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SOBRE DUNAS

Maria Alice junta um punhado de areia entre as mãos e deixa cair devagarzinho. Pensa em grãos de areia e em desertos. Na duna encantada nos recônditos de Jericoacoara, que, diferente das outras, nunca se move. Dizem que há um navio dentro dela. Um navio que encalhou e então a duna se formou sobre ele. Que durante a noite, entre feixes de luz, seres encantados festejam e vivenciam esse acaso. Então Maria Alice pensa em seres que vivem na areia. Calangos, répteis, insetos, minúsculas e invisíveis bactérias e homens. De todas as raças. De onde ela agora está, vê a multidão que caminha para subir a duna do Por do Sol. Há muitos anos ela estava em outro lugar e lentamente foi caminhando. Ouve alguém dizer que o mar está comendo a duna, mas o que Maria Alice observa é o vento e compreende o amor da duna. Sabe que ela é quem está se dando ao mar. Ele a quer e ela quer ser dele. Então o vento venta nela e devagarzinho ela vai. Que nem o punhado de grãos que escorre de suas mãos. A moça pensa no que lhe escapa. Naquilo que não é desejo dela e nem de ninguém. É simplesmente a ação do vento sobre ela. Ação que espalha seus grãos e tudo que pode haver de solúvel. Maria Alice é solúvel em água. Dilui-se e recompõe-se pelas mãos dos mistérios que a fazem ventar. É por isso que ela se espalha enquanto pessoas sobem a duna para ver o sol cair no mar. Lembra do navio dentro da duna que não se move e que por isso serve de referência aos pescadores. Pensa que referência é algo que não se move enquanto o homem vai mudando de lugar e então lembra quando rodopiava de mãos dadas com Josué. O mundo todo girava enquanto um morava no olhar do outro. Amparavam-se. Agora tudo virou essa areia que escorre de suas mãos. Maria Alice é duna que se entrega pouco a pouco ao mar. Vai mudar de lugar e de forma. E ela será ela mesma e será outra. Talvez porque a areia se forme pela erosão das rochas, caiba ao vento e a água a tarefa de sedimentá-la. Dar a ela estrutura e tudo que lhe compõe: sílica, quartzo ou recifes de coral. Até sua textura diz dela e dá pistas sobre a distância que percorreu. Leu certa vez que quanto menor o grão, mais fácil a duna é transportada e de mais longe vem. Maria Alice parece saber que o que quer que forme e mova as dunas é ação sobre elas e não o contrário. Uma ação combinada de fatores que ela chama de desejo e os cientistas de saltação, arrasto e suspensão. Foi desejo, ela diz. Desejo do vento. Mas sabe também que o tamanho e a forma dependem da praia. Se a praia tem pouca inclinação, mais areia chega à costa e mais dunas são formadas; se a inclinação é acentuada, mais areia é tragada de volta pelo mar, e as dunas são menores. Dunas e Maria Alice são ecossistemas com incontáveis organismos e saberes. De flores de aroma suave a pequenos roedores, cobras, lagartos e até o girassol, que se adaptaram à vida na areia. E protegem-se mutuamente. Talvez por isso certas dunas cantem. Pela vida que vibra nelas. Praias, dunas e vidas se precisam.



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