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ZEITGEBERS OU fatores de arrasto

ZEITGEBERS  ou fatores de arrasto

O livro “Você Quer o Que Deseja?” de Jorge Forbes, questiona se queremos mesmo aquilo que desejamos. Faz atentar para o desejo de nos sustentar no enorme vazio que o mundo globalizado abre em nós e como podemos entender e enfrentar problemas como violência, uso indiscriminado de drogas, depressão, e tanta coisa a que estamos submetidos e que nos arrasta. Ao repetir e escutar a pergunta que ele faz me vi pensando sobre a profundidade dela. Passei a pensar mais propriamente se eu queria “de fato”, coisas que eu dizia desejar. Deparei com coisas inerentes às perguntas que eu me fazia: dúvidas, tomada de decião e escolhas. O significado das escolhas e a relação mais imediata: Renúncias! Sim, porque é como falou um alagoano a quem perguntamos sobre o caminho para determinado lugar: “Vocês seguem reto até encontrarem uma bifurcação. Quando lá chegarem, deixem a direita e peguem a esquerda”. Seguimos rindo da expressão “deixar a direita”, mas o fato é que nunca esquecemos a profundidade escondida na frase. Para pegar um caminho, leitor, é preciso “deixar” outro. E isso é que nem rapadura: É doce, mas não é mole não! Gera um estresse danado a visão da “perda de algo”. De algo que muitas vezes, não se tem. E tanta coisa pode ocorrer! Inclusive lutar para perseguir o desejo e logo após obtê-lo, desinteressar-se dele. O que aponta para a árdua visão de que nada possa ser suficiente na satisfação dos desejos. Porque seremos eternamente seres desejantes, sempre à procura do que é naquilo ou naquele que não é. Um eterno “furo” que nos configura e mantém. A expectativa de realização do desejo e não sua satisfação. Talvez daí venha a beleza da poesia. Reconhecemos o furo na imagem poética, na invenção do alheia que aponta para outro desejo: de inventar. De inventar-se. Re-inventar-se. Jorge Forbes toca nisso em seu livro: nessa possível “não-evitação de contato” do artista com a decisão. O artista talvez não a evite. Ao contrário: busca atravessar a fronteira, busca estar ali, bem no meio da bifurcação. Não evita a decisão ou a dor que decorre dela, mas instala-se lá. Na nevralgia. Lá onde os músculos se estendem e ultrapassam seu potencial de estiramento. No vivenciar o “arrebentar-se” inventa novas tensões. Altera a física, a química e a mecânica. Altera as possibilidades. É aí que pensei e fiz uma analogia com uma coisa que achei danada de bonita: zeitgebers sociais. Zeitgebers são fatores externos ao relógio de natureza rítmica que arrastam ritmos biológicos. Vem do alemão, Zeit=tempo; geber=dar. O ciclo claro-escuro é um exemplo. Zeitgeber social refere-se, então, a um conceito de ritmo social, aquele que é determinado pelas interações sociais de uma pessoa ou imposto por convenções sociais: “Vá para lá. Você deve fazer isso. Seguir por aqui. Ir por ali. Fazer desse jeito.” E o mais legal: zeitgebers sociais alteram zeitgebers biológicos e finalmente, alteram nosso comportamento. Por isso também se nomeiam “fatores de arrasto”. Algo que vem e detona uma mudança. FATUM. E onde isso ocorre com mais freqüência? Ali, bem na bifurcação, é um exemplo. Onde o estresse age, mudanças fisiológicas nos tomam, pressões sociais nos arrastam e lá vamos nós para o estiramento, para a angústia da escolha. Direto para a pergunta do autor: “Você quer o que você deseja?” Tentar responder a essa pergunta é o que podemos fazer quando imersos em fatores de arrasto de toda ordem. Se não podemos evitar nem a bifurcação e nem o fluxo, podemos silenciar, escutar o “dentro” e tomar a direção.

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