domingo, 20 de março de 2011

VERA
Vera, a professora de inglês que mora no 508, disse para Isabel sobre sua zanga. Culpou Eliseu por tudo que houve na história deles. Mas deixou claro que não guarda rancor. Parece insensato da parte dela, mas Vera, embora esteja se virando mal e porcamente com o dinheirinho que entra das aulas, tem formação em física e sabe, dentro dela, que isso não é uma condição estática. Ontem, por exemplo, pensava no princípio da incerteza. Sabe que por esse princípio não é possível se ter a certeza da posição e da velocidade de uma partícula, simultaneamente, e que, quanto maior a precisão com que se conhece uma delas, menor será a precisão com que se pode conhecer a outra. É este o princípio que está na base da mecânica quântica. A partir desse conhecimento ela se sente naturalmente impelida a ver o mundo, as coisas e as pessoas por outra ótica. Diz: não tem jeito, conhecer a física quântica mudou quase tudo que eu sabia. Até a imagem de Eliseu. Pois se em 1919, o cientista alemão Werner Heisenberg definiu esse conceito, quase 100 anos depois isso não pode ser negado por ela. Então, quando Eliseu escureceu tudo que ela pensava saber das coisas e ela se viu afundar no que, cotidianamente lhe parecia areia movediça, começou a buscar esse conhecimento. Pelo princípio, a forma mais óbvia de se conseguir medir com precisão a posição e velocidade de uma partícula seria fazer incidir luz sobre a mesma para se ter a indicação de sua posição. E assim fez. Começou a pensar em tudo que Eliseu iluminava para ela. Como se o rapaz pudesse mesmo ser foco de luz. O que ela não contava, ou melhor, o que ela não considerou a princípio, foi que a quantidade de luz sobre as coisas que ela começou a ver pudesse perturbar e alterar suas posições de forma absolutamente imprevista. Lembra-se da física tradicional newtoniana. A Física Clássica. Através dela seria possível, considerando-se a posição inicial, calcular suas interações e prever  que ocorreria. Mas qual será a posição e o momento exato das coisas? Pode haver uma fórmula que explique e equacione o princípio da incerteza. Heisenberg que o diga. Mas como equacionar e calcular as imprevistas interações? As mudanças das coisas após o foco de luz e a nossa própria mudança? Pensa que a partir daí é só mistério que há. E talvez um efeito dominó... Mas o que haverá depois da queda da última peça? Uma função de 2° grau? Uma parábola? Porque assim o mínimo rende o máximo? De uma migalha a gente faz um bolo de noiva? É. Substancialmente é isso. Não importa o que a vida te dá, mas o que você faz com o que a vida te dá. Pergunta-se se isso é Sartre ou não é. Vera pensa que seria melhor ter estudado filosofia do que física. Talvez então pudesse dar mais respostas para as coisas, ou, quem sabe, fazer mais perguntas (o que importa são as perguntas). Talvez então não estivesse ganhando merrecas dando aula de inglês. Talvez Eliseu nem existisse. Fosse uma projeção dela mesma. Nesse caso, a zanga seria com ela. Seria fruto da sua insatisfação. Mas isso é filosofia ou não? De qualquer modo, descarrega a cartela de tranqüilizante no vaso sanitário, puxa a descarga e corre tomar um antiácido. A efervescência há de lhe abrir algum caminho enquanto a Casa de Pão cheira um delicioso frango assado.

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