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A CRIANÇA, O ERRO E O POEMA

Bom dia, leitor! Há quem diga que feriados são péssimos para a economia do país. Que as empresas perdem muitos milhões. Pode ser. Eu prefiro achar que um tempo de folga entre um tostão e outro é muito bem recebido. Porque aparece a chance de olhar as coisas de um jeito diferente. E isso é tão bom! Esse último feriado eu tive a chance de ver Gabriela, na gracinha de seus seis anos, declamando o poema “Meus errinhos” de Pedro Bandeira. A platéia era composta de seus pais e os amigos, mais duas crianças. O cenário era uma prainha encravada no mangue, em São Chico. Sem vento. Final de tarde de sol esquentando nossas vidas. E Gabriela, entre pedidos dos pais e de todos, finalmente ergue-se e inicia sua fala silenciando a todos. O que me chamou atenção foi a força que ela imprimiu no declamar. O que ela captou do texto. A intenção. O desejo contido nas palavras do poeta que ela tomou para si, carregando de força genuína cada palavra. Um entendimento muito peculiar, mas não menos real. Eu que amo tanto poesia fiquei muda! Poema para mim era ela ali declamando e sentindo, o dedo em riste algumas vezes, as expressões, o olhar que se modificava a cada entonação de voz. Lindo ver Gabriela, que encontrou maneira de dar voz ao seu desejo. Admitindo em expressões e entonações que erra, sim. (Mas quem não erra?) Construindo uma ideia sobre isso e se colocando diante dela. Numa tarde de sol e sororoca na brasa, que mais poderia arrebatar o coração de alguém que vive da palavra? O erro talvez? Talvez. Mas aproveito a força da menina e digo. De que outro modo poderia ser? É claro que nossa consciência das coisas vai fazendo com que o posicionamento diante delas se modifique. Mas não nos livramos de todo de alguns borrões. Dos castigos e broncas. E dos conselhos, que ao contrário da lenda “se fosse bom era vendido em farmácia”, muitas vezes têm o seu espaço e entram muito bem. Sobre o poema, inclusive, está na beira da vida: presente em cada folha, toco de madeira, olhar de menina que cresce, que aprende, que erra. Também nos nossos erros de gente grande. Na nossa vidinha de adulto. Mas o erro maior, leitor amigo, talvez seja não criar tempo para correr o risco de errar e correndo esse risco, acertar. Veja, o domingo, apesar do sol, tinha um vento danado. A ideia de pegar o barquinho e sair mangue a dentro, para muitos poderia parecer insana. E creiam. Pareceu. Mas a gente que insistiu terminou por achar um oásis com sol e protegido do vento. Assistimos ao preparo inusitado de uma sororoca que nos encheu de prazer e mais tarde, quando o sol começa a esfriar um pouquinho, surge Gabriela e o poema. Surge a possibilidade de se deixar arrebatar por tudo isso. Pelas possibilidades que moram lá na pontinha do que às vezes parece assim-assim, e que de pronto, a gente nem sempre vê. Esse é o erro maior. Pra terminar mando um pedacinho do poema que ela declamou e peço: Poeme-se, leitor. Poeme-se. O poema está ao pé da vida, em cada fração de segundo. É só você se colocar nessa fronteira. Molhar a pontinha do dedo na água que parece fria. O resto acontece.
... Só o que eu peço é que saibam que eu necessito errar.
Se eu não errar vez por outra,
como é que eu vou aprender.
Como se faz pra acertar? ...

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sim, estou um pouco desgarrada; um pouco sonâmbula. é que tudo anda meio esquisito e talvez sem explicação. mas sim. acho que se fosse comida, coisa dentro da gaveta e até um poema, claro que seria sorriso dentro dos olhos, boca na pele e som da voz tilintando dentro. acho que sim, se fosse desenho, haveria um canto em branco para preencher. fosse sonho, ainda que acordado, haveria um rubro no ar a avermelhar bochechas. talvez fosse um caminho, e a pele e um roçar de braços no caminho. mas se fosse sonho mesmo,  dentro do sono,  depois dele talvez amanhã; talvez café. e se acaso durasse, sonho e vida, vapor, súplica e assovio; apesar da exatidão matemática e das flores rabiscando o chão, sim, ainda estaria aqui: cativa entre hábitos, maravilhas e aberrações.