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O DESCONFIAR DE ANA

Ana, apesar de não ser mineira, é moça muito desconfiada. Sobe os degraus da escada e desconfia estar atrasada. Em meio à correria não sabe se registrou corretamente o horário. Teria marcado três ou três e meia? De qualquer modo, segue seu passo. Caminha. Em algumas horas saberá. Desconfia que não trancou a porta ao sair e que, como se isso não bastasse, esqueceu de colocar água na vasilha de Peni. Peni é o apelido de sua cachorrinha, Penicilina. Escolheu esse nome porque a substância é curativa e Ana precisava curar-se. De quê? Ela desconfia que de “mal de amor”. Natural então essa atitude. As penicilinas constituem uma das mais importantes classes de antibióticos e são amplamente utilizadas no tratamento clínico de infecções causadas por diversas bactérias. E se Dr. Alexander Fleming, em 1928, tivesse conhecido Ana, certamente estudaria a moça em laboratório. Exatamente como fez com variantes de estafilococos, observando que a cultura de um tipo de fungo, Penicillium notatum, produzia uma substância que inibia o crescimento bacteriano. Ana desconfiou que descoberta de tamanha monta era uma razão perfeita para uma homenagem póstuma. Mais de 80 anos depois. E que homenagem melhor do que nomear sua cachorrinha? Afinal, na ocasião, desconfiou severamente que Peni havia de curar seus males. Pergunta-se se o amor pode ser considerado uma bactéria. Desconfia que sim, embora, com o decorrer do tempo, tenha percebido que isso só não seria suficiente. Sabe muito bem que certas dores de amor, assim como as bactérias, são muito resistentes. Mas tudo bem. Como ficou comprovado com a penicilina, soube que seriam necessárias alterações na estrutura química inicial diante da emergência de bactérias resistentes, assim como a necessidade de ampliação do seu espectro de ação antibacteriano. Fácil. Assim é a vida, coisas resistem e coisas capitulam. Como as bactérias. E Ana, que desconfiou de tudo isso, correu atrás de alterações necessárias. Desconfia que está tendo bons resultados, embora não consiga dormir nos braços da certeza. Pensa o que Dr. Fleming diria disso. Do amor como bactéria serííssima a ser tratada com a sua descoberta. Agora conhecida como a boa e velha penicilina. De qualquer modo, olhando desse ponto vista, digamos, científico, ela desconfia que tudo é como alguém lhe falou um dia: uma questão de sobrevivência. E assim é se lhe parece, diria Pirandello. Além do mais, ela desconfia também que alguém lhe disse que as “as coisas não são o que são, mas o que representam para nós”. Então desconfia que tudo ficará bem. Se não pode ter certeza das coisas todas que a rodeiam, desconfia que Peni a ama profundamente. Desconfia disso, sobretudo, pelo seu olhar e sabedoria cã. Ao lhe interpelarem “Será o Benedito que você não consegue ter certeza de nada?” ela responde desconfiando estar certa: Desconfiar é melhor que saber. Afinal, a realidade tem limites, a imaginação não. Realmente, desconfia de maneira muito séria, que lá em 1928, Dr. Fleming não tinha certeza não da magnitude de sua descoberta. Talvez tenha desconfiado apenas. Desconfiado tão assustadoramente, que chegou a ter certeza da desconfiança. Então pisou fundo e foi. Como Ana.

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