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ilustração: Fábio Abreu

MARIA TEREZA

Ela se espanta e não ao abrir a porta do 102. Pede, entre delicadeza e ordem, que os pés sejam limpos no capacho antigo. A limpeza do apartamento é feita uma vez por semana e é preciso conservar limpo. Conservar o que se quer guardar. A limpeza. O conforto do que se tem. Recebe as pessoas na sala de alguns móveis. Tudo ali parece ter uma história. O antigo do lustre aponta que há possibilidade de luz. As janelas semi-serradas denotam um conforto que vem do esconder o externo. Meu lar é meu castelo. Maria Tereza é rainha em vida. Não sei de onde sinto a intimidade. Algo que me convida e incita a estar ali. Ouvir cada uma das histórias que ela tem para contar e me deixar contagiar por um ânimo que profundamente desejo. Ter perto de 80 anos e viver um vigor que sinto de apenas olhá-la. Penso na história de seu nome. Todas as letras fincadas no dia do nascimento. O signo. O ascendente. Tudo sobre a vida que paira na sala de alguns móveis e tanta história. Há algo em mim que se desabilita. Quem sou frente à mulher de nome, idade e signo? Leão. Ela diz que é leonina e procura um amor para restar nos dias. Que não importa o gênio que tenha. Quer sua companhia e há de domá-lo. Queria dar o homem para ela. Criá-lo em minha imaginação, cheio de amor e desejo de amar, e inscrevê-lo repentinamente na vida de Maria Tereza. Na vida repleta desse desejo”. Caminha a mostrar o imóvel. As marcas de si nas fotos de família. A mãe com a qual ela parece. “Sou muito parecida com mamãe. Eu, que tudo perscruto com os olhos e com o desejo, vejo em cada coisa a mulher. Em cada mínimo canto. Esquadrinho uma idéia da fome e da vontade dela e do que pode haver depois da porta do refrigerador. O desejo do café com bolo de laranja é meu ou dela? Como me serviria um copo de água se eu pedisse? Como afagaria meus cabelos se eu deitasse a cabeça em seu colo? Afagaria? O tempo espreme a todos dentro da sala e ela não quer que ninguém se vá. Talvez trocasse todo o seu desejo por continuar a nos contar uma história enredada na outra. Uma história só. Uma colcha de retalhos estendida sobre a cama. Talvez quiséssemos todos restar ali a ouvir as histórias coladas umas nas outras, histórias cheias de ar a fazer respirar todos nós. Maria Tereza pega o caderninho pequeno de espiral. Que guarda ali? Anota nossos nomes e pede os sobrenomes. Escreve nossos nomes numa das folhas com a doçura e firmeza da sua letra, e o joga sobre o sofá. Restaremos ali. Com esse papel na vida dela. De um momento. Da rua, o canto do olho rabisca para mim sua figura na janela. Qualquer coisa que se estreita entre o que pode e o que não pode ser, e o que será. Tenho saudade de algo que já não é, e sem ter sido, apenas é. É e paira. Ela está lá. Eu estou aqui. E mesmo que Maria Tereza pudesse propiciar meus sonhos e eu os dela, ainda assim seríamos tão outras e tão as mesmas. O canto do olho desolha e sigo sem olhar para trás. Acarinho a curiosidade de tornar os olhos para ela ou para a janela sem ela. Já a tenho dentro junto de tantas outras ideias. Abraço e me aninho em seu colo, Terê.



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