sexta-feira, 4 de março de 2011

ANA JÚLIA e as coisas.

No banco do ônibus, Ana Júlia vê as imagens correrem pela janela. As imagens que estão passando e ficando. Ela está indo. De quando em quando torna os olhos para o livro em seu colo. Para as palavras que entram nela e se alojam. No mormaço, um cachorro esgueira-se em frente ao bar e se enamora dos frangos atravessados nas hastes sobre o fogo. Ela pensa no fogo e em tanta coisa. Apesar da força de seus braços e da agilidade das mãos, pensa nas coisas que não pode segurar. Pensa em Hugo. Nos braços de Hugo. A despeito de tudo que pode constranger um homem, ele segurou a casa que queria ir embora com o vento. Um homem. Uma casa. Um homem e suas sapatas. Tudo que pode segurar alguma coisa no chão. Que pode sustentá-la ou não. Ana deixa-se encobrir pelo escuro do túnel e pensa na alternativa de escavar para atravessar o que se interpõe. O homem é capaz de atravessar pedras e mares inteiros para chegar onde deseja. Onde precisa. Pergunta-se se ações vêm do desejo ou da necessidade. E se o dono do bar soltasse uma das hastes com os frangos enfileirados e por descuido todos eles restassem no chão? Quem conteria o desejo do cachorro de lançar-se sobre eles? Quem? Pensa se fome é desejo ou necessidade. Acha que a fome de Hugo alimenta a sua. Ou é o contrário? Uma fome alimenta a outra e cria um cordão de energia que busca a saciedade. É preciso andar sobre ele. Sentir e conter o pulso do vento que tenta jogar o corpo para um lado e outro. Lados são coisas que colocam o homem numa posição tal, que ele pende. Pende e cai. Então pensa no que faz o meio restar como alternativa. Ela não quer cair. Ninguém quer. Desce do ônibus, em meio ao dióxido de carbono e os carros. Coloca-se na exata dimensão do que é. Coisa entre outras coisas. E mesmo que ela consiga se estreitar entre o que era e o que será, há o que é. Igual ao desejo de pular no abraço dele. Se enrolar em seus braços. Estreitada entre o desejo e o pulo. E mesmo que aquele cachorro, depois de abocanhar alguns frangos sob o olhar atônito do homem, latisse pra ela, ainda assim não estaria ali. Só porque faz tudo certo. A dieta de carboidratos, muita proteína saudável e o preparo físico. Ana Júlia malhou muito, dormiu oito horas todos os dias. Acordou cedo e seguiu, à risca, todas as orientações. Nenhum dia um vacilo que desviasse seu desejo. Pensa em sua mania de perfeição. Em sua estratégia de distanciar-se das coisas para poder vê-las melhor. Tudo escorre e pede confronto com nossos subterrâneos. Até o amor. Agora, os pés na calçada lhe dão a justa medida da distância que quis. Muitos quilômetros. E nem que ela chamasse um táxi ou saísse correndo para o aeroporto, poderia voltar atrás. Abrir o abraço. Não poderia. Na soleira da porta do bar, observa uma mulher na calçada. Sua mão estendida. Talvez o suco que agora não lhe desce pela boca fizesse bem à mulher. Talvez o suco lhe descesse pela goela com todas as subjetividades de Ana Júlia. Talvez nem a mulher as quisesse e talvez preferisse dizer não a ter que engolir uma falta de ação que não lhe pertence. E nem que Ana tentasse desculpar e entender a falta de ação alheia, nem assim compreenderia a sua. E nem que o cachorro saltasse sobre os frangos e agora lhe aparecesse pedindo água ou um simples afago, nem assim ela saberia.

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