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AMIZADE


Quando minha cachorrinha me leva para passear, eu vou. Às vezes sou eu quem pega a coleira e acena para ela a possibilidade. Mas normalmente é ela quem começa a sassaricar e fazer barulhinhos. Estaca diante da porta e fica esperando que eu me movimente. Se eu não vejo, ela me chama, corre para a porta, estaca lá de novo. Então eu vou. Pego dois sacos de lixo e coloco na bolsinha que uso para passear com ela. Um kit de passeio que ela já conhece, pois se pego a bolsinha ou sacola de lixo ela já fica toda serelepe! Aliás, dia desses alguém me parou na rua para dizer: Se todos fizessem como você e carregassem um saquinho quando saem com seus cachorros... Pois é, leitor. Pois é. Não esqueçam os saquinhos!!!! (E quiçá apareçam brevemente saquinhos biodegradáveis!). Depois desses passos básicos coloco a coleirinha nela, mas é ela quem me leva. Sempre opta por descer e subir pela escada. Sinto que não gosta de elevador. Eu também não. Descemos e já conheço seus movimentos. A porta por onde prefere sair, o local onde espera para que eu abra o portão e o pulinho certeiro que ela dá para a calçada. Aí começa o desbravar dos matinhos e canteiros. Não passa ileso um metro quadrado que ela não perscrute. E assim vamos. Algumas vezes ela me faz caminhar mais rápido: parece afoita no seu descortinar. Em outras, caminha tão serena que sou eu a sentir o passo de maneira diversa, a descobrir coisas que ainda não havia visto. Lembro quando pensei que poderia ser enfadonho “ter” que sair com ela sem estar com vontade.... Qual o quê! Meu esmorecer mais arraigado vira pó diante dos apelos dela e tudo que quero é atendê-la. E vou. Já aí estou passeando. Já aí estou totalmente “na dela” e curtindo cada detalhe do passeio. Na escada, ela desce uma sequência de degraus e me olha. São cinco olhadelas que me encantam! Quando pula na calçada olha de novo. Esquerda ou direita? Deixo para ela a decisão já que estou sendo levada. Ela vai me guiando e eu vou descortinando. Nos último mês passou por uma cirurgia (nunca mais mãezinha). Mudei a rotina então. Descemos e subimos de elevador e sua caminhada e gestos foram diversos. Ela não entendia, mas se sabia diferente. Me sabia cheia de cuidados. Andamos um trecho curto e ela parou. Não dava para prosseguir. Aguardei um pouco e tentei voltar. Nada. Foi com cumplicidade sem igual que ela, normalmente um pouco arisca a colos, aceitou o meu e se deixou levar de volta para casa. Dois dias de molho. Sem passeio para nós até que a rotina fosse lentamente retornando. Uma apelando para a vontade da outra. Final de semana passado ela já corria desatinada pelo quintal da praia. Passou. Sentada em sua almofada ela agora me olha. Meu marido diz que não entende o olhar prolongado que ela me dá. Pensa no que ela quer dizer. Eu nem sei. Mas sempre acho que seus olhares pedem passeio, comida e água. As alegrias da sua vidinha cã. Mas sabe lá o que pensa um cachorro? Bem, se eu for por aí vou dar nó nos “nervos”, pois sabe lá o que é pensar! Pelo critério de pensamento como capacidade de conceituar e abstrair o mundo que nos rodeia, fazendo uso da linguagem, só o homem é capaz de pensar. Mas se a gente enveredar pelos caminhos da linguagem... os tipos de linguagem... sabe lá. De fato, a gente sabe que o cão tem sido o melhor amigo do homem já há muito tempo. E a amizade, bem, esta a gente sabe que se constrói sobre a base de compreensão mútua e companheirismo. Condicionamento? Pode ser. Mas se formos por aí, seres humanos também podem ser condicionados.... Afinal, tem gente que só na hora da foto escancara um sorriso. Quem sabe atrás do clique tem alguém mostrando um ossinho....

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