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Sobre Quintana, o amor e o espiar-se.

crônica publicada no caderno ANEXO do Jornal A Notícia em 25 de junho de 2009.

Depois de encerrar a novela com Rubens da Cunha aqui e vivenciar por quatro semanas as intermitências de Iara e Tiago, continuo com vontade de falar de amor. E daí pensei em Mario Quintana. Um amigo me emprestou um livrinho dele. Um livrinho de bolso, perfeito pra carregar na bolsa. Vou socializar esse ato. Eu sabia de Quintana e tinha na cabeça: “Sonhar é acordar para dentro”. Despertar para o inconsciente. E também: "Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei. O amor é quando a gente mora um no outro." Essa última frase era a que eu sabia na ponta da língua. E isso já me era tão lindo. Comecei a percorrer o livrinho. Quantas minúcias e delicadezas!
Considerado o poeta das coisas simples e com um estilo marcado pela ironia, profundidade e perfeição técnica, foi antes um pensador com muitas idéias que estão sintetizadas em seus poemas. Fui pesquisar e achei uma fala sua: “ Minha vida está nos meus poemas, meus poemas são eu mesmo, nunca escrevi uma vírgula que não fosse uma confissão” Dizia também: “Poesia é insatisfação, um anseio de auto-superação”.
Impossível não pensar a nós mesmos diante de tal confissão. Acho que é isso que acontece quando lemos poemas: nos colocamos diante de nós mesmos e entre esse olhar - como um buraco de fechadura – nos enxergamos como se nos espiássemos a nós mesmos.
Folhear Quintana me trouxe isso: o espiar-me através das confissões do poeta e o desencadear de coisas que foram se sucedendo desde que tomei o livrinho em minhas mãos. Achei, por exemplo, uma carta dele a um jovem poeta em que ele diz coisas como: “Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o fariam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo dirá”. E o mais encantador – ele dizia que sonhava escrever um poema “que fosse como um fruto sumarento, cujo sumo escorresse pelos cantos da boca antes que a pessoa compreendesse seu sentido”. Feito certos tipos de amor. Feito o “efeito” dos poemas do livrinho dele. Então, querido leitor, espie-se e seja você mesmo do outro lado da porta. Arrisque um novo olhar. Um novo livro. E páginas e páginas irão se desdobrar diante dos seus olhos. E olhares e olhares diante da sua vida. E termino, como não poderia fazer diferente, deixando um pouco do Quintana aqui, através de seu poema “auto-retrato”, onde se pode sentir a feitura do poema entrelaçada à feitura de si e da criação de algo que funciona como um “espelho” para quem lê, tocando nossa inconstância e nos pedindo eterna reconstrução. No retrato dele, vemos a nós mesmos diante disso tudo: da dificuldade e da beleza de “se revelar”.


No retrato que me faço
– traço a traço –
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore...

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança...
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão...

E, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança...
Corrigido por um louco

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