sexta-feira, 9 de junho de 2017

ADÁLIA E QUASAR



Crônica Publicada no caderno ANEXO do Jornal A Notícia em 02 de julho de 2009.
Quando os dois se esbarraram por acaso no meio da calçada, ele se surpreendeu quando ela disparou: “Posso cheirar você?”. Diante do silêncio ela se aproximou, tocou uma de suas mãos e se elevou. Então cheirou atrás da orelha, o pescoço e o rosto. Respirou o agridoce. Um cheiro que entrou pelo alto da cavidade nasal e disparou sinais. Então ele a afastou. (uma vida toda dentro). Estavam no meio da calçada, do dióxido de carbono e da falta de oxigênio. Ela quis ficar, mas ele segurou seu braço, e seus olhos bem dentro dos dele e a impediu. Refletida no gesto ela soltou sem despregar os olhos dos dele e foi embora sem olhar para trás. Ele, dentro do seu próprio cheiro e do que dela havia se misturado, ficou ali preso no momento. No rastro dela, nada, nem nenhum caminho que ele pudesse seguir. Então ficou. Ainda hoje, ao passar naquela rua se pode ver o homem. Estátua de pedra e cheiro. Dizem que ela mora ali mesmo por perto, mas não deseja ser reconhecida. Durante a noite, enquanto a rua ainda dorme, ela aparece para cheirá-lo. Chega perto, ronda a figura de pedra e delonga-se. Então toca uma de suas mãos, se eleva e cheira. Faz isso tão profundamente que os contornos dele começam a se definir, e os batimentos cardíacos lentamente a voltar. Então eles se olham e se entregam ao momento. Um mora no outro. Depois, mais uma vez ele segura seu braço e seus olhos dentro dos dele. Uma firmeza que ela não sabe de onde vem. Então mais uma vez ela se solta e vai embora (uma vida toda dentro). E ele torna pedra uma vez mais. É assim quase todas as noites. Dizem. O povo diz muita coisa. Mas ao passar por ali senti eu mesma um perfume no ar. Sim, era agridoce.

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