RAFAELA
Dúvidas, meu irmão, não há jeito. A única maneira é se apropriar delas. Aprender a conviver. Sabe a morte? Pois então. É igualzinho. Ninguém gosta muito da idéia, mas sabemos que um dia vai acontecer. Certo como dois e dois são quatro. E se apropriando das dúvidas, você sempre pode evoluir para as técnicas de como lidar com elas. Duas camisetas iguais. Uma azul e uma verde. Fecha os olhos, embaralha, embaralha, pega uma, solta a outra. Abre os olhos. Pronto: leve aquela que ficou na sua mão. Mas tem que definir isso no começo ou corre o risco de se perguntar: levo a da mão ou a do balcão? Pode também perguntar qual o vendedor prefere. Mas é preciso confiar no que ele vai dizer! Se questionar por um segundo, já foi. Convidar aquele amigo “super seguro” também pode ser uma ótima idéia. Mas que fique bem entendido que confia nos critérios dele. Quando for comprar para presentear e surgir a pergunta clichê: será que ela vai gostar?, assuma de uma vez que isso será problema …
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ilustração: Marcelo Oliveira
O OLHAR DE ISABEL
Isabel olha as coisas à sua volta. De dentro do barco, observa a imagem do horizonte que se debruça sobre o seu olhar. Olha do verbo fitar com os olhos. Mira, encara, contempla, sonda. O dicionário diz, e não erra, que olhar é também “tomar em consideração”, ocupar-se de alguma coisa. É exatamente isso que ela faz a cada encontro com o que paira. Tanto se ocupa que se perde. É que Isabel mergulha naquilo que olha. Vai às profundezas. Emerge e lembra do olhar de peixe morto, sem expressão qualquer ou o olhar de vaca laçada com todo o susto dentro. Tudo aquilo que ela olha em profundidade, ela guarda. Seja um ponto estratégico, uma criança, ovelhas. Ela guarda. Conserva. Não revela nem oculta. Gosta de guardar. E acha que até calar-se é guardar o silêncio. Elocubra sob o olhar da poesia e sobre o que ela guarda em seu olhar para o mundo. Para as coisas. E vela e é por elas. Segue guardando o horizonte que gira ante o balanço das águas. Se dei…
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ilustração: Fábio Abreu
MARIA TEREZA
Ela se espanta e não ao abrir a porta do 102. Pede, entre delicadeza e ordem, que os pés sejam limpos no capacho antigo. A limpeza do apartamento é feita uma vez por semana e é preciso conservar limpo. Conservar o que se quer guardar. A limpeza. O conforto do que se tem. Recebe as pessoas na sala de alguns móveis. Tudo ali parece ter uma história. O antigo do lustre aponta que há possibilidade de luz. As janelas semi-serradas denotam um conforto que vem do esconder o externo. Meu lar é meu castelo. Maria Tereza é rainha em vida. Não sei de onde sinto a intimidade. Algo que me convida e incita a estar ali. Ouvir cada uma das histórias que ela tem para contar e me deixar contagiar por um ânimo que profundamente desejo. Ter perto de 80 anos e viver um vigor que sinto de apenas olhá-la. Penso na história de seu nome. Todas as letras fincadas no dia do nascimento. O signo. O ascendente. Tudo sobre a vida que paira na sala de alguns móveis e tanta história…

O VOO DE LÍDIA

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ilustração: Marcelo Oliveira


O VOO DE LÍDIA
Lídia, que acaba de despachar suas malas na esteira da companhia aérea, pensa em Pedro e caminha para o café. Ela administra esse mundo que é tão seu. Nenhuma preocupação que risque seu rosto com linhas que não chegam antes do tempo certo. Sabe que há tempo para tudo. Até para as rugas. Tem o olhar de quem conhece essa afirmação e, nele, a paciência para tudo que ocorre a seu tempo.
