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DESAMBIGUAR




Eu gosto de misturar palavras. Fazer frases com elas e depois misturar estas frases: afirmativas, negativas, exclamativas! Adoro lançar perguntas e criar enigmas. Acho que isso é uma forma de ser perversa. De fazer sacanagem com as palavras. Isso sem contar o que faço depois: lavo, torço, encero, faço bola de meia e às vezes, chuto para pensar em outras palavras. Me sinto volúvel nessas ocasiões. Por vezes também sou sucateira: eu reivento. Coloco de molho no amaciante. Eu nino algumas palavras e deve ser por isso que um amigo me disse que elas ganham magia. Seja como for, depois disso tudo eu levo palavras e frases para roda de samba e faço batucada com elas. Elas dançam nas misturas que faço e vão criando ideias novas, ideias subversivas, ideias que me deixam arrepiada. Então eu corro para o espelho e as proclamo em voz alta. Se fazem sentido para mim ao escutar, elas sobrevivem. É sinal que envelheceram no carvalho, criaram vincos, sulcos e adjacências; caso contrário eu as demito absolutamente. Eu deleto. Deletar é um verbo que extermina ações passadas, boas ou más. Por isso o verbo deletar pode parecer deletério. Mas talvez não. Se sou ou não cigana, a mudança mora em mim. O transitório mora em mim. E é por isso que não quero nem anel de diamante, nem nada: eu quero a dança do uirapuru. Um pássaro com plumagem em tons de terracota que vive em florestas úmidas. O som de seu canto enquanto constroi o ninho para atrair uma fêmea, parece com flauta ou violino (depende de quem ouve), e dizem, pasmem, que levar consigo o uirapuru empalhado traz sorte na vida e no amor, e que por isso o mesmo se encontra ameaçado de extinção. Se faz de um tudo por amor... É nesse embalo musical e dançante de seu bater de asas que o pássaro conquista suas parceiras e transforma a floresta em cena de romance. Isso tudo é DNA perfeitamente  compatível comigo. O desassossego e a inconstância me fazem múltipla e mesmo que minha preguiça continue praticamente inviolável, pelo que pode haver de permeabilidade nela, eu acato o que avassala, o que está inacabado e pede exploração. O amor que sinto, por erro ou ambiguidade, tem diferentes significados. Por ser assim, de certo modo, homônimo, apresenta aspectos muito distintos de serem explorados. Eu quis explorar isso. Explorá-lo. Segundo o dicionário eu quis “Desambiguar”; que significa que se uma parte dele é muito mais conhecida ou muito mais importante que outra ou que a soma de outras partes, tem de haver um caminho específico para esse entendimento. Eu resolvi fazer essa desambiguação com o amor que sinto. Estou pesquisando, mas nada de conclusivo. Está ótimo. Como diz Lenine: “eu gosto é do inacabado, do imperfeito...”. Eu gosto é do processo. E como já se disse uma vez, das rugas, meu amor, das rugas.

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debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

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como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
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quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.