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GAVETA



ilustração de Estevão Teuber para o livro BRICOLAGES para GELADEIRA, publicado em 2006.

GAVETA

vasculho a gaveta do apartamento da rua boa vista
o fio retorcido envolve a lâmpada
quem sabe aquele que iluminou um dia escuro na praia
depois que fizemos amor à luz de velas
um resto de fio para varal - aquele que te pedi
lembro das roupas que ainda esperam por ele
pregos, parafusos, tomadas, restos das reformas do pequeno 
apartamento da rua Padre Anchieta, da casa
do Parque São Lucas
se confundem com o pó de madeira
chaves, cadeados
o chaveiro que ganhei quando fiz dezoito anos
as moedas da escultura que ainda esculpo mentalmente - um resto
de veda rosca
não pode conter esse fluxo -
duas luvas esquerdas, restos de fita isolante colados em
pedaços de papel
sacos plásticos, extensões
tento soltar, desfazer nós
mal posso distinguir os restos de nossa vida amalgamada.

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o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
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quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.