sexta-feira, 9 de outubro de 2009

DOIDA OU SANTA?




Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 08 de outubro de 2009.

Maria Angélica, que já completou 40 anos há algum tempo, sentada diante de um espelho, fica parodiando Adélia Prado. De tanto ler o poema já nem precisa mais do livro apoiado sobre suas pernas. Mas ele lá está. Olha mansamente a imagem instalada, invertida. Respira e diz o trecho do poema: “Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa”. Pensa no que Adélia teria pensado ao escrever aquilo. Em quem teria se inspirado? De todo modo é uma temática semelhante à que sente agora diante do espelho. Uma inquietação. Um desassossego diante da vida que se apresenta na mais absoluta impermanência. Sabe lá em que situação imagina o amor a arrebatá-la e ela mesma suspensa pela vida que não para. E ela envelhece enquanto pensa. E envelhecendo é arrebatada pelas dúvidas que não a habitavam antes. Pensa de que maneira poderá sucumbir ao amor que sente se não é mais jovem. Olha o livro sobre suas pernas. Não precisa dele, mas de algum modo quer subtrair a energia das palavras ali estampadas. Tem tudo dentro. Mas quer. Pensa de novo na poeta, nas palavras. Olha o desenho das letras. Inspira e repete: “De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?” No meio da idade quer definições. Sorri achando isso o retrato da adolescência. Sorri o caminho que andou até onde está. Todo ele. Com tudo que houve no meio. Sorri por tudo que há mais à frente e ela não conhece. Mas conhece outras coisas. Sabe que se quiser colocar toda essa impermanência à prova, terá que se deixar devastar por tudo o mais que vier junto com isso. Será doida. Se ao contrário, preferir evitar desilusões, optará pela abstenção. Será santa. Haverá algo no meio disso? Maria Angélica olha o sorriso no espelho. Olha o livro mais uma vez. Lê e declama num tom que não é outro senão a sua impermanência, a de Adélia, de Cristina, Luciana e outras.
“Uma noite de lua pálida e gerânios ele viria com boca e mãos incríveis tocar flauta no jardim. Estou no começo do meu desespero e só vejo dois caminhos: ou viro doida ou santa. Eu que rejeito e exprobo o que não for natal como sangue e veias descubro que estou chorando todo dia, os cabelos entristecidos, a pele assaltada de indecisão. Quando ele vier, porque é certo que vem, de que modo vou chegar ao balcão sem juventude? A lua, os gerânios e ele serão os mesmos - só a mulher entre as coisas envelhece. De que modo vou abrir a janela, se não for doida? Como a fecharei, se não for santa?”
Pensa: Não sou doida nem sou santa. Sou poeta. Não há condições de não abrir a janela, escancarar a porta. Beijar quando ele me beijar. Sou assim mesmo exagerada, delirante, apaixonada. Fecha o livro e sorri mais uma vez. Adélia é porreta. E eu? Ora, sou por um triz a cada instante. Sou Maria Angélica. Filha de Augusto e Izabel. Mãe de Guilherme. Se quiser falar comigo, experimente bater na janela. Veremos como se resolve essa equação.

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