quinta-feira, 8 de julho de 2010

POEMA NA CIDADE

POEMA NA CIDADE

Caminho pela cidade. Entre o monóxido de carbono e as jardineiras espalhadas estou eu e todas as pessoas que caminham. Ora apresso o passo e ora me perco. Olho a bolsa na vitrine. O cachorro que cheira cada milímetro da calçada. Eu caminho entre a multidão. Parte que vai. Parte que vem. Sou figura e sou fundo. Consciente e inconsciente. Destaco-me da multidão ou misturo-me a ela. Anônima. Entre o lixo e o luxo. O cheiro de urina pelas ruas e mamões, bananas, laranjas e feirantes que gritam. Apelam-me ou ignoram-me. Coleciono pedaços de papel até a próxima lixeira: cartomantes, dinheiro vivo, promoção de produtos para limpeza, como tornar meus dentes mais brancos em 5 dias e cursos que podem salvar minha vida e me dar um lugar no mundo. A mim que, ora leitosa e fluida e ora revestida de couraças, sigo pelas ruas. Se me destaco, sou figura; se me diluo, sou fundo. Para quem? Quem sou eu na rua em que passo, atravesso, detenho-me e suspendo ante o passante e o cachorro? A senhora de bengala ou o carro que atravessa em alta velocidade? Meu perfume fica para alguém? Outros perfumes ficam em mim. Do homem que passa com o cigarro. Do mendigo que carrega sua trouxa-casa. Da moça que passa mordendo uma coxinha. Do frango da coxinha misturado ao perfume dela. Eu vou. Eles vão. Cada um segue seu caminho. Acomoda seu passo ao da multidão apressada e em alguns momentos, altera o fluxo dessa mesma multidão. Alguém com bengala e certa dificuldade de passar por obstáculos tantos muda o ritmo do passo e o fluxo do pensar. E eu vou sendo em cada coisa que me detenho e que detém a mim. Cada poça. As folhas sobre o desenho do piso. As ondas lá do mar que estão sob meus pés. A cor dos carros que passam em alta velocidade. Nasci aqui. Eu faço parte daqui. De tudo que me cruza e arrebata. De tudo que não me nota e me permite ser ninguém. Não há nome nem sobrenome. Há apenas a sobrevivência. O conseguir, entre o ir e o vir, voltar para a casca que nos define e separa. Nos faz alguém? E ainda assim tem sempre o fundo que varia e faz emergir a figura de outro jeito. Nomeia o alguém. Ou a coisa. Todas as coisas. O moço de chapéu tomando um café. As senhoras esperando a sessão de cinema. A maquiagem. A livraria repleta de desejos estampados em páginas para alguém folhear. O caixa onde se paga por esse desejo e depois esquecer isso nas letras que formam palavras. Formam ideias das coisas. A ideia das coisas é o que destaca quem se esbarra ou não. Até aqueles que se vestem iguais. Cada um é único debaixo das cascas. É figura que se vê ou não. É fundo que se vê ou não. Eu? Nem sei o que mais desejo senão me reconhecer assim. Nua e coberta de cascas. Todos os poros recobertos da fuligem, da brisa ou da falta dela, dos papéis que me estendem e eu pego. Cada um quer um lugar. Ocupa um lugar que depende da força que se imprime nesse querer e do espaço que os outros cedem. E assim alternam-se os espaços do que é fundo. Do que é figura. Do que é estar vivo ou morto. Do que é estar aqui. Consciente ou não. No visgo do olho, no respirar os momentos ou morder a fruta exposta num tabuleiro em meio à calçada. Indo ou vindo. Vivendo e latejando. Como diz o poeta Caio Meira, “O poema está à vista. Ao alcance da mão. Transbordando no bueiro”.

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