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ilustração: Marcelo Oliveira

O OLHAR DE ISABEL

Isabel olha as coisas à sua volta. De dentro do barco, observa a imagem do horizonte que se debruça sobre o seu olhar. Olha do verbo fitar com os olhos. Mira, encara, contempla, sonda. O dicionário diz, e não erra, que olhar é também “tomar em consideração”, ocupar-se de alguma coisa. É exatamente isso que ela faz a cada encontro com o que paira. Tanto se ocupa que se perde. É que Isabel mergulha naquilo que olha. Vai às profundezas. Emerge e lembra do olhar de peixe morto, sem expressão qualquer ou o olhar de vaca laçada com todo o susto dentro. Tudo aquilo que ela olha em profundidade, ela guarda. Seja um ponto estratégico, uma criança, ovelhas. Ela guarda. Conserva. Não revela nem oculta. Gosta de guardar. E acha que até calar-se é guardar o silêncio. Elocubra sob o olhar da poesia e sobre o que ela guarda em seu olhar para o mundo. Para as coisas. E vela e é por elas. Segue guardando o horizonte que gira ante o balanço das águas. Se deixa estar no balanço para conectar-se ao que não é estável. Ao que flutua. Lembra de Zac balançando a rede para ela. Lembra do desejo do vôo e do peso da gravidade prendendo seu corpo ao chão. Prendendo a rede ao chão. Deixou-se balançar nessa interface que não é real e não é sonho. Pensa que o nome disso é ilusão voluntária. E que quando uma ilusão voluntária coincide com a ilusão voluntária de outra pessoa, passa a ser sonho. “Sonho que fatalmente viraria pesadelo”. Então não é a gravidade que prende coisas e pessoas ao chão. É o medo. Tenta organizar a sua memória. Lembrar das ações de Zac em ordem alfabética. Das ações onde ele aparece apenas e tão somente como resultado delas. É por isso que Isabel sorve toda a ausência que sente. Deixa-se estar nela. Aconchega-se em seus braços. Sabe que ele vai contentar-se com cartões postais e ela mesma deseja que seja assim. Só uma sobreposição de imagens. Ela sabe da mala pronta e todos os dias a vê no canto do quarto. Está ali como lembrança de que sempre poderá viajar e conhecer lugares novos. Pessoas novas. Sabe que entre o descuido e a premeditação, tem o desejo. Se o aparente erotismo de Zac mancha o branco da sua camiseta ela aproveita e desfila. Isabel é mulher de tentativa e erro. Mulher que aprende fazendo e vai rasgando acasos e estruturas. Até as mais flexíveis. Diz que o que está estruturado serve de apoio para o vôo. Afinal, tudo não passa de um complexo de relações entre o que constitui o indivíduo e o que está ao redor dele. Nas relações que circundam esse processo. No dinamismo. No mais tudo que pode haver entre eles tem só e só um significado potencial. O ofício de Isabel é ser ela mesma. Usar a máscara número 1. Por isso segue sustentando-se naquilo que vê. Naquilo que cria. Porque isso gera condições de suportar todo o limitado que ela reconhece. Por isso brinca. Por isso ama. Afinal, se pegar o telefone e discar o número dele, o que lhe restará? Escutar a surpresa? O susto? Isabel é mulher de ação e sabe que não quer nada disso. Nada. Ela não é cachorra. É sonsa. Tão sonsa que não avisa o momento da mordida. Morde apenas. É da sua natureza e ela não pode e nem quer evitar. Isso tudo parece perfeitamente razoável entre as garfadas que dá e o colorido que resta no branco do prato.


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