Pular para o conteúdo principal

O VOO DE LÍDIA



                                                          ilustração: Marcelo Oliveira


O VOO DE LÍDIA

Lídia, que acaba de despachar suas malas na esteira da companhia aérea, pensa em Pedro e caminha para o café. Ela administra esse mundo que é tão seu. Nenhuma preocupação que risque seu rosto com linhas que não chegam antes do tempo certo. Sabe que há tempo para tudo. Até para as rugas. Tem o olhar de quem conhece essa afirmação e, nele, a paciência para tudo que ocorre a seu tempo.

Foi assim quando deixou de restar perfumada no balanço da rede. Levantou e saiu. Tem Pedro tão dentro dela. Talvez só ele saiba que ela, quando gorjeia, fica nua entre o choro e o riso. Talvez. E talvez, por sentir-se tão inteiramente nua, é que ela finge. Ela se esconde em tudo que veste. Até nas máscaras. Nas tantas que é. Quando canta e sua voz escorre, se vê deslizar por ladeiras, girar em saias e encontrar as águas. Caminhar rios inteiros e desaguar no mar. Sente na boca o sal se misturar ao doce. Lídia é salobra e tem correntes frias e quentes. Tem micro-organismos. Por isso sorri a vida que há nela.

Queria ver Pedro deslizar na água e terra que ela é. Ilha. Deslizar no lodo que há por baixo. Tão perto, observa os receios dele. Os receios que a sustentam e permitem que ela possa mentir tão assustadoramente. Às vezes, escuta a culpa espiá-la pela janela. Lídia não sente culpa nenhuma. Apenas desvela sua presença. Sua ronda. Um dia a culpa saiu da janela e bateu à sua porta. Lídia destrancou as chaves e a convidou para entrar. Ofereceu o aconchego da poltrona e apoio para os pés. Ofereceu café. Tornaram-se grandes amigas. Entende? Já Pedro vê e não vê. Nodoa. Ora atenta, ora pensa que esquece. Lídia sabe que certas coisas não se pode esquecer. Deixa-o olhar para ela e estar suspenso. Chama para sair. Ri. Chora. Mente. Sabe que enquanto houver sol ela sempre poderá deitar seu corpo na areia quente. Dourar e aquecer. Sente o sol metabolizar suas enzimas e turvar seu pensamento. Quanto à culpa, depois de tanto tempo de confidências no sofá regadas a café, deu um basta. A verdade é que está muito bem, obrigada. Se Pedro quer pairar nessa névoa absurda, que assim seja.

Ela prefere o sol. A claridade do sol. Sente seus raios atravessarem o escuro dos óculos e iluminarem as letras que moram nela. As letras de seu nome. Todas juntas demarcam o que disse a astróloga diante das cartas tantas espalhadas pela mesa: “Moça, você é uma contradição! Joga com os opostos em todas as instâncias da sua vida. E o melhor, você não acha isso ruim”. Lídia sorri o que dentro já sabe, mas deixa acontecer o efeito de uma afirmação externa que vem supercolar ao que já estava dentro. Adesivar-se à pele. Ela gosta do jogo.

Nasceu para estar diante da malemolência que permeia o sim e o não. Talvez não queira mesmo saber de nada definitivo. Diz que definitiva é a morte e enquanto ela viver quer o provisório, o que pode mudar sem hora marcada. O que pode assustar. Talvez por isso ela caminhe certa e incerta pelo saguão. Talvez por isso desvie e atravesse a porta que abre ao seu pisar para fumar um último cigarro antes do embarque. Talvez por isso ela acene para o táxi que passa vazio e entre sem dizer palavra. Sabe que precisa abrir espaço para as coisas. Abrir os pulmões para o ar e a fumaça. Dar sorte para o azar.











Postagens mais visitadas deste blog

AH O AMOR. O TAL AMOR... É MINHA LEI, MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bo…

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.