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MARISA E AS PALAVRAS

Marisa é moça leitora, mas não leitora como os leitores de fato. Não lê também como os escritores, que dizem, precisam ler muito. Ela apenas ama as palavras e ama certas formas delas se encadearem. Pensa que algumas palavras têm ímãs para outras, e juntas formam coisas engraçadas. Coisas tristes. Coisas belas. Marisa acha que algumas palavras vêm dentro de uma espécie de saco quando as pessoas nascem. A bolsa estoura e caem o nenê e as palavras... Palavras de tantos tipos. De todos os tipos. De tipos que a gente nem imagina. Talvez nem todas sejam lembradas, mas Marisa acredita que ficam em algum lugar dentro de nós. Um lugar onde procuraremos sempre por elas sem jamais achar. Quais foram mesmo? Essas palavras, Marisa imagina que moram debaixo da pele. Entre a derme e a epiderme. Outras ficam em camadas mais profundas e por isso não se pode pinçá-las a qualquer hora. Diz que é preciso muito cuidado na busca por palavras entranhadas. Os pensamentos por vezes usam as palavras que estão nos subterrâneos. Eles emergem pela força propulsora delas. Marisa diz que são como foguetes disparados por controle remoto dos píncaros de algum lugar. Não se sabe o autor e nem o nome desse desconhecido que aperta o botão. Certos pensamentos vêm e pronto. Não dá tempo de evitar o disparo. Ela diz que é acidente. Simples assim. Por isso Marisa caminha sem parar. Sai de um lugar para ir a outro lugar. Não fossem os carros, ela nem pararia. Acha que certos carros são como os pensamentos. Vêm não sabe de onde e quando se percebe só dá tempo de ser acossado pelo susto. Por isso ela não lê. Ela apenas olha as coisas que estão escritas. Ama as palavras, seus duplos sentidos e os equívocos que se instauram quando fazemos uso delas. Ao passar os olhos por coisas escritas, de quando em quando algo lhe salta. Então ela aproveita o impulso e se desloca. Marisa gosta da palavra “desloca”. Uma palavra bonita que para a física, significa o deslocamento de um corpo, a variação de posição de um móvel dentro de uma trajetória determinada. A porção da trajetória pela qual o móvel se deslocou. E aí tudo muda para Marisa. Nos seus deslocamentos ela subverte a física da trajetória determinada e se ri. Diz que seus passos são, definitivamente, indeterminados e por isso tropeçam no tentar seguir seus pensamentos. Os pensamentos de Marisa voam e ela queria correr mais para voar com eles. Não pode. Lembra-se que eles são disparados pela força das palavras e então deixa que eles deslizem por ela sem tentar prendê-los. Sente o fluxo das idéias e segue. Dobra e desdobra sobre cada coisa. Às vezes estaca. Diz que estacar assusta o foguete dos pensamentos. Libera palavras subterrâneas da pressão de querer sair. Então estaca diante da folha que redemoinha num canto da calçada ou nos olhares que redemoinham seu olhar. Isso é quando ela se deixa capturar e fica muda. É quando ela mergulha em seus recuos. Marisa diz que nessas ocasiões tudo o mais se ausenta. Até o pensamento. E não tem carranca, trator nem alavanca que a faça falar.

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