Foi assim quando deixou de restar perfumada no balanço da rede. Levantou e saiu. Tem Pedro tão dentro dela. Talvez só ele saiba que ela, quando gorjeia, fica nua entre o choro e o riso. Talvez. E talvez, por sentir-se tão inteiramente nua, é que ela finge. Ela se esconde em tudo que veste. Até nas máscaras. Nas tantas que é. Quando canta e sua voz escorre, se vê deslizar por ladeiras, girar em saias e encontrar as águas. Caminhar rios inteiros e desaguar no mar. Sente na boca o sal se misturar ao doce. Lídia…
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ilustração: Marcelo Oliveira O CANTAR DE ISAURA
Isaura está recostada na poltrona de tecido amarelado. Não sabe se é o esmaecido da cor ou se é a própria aura dela que amarelece ainda mais a cena. Ela se apercebe do palco onde atua. Atua? Olha os dedos que tamborilam no colo, nos braços da poltrona. Como se por dentro houvesse uma angústia a devastá-la. Pergunta-se o que poderia fazer para subtrair a dor que vê e sente e que paira sobre a sala, a cozinha ou o quarto. Há uma densidade indevassável que Isaura carrega com ela. Está nos olhos que espiam sua própria vida com rigidez. Uma espécie de dor que ela acalenta e arrasta. Compreende o quanto está misturada com o que vê e silencia. Queria plantar nela própria um desejo que a arrancasse desse lugar. Ver qual sintonia busca enquanto gira o dial da vida. Haverá algo capaz de calar o que fala em mim? Desde pequenina pergunta-se. Nem sabe como cultivou tantas questões e quando desistiu de responder. Desistiu? Há algo que a acalenta enquant…
NASCE MARIANA
A moça pergunta-se o que é Terra Natal. Escuta dizerem que tal qual o amor, é coisa única. Um só amor por vez. Uma só terra natal para se ter. Dizem. Mas Mariana, que só conhece o mundo e as coisas “de ouvir falar”, não pensa assim. Pois sente-se capaz de abrigar em si muito amor. Amor simultâneo por coisas, cidades e pessoas. Por isso ama Edgar e Rafael. O vestido com estampa de oncinha e os chinelos. Por isso navega nas ruas da cidade e diz: eu nasci aqui. A muitos lugares ela sente pertencer. Lembra-se das aulas do primário, dos símbolos de  pertence e não pertence, no agora Ensino Fundamental. Certas mudanças ela não administra bem. Pensa que fundamental é mesmo o amor. E isso não muda. Escuta a frase que vem de alguém e também outras. Ela não cansa de amar as mudanças. Todas elas. Até do tempo. Talvez porque assim vislumbre possibilidades de recriar-se e sair da mesmice a que todos estão destinados. Estamos todos destinados à mesmice! , diz apocalíptica. De todas as …
A ÓTICA DE ADRIANA
Adriana ultimamente tem pensado em rimas. Em combinar e (des) combinar. E vai dando asas para o seu olhar. Um anel feito de uma raiz qualquer que boiava no rio. Um caranguejo cozido na cerveja. Degustar. Muitas braçadas no alastrado do mar. As ondas do mar. Um chocolate. Um livro cheio de aventuras de se perder e se achar. Milhares de palavras. Um enorme ponto de exclamação ou os raios do sol. Dourar e aquecer. Iluminar. Mãos debaixo do cabelo. Um abraço de enrolar os braços. De se perder e se achar. Um poema. Uma música para dançar e se encantar. Uma rede para balançar. Um balanço para ninar. Uma comidinha feita em casa. Um copo de água que mate a sede. Um beijo cheio de sede. A mão quando for preciso. Também o colo. A mão para caminhar. Navegar. Ver os peixes no fundo do mar. Temperos frescos para cozinhar. As margens das coisas. Dunas de uma praia. Todas as praias. Barcos. Velas e claustros. Todas as florestas. Os rinocerontes. As sombras que guardam. Fontes para …
O DESCONFIAR DE ANA
Ana, apesar de não ser mineira, é moça muito desconfiada. Sobe os degraus da escada e desconfia estar atrasada. Em meio à correria não sabe se registrou corretamente o horário. Teria marcado três ou três e meia? De qualquer modo, segue seu passo. Caminha. Em algumas horas saberá. Desconfia que não trancou a porta ao sair e que, como se isso não bastasse, esqueceu de colocar água na vasilha de Peni. Peni é o apelido de sua cachorrinha, Penicilina. Escolheu esse nome porque a substância é curativa e Ana precisava curar-se. De quê? Ela desconfia que de “mal de amor”. Natural então essa atitude. As penicilinas constituem uma das mais importantes classes de antibióticos e são amplamente utilizadas no tratamento clínico de infecções causadas por diversas bactérias. E se Dr. Alexander Fleming, em 1928, tivesse conhecido Ana, certamente estudaria a moça em laboratório. Exatamente como fez com variantes de estafilococos, observando que a cultura de um tipo de fungo, Penicill…
IVONE, O AMOR E A CIDADE
