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CÓDIGOS

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 30 de julho de 2009.

Esses dias eu me lembrei de uma brincadeira que a gente fazia lá em casa quando éramos crianças. Minha mãe ensinou pra gente. Chamava-se “Língua do P”, e consistia em separar as sílabas de todas as palavras que você queria dizer e inserir na frente o “P”. Então, se você queria dizer “pega um chocolate pra mim”, dizia: P-vo P-cê P-pe, P-ga, P-um, P-cho, P-co, P-la, P-te, P-praP-mim? Era muito legal falar essa língua e a gente sempre “sacaneava” alguém com isso. E também era uma brincadeira nossa. A gente falava e nem importava se entendessem ou não, era uma brincadeira da minha mãe com a gente. E era muito bom. Depois, com a pré-adolescência, inventamos muitas outras. Tinha uma tão complicada que nem me lembro pra contar agora! Que pena! Mas lembro que escrevia coisas no meu diário com essa língua! E quando eu repassava as coisas que tinha escrito, tinha que eu mesma, ficar decifrando o que tinha escrito! Lembro de outra muito boa: a Língua do Geregsten. Essa consistia em soletrar todas as letras de cada palavra que se queria na frase, utilizando o “geregsten” depois de todas as consoantes, por exemplo, “N-geregsten, P-geregsten; e para as vogais usar a norma: agrafe para A, egrefe para E, igrife para I, ogrofe para O e ugrufe para U. Então, a frase do chocolate ficava assim: VgeregstenOgrofeCgeregstenEgrefe PgeregstenegrefeGgeregstenAgrafe UgrufiMregstem CgeregstenHgeregstemOgrofiCgeregstemOgrofoLgeregstenAgrafeTgeregstemEgrefe PgeregstenRgeregstenAgrafi MgeregstenIgrifiMgeregstem?
Imagina isso leitor! Uma loucura... Mas pensando com os olhos de agora vejo que aquilo era tão bom! Veja, essa língua do “P” dava pra gente uma intimidade muito grande com o ato de separar as sílabas, (rápido, naturalmente, porque não tinha graça falar gaguejando) e ainda enfiar um “P” na frente de todas as sílabas. Essa do Geregsten nos dava uma intimidade enorme com o ato de soletrar! Olha que domínio era cobrado para desempenhar essa fala! Um baita treino pro cérebro, não é? Acho que sim, agora ao menos, eu vejo com esses olhos. E me dá uma alegria imensa lembrar disso tantos anos depois (treinei tanto o cérebro com essas línguas que esqueci de aprender a fazer as contas de quanto tempo isso faz!). Bobagem. Mas acho de fato “um grande barato” essa história, essa cumplicidade que tínhamos. E a minha mãe estava sempre metida na brincadeira e também falava a língua do “Geregsten”. Acho que ela virava criança junto com a gente. Fomos crianças felizes. Ela e nós no mundo do “Geregsten” e do “P”. E também da mímica. Brincadeiras simples que nos uniam em torno do mundo encantado da não-palavra e do ato de comunicar-se de um modo diferente. Pensar que hoje em dia falamos um português tão claro e o ser humano às vezes ainda não se entende... Quem sabe é preciso subverter, não é? Tentar talvez falar uma língua estranha, ou por mímica para fazer valer o que “não sai” no português correto!

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