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AMY WINEHOUSE

AMY WINEHOUSE

É verão. Durante a noite a lua estará em seu quarto minguante no Atlântico Norte. Brilhará, ainda que a temperatura tenha caído. Talvez o vento sudoeste que flanasse a 8 km por hora fosse o suficiente para dar arranque nalgum moinho e talvez isso gerasse energia para alguém em algum lugar. Talvez folhas rodopiassem num canto qualquer fazendo com ele uma valsa, uma reza, um pedido. Talvez pequenos blocos de átomos se movimentassem num jogo de agregar e desagregar moléculas. Não importa. Fechando os olhos parece ser possível escutar um canto que vem da alma. Com todo o drama que pode haver em almas. Talvez fosse uma canção Soul, que ironicamente, significa alma. Um gênero de música que nasceu do rhythm and blues e do gospel durante o final de 1950 e início de 1960. Talvez. Não importa. Talvez tenha escolhido o gênero pela imensidão que ele carrega. E conjugou em si todo o desejo pulsante que flui com a melodia. Torvelinho de caos e dores. E fez isso em primeira pessoa. Nem era preciso ver para sentir. Bastava fechar os olhos e escutá-la. Escutar sua voz e letra. Voz e mensagem. A emotividade contida em meio aos ornamentos e aos improvisos. Surpresa e suspensão. Contágio. Musa e mulher. Diva de pés descalços sobre um tanto de angústia e apelo. Interpretação dramática e genuína que nascia de um viver com intensidade. Com excessos correlatos ou não. Um vivenciar de corpo inteiro. Como quem está no mundo e suplica a transposição e a transvaloração das coisas. De zero a 1000 em vinte e sete anos, se uma vida pode, de algum modo, ser medida desse modo ou de um modo qualquer. Não desejava medidas. Desejava a intensidade.  Em alta velocidade desenhou sua história para agora dar sua graça noutras paragens. Teria sentido desabrochar um desejo de inverter o estado das coisas?  Um sopro de sobrevida antes da palavra calar? Antes de a boca fechar? Ninguém saberá. Não bastasse a intensidade da interpretação, escrevia as letras das canções. Escrevia pungências. Tinha coisas para dizer e disse em meio ao vermelho sempre misturado. Sempre como pano de fundo. Até o final. Gostava muito da música Monkey Man, de Frederick Hibbert: . “Nunca vi você, só ouvi de você. Abraçando o grande homem macaco. É mentira sua, é mentira sua. Abraçando o grande homem macaco. Agora eu sei disso, agora eu compreendo. Abraçando o grande homem macaco. la la la, la la”. Cantava em quase todos os shows. Um gosto que talvez falasse dela. Um gosto permeado de estranhezas e com um tom muito familiar. Não importa. Cada olhar para ela desperta os mais diversos estranhamentos. Olhares diversos e, igualmente, de uma estranheza familiar. Não importa, ou pelo menos, não importa mais. A temperatura varia entre 16 e 18 graus.  O céu é nublado e a umidade está em 64%. A despeito da previsão de sol entre nuvens para o domingo, é sábado e ela morre dentro de seu quarto.

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