Pular para o conteúdo principal
ilustração: Marcelo Oliveira
O CANTAR DE ISAURA

Isaura está recostada na poltrona de tecido amarelado. Não sabe se é o esmaecido da cor ou se é a própria aura dela que amarelece ainda mais a cena. Ela se apercebe do palco onde atua. Atua? Olha os dedos que tamborilam no colo, nos braços da poltrona. Como se por dentro houvesse uma angústia a devastá-la. Pergunta-se o que poderia fazer para subtrair a dor que vê e sente e que paira sobre a sala, a cozinha ou o quarto. Há uma densidade indevassável que Isaura carrega com ela. Está nos olhos que espiam sua própria vida com rigidez. Uma espécie de dor que ela acalenta e arrasta. Compreende o quanto está misturada com o que vê e silencia. Queria plantar nela própria um desejo que a arrancasse desse lugar. Ver qual sintonia busca enquanto gira o dial da vida. Haverá algo capaz de calar o que fala em mim? Desde pequenina pergunta-se. Nem sabe como cultivou tantas questões e quando desistiu de responder. Desistiu? Há algo que a acalenta enquanto bóia nas dúvidas. Mas ela não vê. O estômago dói. A cabeça e as costas bem na altura da quarta vértebra. Outras vezes o braço, os dedos, as pernas. Diz querer o cheiro do encontro. A temperatura. O gosto que certas coisas têm. Até a dor. “Eu quero ser estreitada na parede que separa o sim do não”. Não ter tempo para a dúvida. Isaura quer, de vez, se situar diante do que fala e do que silencia. Do olhar que se dirige para ela e finca. “Quero que finque morada em mim. Sinta que sou áspera, sou dura, tenho espinhos e adoro rir”. Da poltrona onde está, olha o quadro na parede. Um pedaço de terra e água que ela conhece tão bem. Um lugar que é a soma de infinitas direções trazidas pelos ventos. Assim como a paixão que sentiu num dia tão distante. Pensa em tudo que andou e nos passos que não podem voltar. Pensa no chão esvaído. Nela mesma tão escorrida. Se pudesse levantar da poltrona deixaria para Jonas a exata medida de tudo que amou. Deixaria o disco que ela tanto gosta e todo o resto. Talvez, se ela fosse atriz de um certo filme, diria: “Jonas foi meu erro. Meu primeiro e grande erro”. Sabe que depois dele, todos os outros parecem menores. Justificam-se, ela diz. No entardecer da vida, o que sossobra é a brisa e tudo que vem com ela. A brisa e as canções. E por mais que Isaura tente compreender, quando da janela olha o mar e as ondas que rebentam em sua memória e lá mais na frente, é inevitável a constatação: não há como saber de todas as coisas. Não há como prever os acertos ou evitar os erros. Há apenas as coisas que tamborilam dentro de nós e criam fagulhas. Ela sabe que não pode lamentar o que não incendeia. Nem todas as coisas geram combustão. Mas pode evitar o medo do incêndio. Bem sabe, fechando ou abrindo os olhos, o que crepita. A brisa, ao seu tempo, mostra isso para Isaura e, matreira, faz seu olho piscar com uma fagulha qualquer que vem de um lugar qualquer. É talvez esse impulso que a faz deixar o amarelecido da poltrona, ir até a penteadeira e roçar de leve a cor do batom em seus lábios. Olha no espelho o rosto de alguma vida e os sonhos carmim que sempre encheram seu viver de graça. Cantarola uma música qualquer das tantas que habitam seu imaginário. Haja o que houver, canções colocam coisas no lugar.

Postagens mais visitadas deste blog

AH O AMOR. O TAL AMOR... É MINHA LEI, MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bo…

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.