Pular para o conteúdo principal

EDUARDA

Crônica publicada no Jornal A NOTÍCA de Joinville em 29 de outubro de 2009.

Eduarda precisa de férias. Há meses vem notando fragilidades. Outro dia achou a chave do carro na lavanderia. O telefone celular esquece na bolsa. Pois se não toca ela até esquece que tem. Eduarda não esquece que não toca e então esquece que tem. O celular que não toca. A academia que não está indo. As duas consultas finais com o dentista que não arranja tempo para marcar. O marido que trabalha como máquina. Quando chega em casa ele desliga. Eduarda e o marido estão precisando de férias. Quando começam a perguntar quem tirou de não sei aonde o não sei o quê, já o sinal amarelo está aceso e o diabo é que não percebem o ringue instalado bem no meio da sala. Eduarda, mulher à beira de um enguiço, pensa se isso é justo com ela. Fica se amarrando com as roupas para lavar, a comida para fazer, o seminário de geopolítica que deve apresentar e essa maldita lâmpada que não ilumina nada. Essa lâmpada não ilumina nada! ela diz. Ano que vem vou passar um mês na Bahia, ah vou. Correr tanto pra quê? Amanhã tenho uma crise de pânico, um lapso na memória, esqueço até meu próprio nome e daí quero ver. Arnaldo tendo que me convencer o tempo todo que ele é o meu marido. Dizendo: olha querida, a foto do dias em que nos casamos. Aí quero ver ele desligar quando chega em casa. Vai ter que ficar na tomada o tempo inteiro! Porque eu, Ah, Luzia, eu é que vou estar desligada! Logo bate na boca. Pensa, não posso reclamar, ai, não posso. Tenho uma vida tão boa. E se eu tivesse que todos os dias ir para sessões de hemodiálise? Se eu fosse cega? Ai meu Deus! Nessas ocasiões se enche de vigor e então prossegue. Fica nessa dependência esquizofrênica e agradece. Obrigada, Senhor. Obrigada. Mas o diabo é que não há permanência nenhuma nisso. Mas será o Benedito? Eduarda, que é assim assim com as coisas do céu tem lá sua predileção pelo santo. E às vezes canta: “Não freqüento missa, novena, confissão, mal faço o sinal da cruz, não ando em procissão. Nas coisas do céu eu muito pouco acredito, mas gosto, gosto, de São Benedito. Mas gosto, ah, como eu gosto, do meu São Benedito”. E então se enche de uma paz que quase não reconhece. 

Postagens mais visitadas deste blog

AH O AMOR. O TAL AMOR... É MINHA LEI, MINHA QUESTÃO ;)

Como minha avó, eu poderia dizer que amor é quando, juntos, se come um saco de sal; ou quando de um limão, se faz uma limonada. (mas com ou sem açúcar? ); eu mesma poderia dizer que amor é quando se faz um poema. quando se faz uma canção... quando se canta uma canção, pode ser amor. 
Quintana diz: “O amor é quando a gente mora um no outro”. Danilo Caymmi pergunta “O que é o amor? Onde vai dar? Parece não ter fim. Uma canção cheia de mar que bateu forte em mim”. 

Há quem diga que amor é tirar da própria boca para alimentar alguém, fazer o bem sem olhar a quem. (mas o que é o bem, não é? sabe lá.) Amar é discórdia; e Lacan aponta: “Amor é dar o que não se tem a quem não é”. Acho lindo (achar lindo acho que é amor).

 Eu amo.Tu amas. Nós amamos. Vós amais. Eles amam. Você ama. É a força do verbo. Alguns dizem que amar é jamais ter que pedir perdão. Outros que amar é sofrer. É rir junto e então olhar dentro do olho do outro, e rir mais ainda. Amar é conviver. Morrer. Ceder. Calar. Passar a bo…

MOVIMENTOS EM SI MAIOR ou TOCA RAUL

debaixo de MOVIMENTOS EM SI MAIOR  (diz a lenda  que si maior pode ser uma escala estranha, incômoda e cheia de sustenidos... ),anoiteço.

o que nubla em mim, transparece em meu cristalino. isso é algo que achei bonito mas é também a descrição da catarata. 
como o sangue é rio que irriga a carne, definir é para quando se pode e do jeito que é possível - são afirmações que capturo enquanto permaneço não essencial - tão somente unidade de informação e multiplicação e enquanto, jardim e orvalho, sorrio o doce-amargo de um hiato.
ainda assim, sou de fato objeto da seleção natural. composição molecular e desejo. misto de carbono e água. resultado da oscilação de taxas hormonais. vertigem nos braços de um homem. poção de acasos e paisagem equatorial. fenômeno imprevisto e desintegração. uma nota de perfume depois da passada. o início, o fim e o meio.

quer saber? toca Raul :)

OUTONIAS DE AMOR EM PROSA

sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.