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DOIS DIAS PARA MARA

Mara está próxima de completar 40 anos e só consegue pensar em princípios de aerodinâmica e combustão. Liga para sua amiga toda afeita em pequenas magias e coisas transcendentais e diz: “Amiga, preciso de uma garrafada! Aquela de aloe vera e formol será que me adianta? Resolve meus problemas?” E a amiga se ri. E se riem juntas. Gisele lhe diz que tudo que ela precisa são dois dias. Sempre e para todas as coisas. Não tem quaisquaisquais. Iniciar um regime, cair na esbórnia, aceitar ou não uma proposta, sair de casa ou mudar de vida. De métodos. Isso principalmente. Dois dias de concentração nessa máxima e não vai ter aloe vera que faça páreo. Formol nem pensar, não é, Mara? Por acaso você deseja, aí bem no seu fundinho, estacionar esse estado de coisas ou qualquer outro? Gisele diz para ela deixar as coisas fluírem, que esse é o segredo. E mais os dois dias, claro. Mara talvez ache muito difícil a transição, o deslocamento. Certas vezes pega seu caderno de angústias, um caderno amarelo que ela comprou especialmente para isso. E escreve e escreve. No início, as palavras saem ajustadamente sem ajuste, mas com o decorrer do desabafo, ela percebe que toma cuidado ao usar as palavras e preocupa-se em não deixar fios soltos. Mas eles lá estão. Tem fio solto em tudo quanto é canto. Tem palavra que ela escreve feito aquelas redes usadas em circos para segurança dos trapezistas. Palavras rede. Mas Mara não percebe que então ela se aprisiona no conforto que certas palavras dão.  Nessas ocasiões ela vê abrir uma fresta no caderno e sente ir com pés e pernas e o corpo inteiro pelo vão. Fecha correndo o caderno. Enfia na gaveta e deixa que ele se esqueça dela. Vai para a praia e corre entrar na água. É quando ela bóia no mar e sente seu corpo mover-se com o ondular da água. Fecha os olhos porque tem desejo de fechá-los e ficar com as sensações ampliadas. Mas a água do mar tem correntes que ela desconhece e então pensa que seu corpo seguirá nesse fluxo. E fica em pé, sai do estado de alguma coisa por ela e retoma o controle. Isso a irrita profundamente, pois tudo fica em evidência quando está suspensa no mar, seja pela leveza do seu corpo, seja pela densidade da água. Até as palavras suspendem e vem uma mudez que a acalenta. Nessas ocasiões olha para as coisas e em tudo vê música e poesia que ela cala por dentro. Feito a borboleta que ela olha agora e que parece pétala, parece flor que dança com o vento. Uma espécie de harmonia entre a força que impulsiona as asas e um viver que é tão fugaz. Um estado de fenômeno que ela leva às últimas conseqüências. Pensa que é isso que Gisele quer dizer com os dois dias. Duas semanas para a borboleta. Dois dias para ela. Um tempo de intensidades antes da transformação de um estado. Antes do vôo que sucede um acúmulo de reservas. Mara sorri sua amizade com Gisele. As trocas, a que continuadamente se permitem. Entre outras coisas, constante metamorfose. Uma espécie de vôo que desloca as coisas de seus lugares e torna a elas depois. Feito vida.

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