quinta-feira, 23 de junho de 2011

CLARA (MENTE) INVERTIDA

Clara está de ponta cabeça no meio da sala. No meio da novela, e nem era propaganda, ela saltou do sofá e foi para esse lugar. O meio do tapete da sala. Achou cabalística a idéia. Posicionou-se para tentar a “invertida”, uma posição da yoga em que se fica de ponta-cabeça. Ela pode não assumir, mas eu sei qual foi a cena que detonou esse arranque. O beijo que tirou seu ar. Natural ela querer fazer a invertida. Oxigenar o cérebro e pegar mais ar para respirar. Não bastasse isso, amanhã precisa estar linda porque Vítor e o resto do pessoal do escritório virão para jantar. Ela adora juntar os amigos e fazer festa, mas queria era puxar Vítor para dentro do banheiro e ficar lá com ele até a festa dos dois acabar. Dado que isto está fora de questão, fica para ela a boa e velha possibilidade de estampar a cara de paisagem. Está tão acostumada a manter o protetor de tela ligado que não sabe ainda como não queimou. Anda já soltando fumaça. Invertida como está, o ideal é que abstraia. Tente pensar apenas na sua respiração ritmada e buscar e desenvolver determinação, tolerância, disciplina, entre outros. Mas ao invés disso, pensa: “Qual o quê? Como posso esquecer que meu único desejo é que ele me arraste para um lugar qualquer e me dê ar?”. Invertida ou não, o celular está ao seu lado e ela liga para Soraia. Precisa desabafar. “Sim, amiga. Preciso urgentemente de uma respiração boca a boca, sabe? Estou tentando me catequizar com a estória de que posições da yoga dão força à coluna vertebral e respondem por manter a saúde do ser humano. Saúde! Garanto a você que se ele me beijar eu saro. Sim, é verdade que também posso ficar doente de vez. Eu sei que a respiração e as posições agem diretamente sobre a produção hormonal. Eu sei que me acalmaria caso eu pudesse me concentrar. Mas como se ele está em tudo que eu vejo?”. O jantar acontece. Clara está tão oxigenada que até sua pele tem outro viço. Vitor nota, diz que está bonita. Ela sorri um obrigada. Sorri obrigada. Queria pular no colo dele. Dar um vexame. Beijá-lo até que ele ficasse sem ar. Ele e todos na sala, não é? Súbito uma idéia. Esparrama o saco de cerejas em cima da mesa e elas vão caindo no chão. Não sabe como, todos vão tentando desviar e nesse tentar vão caindo. Menos ela e Vitor. Não entende o frisson de todos desabando entre cerejas. É bizarro. Estranhamente, como se o tempo congelasse, ela e Vitor estão absurdamente atracados pelo olhar. E todos atados ao chão e às cerejas. Isso não está acontecendo. Só pode ser resultado do exercício. As inversões proporcionam ao praticante mudança radical na sua forma de ver as coisas. De estar no mundo. Afinal, ver tudo de pernas para o ar desbaratina a pessoa! A percepção visual se altera e dizem os manuais que pode até promover maior tolerância e adaptabilidade às mudanças. Deve ser isso que acontece agora com ela. Isso tudo é efeito da invertida. Lembra quando começou as aulas. A dificuldade que tinha. Agora, só consegue escutar as risadas e o cata-cata das cerejas. Nem percebe quem lhe mete uma delas na boca e volta ao chão para pegar as outras. Estoura a fruta dentro da boca sem tirar os olhos de Vítor que não tira os olhos dela. Fruto sumarento essa paixão que os dois têm e que se revela numa noite de risos, suposições e cerejas.

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