sexta-feira, 15 de julho de 2011

SUZANA

Suzana está aguda. Olha-se no espelho e diz com voz firme: É hoje. Olha mais uma vez: De hoje não passa, Su. Afinal, tem que ser carinhosa com ela mesma nessa hora de enfrentamentos. Toma um café mais forte que o habitual e solta todo o verbo de frente para o espelho. Escuta a sonoridade das palavras. Deixa que ocupem o espaço que precisam ocupar. Começa a sentir algo se deslocar dentro dela, mas nem atina com o que vai acontecer. Só dá tempo de empurrar a cachorrinha e se jogar por cima da mesa de canto e dos cacarecos todos que estão lá. Espreme o berimbau contra o canto da parede e sente a haste a lhe esmagar as costelas. Toca o instrumento com as vísceras. Deixa o estrondo gerado pela queda terminar seu ressoar dentro dela e pensa no susto dos vizinhos. Principalmente no de baixo. Fazer o que quê? Armários caem. Isso acontece. Mas não às quinze para as duas da manhã. Continua sobre a mesa pensando o porquê daquele desabar. Será cupim? Bruxaria. Isso sim. Um móvel desse não desaba assim. Não pode ver, mas imagina o espelho de cristal todo estilhaçado. A maçaneta de louça que ela comprou em um brechó em Buenos Aires, idem. Pipoca, enfiada que ficou no canto perto da mesa quando foi empurrada, ainda lá está. Olha para Suzana, com cara de interrogação? Na verdade, o olhar dela parece mais de alívio. Elas se entendem. Um armário ir ao chão é algo muito simbólico. Inda mais aquele armário. Trazia tanta história dentro que pesava toneladas mesmo vazio. E vinha sendo arrastado por Suzana há muitos anos. Era hora mesmo disso acabar. Bom seria se ela o tivesse lançado ao chão. Mas como? O armário, igual certas coisas na vida, era difícil de derrubar. O que ela sentia por ele era um misto de preservação e culpa. Amor e ódio. Devoção e desdém. Então a vida fez isso por ela. Jogou o armário, de angústias e sentimentos controversos, no chão. Suzana, moça que também é muito viajada em si, acha ainda mais simbólico a queda do armário justamente nessa noite. Durante o dia, passou sua hora inteira de análise desconstruindo o armário e tudo que ele significava. Lembra de alguém dizendo que as palavras têm poder. Acha que de fato elas têm. A consubstanciação disso é o armário atravessado no meio da sala. Não fosse agora quase 3 da manhã, pegaria o martelo na lavanderia e terminaria o serviço sabe lá de quem. Martelaria até restarem pedaços de bom tamanho para a lareira e teria uma noite calorosa. Abriria uma garrafa de vinho e poderia sorver, aos goles, sua libertação. A queda do armário. Não tem problema. De uma hora para outra seus pensamentos transfiguraram-se em noite. E o azul da noite seda qualquer coisa nela. A trilogia de Krzysztof Kieslowski diz que a Liberdade é azul. Na noite, a perda de Suzana é azul, e nesse momento, ela pode justapor-se a ela e dizer “está tudo blue”. Adentrar a utópica liberdade da cena. Respirar a queda do armário. Amanhã, Suzana põe toda a madeira para queimar. É lenha, não é armário.

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