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S.O.S. RIO CACHOEIRA

Crônica publicada no Jornal A Notícia de Joinville em 01 de outubro de 2009.

Sábado último, depois de voltar do Mercado Municipal com friozinho e chuvisco intermitente, no aconchego de casa dormi um soninho gostoso e sonhei. Sonhei com a capivara que tínhamos visto na margem do Cachoeira e que tanto nos impressionou; ela não era sobrevivente em meio a um esgoto a céu aberto; era sim habitante de um rio despoluído que cortava a cidade, margeado por calçadões, decks, árvores e jardins. Uma Cidade-Parque, onde natureza e seres humanos conviviam em harmonia. Andava sozinha e por vezes em pequenos bandos. Os filhotes a se engraçar na mata ciliar. E lá na parte de trás do mercado, onde os carros se juntam, era um outro espaço voltado para o rio vivo, para o desfrute. Mesinhas espalhadas e convívio. Muita gente ali, joinvilenses e turistas. E falando em esgoto e gente, dois conjuntos de banheiros, masculino e feminino, lá estavam para os usuários. Uma beleza, leitor! Banheiro limpo, papel higiênico, sabão líquido nas saboneteiras e papel para enxugar as mãos. O básico e elementar, não é? Mas no meu sonho eles estavam lá. Eu passeava por todos os espaços; o comércio de verduras, legumes, grãos e afins, que ocupava o térreo, era de uma beleza fotográfica. Lá se encontravam donos de restaurantes e cozinheiros de plantão buscando de um tudo. E tinha. A seção de pescados e carnes era de um movimento sem igual. Em cima, num novo mezanino construído sobre parte da área interna, a banda de chorinho encantava mais frequentadores, e dois ou três botecos serviam iguarias de tirar o ar. Gente falando alto, cheiro de vidas misturadas; uma atração. No espaço externo, no lado que faz face para a Beira Rio, muitas mesas ocupadas ao livre, nas sombras das árvores e também ao sol, o espaço repleto de gentes e gentes escutando rock, MPB e no outro palco, teatro, dança, poesia, estórias, performances e outras atrações. Nem havia espaço no estacionamento... Mas para quê, não é? As pessoas vinham mesmo caminhando pela Beira Rio e desfrutando o sábado na cidade-parque. Aliás, lá onde ficam as figueiras que na vida real um dia foram objeto de dúvida, elas lá estavam. Pois não é que decidiram mantê-las e criaram uma alternativa para a questão dos bueiros e tubulações? Fizeram contenções naquele trecho e tudo ficou bem? De modo que o calçadão estava repleto de pessoas caminhando no trecho “Alameda” da Beira Rio. Um orgulho da cidade. Em bancos espaçados alguns sentavam, tomavam picolé e ficavam a namorar a vida. Uns faziam cooper, outros passeavam de mãos dadas e alguns da caminhada já esticavam para uma comprinha no mercado, um instantinho de música, papo e encontro com amigos e mais desfrute, olhar o rio de perto, e as capivaras. Mostrar aos filhos o rio que passava sem gritar sua dor, sua falta de oxigênio, seu terrível odor, e contar como era bem o oposto há um tempo atrás. Agora as mesas repletas, o rio vivo e capivaras, garças e até o famoso jacaré desfrutavam. Vez por outra passava algum barquinho. Espiavam o movimento do mercado e seguiam... Foi então que comecei a escutar algo, como uma espécie de uivo, que foi ficando mais perto e eu percebi que era choro. Capivaras choravam as mazelas humanas, o rio chorava detritos, poluentes químicos e emanava um odor pútrido. As pessoas choravam. Choravam Joinville que chorava seu rio que chorava oxigênio que chorava descaso. Acordei incomodada com o úmido do travesseiro. Foi um sonho leitor. Era eu que chorava. Enxuguei o molhado do rosto e sentei para escrever esse texto. Alguns de vocês certamente sonham como eu. Vamos fazer virar verdade? Quem se habilita?

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