sexta-feira, 5 de novembro de 2010

VOZES DO ORIENTE



Clotilde Zingali, de Joinville.

Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que estranha, um transbordar que é excesso e é falta. Um não se reconhecer. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses de certa descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Que a falta de “consciência prática” do lugar que o coloca, digamos “meio perdido”, pode ser a mãe dessa boa descarga hormonal. E por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário ao modo ocidental de se olhar para as coisas. Ele cita que lá tudo escapa ao estrangeiro: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. Eu já fico a imaginar que tudo que lhe falta também o arrebata. O mistério, leitor. O tal mistério das coisas. Vejam que coisa interessante Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está atrás. E por isso "hou tian" (literalmente "atrás dia") significa o dia depois de amanhã.” O passado está à sua frente porque você consegue vê-lo. Sobre o futuro: "O futuro está atrás de você. Não se pode ver o que o futuro reserva." Achei empolgante. Muda tudo, não é? Isso é algo que escapa quando se é estrangeiro na China. Também quando um chinês vem parar no ocidente. Mas é algo que vou juntar aos meus hábitos a partir de agora. Guardar junto com aquele exercício que faço de quando em quando: fechar os olhos e tentar fazer algumas coisas do dia a dia lá em casa. Tatear o desconhecido. Distanciar-me da maneira habitual que tenho de pensar as coisas. De fazer as coisas. O interessante de distanciar-se de algo é o ângulo que se cria e de onde passamos a ver a mesma coisa de outro jeito. É rico esse movimento, pois podemos distanciar um passinho, 3 ou 4 metros, 89 metros. 350 quilômetros. De cada um desses pontos a coisa olhada já não é mais a mesma. E o melhor: nem você é. Para escrever essa crônica, eu fiz uma viagem até Xangai. Experimentei o ameno da temperatura, a fumaça no ar que deixa o fog londrino tão suave! Experimentei o mormaço. Os exageros e a estranheza. Me vi a buscar referências ocidentais onde eu pudesse me escorar. Nada. Via espetos de carne e pensava em cachorros. No café da manhã, o gafanhoto ocupava o lugar do pãozinho. Mas quando pensei no homem, naquele que habita esse espaço tão estrangeiro ao meu olhar de agora, acho que me teletransportei. Sei que o dedo dele sangra como o meu quando há um corte. Mas o como ele e eu experimentamos a dor é o que nos diferencia. Como ele e eu olhamos a alegria. O passado, o presente e o futuro. No mais, são hábitos. Tivesse eu nascido lá, não seria estrangeira. Para mim, que “não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”, isso é muito significativo. Depois de saber desse olhar sobre o passado, que está em frente a mim e por isso posso vê-lo, aquele filminho que alguns dizem ver numa experiência de “quase morte” começa a rodar nesta minha doida experiência de vida. A minha vida misturada a tantas vidas. Me dá uma paz carnavalesca. Olho para ela com doçura. É o que posso ver, afinal. O futuro, esse fugaz cavalheiro que insiste em causar estranheza, vejo se dissipar. Partícula em cima de partícula. Está muito claro. Ele está atrás de mim e não posso vê-lo. Sei lá porquê, mas isso não me causa nenhum estranhamento. Estou na China, afinal. Uma espécie de exílio onde uma onda de pertencimento me invade. Eu pertenço, ainda que estrangeira.

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