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CONVERSAS DE BOTECO





O casal que cozinha junto abre portas para as coisas. Ao ouvir isso na mesa ao lado da sua, Alex, que anda meio “assim” com Júlia, resolve experimentar. Telefona pra mulher e diz de sopetão: vamos fazer uma comidinha hoje? Ela quer dizer não. Anda tão cansada. Mas o inusitado se impõe. Ela então diz: tá; vamos. E é assim que Júlia e Alex certa noite resolvem preparar uma salada de polvo e camarão. Onde começa isso pode variar. Pode ser quando se compra o polvo. Pode ser que começe com a ideia de fazer algo juntos ou pelo inusitado do convite do próprio marido. Porque recorda um prato que comeram. Um lugar onde estiveram, ou simplesmente porque passam a gostar da ideia de inventar algo juntos. E aí dizem. Ou ele diz. Ou é ela quem diz: Vamos fazer uma salada com camarão e polvo? Igual aquela que comemos no Nordeste? Continuam. Tem toda uma dinâmica envolvida. Pode ser bem trabalhoso. Ou não, como diria o amado Caetano. Como se prepara um polvo? Ela pergunta. Vão para internet. Pesquisam. E aí vem o segredo, começam a improvisar. De improviso em improviso vão conversando, ela conta uma estória. Serve vinho para os dois. Ele lembra e recorda uma viagem que fizeram. Alex e Júlia improvisam o estarem juntos. A sensação do “assim assim” vai diluindo. Improvisam no preparo do polvo. A receita é só um guia. Manda mais a lembrança do que viram e o entendimento vai surgindo. Como algo primitivo. Vai vindo à tona conforme você caminha. E seguem os processos. Lavar as folhas da salada. Deixá-las de molho. Lavar o manjericão e sentir o cheiro dele enquanto é manipulado. O cheiro que também fica nas mãos. Cortar os tomatinhos cereja. Essa parte ele inventa, já modificando a receita que experimentaram antes (para melhor, muito melhor!). Temperar o camarão. Separar. Aí vem o polvo. 
E a surpresa de achar um minúsculo peixinho embaraçado nele. Deve ficar de molho em água com vinagre por uns 15 minutos, que é para soltar qualquer vestígio de areia. Depois o enigma: Batê-lo ou não contra a tábua para tirar de vez qualquer vestígio de areia. Uns dizem quem sim, outros que não. Na dúvida, bateram. Depois cozinhar num caldo aromatizado. Uns 25 minutos dependendo do tamanho. É nesse momento que ele olha pra ela e diz. Temos 25 minutos. Sorriem quase surpresos. 25 minutos. Correm para o quarto. Vão arrancando peça por peça de roupa e se atiram embaixo das cobertas. Seguem-se abraços e beijos que se esquentam. E o polvo lá na cozinha. Ele esquenta também. Polvo na panela. Dinamite é polvo cozinhando ali no quarto. Tentáculos pra todo lado. Uns tantos minutos depois ela pergunta brejeira: E então, quanto tempo o polvo ainda tem? Riem. E lá vai ele atrás do bicho lá na panela. Escorre. Corta em pedacinhos. Monta meticulosamente a salada. Entrelaça as folhas de cada espécie. Joga os tomatinhos por cima. Joga os camarõezinhos por cima. Os pedacinhos do polvo. Azeite de oliva. Pouquinho de sal. Sentam. Olham aquilo tudo. Uma garfada, outra. Uma delícia. Cada um na sua boca sente o sabor e a dureza do camarão. Do polvo. Sentem sua textura. Entreolham. 25 minutos. Perfeito para eles. O polvo? Ela diz: Passou um pouco do ponto. Ele sorri matreiro. Nem pensa na conversa que ouviu na mesa.

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