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OLÍVIA, ULYSSES E AS MANGAS

Quando Ulysses disse para Olívia que ia embora, ela ficou, assim por dentro, tão feliz. Não demonstrou, é claro, isso para ele. Ao contrário, assustou-se, quase indignada. E essa demonstração não era mentirosa, afinal perguntava-se o que tinha dado nele para dizer isso dessa maneira. Ela não podia encher a boca e dizer: “Sou feliz”. Mas vivia bem, achava. Ontem mesmo foram ao cinema, comeram pipoca e ficaram um longo tempo conversando sobre o filme enquanto tomavam um café. Isso sem contar o fim de semana na praia, o sol aquecendo seus corpos em meio ao inverno que fazia na sombra. Ela quase sente de novo o quanto estava bom. De qualquer modo, volta a si e a seus questionamentos. Isso tudo não tem nexo. “Ulysses, isso não faz nenhum sentido”. Não cabe aqui dizer o que ele disse. Foram tantas palavras simples e definitivas que a Olívia coube responder “tchau” quando ele finalmente se encaminhou para a porta e disse um “eu vou – a gente se fala”. Agora, depois de um banho prolongado, ela resta dentro do roupão com os cabelos molhados. O que ela teria feito para despertar nele esse rompante? As palavras que ele disse, somadas, não disseram uma só que tivesse um significado para ela. Mas ela está, finalmente, livre. Isso tem significado. Não está dando pulos pela sala porque ainda está submetida ao arrasto do susto. Amanhã pulará. Tamborila os dedos no braço da poltrona onde ele sempre se sentava. Qualquer lugar na casa agora é dela e mais todo o resto. Livros, discos e os quadros. Todas as coisas de que ele gostava tanto. Arranjará outras coisas para gostar. Olívia tem certeza disso. E ela? Sente um formigamento nas pernas, algo que lhe impulsiona a buscar o celular e ligar para Ulysses. Que bobagem... Esperou anos para que ele tivesse essa atitude e agora vai ligar? Pedir para ele voltar? De jeito nenhum. Pensa nas atitudes que devem ser tomadas quando alguém quer fazer regime. Sentiu fome fora de hora? Tome água. É isso que ele deve fazer. Vai tomar uma taça de vinho e acabará esquecendo esse desejo infantil. É maio e o vinho vai combinar perfeitamente com o que ela vai preparar para comer. Campeia no armário algo que possa lhe servir. Ele ia ao mercado e acabou não indo... Isso, junto com tantas outras coisas, agora será com ela. Deixa o pensamento passar. Espia na fruteira duas mangas exalando cheiro que Ulysses tinha trazido para sobremesa. Quase escuta sua voz dizer que elas olharam para ele e pediram: Me leve! Ele ouvia o desejo das coisas e assim fez. Agora é com ela. Pega uma, descasca e corta em pedaços de bom tamanho. Amassa um dente de alho bem miudinho e doura na frigideira com um pouquinho de manteiga. Doura e refoga ligeiramente os pedaços da fruta. Na cozinha, desfruta da iguaria amanteigada. Sorve a vida entre os dedos. Polpa agridoce e quente. No mais, amanhã ela pensa e resolve. Provando a fruta assim, saboreia o inusitado da vida e sorri ao imaginar o que Ulysses diria da mistura. Ele ia gostar, está certa disso. Qualquer dia liga para ele e convida para jantar. Se ainda tiver a dúvida que tem agora, perguntará também porquê foi embora. E se ele se sentir à vontade, ele diz. Caso contrário, desfrutam a fruta. Para ela está tudo bem.

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