sábado, 22 de julho de 2017

AH O AMOR, O TAL AMOR. É MINHA LEI, É MINHA QUESTÃO ;)

Fotografia: Anônimo
Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 

Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo! (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. Amar é a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bola. Morrer de ciúme. Lavar uma pia cheia de louças. Cozinhar e fazer um cuz-cuz para alguém é amor. Tirar um cisco do rosto de alguém. Um cabelo teimoso que entra na frente do olho. Matar uma barata. Sair de cena. Entrar em cena. Abrir a janela e jogar as tranças depois de escutar "Eu te amo Rapunzel!"

Amar será tomar veneno como os meninos de Shakespeare? Louvar o que reflete no espelho? Amar a dor que se sente? o que faz falta? Lamber a própria ferida é amar. Amar é partir. É ficar. Amar é ficar anônimo. Esconder coisas para alguém achar. (como um anel de brilhantes no meio de uma trufa?, um bilhetinho embaixo da xícara de café?, como esconder a você mesmo atrás da cortina e perguntar para uma criança: cadê?, escrever uma declaração em um outdoor???).  será? amar é não colocar etiqueta. amar é arrancar a etiqueta.

Amar é divagar. É concentrar. É fazer revoar a passarada no meio do caminho. Apreciar o vôo de quem voa. Tremer enquanto o outro voa. Amar é ficar sem palavra na boca. É amar tanto que seca a boca. É andar num metropolitano. É dizer, sou sim soteropolitano! E tu? que me diz, Coriolano? Amar é fazer graça com as coisas. Até com ideia de amar. 

Amar é escrever "eu te amo" na areia da praia pra depois a água do mar lamber e ser testemunha. Amar é testemunhar. Ou não. É descomprometer o outro de ser a sua testemunha. É um grito, de repente, no meio da sala. É colocar as roupas todas na mala e dizer: Adeus. Dizer Ah! Deus! Como eu amo! Amo e vou embora ;) Amo porquê me amo. 

Amar é, diante do tanto que assombra, lembrar do andróide que salva seu caçador em Blade Runner ou cantar de peito aberto o que diz Maria Bethania: “Sonhar, mais um sonho impossível, lutar quando é fácil ceder.... amar é fazer guerras e guerras por um pouco de paz. é cantar com o Rappa: qual a paz que eu não quero conservar para tentar ser feliz?

Amar de todo jeito. Ideias de amor. Ideias de amar. E valem. Amar é não colocar preço. É colocar as cartas na mesa. Manter viva a vontade. Fazer escolhas. Entrar ou sair do barco. Mas lembrar que existem bóias ;) Dizer: Eu vou nadando, sambando, cantando. Vou com você. Apesar de você. Eu vou; e você? Vambora..... Vamoagora... Vem comigo agora, hoje, enquanto a gente se adora 🎵🎵🎵🎵

terça-feira, 18 de julho de 2017

EU SOU ENTRE e DEPOIS





Fotografia: Clô Zingali


pelas fendas, frestas e fissuras, pelos fragmentos de uma ideia; enigmas sobrepostos acendem. 
por isso, e talvez por outra razão qualquer (nem importa);
 sou melodia e desenho. vôo e ritmo.
sou qualquer coisa de verão. qualquer coisa de estação: um aroma bem aqui (sente). sou cor e luz que refrata, apesar das flores no chão;
 o nítido da luz quando espalha e se esparrama entre as coisas: nas ruas por onde passo e até por sobre as águas. por sobre a ondulação.
por isso, e talvez por outra razão qualquer (nem importa); 
refrato. mesmo com a luz assim, torta.
pelas fendas, frestas e fissuras; pelos fragmentos de uma ideia; enigmas sobrepostos acendem
eu sou o que reflete depois da luz. o meio do caminho entre o que se fala e o que se cala. sou o meio.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

