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O MUNDO DE RAMIRO - texto publicado no Jornal A Notícia em 03 de dezembro de 2009

O MUNDO DE RAMIRO



Maria da Cota Nascimento esperou pelo homem que amava por anos a fio. Quando, no rigoroso de um inverno sem precedentes ele chegou, não o viu propriamente. Alucinou. Viu a figura incomum de um homem montado num cavalo malhado. Quase um os dois. Ela teve certeza do amor assim que olhou nos olhos dele. Em seguida abaixou olhos. Ramiro, homem de resoluções e poucas palavras foi logo dizendo: Sobe moça que não sou homem de ficar esperando. Cota, que sequer o tinha visto antes, sentiu nascer. Sentiu mesmo a volúpia e o intenso de passar pelo estreito de um canal e aparecer num outro lugar. Lágrimas desceram de seus olhos. Ele emendou: Moça não venha com dengos e me dê logo sua mão. Era tão miudinha diante da imagem dele que julgou não conseguir esse feito. Ele iria sem ela. Isso era um fato. Titubeou. Mas braço e mão dele se impuseram diante do receio dela. Ele a puxou para cima de um só golpe. E Cotinha ficou no alto, presa e prenda de um herói a mais de três metros do chão. O homem cavalgou por três dias. Sem palavras. Nas paradas que fizeram ele nada disse. Quando decidia apear para passar a noite, parava o cavalo sem mais dizer, colocava Maria no chão e ia tratar de fazer fogo para passarem a noite. Assim que as labaredas começavam a chispar deitava o agudo do corpo e já era um sono que ela não ousava sequer se mexer. A moça sequer suspirava. Sequer dormia. Quando ele acordava sem falar palavra, juntava suas coisas e montava no cavalo, ela já embaixo pronta esperava pelo braço. No quarto dia chegaram a Tucksland, um povoado no meio de um lugar qualquer. Maria viu uma quantidade inimaginável de água apoçada num dos cantos do vilarejo e bem diante de seus pés e seus olhos, pequenos morros d’água rebentavam e desmanchavam em espuma. Esse é o mar, ele disse. O lugar tinha talvez umas 20 pessoas. Homens e Mulheres. Trabalhavam todos em tarefas diversas. Extraiam água, separavam alimentos, folhas, teciam e forravam cestos com aquilo que parecia a colheita. Ramiro foi até um grande galpão coberto de palha. Maria o seguiu e ao seu silêncio. No galpão ele ateou fogo em alguns galhos, cortou com precisão a peça de carne sobre um tabuleiro, salgou e embrulhou em folhas. Colocou sobre o fogareiro. Num movimento chegou tão perto de Maria que a moça estremeceu sem sair do lugar. Sentiu o ar quente que veio junto com ele e o grave do cheiro. Olhou o homem. Aqui eu cozinho. Tomou-a pelas mãos e seguiram para outro galpão. Aqui eu durmo. E se foi do povoado sem mais dizer. Ela ficou ali, no mundo e no calor das palavras curtas e definitivas dele. Refrescou-se numa tina com água que lá estava e sorriu quando um cachorro aproximou-se balançando o rabo e fazendo chistes. Chamou-o de Dipsy. Ramiro voltou depois de alguns meses de um silêncio sem ele. No galpão tomou-a nos braços e fez nela um filho. Partiu mais uma vez. O menino cresceu dentro dela nas conversas que tinha com ele enquanto alisava a barriga. Contou para o menino como era seu mundo antes de Ramiro chegar. E contou quando ele chegou e com raras palavras a levou. Maria da Cota Nascimento agora é mãe de um filho de Ramiro e vai mostrar para o menino o mar e a cozinha do mundo do pai. O cavalo e o povoado assistem. Dipsy balança o rabo. 

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