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ADÁLIA E QUASAR

ADÁLIA E QUASAR

Crônica Publicada no caderno ANEXO do Jornal A Notícia em 02 de julho de 2009.


“Posso cheirar você?” Foi exatamente essa a pergunta que ela fez ao homem que amava. Aquela pergunta, ao se esbarrarem por acaso no meio da rua o deixou qualquer coisa entre estupefato e vibrante (ele desejava imensamente a mulher), e surpreendeu-se. Sem que ele respondesse ela se aproximou, tocou uma das mãos dele com a sua, se apoiou e cheirou. Cheirou profundamente. Atrás da orelha, o pescoço e o rosto. Respirou o cheiro. O agridoce. Eles não se comunicavam mesmo. Não sabiam usar a linguagem verbal quando se encontravam e então silenciavam. “falar o que?” Não havia nada para ser falado. O “posso cheirar você” dava conta do que havia para ser entendido. Embevecida diante do cheiro que sentiu ela buscou seus arquivos. “Parece que há uma espécie de teto no alto na cavidade nasal que responde por essa questão do “cheiro” humano. Os resultados ainda são conflitantes... mas... de todo modo, seus genes disseram sim ao conteúdo do cheiro. Os sinais olfatórios e as respostas desencadeadas por eles eram as pistas mais evidentes de que ela estava no caminho. De que aquele era o único caminho. Se olharam demoradamente quando ele a afastou (uma vida toda dentro). Estavam no meio da calçada, do dióxido de carbono e da falta de oxigênio. Ela quis mais uma vez se amalgamar ao cheiro, mas ele segurou seu braço, segurou seus olhos bem dentro dos dele. Ali refletida ela devolveu o olhar, soltou-se do braço sem despregar os olhos dos dele, virou-se e começou a caminhar, sem sequer olhar para trás. Ele, dentro do seu próprio cheiro e do que dela havia se misturado, ficou ali preso no momento. Cheirou profundamente o “em volta”. No rastro, nada nem nenhum caminho que ele pudesse seguir. E dentro do cheiro e da ausência ali permaneceu de modo irremediável. Ainda hoje, ao passar naquela rua se pode ver o homem ali. Estátua de pedra e cheiro. Dizem que a mulher mora ali mesmo por perto, mas não deseja ser reconhecida. Durante a noite, enquanto muitos ainda dormem, ela aparece para cheirá-lo. Chega perto, ronda a figura de pedra e delonga-se. Então toca uma de suas mãos, se apóia e o cheira profundamente como daquela vez. Faz isso tão profundamente que os contornos dele começam a se definir, e os batimentos cardíacos lentamente a voltar. Então eles se olham e se entregam ao momento. Um mora dentro do outro. Ela se vê refletida em seu olhar e de novo tenta conter o desejo de cheirá-lo, de entranhar-se à ele. Mas não é possível: mais uma vez ele segura seu braço e seus olhos bem dentro dos olhos dele. Uma firmeza que ela não sabe de onde vem. Então mais uma vez ela se solta do braço que a prende e vai embora (uma vida toda dentro). E ele torna pedra uma vez mais. É assim todas as noites. Dizem. O povo diz muita coisa. Mas ao passar por ali (sim leitor, eu fui conferir!) senti eu mesma um perfume no ar. Um odor de vida e morte. Um odor misturado. É o que posso dizer. Um cheiro de vidas amalgamadas.

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