PERSPECTIVA SUBLINGUAL



Fotografia: Assis de Mello

espio pelo canto do olho. espio e sibilo diante do espelho e da luz. sibilo debaixo das guelras. diante do reflexo. é anacrônico mais uma vez modelar o barro e o balanço. talvez um gesto anterior à febre. um rubro gesto de queimar. de atear fogo no abismo. só depois vem uma brisa que sopra as labaredas e me faz equivocada. baixinho conjugo verbos manuelinos, e num repente, tomo sem pestanejar, o trem noturno para Lisboa. nada mais de albergue espanhol ou balas de caramelo. o closet passou a língua nas coisas e esvaziou a gaveta debaixo da neblina. é então que aproveito a densidade e me embrenho: escavo, lapido e desvio do que faz medo. entremeios, atravesso e absorvo. pé e perfume no passo. um chão que não sai do lugar. um chão que me anda. me desanda e subtrai o ar, em metonímica  imprecisão.

sábado, 1 de julho de 2017

É JULHO



Resultado de imagem para julho












Os dias julham-se debaixo dos olhos de Isaura.Ela se serve do estio, das chuvas que silenciam por um período enquanto desfia um bordado. Isaura se serve do que não importa: o frio sem razão no interior do país, as perspectivas para o próximo ano ou mesmo a falta de perspectivas para amanhã. É julho; e talvez por ser o meio entre o que há e o que pode haver, o que de olhos arreganhados ela vê, é o tecido de sua pele, trama por trama. Ela desmancha ponto por ponto para restar nua entre o que foi e o que pode ser. Entre a solidez dos escombros. Sabe que a pele e o caminho estão repletos de bordados: desenhos no tecido para se desfiar. Sabe da vida costurada nas paralelas. Bordada em osso e carne. Em fibra e desejo. Dentro do buraco da agulha. Sabe de tudo isso recostada na poltrona de tecido amarelo. De lá gira o dial da vida enquanto aguarda o que quer se fazer morada. Olha pela janela esse pedaço de terra e água que é a soma de infinitas direções trazidas pelos ventos. Abrindo e fechando os olhos, sabe bem o que crepita. A brisa, ao seu tempo, mostra o que importa para Isaura. É talvez com esse impulso que deixa o amarelo da poltrona, vai até a penteadeira e roça de leve a cor do batom em seus lábios. Cantarola uma música qualquer enquanto desliza pelo chão da sala. É julho.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

SOBRE FERNÃO


http://www.ijba.com.br/single-post/2015/11/10/Fernão-Capelo-Gaivota
Fonte: IJBA - INSTITUTO JUNGUIANO DA BAHIA

Movimentos do Arqueiro Maior, recentemente, me colocaram na experiência de um voo do qual devo desfrutar pelos dias daqui em diante. Em tempos idos eu já havia lido "Fernão Capelo Gaivota". Do escritor americano Richard Bach, o ano da obra é 1970 e eu devo ter lido lá pela década de 80. Mas olhando daqui confirmo a ideia de haver um tempo certo para leituras fazerem sentido. Se ler Fernão naquela época fez algum sentido lá, eu não me lembro e daí quase concluo que não; ou se sim, o sentido estava soterrado debaixo de meu eu cebola. Enfim. Agora foi diferente. Agora fez muito sentido. E todo dia esse sentido se refaz e amplia. Feito o AmOr.

Quase todos os dias, principalmente naqueles em que caminho na praia, Fernão se recria diante dos meus olhos que o seguem ávidos. Fernão se desdobra em criatura que ama a liberdade e o voo. Um voar desatrelado da ideia de apenas servir à necessidade de buscar alimento. Um voo de desejo que o coloca em processo de solidão nesse mergulho. Uma busca que o distancia do bando e faz emergir sua singularidade na trilha de um caminho solitário.