Ivone caminha pela cidade. Dentro dela e do passo ritmado debaixo do sol, descompassos. Um bate estacas crava fundações nalgum lugar. Ivone ama. Carros vão e vêm. Param, disparam. Ivone pensa em César. Uma mão esmola atenção. Ivone esmola o amor de César. “Nunca vou cansar desse oferecimento?”. Por mais que a pressa se deite sobre o dia Ivone não escorre. Caminha por ele e para as coisas que se enfileiram. Pensa em César e diz para ela mesma as palavras. O que diria para ele caso pudesse ouvir: “Você poderia me confortar com maçãs ou algo assim? Uma massagem que me deixasse, inteiramente, relaxada? Eu espero realmente que sim. Meu corpo não gosta de grosserias e só assim eu poderia te receber. Peço, sem nenhuma culpa que me encha de mimos. Poderia, nesse dia, fazer isso? Esquecer do mundo e ficar comigo? Nesse dia quero que viva e me faça viver. Tire meu ar para eu poder respirar. Já pensamos um no outro o resto do tempo”. O farol abre. Ivone entre as pessoas a…
DOCE DOMINGO
Açúcar, cacau, extrato de malte, sal, soro de leite e leite desnatado em pó, mais vitaminas C, B3, B2, B6, A e D, estabilizante, lecitina de soja e aromatizantes; tudo estava no pote de 200 gr de achocolatado em pó e agora está em Márcia. Sabe que não engordará nenhum grama por essa desventura de um domingo chuvoso. Amanhã caminhará durante duas horas inteiras e todas as 800 calorias escorrerão pelos dedinhos miúdos de seus pés. Tem o gosto ainda na boca e os dentes com cor de chocolate. Olha o pote que resta vazio sobre o sofá. Não viu nada no fundo do pote além do vazio dele. Paredes de plástico e o ar dentro de um pote vazio. Um vazio que também está dentro dela e que ela tenta suprimir se afogando em potes de achocolatado. Depois aparecem os contornos dentro dela. Dores localizadas e esparsas. De quando em quando arrota silenciosamente. Leva as mãos à boca e sente nos olhos um embaraço. O que é que havia antes? Sente uma espécie de culpa. Pensa nas pesquisas que mostra…
SALA DE JANTAR
Maria deita o olhar científico e atento para Adelaide e todos que estão na sala. É capaz de se misturar com os pensamentos e de lá retirar sumo. É um jogo perigoso. Apreende o que em vão tenta esconder-se e esparrama-se pelo chão da sala. Uma espécie de sentimento que lhe impinge inadvertida sublimidade. Quer se desapropriar dos discursos, daquilo que fala por ela e não é ela. Olha a cachorrinha e lembra do gosto de correr pela praia e fugir das ondas. Observa Raul. Nada do que diz persiste ante o frenético balançar do rabo roçando-lhe as pernas. Quero ser salva pelo apelo! Me redimir. Então ele diz pra ela não dizer o que escreve. O que nos atravessa não deve ser dito nem escrito. Ela diz para ele que nada resiste ao que se impõe e aniquila, e sorri o ridículo da sua circunstância. Ela ama. O olhar da cachorrinha impede e impele. Para evitar equívocos, toma o cuidado de avisar que é apenas e tão somente a circunstância daquele abanar que a define.
Odair olha o mundo atra…
SOBRE DUNAS
Maria Alice junta um punhado de areia entre as mãos e deixa cair devagarzinho. Pensa em grãos de areia e em desertos. Na duna encantada nos recônditos de Jericoacoara, que, diferente das outras, nunca se move. Dizem que há um navio dentro dela. Um navio que encalhou e então a duna se formou sobre ele. Que durante a noite, entre feixes de luz, seres encantados festejam e vivenciam esse acaso. Então Maria Alice pensa em seres que vivem na areia. Calangos, répteis, insetos, minúsculas e invisíveis bactérias e homens. De todas as raças. De onde ela agora está, vê a multidão que caminha para subir a duna do Por do Sol. Há muitos anos ela estava em outro lugar e lentamente foi caminhando. Ouve alguém dizer que o mar está comendo a duna, mas o que Maria Alice observa é o vento e compreende o amor da duna. Sabe que ela é quem está se dando ao mar. Ele a quer e ela quer ser dele. Então o vento venta nela e devagarzinho ela vai. Que nem o punhado de grãos que escorre de suas mãos. A …
VERA Vera, a professora de inglês que mora no 508, disse para Isabel sobre sua zanga. Culpou Eliseu por tudo que houve na história deles. Mas deixou claro que não guarda rancor. Parece insensato da parte dela, mas Vera, embora esteja se virando mal e porcamente com o dinheirinho que entra das aulas, tem formação em física e sabe, dentro dela, que isso não é uma condição estática. Ontem, por exemplo, pensava no princípio da incerteza. Sabe que por esse princípio não é possível se ter a certeza da posição e da velocidade de uma partícula, simultaneamente, e que, quanto maior a precisão com que se conhece uma delas, menor será a precisão com que se pode conhecer a outra. É este o princípio que está na base da mecânica quântica. A partir desse conhecimento ela se sente naturalmente impelida a ver o mundo, as coisas e as pessoas por outra ótica. Diz: não tem jeito, conhecer a física quântica mudou quase tudo que eu sabia. Até a imagem de Eliseu. Pois se em 1919, o cientista alemão Werner He…