quinta-feira, 25 de maio de 2017

SOBRE SER ESTRANGEIRO ;)



Fotografia: Clô Zingali
Na China ou em qualquer lugar, estrangeiro dificilmente deixa de ser estrangeiro. Fica sempre no ar um jeito que não é, um modo que se estranha, um transbordar de excesso e falta. Luis Esnal, correspondente do La Nación em São Paulo, em seu texto sobre “Estar na China”, coloca as benesses da descarga de adrenalina por conta desse estranhamento. Da “consciência prática” de estar nesse lugar; e diz que por isso o estrangeiro fica na China. Mesmo sendo tudo tão avesso e arbitrário.  Mesmo com tudo que escapa: os gestos, os silêncios, os tempos, as evasivas, os olhares. 

Mesmo sem sair daqui, penso que tudo que falta de algum modo também arrebata. Luis diz: “Para nós o futuro está na frente, certo? Pois, para eles está atrás. E por isso "hou tian" (literalmente "atrás dia") significa o dia depois de amanhã.” O passado está à sua frente porque você consegue vê-lo. Sobre o futuro: "O futuro está atrás de você. Não se pode ver o que o futuro reserva". Gostei de olhar para as coisas assim. É bom distanciar-se da maneira habitual de pensar as coisas. De fazer as coisas. Mudar o ângulo. É rico esse movimento, pode-se distanciar um passinho, 3 ou 4 metros, 89 metros. 350 quilômetros. De cada um desses pontos a coisa olhada já não é mais a mesma. E o melhor: nem você é. 

Para escrever esse texto, eu fiz uma viagem até Xangai. Experimentei o ameno da temperatura, a fumaça no ar que deixa o fog londrino desconcertado! Experimentei o mormaço. Os exageros e a estranheza. Me vi a buscar referências ocidentais onde eu pudesse me escorar. Nada. Via espetos de carne e pensava em cachorros. No café da manhã, o gafanhoto ocupava o lugar do pãozinho. Mas quando pensei no homem, naquele que habita esse espaço tão estrangeiro ao meu olhar de agora, me teletransportei. Sei que o dedo dele sangra como o meu quando há um corte. Mas o como ele e eu experimentamos a dor é o que nos diferencia. Como ele e eu olhamos a alegria. O passado, o presente e o futuro. No mais, são hábitos. Tivesse eu nascido lá, não seria estrangeira. 

Eu que “não sei de nada, mas desconfio de muita coisa”, acho isso muito significativo. Depois de experimentar ver o passado na minha frente e não atrás como de costume, sinto uma paz carnavalesca. Olho para ele com doçura. É o que posso ver, afinal. O futuro, esse fugaz cavalheiro que insiste em causar estranheza, vejo se dissipar. Partícula sobre partícula. Está muito claro. Ele está atrás de mim e não posso vê-lo. Isso é bom e sei lá porquê, isso não me causa nenhum estranhamento. Estou na China, afinal. Uma espécie de exílio onde uma onda de pertencimento me invade. E nada me faria mudar isso.

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