Um caminho onde vai explorar suas habilidades e descobrir seu tamanho e até onde consegue ir. Vai descobrir seus limites no exercício do real. Fernão vai perceber que os limites podem ser uma ilusão uma vez que muitos nos são impostos. Vai descobrir seu eu através de explorar essa ideia, onde vai romper com os limites que lhe foram impostos pela sociedade a qual pertencia, e que no caso, entre outras, atrelava o voo ao alimento. Sua busca experimenta a ideia de não apenas manter-se vivo e sim encontrar um sentido para a sua existência. 

Nessa saga ele se torna uma gaivota desgarrada do bando para fazer algo a seu modo e com a sua singularidade. Vai viver uma espécie de MatriX no mundo das GaivOtaS, e nesse mergulho Fernão entende que todo o corpo vive no pensamento e que desse lugar é possível quebrar as amarras sociais e partir para uma existência mais liberta onde suas habilidades precisam ser aperfeiçoadas. 

Em seu caminho encontra mestres que lhe ensinam como atingir a excelência na arte de voar com o voo do pensamento. “Para voar à velocidade do pensamento, para onde quer que seja, você deve começar por saber que já chegou...”.  Ou como me disse um dia Agadman, um mestre do entalhe em madeira, um artista,  lá em Prado, na Bahia: "pra ir daqui até qualquer lugar é só girar a maçaneta". E Fernão, de conquista em conquista,  torna-se ele um mestre e segue acompanhado por seus discípulos até o dia de retornar à comunidade que o baniu e mostrar o seu ideário. Nesse processo de retorno, Fernão entende que para ser livre e poder dar significado a tudo que viveu é preciso compreender o antigo bando;  perceber que perdoar é conseguir enxergar a condição de consciência que limita o  outro. Entende que sua missão é usar a sua virtude em favor dos outros. Isso é que dará sentido ao seu existir. Fernão entende, que desconectada do amor,  até a liberdade pode aprisionar.

Claro Que Caminho Pela Praia e admiro as alçadas solitárias e as rasantes desses pássaros. Eles vão e voltam. E voo eu própria pensando em Fernão. Mas confesso, amo perceber essa liberdade atrelada aos voos conjuntos; ora de dois, ora de mais. Amo mais pensar cada uma das gaivotas como Fernão e ainda assim e talvez por isso, vê-los também em bando. Sempre em bando.

terça-feira, 20 de junho de 2017

SEDUÇÃO, de Adélia Prado



http://www.escritas.org/pt/estante/adelia-prado

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.


segunda-feira, 12 de junho de 2017

PoEma para FERNÃO

Fotografia: Clô Zingali


não é pelo céu cheio de estrelas
sequer pela lua
de transbordamentos e enchentes. 
Não é isso.
é antes por um roçar de antebraços
perspectivas de verão e
cócegas na eternidade.
depois silêncio e enigma
claustros e velas,
um caleidoscópio de se perder e achar.
mas não, não é isso.
é talvez o curso de um rio misturado ao mar
que escorrega da concha das mãos
e faz pororoca.
é o que sobra 
de música e potássio.
mar e ocaso,
desenho no ar ou um desabafo sob a asa. mas não é.
nem mesmo é quando aterrizo em lágrimas no meio da tarde. 
não é isso. nem é por isso. 
aprendi a obliterar a densidade
escutar dentro das veias
sob a árvore da cidade antiga;
sem armas nem escudo
pressuponho o amor;
mas ainda não é isso. e nem é por isso.
nem mesmo a abóbada, 
a sombra da árvore
a chuva ou sequer o mofo depois da chuva;
é talvez a metade que sou depois,
que sou agora:
metade fonte 
metade varanda
metade horizonte 
metade estrutura
metade mecânica
metade asa
metade flor de cerejeira
metade memória cortada pela metade;
mas ainda não é isso. e nem importa tudo isso.
é talvez porque desoxido 
e emudeço sob o teu beijo.

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SOBRE QUESTÕES RESPIRATÓRIAS E AMORES INVENTADOS

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