quinta-feira, 19 de maio de 2011

ilustração: Marcelo Oliveira
O CANTAR DE ISAURA

Isaura está recostada na poltrona de tecido amarelado. Não sabe se é o esmaecido da cor ou se é a própria aura dela que amarelece ainda mais a cena. Ela se apercebe do palco onde atua. Atua? Olha os dedos que tamborilam no colo, nos braços da poltrona. Como se por dentro houvesse uma angústia a devastá-la. Pergunta-se o que poderia fazer para subtrair a dor que vê e sente e que paira sobre a sala, a cozinha ou o quarto. Há uma densidade indevassável que Isaura carrega com ela. Está nos olhos que espiam sua própria vida com rigidez. Uma espécie de dor que ela acalenta e arrasta. Compreende o quanto está misturada com o que vê e silencia. Queria plantar nela própria um desejo que a arrancasse desse lugar. Ver qual sintonia busca enquanto gira o dial da vida. Haverá algo capaz de calar o que fala em mim? Desde pequenina pergunta-se. Nem sabe como cultivou tantas questões e quando desistiu de responder. Desistiu? Há algo que a acalenta enquanto bóia nas dúvidas. Mas ela não vê. O estômago dói. A cabeça e as costas bem na altura da quarta vértebra. Outras vezes o braço, os dedos, as pernas. Diz querer o cheiro do encontro. A temperatura. O gosto que certas coisas têm. Até a dor. “Eu quero ser estreitada na parede que separa o sim do não”. Não ter tempo para a dúvida. Isaura quer, de vez, se situar diante do que fala e do que silencia. Do olhar que se dirige para ela e finca. “Quero que finque morada em mim. Sinta que sou áspera, sou dura, tenho espinhos e adoro rir”. Da poltrona onde está, olha o quadro na parede. Um pedaço de terra e água que ela conhece tão bem. Um lugar que é a soma de infinitas direções trazidas pelos ventos. Assim como a paixão que sentiu num dia tão distante. Pensa em tudo que andou e nos passos que não podem voltar. Pensa no chão esvaído. Nela mesma tão escorrida. Se pudesse levantar da poltrona deixaria para Jonas a exata medida de tudo que amou. Deixaria o disco que ela tanto gosta e todo o resto. Talvez, se ela fosse atriz de um certo filme, diria: “Jonas foi meu erro. Meu primeiro e grande erro”. Sabe que depois dele, todos os outros parecem menores. Justificam-se, ela diz. No entardecer da vida, o que sossobra é a brisa e tudo que vem com ela. A brisa e as canções. E por mais que Isaura tente compreender, quando da janela olha o mar e as ondas que rebentam em sua memória e lá mais na frente, é inevitável a constatação: não há como saber de todas as coisas. Não há como prever os acertos ou evitar os erros. Há apenas as coisas que tamborilam dentro de nós e criam fagulhas. Ela sabe que não pode lamentar o que não incendeia. Nem todas as coisas geram combustão. Mas pode evitar o medo do incêndio. Bem sabe, fechando ou abrindo os olhos, o que crepita. A brisa, ao seu tempo, mostra isso para Isaura e, matreira, faz seu olho piscar com uma fagulha qualquer que vem de um lugar qualquer. É talvez esse impulso que a faz deixar o amarelecido da poltrona, ir até a penteadeira e roçar de leve a cor do batom em seus lábios. Olha no espelho o rosto de alguma vida e os sonhos carmim que sempre encheram seu viver de graça. Cantarola uma música qualquer das tantas que habitam seu imaginário. Haja o que houver, canções colocam coisas no lugar.

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