terça-feira, 3 de novembro de 2009

EDUARDA

Crônica publicada no Jornal A NOTÍCA de Joinville em 29 de outubro de 2009.

Eduarda precisa de férias. Há meses vem notando fragilidades. Outro dia achou a chave do carro na lavanderia. O telefone celular esquece na bolsa. Pois se não toca ela até esquece que tem. Eduarda não esquece que não toca e então esquece que tem. O celular que não toca. A academia que não está indo. As duas consultas finais com o dentista que não arranja tempo para marcar. O marido que trabalha como máquina. Quando chega em casa ele desliga. Eduarda e o marido estão precisando de férias. Quando começam a perguntar quem tirou de não sei aonde o não sei o quê, já o sinal amarelo está aceso e o diabo é que não percebem o ringue instalado bem no meio da sala. Eduarda, mulher à beira de um enguiço, pensa se isso é justo com ela. Fica se amarrando com as roupas para lavar, a comida para fazer, o seminário de geopolítica que deve apresentar e essa maldita lâmpada que não ilumina nada. Essa lâmpada não ilumina nada! ela diz. Ano que vem vou passar um mês na Bahia, ah vou. Correr tanto pra quê? Amanhã tenho uma crise de pânico, um lapso na memória, esqueço até meu próprio nome e daí quero ver. Arnaldo tendo que me convencer o tempo todo que ele é o meu marido. Dizendo: olha querida, a foto do dias em que nos casamos. Aí quero ver ele desligar quando chega em casa. Vai ter que ficar na tomada o tempo inteiro! Porque eu, Ah, Luzia, eu é que vou estar desligada! Logo bate na boca. Pensa, não posso reclamar, ai, não posso. Tenho uma vida tão boa. E se eu tivesse que todos os dias ir para sessões de hemodiálise? Se eu fosse cega? Ai meu Deus! Nessas ocasiões se enche de vigor e então prossegue. Fica nessa dependência esquizofrênica e agradece. Obrigada, Senhor. Obrigada. Mas o diabo é que não há permanência nenhuma nisso. Mas será o Benedito? Eduarda, que é assim assim com as coisas do céu tem lá sua predileção pelo santo. E às vezes canta: “Não freqüento missa, novena, confissão, mal faço o sinal da cruz, não ando em procissão. Nas coisas do céu eu muito pouco acredito, mas gosto, gosto, de São Benedito. Mas gosto, ah, como eu gosto, do meu São Benedito”. E então se enche de uma paz que quase não reconhece. 

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